JF-85 “ O Inferno “

17-09-2023

Nome: Inferno
Apelido dado: 
Idade: 
Aparência: 
Regime alimentar: ----
Contenção: ----
Cela de contenção: ----
Vítimas passadas: 
Habilidades: 

Fraquezas: ----
Classe: 

Relato: Era o fim da tarde em uma escola no interior dos Estados Unidos. O sol se punha lentamente, tingindo o céu de um laranja pálido que atravessava os vidros trincados das janelas e se desfazia em reflexos sobre o chão manchado. O ar estava denso, carregado de poeira, pólvora e um silêncio que pesava mais do que o som das sirenes lá fora. Brad Joseph, 17 anos, caminhava pelos corredores como um animal acuado. O rosto pálido, suado e coberto de respingos vermelhos, denunciava a fúria e o desespero que o consumiam. Seus passos ecoavam entre os armários metálicos, chutando mochilas abandonadas e cadernos abertos, cujas páginas manchadas se agitavam levemente com o vento que entrava pelas janelas quebradas. Na mão direita, a arma ainda exalava o cheiro metálico da última descarga. Na esquerda, ele segurava uma garota de dezesseis anos, empurrando-a para frente com força. O braço dela tremia, e o medo a tornava rígida como pedra. A cada movimento brusco, as lágrimas que escorriam de seu rosto se misturavam à poeira e ao sangue que manchava o chão. A escola, antes repleta de vozes e passos apressados, agora era um labirinto de ecos e lembranças distorcidas. As sirenes da polícia e os gritos abafados vindos do lado de fora se misturavam aos estalos do prédio, como se a estrutura também estivesse prestes a ceder sob o peso do horror. O cheiro de fumaça e suor pairava no ar. Brad se movia com precisão conhecia cada corredor, cada escada lateral, cada sala que podia servir de refúgio. Ele havia passado anos ali, e agora aquele mesmo lugar, que um dia foi cenário de risadas e rotina, tornava-se o campo de sua própria ruína. O piso rangia sob seus passos, e o som distante de botas pesadas indicava que a polícia estava próxima. O jovem respirava com dificuldade, o peito subindo e descendo em ritmo acelerado. A cada esquina, ele parava por um segundo, observando a penumbra à frente antes de avançar. O peso da arma parecia aumentar a cada minuto, mas ele não a soltava. As paredes manchadas e os cartazes rasgados refletiam a decadência daquele instante uma mistura de caos, medo e desespero contido. No pátio, a luz do entardecer já se misturava ao brilho frio das viaturas. Lá dentro, entre sombras longas e corredores silenciosos, Brad continuava em fuga. Cada passo o afastava da saída, e ainda assim ele seguia, guiado por algo que nem ele mesmo compreendia um impulso sombrio, uma raiva sem forma, uma tentativa inútil de escapar de tudo o que já havia feito. Por outro lado, agentes da polícia avançavam pelos corredores da escola, determinados a eliminar Brad antes que mais vidas fossem perdidas. Entravam em formação, as armas erguidas, os rostos tensos sob a luz intermitente das lanternas. Cada passo era calculado, cada respiração controlada, mas a tensão era palpável uma mistura de adrenalina e medo que se espalhava silenciosamente pelo ambiente. O som das botas pesadas reverberava nas paredes, acompanhando o estalo distante das portas sendo forçadas. O ar dentro da escola estava quente, quase sufocante, e o cheiro de metal, sangue e tinta velha criava uma atmosfera opressiva. Os corredores pareciam intermináveis, cobertos por sombras e destroços. Em cada canto, o reflexo da lanterna revelava marcas nas paredes buracos de bala, fragmentos de vidro, manchas escuras que denunciavam o caos recente. Os policiais sabiam que o atirador conhecia bem o terreno. Por isso, moviam-se com cautela, verificando salas, abrindo armários, observando cada detalhe como se o próprio silêncio pudesse escondê-lo. O eco das sirenes do lado de fora servia de lembrete constante de que o tempo era curto, e a linha entre caçador e caça estava prestes a se confundir. Enquanto isso, Brad se movia alguns corredores à frente, respirando com dificuldade, a pele coberta de suor e pó. Ele ouvia o som dos passos aproximando-se, uma batida ritmada, ameaçadora, que parecia seguir o compasso acelerado de seu próprio coração. A garota que ele mantinha sob controle mal conseguia sustentar o corpo, mas ele a empurrava, arrastando-a pelos cantos menos iluminados. A distância entre o jovem e os agentes diminuía a cada segundo. A tensão se adensava no ar, pesada e sufocante, como uma tempestade prestes a desabar. Nos corredores abandonados, o entardecer já se transformava em noite, e o brilho das lanternas policiais era agora o único traço de luz viva dentro daquele labirinto de ruínas, sangue e silêncio. Enquanto praticamente arrastava a garota Brad dizia.... 

Brad: Sua vadia recompõe-te! Se não nos apressarmos nós dois morremos..... ESTÁS A OUVIR-ME NÓS DOIS VAMOS MORRER.  

Ao virar em um dos corredores laterais, um grupo de policiais surgiu subitamente diante de Brad. O encontro foi imediato, instintivo, sem espaço para hesitação. Num movimento brusco, ele puxou a garota para frente, usando o corpo dela como escudo humano, e ergueu a arma por sobre o ombro dela. Os disparos vieram em sequência, secos e ensurdecedores, rasgando o ar pesado. O clarão das balas iluminou brevemente o corredor estreito, revelando rostos tensos e o reflexo metálico das armas erguidas. Um dos projéteis atingiu o ombro de um dos policiais, que cambaleou para trás antes de se apoiar na parede. Fragmentos de gesso e faíscas se espalharam, acompanhados pelo eco metálico das cápsulas caindo no chão. Brad recuou logo em seguida, puxando a garota consigo e se escondendo atrás da parede mais próxima. A respiração dele era ofegante, irregular, o peito subindo e descendo com violência. As mãos tremiam, mas ainda seguravam com força o corpo frágil da refém. O olhar dele era fixo, vazio, tomado por um misto de medo e desespero. Do outro lado, os agentes buscavam cobertura, o som de botas se arrastando e rádios crepitando no ambiente abafado. O cheiro de pólvora dominava o ar, misturado ao odor metálico do sangue. A tensão se acumulava como uma tempestade prestes a desabar. A escola parecia um labirinto vivo, pulsando junto ao ritmo frenético das respirações. As paredes, manchadas e esburacadas, refletiam a luz pálida das lanternas que varriam o corredor em busca de movimento. Lá fora, o brilho vermelho e azul das viaturas piscava contra as janelas, projetando sombras instáveis sobre o caos interno. Brad permanecia imóvel atrás da parede, tentando pensar, o dedo ainda no gatilho. Sabia que tinha pouco tempo antes que os policiais o cercassem. Cada segundo era uma mistura de pavor e instinto, e o silêncio que se seguiu aos tiros parecia anunciar que o confronto ainda estava longe de acabar. Brad diz para a garota.... 

Brad: Tenta resistir que eu explodo os teus miolos. 

No outro corredor, as vozes dos policiais ecoavam, distorcidas pela acústica do prédio e pelo som agudo que ainda zumbia nos ouvidos de Brad. Eles o chamavam, ordenavam que largasse a arma e libertasse a garota, mas para ele aquelas palavras eram apenas ruído distante, fragmentos perdidos em meio à confusão dentro da própria cabeça. O coração batia com tanta força que abafava tudo ao redor. Cada pulsação parecia um trovão preso em seu peito. O suor escorria pela testa, misturando-se à poeira e ao cheiro sufocante de pólvora que tomava o ar. As mãos tremiam, não apenas pelo medo, mas pela descarga incessante de adrenalina que o deixava em um estado entre a euforia e o colapso. Brad encostou as costas na parede fria e fechou os olhos por um instante. O som distante dos passos, das ordens e das sirenes parecia vir de um lugar muito longe, como se o mundo estivesse se desfazendo ao redor e ele fosse o único ainda preso àquele instante. O peso da arma parecia crescer em sua mão, e a garota, imóvel, respirava com dificuldade, os ombros tensos e o olhar perdido no chão. O corredor inteiro parecia vibrar. As lâmpadas piscavam, lançando sombras que dançavam sobre o chão manchado. Em algum ponto acima, o som de um helicóptero cortava o céu, e as luzes vermelhas das viaturas penetravam pelas janelas quebradas, colorindo o ar com tons de perigo. Mesmo cercado, Brad não se movia. A mente dele era um redemoinho de lembranças confusas e medo irracional. A razão havia sido engolida pela tensão, e tudo o que restava era o instinto, um impulso bruto de sobrevivência que o mantinha imóvel, armado, cego e surdo para qualquer tentativa de rendição.  

Brad: NÃO SE APROXIMEM! EU JURO QUE CASO ALGUM DE VOCÊS DE MAIS UM PASSO EU ACABO COM ELA. 

Os dois corredores estavam cercados por policiais mas eles não avançavam mais pois não queriam fazer nenhum movimento que levasse á morte da garota. 

Policial: Ei garoto.... solta ela! Nós podemos resolver isto sem ter que derramar mais sangue. 

Brad: CALADO! EU JÁ AVISEI.... SE ALGUM DE VOCÊS DÁ A CARA EU MATO-A. 

Policial: Ninguém vai avançar.... eu juro. Agora por favor solta a garota.... ela não tem que morrer. 

Brad sentia o peso do mundo esmagando lhe os ombros. O ar parecia rarefeito, denso, e cada segundo que passava fazia o chão balançar sob seus pés. O corredor girava lentamente à sua volta, as luzes piscando como se o espaço inteiro estivesse se desfazendo. O som distante das sirenes se misturava ao zumbido constante dentro de sua cabeça, uma frequência aguda e incessante que o deixava à beira do colapso. O suor escorria em rios por seu rosto, pingando do queixo e manchando a camisa. O tecido colava-se à pele, frio e úmido. As mãos tremiam tanto que a arma parecia mais pesada a cada instante, o metal escorregando levemente entre os dedos. O coração batia em descompasso, como se quisesse escapar do peito, e sua respiração tornava-se cada vez mais irregular, arfante, ruidosa, quase sufocante. A visão turvava-se. As sombras pareciam se mover sozinhas, e os contornos dos policiais à distância fundiam-se em vultos indistintos. O eco das botas, os sons dos rádios e o estalar do teto soavam todos juntos, como uma massa disforme de ruído que o envolvia por completo. Brad sentia o corpo fraquejar, as pernas pesadas, os músculos tensos demais. A garota em seus braços se tornava quase um peso morto, e ele já não sabia se a segurava por controle ou por instinto. O cheiro de sangue e pólvora parecia grudar em sua pele, tornando o ar ainda mais irrespirável. O mundo girava, lento e opressor, e ele respirava com dificuldade, abrindo e fechando a boca em busca de ar. Cada inspiração soava como um gemido engasgado, cada expiração era um tremor. A adrenalina, que antes o mantinha firme, agora o consumia de dentro para fora, corroendo qualquer traço de clareza. Entre a vertigem e o medo, Brad percebia apenas um som constante, o da própria respiração, pesada e irregular, misturada ao pulsar frenético do sangue em seus ouvidos. Tudo o mais começava a desaparecer.  

Brad: AGH....AGH...AGH.....  

Brad, tomado por um desespero absoluto, fixou o olhar na arma que ainda segurava. As lágrimas caíam de forma incontrolável, misturando-se ao suor e ao sangue que marcavam o seu rosto. O peito subia e descia num ritmo desordenado, como se o próprio ar se recusasse a entrar. O metal frio parecia chamá-lo, refletindo o brilho trêmulo das luzes que piscavam no corredor. Por um instante, tudo ao redor desapareceu ,as sirenes, os gritos, as vozes dos policiais, e restou apenas o som abafado da respiração cortada e o peso insuportável da culpa que o consumia. Com um gesto lento, quase automático, Brad levou a arma até a boca. O cano gelado encostou-se aos dentes, e a sensação metálica se espalhou pela língua como ferrugem. O corpo inteiro tremia, um misto de medo e rendição. O tempo parecia dilatar-se, transformando cada segundo em um abismo interminável. A garota, até então imóvel, percebeu o que ele estava prestes a fazer. O grito que escapou de sua garganta foi um som cru, dilacerante, que ecoou pelos corredores vazios como uma implosão. O estampido veio logo em seguida, brutal e curto. O clarão da descarga iluminou o corredor por uma fração de segundo, revelando partículas de poeira suspensas no ar antes de tudo mergulhar novamente na penumbra. O corpo de Brad caiu pesadamente contra o chão, sem resistência, e o som do impacto foi abafado pelo choro da garota que recuava, paralisada entre horror e incredulidade. O cheiro de pólvora se espalhou outra vez, mais forte, misturado agora ao aroma ferroso do sangue. O disparo ecoou como um trovão, seco e brutal, rompendo o silêncio que pairava sobre a escola. Em menos de um segundo, os policiais reagiram. O som ainda reverberava nas paredes quando o grupo avançou pelo corredor em formação, os passos firmes e apressados, as armas erguidas, os rádios crepitando ordens urgentes. As lanternas cortavam a penumbra em feixes rápidos, dançando sobre os cartazes rasgados e as marcas de bala. Quando viraram a esquina, o primeiro agente gritou para os outros pararem. A visão diante deles fez o mundo se calar. No chão, o corpo de Brad jazia imóvel, o sangue se espalhando lentamente em direção às mochilas caídas e aos cadernos abertos. O cano da arma ainda fumegava, e o eco do tiro parecia continuar preso nas paredes, como um lamento. A garota estava de pé a poucos metros, trêmula, os olhos arregalados, o rosto pálido e coberto de lágrimas. O grito que ela soltara ainda parecia vibrar no ar, misturado ao som das sirenes lá fora. Um dos policiais correu até ela, afastando-a do corpo com cuidado, enquanto outro se ajoelhava ao lado de Brad, verificando um pulso que já não existia. O corredor inteiro ficou em silêncio por alguns segundos. As lanternas apontadas para o corpo tremulavam levemente nas mãos dos agentes, refletindo o horror estampado em seus rostos. O rádio estalou, pedindo atualizações, mas ninguém respondeu de imediato. Havia apenas o som distante da chuva fina começando a cair do lado de fora e o peso da tragédia que se completava dentro daquelas paredes. O sangue escorrendo lentamente da ferida aberta em sua cabeça. O disparo havia sido devastador, deixando um buraco escuro e irregular no lado direito do crânio. O sangue formava uma poça crescente ao redor, infiltrando-se nas rachaduras do piso e tingindo de vermelho as páginas espalhadas de um caderno caído. A arma permanecia junto à sua mão, o cano ainda fumegante, um fio de fumaça subindo e se misturando ao ar denso de pólvora. Um dos agentes se ajoelhou próximo ao corpo, examinando o ferimento com expressão endurecida. Outro fez sinal para os paramédicos, que aguardavam do lado de fora, embora todos soubessem que já não havia nada a ser feito. Cada respiração parecia arranhar a garganta dos que estavam presentes. Para Brad, tudo havia cessado num instante. O som, a dor, o peso da respiração, tudo simplesmente se desfez. O mundo que antes pulsava em torno dele dissolveu-se em um silêncio absoluto, sem cor, sem forma, sem direção. O corpo já não lhe pertencia, e a mente, antes tomada por medo e confusão, apagou-se como uma chama sufocada pelo vento. Brad despertou dentro do próprio silêncio, preso em algo que não conseguia compreender. Não havia corpo, nem dor, nem o peso do sangue, mas ainda havia consciência. Pensamentos surgiam como ecos dentro de uma caverna infinita. Perguntas sem resposta se repetiam em espiral "onde estou, por que ainda penso, o que sobrou de mim" . Cada pensamento era como um som que se perdia no nada, retornando com mais força, como se o próprio vazio o devolvesse. A ausência de tudo o oprimia, e a solidão se tornava quase física, ainda que ele não tivesse mais corpo. Ele não sabia se estava morto. O conceito de morte já não fazia sentido, porque ainda existia consciência, ainda havia pensamento. O que quer que tivesse acontecido, ele não fora completamente apagado da existência. Restava-lhe apenas pensar, sentir a ausência, e esperar, por algo, por nada, ou talvez por uma resposta que jamais viria. Por lá ficou a consciência de Brad, suspensa em um espaço onde o tempo já não obedecia a qualquer lógica humana. O conceito de segundos, minutos ou séculos havia se desfeito em algo indistinto, um fluxo contínuo e amorfo que se estendia para todos os lados sem começo nem fim. Ainda assim, a mente dele parecia vaguear por eras inteiras, deslizando por memórias fragmentadas e sensações que não pertenciam a um corpo. Milhares de anos, talvez milhões, pareciam passar sem deixar marcas. O tempo, ali, era um animal morto, e Brad era apenas o eco persistente de algo que um dia fora humano. Então, entre o vazio sem cor e o silêncio que parecia eterno, algo começou a se insinuar, um ruído distante, tênue, quase imperceptível. No início era apenas um sussurro amorfo, como o farfalhar de folhas em um vento que não existia. Mas com o passar do que já não era tempo, o som começou a ganhar presença. Eram murmúrios, fragmentos de palavras que pareciam vir de muito longe, distorcidos, quebrados, impossíveis de compreender. O som não atravessava o espaço, ele surgia dentro dele, vibrando em algum ponto entre o pensamento e a lembrança. Brad não sabia mais se era a sua própria mente tentando preencher o vazio, ou se realmente havia algo lá, alguém, observando-o do outro lado da escuridão. As vozes se moviam em padrões estranhos, ora se afastando até desaparecer, ora aproximando-se o bastante para quase formarem frases. Cada vez que isso acontecia, uma sensação gélida se espalhava pela sua consciência, como se o próprio vazio o tocasse. A fronteira entre o que era interno e o que vinha de fora começava a se dissolver. E, pela primeira vez desde que morrera, Brad sentiu algo que se aproximava do medo. Entre os murmúrios dispersos e disformes, uma única palavra emergiu nítida, cortando o vazio como uma lâmina incandescente "Inferno." O som não foi apenas ouvido, foi sentido, gravado em sua mente com a clareza de algo absoluto. Por um instante, tudo pareceu parar. O silêncio que o envolvia, antes imóvel, quebrou-se como vidro rachando, e a escuridão pareceu respirar ao redor dele.  Então veio a sensação. Primeiro, uma faísca quase imperceptível, depois, uma onda de calor devastadora que o envolveu por completo. Brad voltou a sentir. O vazio que o mantinha suspenso agora o prendia em um mundo invertido, onde tudo parecia girar lentamente. Ele tinha a nítida impressão de estar de cabeça para baixo, mergulhado em um espaço que ardia sem emitir luz. Ainda assim, tudo permanecia escuro, uma escuridão espessa, viva, que o sufocava mesmo sem ar. Pela primeira vez desde a morte, o peso e a presença do próprio corpo. Era uma sensação disforme, instável, como se seus membros fossem moldados por uma matéria que ainda não sabia existir. Aos poucos, o nada se transformou em tato. A escuridão diante de seus olhos começou a ceder, mas não completamente. Percebeu que ela não era mais infinita, era algo físico, concreto, próximo. O breu agora se assemelhava a um pedaço de pano negro pressionado contra o rosto, tapando-lhe os olhos, mas deixando escapar finíssimos feixes de luz. Pequenas faíscas atravessavam o tecido, desenhando rastros tênues que tremulavam diante de sua visão como fragmentos de fogo. A sensação de estar de cabeça para baixo tornou-se insuportável. O sangue parecia se acumular em sua cabeça, pulsando com força dentro das têmporas, fazendo o mundo vibrar em ondas vermelhas e quentes. O desconforto logo se misturou ao pânico, uma urgência instintiva que o fez lutar contra o pano que lhe cobria os olhos. Com as mãos trêmulas, ele agarrou o tecido áspero e o arrancou com um movimento brusco. A luz que invadiu sua visão era de um tom impossível, um vermelho doentio, espesso, que parecia emanar do próprio céu. Brad piscou várias vezes, tentando entender o que via, mas a realidade diante dele não se encaixava em nada que já tivesse conhecido. Ele estava literalmente de cabeça para baixo, suspenso pelos tornozelos. As pernas estavam amarradas por uma corda grossa e úmida, presa a um dos galhos mais altos de uma árvore retorcida. O tronco parecia velho demais para ainda estar de pé, coberto por uma casca escura e rachada, como se tivesse sido carbonizada por dentro. O ar era quente e pesado, cheirando a ferro e podridão. Ao longe, uma paisagem desolada se estendia, um campo morto, onde antigas plantações apodreciam sob o brilho opaco daquele céu manchado. As folhas das árvores eram negras, retorcidas, e o chão estava coberto por uma lama densa que exalava vapor. Mais adiante, erguiam-se estruturas abandonadas, prédios que pareciam desabar lentamente sobre si mesmos, tomados por ferrugem e silêncio. Nada se movia. Nenhum som de vento, de insetos, de vida. Apenas o ruído abafado do sangue correndo dentro de sua cabeça e o estalar ocasional da corda que o prendia. A realidade parecia torta, distorcida, como se o mundo ao seu redor fosse uma versão apodrecida de algo que ele um dia conheceu. Brad tentava compreender onde estava, mas a única coisa que sentia com absoluta certeza era o medo. Um medo que não vinha apenas do lugar, mas da sensação crescente de que não estava sozinho.  

Brad* Onde eu estou? Isto é o inferno? ( Pensou com uma expressão de horror estampada no rosto ) 

Com o coração batendo em um ritmo frenético, Brad reuniu o pouco de controle que ainda tinha sobre o próprio corpo. O sangue acumulado na cabeça fazia sua visão oscilar, tingindo o mundo com manchas escuras que iam e vinham, mas a urgência de escapar falava mais alto que a dor. Ele dobrou o tronco com dificuldade, os músculos das costas e do abdômen gritando em esforço, até conseguir tocar a corda áspera que o prendia. O material era espesso, úmido, coberto por uma camada pegajosa que lembrava resina misturada a sangue seco. Mesmo assim, ele a agarrou com firmeza, ignorando o ardor que o contato provocava nas palmas. Os braços tremiam, mas Brad puxou com toda a força que restava, sentindo as fibras da corda cederem pouco a pouco. Cada tranco ecoava pelo galho acima, fazendo o tronco da árvore estalar em protesto. O esforço parecia interminável, o ar quente queimava-lhe os pulmões, e a dor se espalhava pelos ombros e pelas costelas, mas ele continuava. O suor escorria pelo rosto invertido, caindo em gotas lentas no chão distante, onde apenas a lama e o silêncio o esperavam. Até que, num som seco e breve, a corda rompeu. Brad despencou, o mundo girando em um turbilhão de luz vermelha e sombra. O impacto com o solo foi brutal, um estalo abafado, seguido por um grito que nem chegou a sair por completo. A terra era fofa, seca , mas o choque atravessou-lhe o corpo inteiro, deixando-o atordoado. Por um momento, ele ficou imóvel, respirando com dificuldade, tentando distinguir o que era dor e o que era apenas o eco da queda. Brad ergueu-se com lentidão, o corpo tremendo como se cada movimento fosse o primeiro depois de um longo esquecimento. O calor ao redor parecia respirar contra a sua pele, o sol era preto e causava um ardor constante, sufocante, mas que curiosamente não o queimava. Era como se o próprio ar o tocasse de forma viva, pulsante, quase consciente. O chão sob seus pés descalços era quente e irregular, uma mistura de lama seca e cinzas. O toque do solo despertava sensações há muito esquecidas: o peso do corpo, o atrito da pele, o equilíbrio incerto. Vestia apenas uns calções de pano branco, sujos e rasgados, que tremulavam levemente com o calor ondulante que subia da terra. Nenhum outro sinal de proteção ou roupa, nem sapatos, nem camisa, nada que o separasse daquele ambiente hostil. Quando ergueu o olhar, viu que a árvore da qual caíra estava sozinha, isolada de qualquer outra. Os galhos retorcidos pareciam se estender como braços carbonizados em direção ao céu vermelho, que se movia lentamente. Ao redor, o terreno se estendia em uma vastidão árida e silenciosa. Mais adiante, algo que lembrava uma antiga quinta de trigo se erguia em meio ao nada. Os campos, porém, estavam mortos, cada espiga transformada em carvão, o solo coberto por uma camada escura que ainda exalava fumaça em alguns pontos. O cheiro era denso, misto de cinza, metal e decomposição. E no fim da plantação, uma casa, construída de madeira antiga, gasta pelo tempo e pela podridão. As tábuas pareciam vivas de fungo, os contornos distorcidos, e o telhado afundava como se a própria estrutura estivesse cansada de existir. Brad começou a caminhar, hesitante. Os músculos protestavam, e o equilíbrio era frágil, o simples ato de andar parecia um milagre grotesco, um lembrete de que ele voltara a sentir o peso da gravidade. Cada passo fazia o chão ranger levemente, soltando pequenas nuvens de poeira negra que se misturavam ao calor sufocante. A distância até a casa parecia impossível de medir, o horizonte tremeluzia, distorcendo as formas. Mas, mesmo sem saber por quê, Brad seguiu em frente, guiado por um instinto obscuro, talvez esperança, talvez medo. Brad avançou pelo campo devastado com passos lentos e vacilantes. O chão cedia sob seus pés descalços, soltando pequenas nuvens de cinza que se prendiam à pele suada. Cada passo ecoava no silêncio pesado como um som estrangeiro, frágil demais para existir naquele lugar. Nada do que via oferecia conforto. O trigo carbonizado erguia-se em hastes retorcidas, pontiagudas, parecendo garras que brotavam do solo. As plantas mortas balançavam levemente, embora não houvesse vento. À medida que caminhava, Brad sentia o olhar invisível do campo sobre si, uma presença muda, opressiva, que fazia o coração acelerar. A cada ruído distante, ele se virava bruscamente, os ombros tensos e o olhar inquieto. Parecia uma criança perdida em um pesadelo, tentando entender onde o medo começava e onde terminava o próprio pensamento. Mesmo assim, Brad não pronunciou uma única palavra. O silêncio parecia sagrado, ou talvez imposto. As palavras, ali, pareciam perigosas, como se pudessem chamar atenção para algo que o observava. Então ele seguiu adiante, trêmulo, respirando com dificuldade, o peito subindo e descendo sob o ar ardente. Quando finalmente alcançou o fim da plantação, a casa surgiu diante dele, uma estrutura de madeira deformada pelo tempo, as janelas quebradas, o telhado inclinado. As tábuas rangiam mesmo sem vento, e uma névoa escura se acumulava em torno da varanda. Brad parou por um instante, observando, o corpo rígido de tensão. Nada se movia. Nenhum som. Apenas o estalar suave da madeira antiga e o calor doentio que parecia emanar da própria casa, convidando e ameaçando ao mesmo tempo. Mesmo com o corpo trêmulo e o coração batendo de forma descompassada, Brad reuniu a pouca coragem que restava e deu alguns passos em direção à casa. O chão da varanda rangia sob seus pés, soltando lascas e pequenas partículas de pó que subiam como fumaça no ar quente. Cada passo parecia mais alto do que deveria, ecoando de maneira estranha naquele silêncio absoluto. O som do próprio respirar tornava-se pesado, abafado, quase um intruso. Ele parou diante da porta, uma peça de madeira escura, coberta por rachaduras profundas e manchas que lembravam ferrugem ou sangue antigo. Por um instante, levantou a mão, hesitante, pronto para bater, talvez para anunciar sua presença, talvez apenas para sentir que ainda era ouvido. Mas antes que seus dedos tocassem a superfície, ele notou algo. A porta estava entreaberta. Brad pousou a mão sobre a madeira fria da porta e empurrou-a lentamente. O rangido que ecoou pareceu cortar o ar quente como um gemido prolongado, arrastando-se até silenciar no interior escuro da casa. Assim que o espaço se abriu o suficiente, uma onda de odor pútrido escapou de dentro, atingindo-o como um golpe físico. Era um cheiro denso, nauseante, mistura de carne em decomposição e mofo antigo. O corpo reagiu de imediato: o estômago se contraiu e a garganta se fechou. Brad cambaleou um passo para trás, engolindo com esforço o reflexo do vômito. Levou o braço ao rosto e cobriu o nariz, tentando conter o enjoo, mas o ar parecia impregnado daquele fedor, como se o lugar respirasse podridão. Mesmo assim, entrou. O chão rangeu sob seus pés descalços, e o som ecoou pelos cômodos vazios. O interior da casa era rústico e mal iluminado, o pouco de luz que entrava pelas frestas das janelas formava feixes avermelhados que atravessavam o ar carregado de poeira. Os móveis estavam quebrados, tombados, cobertos por uma fina camada de cinza e teias antigas. As paredes, outrora cobertas por papel de cor desbotada, exibiam quadros antigos, retratos de famílias, casais e crianças. Mas onde deveriam estar os rostos, havia apenas buracos rasgados, o tecido da tela rompido com violência, deixando para trás manchas escuras nas molduras. A sensação era de que as figuras haviam sido arrancadas, apagadas do próprio tempo. Brad caminhou entre os destroços, desviando de pedaços de madeira e garrafas quebradas. O silêncio era tão profundo que até o som de sua respiração parecia fora de lugar. Nenhum sinal de vida, nenhuma explicação. Sem encontrar nada no térreo, ele se dirigiu às escadas. Os degraus eram estreitos, cobertos por pó e sujeira, e cada passo produzia um estalo seco que reverberava por toda a estrutura. À medida que subia, o cheiro pútrido intensificava-se, ganhando corpo e presença, tornando o ar quase impossível de respirar. A sensação era de que a origem daquele fedor, o coração do apodrecimento, o esperava no andar de cima.  No topo das escadas, Brad parou por um instante, tentando recuperar o fôlego. O ar era denso, quente e saturado pelo mesmo cheiro pútrido que agora parecia vir de todos os lados. Diante dele estendia-se um corredor estreito e escuro, forrado por tábuas antigas que pareciam deformadas pela umidade.  O teto a cima dava a sensação de claustrofobia, e as paredes estavam cobertas por marcas que lembravam arranhões. As portas alinhadas ao longo do corredor permaneciam mergulhadas na escuridão, todas fechadas e sem luz,  exceto uma, no fim. Por entre as frestas daquela última porta, escapava um brilho irregular, tremulante, que lançava reflexos pálidos sobre o chão. Brad caminhou devagar, o som dos próprios passos misturando-se ao estalar das tábuas. Tentou abrir as portas laterais uma a uma, mas todas resistiram, trancadas, imóveis, seladas por dentro. Nenhuma cedia, e o silêncio após cada tentativa só aumentava a pressão dentro de sua cabeça. Restava apenas a porta iluminada, de onde também vinha o cheiro insuportável, agora mais forte, quase tangível, queimando suas narinas e fazendo os olhos lacrimejarem. O garoto ela soltando alguns insultos com forme andava devido ao nervosismo extremo. Quando se aproximou, o ar ficou espesso, pesado. Ele prendeu a respiração, cobriu o nariz com o antebraço e, com hesitação, empurrou a porta. O rangido prolongado ecoou pelo corredor, e uma luz amarelada o envolveu por completo. O quarto era pequeno, decorado com móveis infantis em ruínas, uma cama de madeira rachada, brinquedos quebrados, um urso de pelúcia coberto de pó. Mas nada disso importava diante da visão que o esperava. Um homem estava caído no chão, encostado à parede, o corpo atravessado por ferimentos profundos. O crânio estava dividido ao meio, revelando o interior escurecido e seco. O sangue seco tingia as paredes e o chão em padrões irregulares, como se algo tivesse explodido de dentro para fora. Brad ficou imóvel por alguns segundos, o estômago se contraindo, o peito apertado. Um misto de angústia e repulsa o invadiu, uma sensação visceral que o fez tropeçar para trás. O cheiro tornou-se insuportável. Num impulso, ele virou-se e correu para fora da casa, descendo as escadas aos tropeços, o corpo tomado por náusea. Saiu pela porta principal e contornou a casa até a parte dos fundos, onde o calor dava lugar a uma sombra fria. Ali, finalmente, caiu de joelhos. O corpo inteiro tremia, e o que restava no seu estômago foi expulso de uma vez, vomitado no chão seco e rachado. O som ecoou abafado no silêncio, e por um instante Brad ficou ali, arquejando, tentando respirar, com o gosto amargo e metálico do medo ainda preso na boca. 

Brad: M-mas que merda?  ( Disse Brad ainda cuspindo pedaços de vomito da sua boca ) 

Brad levantou-se com dificuldade, os joelhos ainda trêmulos e o corpo pesado, como se o ar ao redor o empurrasse para baixo. 

Brad* Este lugar é mesmo o inferno...... e eu não estou sozinho. Tenho que sair daqui o mais rápido possível. 

Ele começou a se afastar da casa, tropeçando nos primeiros passos, depois ganhando ritmo, movido apenas pelo instinto de se distanciar daquele lugar. À medida que caminhava, o terreno tornava-se irregular, coberto por raízes secas e fragmentos de madeira partida. Logo adiante, uma floresta se erguia, se é que ainda se podia chamar assim. As árvores, retorcidas e esqueléticas, não tinham folhas nem vida. Os troncos estavam secos, rachados, e o chão era coberto apenas por cinzas e galhos quebrados. O cheiro de podridão da casa foi dando lugar a outro odor: o da madeira queimada e do pó antigo que pairava no ar como uma névoa invisível. Brad avançava em passos rápidos, o coração ainda acelerado, os olhos inquietos. De tempos em tempos, olhava por cima do ombro, temendo ver algo surgir entre as árvores mortas, uma silhueta, um movimento, qualquer sinal de que não estava sozinho. Mas nada se movia. O mundo parecia suspenso, aprisionado num silêncio absoluto, tão profundo que o som de seus próprios passos era quase ensurdecedor. O eco ritmado de suas passadas era o único sinal de existência naquele lugar, um lembrete constante de que, apesar de tudo, ele ainda estava vivo. A floresta se estendia sem fim, e cada árvore retorcida parecia observá-lo em silêncio, como testemunhas de um segredo antigo e esquecido. Brad continuou caminhando pela floresta morta, o som dos próprios passos ecoando como um lembrete constante de que o silêncio absoluto o cercava.  Ainda assim, seguiu em frente, guiado apenas pelo instinto e por uma vaga esperança de encontrar algo diferente além daquele deserto de troncos. Depois de um tempo que não conseguia medir, a densidade da floresta começou a ceder. Os galhos secos tornaram-se menos numerosos, e o chão, antes coberto de cinzas, deu lugar a uma superfície irregular de pedras e terra ressecada. Então, de repente, o terreno se abriu. Brad saiu por completo da floresta e deparou-se com uma estrada de asfalto, que se estendia até onde a vista alcançava. A paisagem mudava abruptamente: o solo escuro, rachado e coberto por buracos, lembrava o de uma estrada antiga e abandonada, algo que pertencia a um tempo distante. O céu acima continuava tingido de vermelho e o sol preto ainda brilhava, mas a luz parecia menos opressiva ali, e o silêncio da floresta ficava para trás como uma sombra distante. Brad deu os primeiros passos sobre o asfalto, sentindo a textura áspera sob os pés descalços. Olhou para os dois lados da estrada, ambos os sentidos desapareciam no horizonte, sem curvas, sem placas, sem qualquer sinal de vida. Nenhum carro, nenhuma construção, apenas o som abafado do vento atravessando o espaço vazio. Ele escolheu uma direção e começou a caminhar, abandonando a floresta às suas costas. O som dos passos agora soava diferente, mais seco, reverberando na estrada deserta. A cada passo, o peso do silêncio parecia acompanhá-lo, como se o mundo o observasse seguir em frente, sozinho, sem destino, em um caminho que não levava a lugar algum. Enquanto caminhava pela estrada deserta, o som ritmado dos próprios passos tornou-se quase hipnótico, um compasso constante que o mantinha preso à realidade ,ou ao que restava dela. O horizonte permanecia imóvel, e o ar vibrava sob o calor incessante, distorcendo a paisagem em ondas trêmulas. Foi nesse silêncio interminável que Brad começou a pensar. Pela primeira vez desde que acordara naquele lugar, sua mente pareceu ganhar peso. As lembranças vinham em fragmentos, misturadas ao presente: o som seco do disparo, o gosto metálico do sangue, o desespero antes do fim. Ele lembrava-se de ter se matado,  lembrava da decisão, do instante em que tudo parou. E, de algum modo, isso lhe dava uma estranha sensação de lucidez. Ele compreendia onde estava. Ou pelo menos achava que sim. O inferno. A palavra ecoava dentro de sua cabeça com uma naturalidade quase fria, como se fosse apenas o próximo passo lógico depois de tudo o que fizera. Não havia revolta nem negação, apenas a aceitação amarga de um destino que ele mesmo escolhera ao apertar o gatilho pela primeira vez. Ainda assim, havia algo que não se encaixava. Se aquilo realmente era o inferno, onde estavam os gritos, as chamas, as punições sem fim? Onde estavam eles, aqueles que o haviam ferido, humilhado, empurrado até o limite? Brad esperava encontrá-los ali, rostos familiares distorcidos pela dor, ecos das vozes que o atormentaram em vida. Parte dele ansiava por vê-los sofrer, outra parte temia reencontrá-los. Mas nada. O inferno que o recebia era vazio, silencioso, e pior do que qualquer tormento físico: um espaço morto, onde o castigo parecia ser apenas existir. A estrada seguia imóvel à sua frente, o calor sem origem o envolvia, e o peso das próprias lembranças o mantinha preso, caminhando sem destino por um mundo que parecia feito de culpa. Brad continuava caminhando, o olhar fixo no horizonte deserto, e dentro dele uma estranha serenidade começava a tomar forma. Não havia arrependimento, nem dúvida. O que fizera em vida, os tiros, o sangue, o pânico, tudo ainda lhe parecia justificado. Ele não via um assassino ao recordar o que aconteceu, mas um executor de justiça, alguém que finalmente reagira depois de uma vida inteira sendo esmagado. As lembranças vinham como flashes, curtas e intensas: risadas cruéis ecoando pelos corredores da escola, empurrões, insultos, o olhar vazio dos adultos que fingiam não ver. Cada rosto, cada palavra, cada humilhação gravou-se nele como uma ferida que nunca cicatrizou. E, quando finalmente explodiu, quando o ódio se tornou mais forte do que o medo, ele sentiu algo próximo da paz. Mesmo agora, caminhando por aquele mundo morto, Brad não se via como uma vítima, nem como um monstro. Era, para si mesmo, um agente do equilíbrio. Fez o que achava certo, o que o mundo lhe obrigou a fazer. Se o preço por isso era o inferno, então que fosse. Pelo menos ali, longe dos sorrisos falsos e das vozes que o condenavam, ele tinha o silêncio. O calor ao redor parecia responder ao seu pensamento, aumentando em ondas lentas e pesadas. A estrada tremulava à frente, o ar distorcendo tudo como se o próprio inferno o escutasse e aceitasse o que ele dizia, não como confissão, mas como convicção. E Brad, com os pés descalços queimando no asfalto rachado, seguiu adiante sem olhar para trás, pronto para enfrentar a eternidade que havia escolhido. O som que quebrou o silêncio foi tão abrupto que pareceu cortar o ar em dois. Um tilintar metálico, rítmico e grave, ecoou pela estrada deserta, correntes balançando, arrastando-se em intervalos perfeitos, como o compasso de uma marcha lenta. Brad parou instantaneamente. O corpo inteiro congelou, e uma onda de arrepios percorreu-lhe a pele, subindo pela nuca até o topo da cabeça. Por um momento, o som pareceu vir de todos os lados. O vento cessou, o calor diminuiu, e o eco das correntes preencheu o espaço vazio, cada vez mais próximo, cada vez mais pesado. Então vieram os passos, firmes, arrastados, ressoando contra o asfalto rachado atrás dele. Brad virou-se por reflexo, o coração disparando como se tentasse escapar do peito. E lá estava a coisa. A figura que avançava pela estrada era uma visão que a mente humana não deveria sustentar. Tinha duas cabeças, ambas presas a um mesmo tronco largo e disforme, os rostos contorcidos como máscaras de sofrimento permanente. Dos braços, longos e grossos, brotavam espinhos negros, finos como lâminas, que refletiam a luz vermelha do céu em brilhos doentios. As correntes que tilintavam estavam enroladas pelo corpo da criatura. Mas o que mais chamava atenção era o que ela segurava . Na mão havia uma arma branca, uma lâmina curva presa num pequeno e fino cabo de madeira. A criatura caminhava com lentidão, o corpo oscilando de forma quase ritmada, e cada passo fazia o som das correntes ecoar como sinos de ferro. Brad não conseguia se mover. O medo o paralisava, tão intenso que por um instante o próprio ar parecia ter sido drenado do lugar. A estrada que antes lhe parecia infinita agora se tornava um beco sem saída, e a distância entre ele e aquilo diminuía a cada passo. A criatura solta um grunhido. O grunhido que soltou não parecia pertencer a algo vivo. Foi um som profundo, cavernoso, que vibrou pelo ar como o rugido de um animal nascido da própria terra. Logo em seguida, as duas bocas se abriram simultaneamente, liberando um grito tão alto e tão distorcido que o ambiente inteiro pareceu tremer. O som atravessou o ar quente como uma lâmina, enchendo a estrada, a floresta morta e até o solo sob os pés de Brad. Era um barulho áspero, ensurdecedor, que fazia os ouvidos latejarem de pura dor. Quando o grito terminou, algo mudou na criatura. O corpo pesado inclinou-se para frente, os músculos retorcidos se tensionaram, e o ritmo lento e arrastado transformou-se em movimento explosivo. Os passos constantes se tornaram batidas rápidas e violentas contra o asfalto. As correntes bateram umas nas outras com força, produzindo um barulho metálico caótico que anunciava o início da perseguição. A criatura começou a correr, e apesar do tamanho grotesco, movia-se com velocidade quase impossível, as duas cabeças balançando de forma irregular, os espinhos negros vibrando com cada impacto contra o chão. A criatura começou a correr, e apesar do tamanho grotesco, movia-se com velocidade quase impossível, as duas cabeças balançando de forma irregular, os espinhos negros vibrando com cada impacto contra o chão. Foi nesse momento que Brad sentiu o terror subir pelas pernas antes mesmo de conseguir reagir. O instinto assumiu o controle. Ele se virou e disparou em direção oposta, correndo o mais rápido que suas pernas permitiam. O ar quente queimava a garganta, e o asfalto rachado feria seus pés descalços, mas ele não parava. Não podia parar. O som da criatura atrás dele crescia, passos pesados, correntes batendo, respirações grotescas misturadas ao grunhido incessante das duas bocas. A distância diminuía. Enquanto corria, uma compreensão gelada se instalou dentro dele, espalhando-se como veneno, ele não estava naquele lugar por acaso. A estrada infinita, o campo morto, a casa apodrecida, o homem morto, e agora aquele ser monstruoso, tudo fazia sentido de uma maneira brutal. Aquele mundo era um reflexo distorcido e inevitável do que ele fizera. Uma sentença. Um destino. E agora, pela primeira vez desde que acordara no inferno, Brad entendeu com clareza absoluta, ele estava ali para ser punido. E aquela criatura de duas cabeças era apenas o primeiro a ser enviado para buscá-lo. Brad correu até onde suas pernas conseguiam levá-lo. Cada passo parecia arrancar pedaços de sua energia, cada respiração ardia como fogo dentro dos pulmões, e o calor ao redor o envolvia como um forno vivo. Mas o medo era mais forte que a dor. O pensamento de ser alcançado, de sentir as correntes, os espinhos e a lamina,  o impulsionava para frente, mesmo quando o corpo já implorava para parar. A estrada parecia se estender sem fim, tremeluzindo sob o céu vermelho. O ar quente entrava pela garganta como fumaça, secando a boca e o interior do peito. Mesmo assim, Brad não diminuía o ritmo. O desespero fazia seus músculos funcionarem além do possível, e aos poucos, quase imperceptivelmente, o som das correntes foi ficando mais distante. Os gritos se dissolveram no calor. Os passos pesados diminuíram. Até que, finalmente, o inferno atrás dele ficou em silêncio. Um silêncio quase assustador. Mas Brad não confiou imediatamente. Continuou correndo, tropeçando no asfalto rachado, cambaleando entre poças de sombra onde o calor parecia ondular como vapor. Só quando a estrada começou a se transformar, quando as ruínas de construções começaram a surgir dos dois lados, ele permitiu que os pés diminuíssem o ritmo. A cidade que se revelava à frente era um esqueleto do que um dia fora humana. Prédios quebrados, alguns inclinados como se prestes a cair. Janelas partidas. Carros queimados e retorcidos abandonados no meio da rua. Placas enferrujadas que balançavam levemente, apesar da ausência de vento. Os restos do mundo conhecido, transformados em um cenário de pesadelo. Brad entrou na cidade com os últimos traços de força. Só quando sentiu que estava longe o suficiente, quando o silêncio atrás dele parecia firme, ele finalmente parou. O corpo inteiro tremia, os músculos pulsavam em dor, e ele se inclinou para frente, apoiando as mãos nos joelhos. Tentou puxar o ar para dentro do peito, mas o ar dali era quente, pesado, quase sólido. Cada inspiração parecia rasgar sua garganta. Cada tentativa de respirar fundo era um esforço brutal, como se estivesse tentando engolir fumaça. A visão escurecia nas bordas. O coração martelava de forma irregular, frenética. O suor escorria pelo rosto e evaporava quase imediatamente. Mesmo exausto, mesmo à beira do colapso, algo dentro dele sabia que não podia descansar por muito tempo. Aquele silêncio não significava segurança. Nesse lugar, o silêncio sempre vinha antes de algo pior. Brad endireitou o corpo aos poucos, limpando o suor da testa com o antebraço, e forçou as pernas a se moverem novamente. Entrou mais fundo na cidade, passo após passo, apesar da dor latejante que subia pelas panturrilhas. Ainda sentia o peito apertado pelo esforço da corrida, mas precisava continuar ,qualquer hesitação parecia convite para que aquela coisa atrás dele voltasse. A cada metro avançado, o cenário ao redor mostrava-se mais perturbador. Era como caminhar dentro de um filme de terror, ou pior, dentro de um mundo construído especificamente para refletir tormento. Os prédios tinham estruturas tortas, como se tivessem sido esmagados por peso invisível. Vestígios de fuligem cobriam paredes inteiras. As janelas, quando não estavam totalmente quebradas, haviam sido deformadas pelo calor, derretendo em formas onduladas impossíveis. Nenhuma luz vinha do interior de lugar algum, tudo estava mergulhado em uma penumbra vibrante, iluminado apenas pelo céu vermelho que parecia nunca mudar. Não havia uma única planta. Nenhum mato crescendo entre as fissuras do asfalto, nenhuma árvore abandonada, nada. Uma morte completa da natureza, como se a própria vida tivesse sido expulsa daquele território. Brad passou por algo que lembrava um shopping center abandonado. As portas de vidro estavam arrancadas, as escadas rolantes congeladas numa posição inútil, cobertas por pó e marcas antigas de algo arrastado. A estrutura inteira parecia prestes a desabar, mas, mesmo assim, ele não se deteve, apenas manteve a caminhada firme e silenciosa, tentando não olhar demais para o interior escuro do prédio. Quanto mais avançava, mais percebia que a cidade possuía os elementos de uma urbana comum, restaurantes, com mesas quebradas e placas retorcidas; lojas, com manequins sem cabeça e vitrines sujas; condomínios, onde portas semiabertas revelavam interiores destruídos; até pontos de ônibus, com bancos derretidos e letreiros que pingavam um líquido escuro. Tudo parecia ao mesmo tempo familiar e completamente distorcido. Como se alguém tivesse recriado uma cidade inteira com base em lembranças partidas, deformando cada detalhe até torná-lo errado. Brad seguia atento, virando a cabeça a cada ruído imaginário, observando sombras que pareciam se mover mas desapareciam quando ele focava nelas. Nada respirava ali, exceto ele. E isso tornava a sensação de estar sendo observado ainda mais intensa. 

Brad* Aquele coisa não me vai encontrar aqui. Eu sabia que alguma coisa viria para me pegar e eu até aceito.... mas não permitirei que me peguem. O que eu não consigo entender é o porque de eu não encontrar mais ninguém..... bem o único que encontrei estava mais furado do que..... bem...... deve ter sido aquela coisa que me perseguiu, ela deve ter matado aquele homem. Não acredito que eu seja o único humano vivo aqui.  

Brad continuou caminhando pela rua deserta quando um som novo, súbito e estridente, rasgou o silêncio da cidade morta.
Era um grito humano, desesperado, longo, repleto de sofrimento.
Vinha de longe, exatamente da direção por onde ele havia entrado. Um arrepio percorreu-lhe a espinha. O primeiro pensamento que atravessou sua mente foi o pior possível: a criatura de duas cabeças o encontrou novamente. O pânico instalou-se em seu peito antes mesmo que pudesse raciocinar. Sem pensar duas vezes, Brad correu para dentro de um prédio residencial, empurrando a porta enferrujada que deu acesso ao condomínio. O interior, embora escuro, parecia milagrosamente mais fresco, como se o calor do lado de fora não conseguisse atravessar completamente aquelas paredes velhas. O ar ali era menos opressivo, permitindo-lhe respirar sem a dor constante que queimava sua garganta. Ele subiu as escadas em disparada, os pés descalços batendo contra o concreto áspero. Cada degrau o afastava da rua e, possivelmente, da criatura. O eco dos passos preenchia o ambiente, mas mesmo assim ele continuou, guiado pelo instinto de sobrevivência. Chegou ao quarto andar com as pernas em chamas. Procurou a primeira porta aberta, um apartamento abandonado, com móveis quebrados e o chão coberto de poeira. A janela principal estava estilhaçada, permitindo que o ar vermelho do exterior entrasse em pequenos sopros. Brad foi até a janela, mantendo-se agachado, apenas levantando a cabeça o suficiente para enxergar a rua abaixo. O coração ainda batia forte dentro do peito quando finalmente viu de onde vinha o grito. Na estrada que levava à cidade, uma mulher estava sendo arrastada pelos cabelos. Ela se debatia, as pernas chutando o chão, os braços tentando alcançar algo que pudesse salvá-la. Seus gritos ecoavam pela rua vazia, fortes o bastante para atravessar andares inteiros. Quem a arrastava era uma figura difícil de distinguir à distância.  A criatura caminhava com passos lentos e determinados, puxando a mulher como se ela não tivesse peso algum. A postura era quase humana, mas havia algo profundamente errado em seus movimentos. Brad colou o corpo à parede, mantendo apenas os olhos para fora da janela. Os lábios secos e a respiração curta denunciavam o medo que se acumulava. Seu coração batia de forma irregular, enquanto observava tudo com atenção absoluta, sem ousar emitir qualquer som. Porque, naquele inferno silencioso, qualquer ruído podia ser um convite para a morte. Brad tenta focar a sua visão na criatura. Ela usava um traje que lembrava um bobo da corte antigo, porém retorcido por alguma essência infernal. A criatura possuía duas meias diferentes, uma escura e outra clara, como se sequer entendesse o conceito de proporção. As botas pontiagudas, deformadas, arranhavam o asfalto a cada passo, produzindo um som agudo e incômodo. Mas o rosto.... o rosto era a pior parte. A máscara não parecia apenas uma máscara. Era como se tivesse sido fundida à pele, colada ao crânio, com rachaduras profundas revelando carne seca por baixo. O sorriso era largo demais, cortado de orelha a orelha, repleto de dentes irregulares e afiados, todos manchados por um tom escuro. A criatura dançava levemente enquanto arrastava a mulher pelos cabelos, um movimento casual, fluido, quase brincalhão, completamente deslocado da brutalidade do que fazia. Cada passo tinha um ritmo próprio, como se estivesse acompanhando uma música que só ela podia ouvir. Mesmo à distância, Brad sentiu o estômago revirar. Esse ser não era apenas um carrasco qualquer do inferno. Era algo que apreciava o tormento. Algo que dançava com ele. E pela forma como seus movimentos pareciam se orientar não pela mulher, mas pela cidade ao redor… Brad não conseguia evitar a sensação terrível de que a criatura sabia que ele estava ali. Brad recuou para trás da parede, encolhendo-se contra o concreto quebrado como se pudesse desaparecer dentro dele. O som que vinha da rua, os gritos desesperados da mulher, cortados pela gargalhada distorcida da criatura, atravessava tudo. Aquele riso não tinha ritmo humano; era um som irregular, quase musical, que se retorcia no ar como uma lâmina fria. A combinação dos gritos e da risada era insuportável. Perturbadora. Desumana. Brad fechou os olhos com força, pressionando-os até ver pontos vermelhos estourando na escuridão. Levou as mãos aos ouvidos, tentando criar um muro entre ele e aquele tormento. Mas não adiantava. As paredes vibravam com o som, como se a cidade inteira servisse de caixa acústica para o sofrimento. Ele se ajoelhou no chão poeirento, tremendo. O calor parecia aumentar dentro do prédio, como se aquela presença lá fora contaminasse o ar. Mesmo com os ouvidos tapados, os gritos entravam na mente dele como ecos diretos, perfurando qualquer defesa. A risada da criatura parecia sussurrar dentro de sua cabeça, dançando entre as memórias, puxando fios que ele nunca quis tocar. Seu coração acelerou. A respiração ficou curta. A mente, enfraquecida pelo medo e pelo ambiente infernal, cedeu. E então, no meio daquela escuridão interna, ele viu. Não a rua. Não o prédio. Mas um corredor de escola. Mesmo de olhos fechados, a cena surgiu com clareza cruel. As paredes claras, os armários metálicos, o cheiro de desinfetante barato. Ele via a si mesmo muito mais jovem, sendo arrastado pelo braço por um garoto mais velho e mais forte. Os sapatos dele rasparem no chão. As risadas ecoando. Pessoas apontando. Outras desviando o olhar como se aquilo fosse cotidiano, como se fizessem parte de um espetáculo ensaiado. O rosto de Brad, o Brad mais novo, estava vermelho, machucado. E o corredor, lotado, parecia um túnel sem fim de humilhação. Tudo isso se sobrepunha aos gritos da mulher do presente. Era como se o inferno estivesse misturando sua dor antiga com a agonia atual, forçando-o a reviver não só o que ele viveu… mas o que ele causou. A risada da criatura lá fora se distorceu, ecoando como se tivesse atravessado tempo e espaço, a mesma risada que ele ouvira tantas vezes atrás, nos corredores, nos grupos, nos cantos escuros da memória. Brad soluçava sem perceber, o corpo inteiro trêmulo, esmagado entre passado e presente. E, pela primeira vez naquele inferno, ele sentiu algo novo surgindo dentro de si: Não apenas medo. Mas pressentimento. Aquela criatura lá fora não estava apenas torturando a mulher. Ela estava torturando ele. Direcionando tudo para ele. Como se tivesse chegado ali não por acaso……mas para encontrá-lo. Brad abriu os olhos de súbito, não de medo, mas de raiva pura, densa, sufocante. O passado queimava como ácido dentro dele, os gritos da mulher se misturavam às lembranças, e a risada da criatura parecia zombar diretamente de sua existência. Ele não suportaria ficar ali, imóvel, assistindo. Seu olhar caiu sobre um pedaço de madeira quebrada no chão, parte de algum móvel antigo, irregular e cheio de farpas. Ele o pegou sem pensar. Apertou com tanta força que uma farpa profunda rasgou a pele de sua palma, abrindo um corte que imediatamente começou a sangrar. Mas ele não largou. A dor apenas alimentou sua raiva. O corpo inteiro tremia, mas agora por um motivo diferente. O ódio e o impulso de agir empurraram seus músculos, guiando seus passos. Brad levantou-se num movimento brusco e saiu do apartamento sem olhar para trás. Desceu as escadas como se elas pudessem desaparecer sob seus pés, rápido demais, tropeçando, apoiando-se nas paredes, mas sem parar. O eco de seus passos preenchia o prédio inteiro, cada batida ressoando como um tambor frenético que anunciava sua decisão. Ao alcançar o térreo, ele arrombou a porta do condomínio e saiu para a rua incandescente. O calor bateu contra o rosto como um muro de fogo, mas ele não diminuiu o ritmo. Brad correu. Correu com tudo o que ainda restava de força, o pedaço de madeira firme na mão sangrando. Seus passos rápidos ecoavam pelo asfalto rachado, fortes o bastante para carregar sua presença a dezenas de metros. E esse som chamou a atenção da mulher, que, apesar do desespero, virou o rosto na direção dele. Seus olhos arregalados refletiam tanto medo quanto esperança, mas ela não teve tempo para processar o que via. Porque a criatura… Ela não virou a cabeça. Não reagiu de imediato. Continuou caminhando, arrastando a mulher pelos cabelos, como se ousasse ignorar completamente a aproximação de Brad. A postura do ser infernal era quase desdenhosa, como se estivesse ciente de tudo o que acontecia ao redor… e ainda assim escolhesse não se importar. Brad continuava avançando, movido por uma fúria que ultrapassava o medo. O inferno podia ter enviado aquela criatura para puní-lo. Mas, naquele momento, Brad não parecia disposto a aceitar qualquer punição de braços cruzados. O golpe veio cru e direto, uma explosão de força contida que raspou até os ossos. A madeira estalou com um som seco e imediato ao encontrar a nuca do monstro, por um segundo o mundo encolheu ao redor daquele impacto,  o corpo distorcido do bobo vacilou, as correntes tilintaram e ele tombou pesadamente no asfalto, a lama seca cuspindo pequenas nuvens de pó. A tábua partiu-se ao meio na mão de Brad, lascas voando como pequenos brilhos que se perderam na luz vermelha do céu. O silêncio que se seguiu foi curto e cortante, apenas a respiração ofegante da mulher. O bobo largou o cabelo da mulher, o corpo dela ficou mole por um segundo, tremendo, os olhos escancarados tentando recuperar o foco. Brad estendeu a mão, o braço ainda tremente, a palma manchada de sangue e poeira, oferecendo um gesto humano tão frágil quanto decidido.  

Brad: Me de a sua mão.

Ela agarrou, a mão dela era fria, as unhas curtas enterrando-se na pele de Brad com um aperto que misturava desespero e alívio.  

Mulher: Você tem que fugir daqui !  

O comando saiu atropelado, como se até a voz fosse arrastada por um medo antigo. Por um instante pareceram duas vidas prestes a se erguer e partir juntas, ele pronto para puxá-la para longe, ela recobrando um fiapo de força. Mas tudo ruiu num puxão súbito e traiçoeiro. Debaixo deles, algo se enrolou como aço-vivo, a mão do monstro agarrou a perna de Brad com uma força que quebrou balanceio e equilíbrio. O corpo do rapaz foi arremessado para frente; o rosto bateu contra o chão quente com um impacto que arrancou ar dos pulmões.  

Brad: ME SOLTA! (saiu entre dentes, rouco, esmagado pela violência do arrasto.)

A mulher recuou alguns passos, o corpo encolhido. Ela não avançou; não podia. Ficou parada, a face marcada por terror absoluto, observando a cena à distância segura que sua própria coragem permitia. Brad se debatIa, puxado para longe, as mãos escorregando no asfalto quente enquanto a corda invisível da criatura o arrastava para o nada.  

Brad: Eu -te ajudei.... o que voce tá fazendo... me ajude! (as palavras se misturaram a um soluço.)  

Mulher: DESCULPA DESCULPA DESCULPA...... (a voz dela tremia, repetitiva, um mantra de culpa que nada mudava.)  

Brad: ME LARGA! (gritou de novo, já com a garganta ardendo.)  

Mulher: Eu sinto muito.....

Os movimentos do monstro eram impiedosos, lentos mas inexoráveis; cada puxão o levava mais para longe da mulher e mais para dentro daquela cidade partida. O asfalto raspava a pele das mãos de Brad, deixando finos trilhos de sangue e fuligem. O calor parecia sugar a força dele, enquanto a criatura mantinha um ritmo cadenciado, como se dançasse uma marcha fúnebre enquanto o separava do resgate. A mulher ficou parada, olhos colados nas costas dele, sem se mover além de um balanço convulsivo de ombros, testemunha muda e trêmula de uma fuga abortada. A mulher, num gesto brusco e quase mecânico, tateou o bolso dos calções rasgados e arrancou um canivete. 

Mulher: USE ISSO EM VOCÊ!  

 Sem hesitar, arremessou a lâmina na direção de Brad, e caiu a centímetros dele, enterrando-se na poeira do asfalto. Em seguida ela virou as costas e fugiu, pernas bambas movendo-se em passos apressados até desaparecer no horizonte de prédios quebrados, deixando para trás apenas o eco tremido de sua própria voz.  

 Brad: O que você quer dizer com isso sua maluca?

Brad agarrou o canivete com mãos que tremiam, a lâmina parecia pequena demais para aquilo que ele precisava. O bobo virou a cabeça por um instante, oferecendo um sorriso curvo e irônico, depois voltou o olhar rígido para a frente, indiferente à implosão humana que seguia ali. Sem cerimônia, Brad cravou a lâmina no pulso do monstro. O impacto abriu a carne; um jorro de sangue escuro brotou, cuspindo contra o asfalto, mas a criatura não recuou. Não soltou. Não mudou o riso que saía de sua boca como um ruído sem intenção. Uma mistura de fúria, pânico e um desespero animal tomou Brad que repetiu o gesto, investindo a lâmina com força crescente, espetando a mão da criatura várias vezes numa sucessão frenética. A lâmina lascou, sangues misturaram-se ao pó, fragmentos de pele e músculos expostos cintilaram sob a luz rubra. Ainda assim, a criatura manteve seu aperto. Brad debatia-se, a respiração cortada, o corpo inteiro tomado por uma urgência brutal. Cada facada parecia gastar um pouco mais de si. 

Brad* Eu não acredito..... não acredito.... não pode ser... como isso veio a acontecer? Eu podia só ter ignorado mas mais uma vez eu tive que me meter e agora sou eu que vou sofrer..... igual..... naquela época.

A cena brutal em que Brad era arrastado pelo Bobo começava a se desfocar nas bordas, misturando-se com outra visão, não do inferno, mas da sua própria vida muito antes do sangue, da arma e do desespero. A lembrança chegou como um golpe silencioso, vívida demais para ser ignorada. Ele viu um garoto, não ele, mas um aluno um ano mais novo, cercado no corredor da escola. Os bullies riam, empurravam o menino, rasgavam seus cadernos, mexiam violentamente no seu cabelo, chamando-o de todos os nomes possíveis. O garoto tentava sorrir, tentava encolher-se, tentava desaparecer. Brad se lembrava de sentir aquela mesma náusea de agora, aquela mesma pressão no peito. E se lembrava de intervir. Ele lembrava perfeitamente do momento em que empurrou um dos bullies para longe, com um gesto que vinha mais da indignação do que da coragem. E lembrou-se também do que veio depois. O bully não recuou. Ele sorriu. E então Brad levou um soco tão forte na cara que caiu no chão diante de todos. O som daquela risada, a risada coletiva, cortante, contagiosa, voltou inteiro à sua memória, ecoando como se ainda estivesse preso naquele corredor. Era o mesmo tipo de som que ouvia agora, vindo do Bobo, um riso que não tinha humor, só desprezo. Daquele dia em diante, tudo piorou. As agressões que antes eram direcionadas ao garoto mais novo passaram a incluir Brad. Os empurrões, os insultos, as humilhações se multiplicaram. E o mais cruel de tudo, o garoto que ele tentou ajudar aquele mesmo garoto que sofria bullying todos os dias acabou se juntando aos outros. Ele também passou a rir. Também passou a empurrar. Também passou a apontar para Brad como se nunca tivesse precisado de sua defesa. Era irônico. Era doloroso. E agora, naquele inferno, parecia que a mesma história se repetia. Brad havia se lançado para ajudar alguém novamente, alguém que ele nem conhecia, e, mais uma vez, estava sendo punido por isso. Sacrificando-se de forma involuntária por um estranho que, no fim, correu e o abandonou. A vida e o inferno, cada um à sua maneira, pareciam empenhados em esfregar a mesma verdade no rosto de Brad, sempre que ele tentava fazer algo certo, era esmagado por isso. E enquanto era arrastado, sangrando, lutando inutilmente contra a mão do Bobo, essa ironia amarga queimava dentro dele mais do que o calor do próprio inferno.  Brad encheu os pulmões de ar quente e sufocante, tentando recuperar por um instante algum controle entre o pânico e a dor. Ia levantar o canivete novamente para atacar o pulso deformado do Bobo, mas então algo no horizonte chamou sua atenção e congelou cada músculo do seu corpo. Adiante, não muito longe, o chão simplesmente desaparecia. Um buraco colossal se abria no meio da estrada, tão largo quanto a base de um prédio inteiro, tão profundo que nenhuma luz alcançava o fundo. Não era apenas um fosso: era uma fenda absurda, impossível, que parecia ter sido arrancada do chão como se o inferno tivesse dado uma mordida no mundo. O ar ali era mais frio, mais denso, puxado para baixo como se o buraco estivesse respirando. A criatura o levava diretamente para lá. Brad sentiu o estômago afundar. Seu coração se agitava contra as costelas como um animal preso. Ele sabia , sabia, que seria jogado ali dentro. Sabia também que nada de bom existia no fundo daquele abismo. O pânico fez o corpo reagir antes da mente: ele ergueu o canivete e começou a desferir golpes ainda mais violentos, mais desesperados, mais selvagens no pulso do monstro. Cada golpe fazia sangue escuro espirrar. Cada golpe era um pedido mudo por sobrevivência. Mas o Bobo apenas seguia arrastando-o, sem perder o ritmo. Sem perder a alegria. As risadas saíam da máscara antiga com uma intensidade crescente, como se o buraco o alimentasse, como se a criatura ficasse mais feliz a cada centímetro que se aproximava da beira. Então, de súbito, o Bobo torceu o próprio pescoço. O som foi seco, um estalar violento, impossível, e a cabeça da criatura girou por completo, virando para trás de forma sobrenatural, até que os olhos vazios encararam diretamente Brad enquanto continuava a caminhar para frente. O rosto do Bobo agora parecia preso de cabeça para baixo no corpo, a máscara rachada inclinada, os lábios esticados num sorriso ainda mais antinatural. O olhar era fixo, silencioso, carregado de um prazer cruel. A visão arrancou o ar de Brad. Uma onda de terror puro passou pelo seu corpo como eletricidade. Ele sabia que estava ficando sem tempo. Cada centímetro mais perto da borda era uma sentença. Os golpes ficaram mais fortes. Mais rápidos. Mais desesperados. Uma chuva frenética contra a carne da criatura. Até que, com um estalo traiçoeiro, o pior aconteceu. A lâmina do canivete se partiu, quebrando-se contra o osso exposto do pulso do monstro. O metal voou, rolando pelo asfalto e desaparecendo no calor distorcido do ar. O cabo de madeira ficou inútil na mão de Brad, tremendo junto com seus dedos ensanguentados.

Brad: MERDA MERDA MERDA!

A voz dele se perdeu no barulho crescente da risada do Bobo, agora tão alta que parecia uma mistura de gargalhada e grito de dor ,uma explosão sonora que vibrava no asfalto, nas paredes e no peito dele. O buraco estava agora a poucos metros e Brad já não tinha arma. Só a carne, o desespero e a certeza cruel de que, se não se salvasse agora, jamais sairia daquela queda. Brad ergueu o rosto por um instante e olhou novamente para o buraco, mas desta vez, o abismo olhou de volta. Lá embaixo, na escuridão viva, vários olhos brilhavam como brasas úmidas, fixos nele. Olhos grandes, pequenos, redondos, alongados… dezenas deles surgindo e desaparecendo, como criaturas esperando pacientemente pela queda, ansiosas, famintas. Cada olhar cintilava com uma consciência fria, predatória. O terror apertou a garganta de Brad. Não era apenas medo da morte. Era medo do que havia depois da queda. Ele sentiu a pele arrepiar, o estômago despencar, a certeza visceral de que, se fosse jogado ali dentro, jamais teria sequer o consolo do fim. Aquilo era algo pior. Muito pior. Foi então, exatamente nesse instante, que a lembrança da mulher voltou com nitidez dolorosa...."USE ISSO EM VOCÊ!" Naquele momento, Brad entendeu. Não era covardia. Não era entrega. Era a única saída daquele destino específico. Com a mão ainda tremendo, ele alcançou a lâmina partida, o pedaço de metal que continuava cravado no pulso do Bobo, preso entre os ossos expostos. Brad a puxou com força. A lâmina saiu rasgando sua própria palma, abrindo um corte profundo e quente. Sangue jorrou sobre sua mão e caiu em gotas no chão, desaparecendo no calor escarlate da estrada. A criatura, agora a apenas um passo da beira, virou novamente a cabeça, num estalar grotesco, para olhar fixamente para o buraco. Como se estivesse apresentando sua presa ao abismo. E então, com um movimento abrupto, puxou Brad para cima. O garoto foi erguido do chão como um boneco, pendurado apenas pela perna, o corpo balançando no ar quente. O buraco ficava cada vez mais próximo. A escuridão respirava. Os olhos lá embaixo brilharam ainda mais forte, em expectativa. A criatura ria. Ria com o peito, com a garganta, com a máscara. Uma gargalhada seca, frenética, quase musical. Preparando-se para soltá-lo. Mas, pela primeira vez, Brad também riu. Uma risada baixa, rouca, sádica, nascida da combinação perfeita entre desespero e desafio. Ele ergueu a lâmina, agora firme em sua mão ferida, e encarou os olhos vazios e felizes do Bobo. E com o sorriso torto estampado no rosto, disse,

Brad: Vai se foder!

Num único movimento decidido, rápido e final, Brad passou a lâmina pela própria garganta.
Um corte longo, direto, libertador. O sangue jorrou em um arco quente, salpicando o rosto da criatura. O corpo dele ficou mole no mesmo instante. A visão escureceu como se alguém apagasse o mundo. E Brad caiu, mas não no buraco. Caiu para dentro de si mesmo, para um gesto final que arrancou do Bobo a chance de entregá-lo ao abismo vivo. Brad havia se matado pela segunda vez. Desta vez, não por desespero. Mas por recusa. Recusa a ser engolido por aquilo que o inferno preparava. Os olhos no abismo brilharam por um segundo, e desapareceram. A gargalhada do Bobo cessou. E o inferno, pela primeira vez desde sua chegada, ficou completamente, absolutamente, silencioso. Mas então Brad voltou a respirar. O ar entrou nos seus pulmões de forma brusca, quente e pesada, arrancando um som rouco da garganta que ele jurava ter acabado de cortar. A sensação foi tão repentina que parecia impossível. Ele deveria estar morto. Ele tinha sentido a lâmina atravessar sua pele, tinha sentido o sangue escorrer e a consciência desaparecer. Mas agora estava ali, vivo, respirando, com o coração disparado. A primeira coisa que percebeu foi aquela sensação familiar e nauseante de estar de cabeça para baixo. O corpo pendia, pressionando o sangue na direção da cabeça. As mãos estavam soltas, mas os tornozelos ardiam sob a pressão de algo preso a eles. A mesma posição. A mesma sensação de antes. E, sobre seus olhos, novamente estava o pano preto. A mesma venda áspera, o mesmo tecido que deixava pequenos pontos de luz vermelha atravessar. Era impossível. Ele arrancara essa venda antes. Ele tinha morrido. Mas ali estava ela, amarrada firmemente ao rosto como se nada tivesse acontecido. Com respirações rápidas e irregulares, Brad levou a mão trêmula até o rosto e puxou a venda, arrancando-a de uma vez. A luz vermelho-escura do céu infernal o atingiu, e tudo ao redor tomou forma exatamente como antes. A árvore morta continuava ali, solitária no meio do terreno. Os galhos secos, retorcidos, firmes como garras e a corda que estava em volto dos seus tornozelos. O solo seco e rachado. A plantação podre. O mesmo cheiro de decomposição. O mesmo calor sufocante que queimava sem realmente queimar. Ele estava exatamente no mesmo lugar onde havia despertado da primeira vez. Nada tinha mudado. O inferno o tinha trazido de volta ao ponto inicial como se a morte que ele causara a si mesmo não tivesse significado absolutamente nada. Como se matar-se ali fosse tão inútil quanto respirar. A lâmina que rasgara sua garganta não deixara marca alguma. A lembrança permanecia vívida na mente dele, mas seu corpo estava intacto. Perfeitamente restaurado. Pronto para sofrer tudo de novo. Um ciclo. Um reinício. Uma prisão sem saída. Brad balançava levemente enquanto estava pendurado, a respiração acelerada e o coração batendo com uma força quase dolorosa. O entendimento o atingiu como uma onda pesada. A morte ali não era uma libertação. Era parte da tortura. Ali, até o próprio fim era algo que o inferno podia desfazer sempre que quisesse.  Brad rasgou a corda novamente, sentindo as fibras ásperas estalarem contra as mãos até finalmente se partirem. O corpo despencou mais uma vez, caindo no chão quente e seco com um impacto que fez o ar escapar de seus pulmões. A poeira subiu em um pequeno redemoinho, desaparecendo logo em seguida no calor ondulante do ambiente. Assim que conseguiu puxar o ar de volta para dentro do peito, Brad levou as duas mãos ao pescoço. Os dedos tocaram apenas pele lisa, quente, intacta. Nenhum corte. Nenhuma marca. Nenhum sinal do que ele tinha feito segundos antes. O coração acelerou de novo, mas dessa vez não por esforço físico. Era a estranheza, a impossibilidade, o reconhecimento claro de que o inferno podia moldá-lo e restaurá-lo à vontade, sem lógica e sem explicação. Quando finalmente ergueu o olhar, viu que algo estava diferente. Ele não estava mais na mesma árvore. Nem no mesmo local. A árvore atual era tão retorcida quanto a anterior, mas maior, com galhos que se abriam como braços de ossos antigos. A casca estava rachada, exalando um cheiro de madeira morta e calor seco. Mas o que realmente chamava atenção era o espaço ao redor. Antes, Brad acordara cercado por um campo podre, restos de plantação e sinais de vida deformada. Agora, ele estava em um enorme descampado. Um círculo vasto de terra totalmente árida e rachada, sem planta alguma, sem pedras, sem casas, sem sinais de civilização. Uma clareira gigantesca que parecia ter sido deliberadamente limpa de tudo, como se algo tivesse varrido o mundo em volta e deixado apenas aquela árvore no centro. O silêncio era absoluto. Não havia vento. Não havia cheiro além do calor seco que saía do solo. Nenhum som além da própria respiração de Brad. Era como estar em um palco vazio, iluminado apenas pelo céu vermelho apagado do inferno. 

Brad* Então.... ainda não acabou..... não...não seria tão fácil. Nem mesmo tirar a minha vida irá me salvar deste inferno. Mas o que aconteceria se eu tivesse sido jogado para dentro daquele buraco?  

Brad começou a andar sem rumo pelo descampado, deixando para trás a árvore sob a qual havia despertado pela segunda vez. Os pés afundavam levemente na terra quente e seca, levantando pequenas nuvens de poeira que se dispersavam rapidamente no ar parado. Cada passo parecia igual ao anterior, sem direção, sem referência, sem qualquer pista de onde seguir. Ele não fazia ideia de que parte do mundo estava, se aquilo sequer fazia parte do mundo. À sua volta havia apenas o terreno rachado, o calor ondulante e o céu tingido de vermelho profundo. O sol negro brilhava no alto, espalhando uma luz opaca que parecia engolir sombras ao invés de criá-las. Não aquecia como um sol comum, mas queimava de outro jeito, como se emanasse um calor seco vindo do próprio vazio. A cada minuto que passava, Brad sentia mais forte a sensação de que não havia nada ali para ele. Nem água. Nem comida. Nem abrigo. Talvez estivesse condenado a morrer infinitas vezes, sempre voltando ao ponto inicial, sempre reiniciado, sempre observado pela própria estrutura daquele inferno. Mas então, no meio dessa conclusão amarga, uma memória irrompeu com clareza. A mulher. Aquela mulher que ele tinha encontrado enquanto fugia da criatura de duas cabeças. A mesma que tentou ajudá-lo, ou ao menos tentou dar uma saída, antes de fugir por sua própria sobrevivência. Foi a prova mais concreta, mais real, de que ele não estava sozinho. Se havia ela, havia outros. Pelo menos um. Talvez muitos. Talvez pessoas presas como ele, espalhadas por esse lugar sem sentido. E essa lembrança acendeu algo dentro dele que não era exatamente esperança, mas estava perto disso. Algo como direção. Propósito. Um ponto de foco num mundo sem lógica. Brad continuou andando, mas agora com outra postura. O corpo ainda cansado, ainda machucado, ainda carregando o peso de tudo o que vivera. Mas a mente… A mente estava agarrada à única coisa que podia salvá-lo da loucura total. Ele tinha um objetivo. Encontrar pessoas. Brad caminhou em linha reta pelo descampado durante longos minutos. A vastidão silenciosa parecia infinita, e cada passo apenas reforçava a sensação de isolamento que envolvia o lugar. Depois de cerca de meia hora andando sem qualquer referência, o garoto finalmente viu algo se destacando na paisagem plana e árida. Era uma cabana. Pequena, torta e quase engolida pelo tempo. A madeira das paredes estava completamente podre, marcada por rachaduras profundas e por um tom acinzentado que denunciava anos de abandono. As janelas estavam quebradas, com fragmentos de vidro ainda presos às molduras, tremendo levemente com o calor distorcido do ar. Brad se aproximou lentamente e espiou pelo vão da janela. O interior mal recebia luz. Mesmo assim, ele conseguiu distinguir algumas formas, Um colchão jogado no chão, sujo, rasgado, com grandes manchas escuras que ele preferiu não identificar. Uma estante baixa de madeira, cheia de pequenos objetos cuja forma ele não conseguia distinguir na penumbra. Uma mesa velha, com uma cadeira caída ao lado. Poeira por toda parte e uma escuridão densa ocupando os cantos. Nenhum sinal de vida. Nem movimento. Nem respiração. Nem som. Brad contornou a cabana e parou diante da porta. A madeira estava empenada, inclinada, como se a estrutura inteira estivesse à beira de ruir. Ele tentou empurrá-la com cuidado, mas a porta não cedeu. Tentou de novo, desta vez com mais força, e ouviu apenas um rangido abafado. Com um suspiro cansado, Brad juntou toda a força que ainda tinha e empurrou mais uma vez, desta vez arrastando a porta pelo chão áspero até que ela finalmente cedeu, abrindo com um estalo e deixando escapar uma lufada pesada de ar abafado. Assim que pisou dentro da cabana, o odor o atingiu de imediato. Um cheiro denso de mofo, umidade velha e madeira podre. Tão forte que parecia envolver o interior inteiro como uma parede invisível. Brad levou o antebraço ao nariz por reflexo, mas o cheiro era intenso demais para ser realmente bloqueado. Brad deu o primeiro passo para dentro da cabana, sentindo o assoalho velho ranger sob seu peso. O interior era escuro, abafado e apertado, como se o ar tivesse ficado preso ali por décadas. A luz vermelha do céu entrava apenas pelas janelas quebradas, criando manchas de clarão no chão coberto de poeira. Seus olhos se moviam rápido, tentando absorver cada detalhe, cada canto, qualquer coisa que pudesse servir de arma, proteção ou simplesmente sinal de vida. Ele foi primeiro até a mesa de madeira. A superfície era irregular e estava marcada por rachaduras profundas, mas em cima dela havia um único objeto: uma folha branca de papel. A cor quase destoava de todo o resto da cabana. Brad estendeu a mão e pegou a folha, sentindo o papel áspero e um pouco úmido entre os dedos. Na frente não havia absolutamente nada. Ele virou a folha. A outra face estava coberta por rabiscos caóticos, linhas sobrepostas, curvas agressivas que pareciam feitas por alguém em extremo desespero. Nada formava uma imagem reconhecível. Nada formava uma palavra. Era apenas um amontoado de traços que não significavam coisa alguma. Brad apertou os olhos, analisou por alguns segundos, depois amassou a folha com impaciência e a jogou pela janela. O papel caiu lá fora e desapareceu no vento quente. Ele virou a atenção para o colchão jogado no canto da cabana. O tecido rasgado e encardido tinha manchas escuras, um aspecto sujo que dava a impressão de que ninguém deveria tocar aquilo. Mesmo assim, Brad aproximou-se e encostou a ponta do pé no colchão. Esperava algo macio, ou pelo menos afundar um pouco. Mas o colchão era duro. Duro como pedra. Na verdade, a superfície era áspera, rígida, com a textura de algo mineral e frio. Brad sentiu um arrepio correr pela perna. Ele abaixou-se um pouco e olhou para uma das aberturas no tecido rasgado, mas a falta de luz tornava impossível distinguir qualquer coisa com clareza. Ainda assim, ele se ajoelhou para ficar no nível do colchão, aproximando o rosto do rasgo. A luz vermelha do sol negro iluminava o interior apenas o suficiente para que ele enxergasse. Pedras. O colchão estava totalmente preenchido por pedras. Pedras grandes, pequenas, pontiagudas, irregulares, como se alguém tivesse arrancado rochas do solo e as enfiado ali dentro. Não havia algodão, não havia espuma. Somente pedra bruta. Brad enfiou a mão dentro do rasgo e pegou uma delas. Era pesada, fria, com uma textura áspera que arranhou sua palma. Ele levantou-se devagar, ainda segurando a pedra. O silêncio da cabana continuava absoluto. Mas, com aquela pedra na mão, Brad não se sentia exatamente seguro. Sentia apenas que tinha encontrado a primeira coisa naquele lugar que podia ser usada como arma.  Brad segurava a pedra com firmeza, sentindo o peso incômodo dela em sua mão. Sem bolsos nos calções, não havia outra forma de carregá-la, e abandonar a única arma que encontrara seria estupidez naquele lugar. Ele inspirou fundo, ignorando o cheiro denso de mofo, e direcionou a atenção para a estante encostada à parede. A madeira da estante estava tão velha quanto o resto da cabana, com prateleiras tortas e cobertas de poeira espessa. Havia cinco níveis, mas quatro deles estavam completamente vazios, como se nunca tivessem servido para guardar nada. Apenas a prateleira mais baixa tinha objetos. Brad se abaixou devagar, sustentando o peso da pedra com uma mão, e inclinou o corpo para enxergar melhor. Três itens estavam ali, alinhados de maneira estranhamente organizada em contraste com o resto do ambiente. Um pequeno saco de pano, encardido e amarrado com um fio simples. Uma chave Stillson, pesada, velha, com o metal escurecido. E uma barra de cereais aberta, com o rótulo completamente preto. Nada ali parecia confiável, mas também nada parecia dispensável. Brad pegou primeiro o saco de pano. Abriu-o só um pouco para verificar se não havia nada estranho dentro, depois colocou a pedra dentro dele. A sensação de ter as mãos livres era quase tranquilizante. Em seguida, enfiou a barra de cereais no saco também, mesmo que estivesse aberta e com cheiro indefinido. No inferno, qualquer coisa poderia fazer falta. Com a outra mão, ele segurou a chave Stillson. O peso dela era familiar, firme, e poderia servir como arma tão bem quanto a pedra. Talvez até melhor. 

Brad: Finalmente... alguma coisa que preste neste lugar 

Brad se levantou lentamente, observando a cabana uma última vez. O colchão cheio de pedras. A mesa com a marca deixada pela folha que havia jogado fora. O cheiro de mofo que parecia se agarrar às paredes. A escuridão espessa nos cantos. A sensação constante de que aquele lugar tinha sido abandonado por uma razão. Nada ali parecia acolhedor. Nada parecia seguro. Com o saco pendendo discretamente em uma mão e a chave Stillson firme na outra, Brad deu o último olhar ao interior gasto da cabana antes de atravessar novamente a porta. Ao cruzar o limiar, sentiu o ar quente do descampado voltar a envolvê-lo, como se a própria terra tivesse esperado por ele para continuar sua jornada. Brad saiu da cabana com o saco de pano em uma mão e a chave Stillson na outra, sentindo o peso real das poucas coisas que agora possuía. A ferramenta era pesada, firme e desagradavelmente fria, mas lhe dava uma sensação mínima de proteção em um mundo onde nada parecia seguro. Do lado de fora, um vento quente soprou de leve, trazendo consigo partículas de poeira avermelhada que ardiam discretamente na pele. O descampado parecia infinito, mas agora havia algo diferente nele. Pequenas ervas vermelhas cresciam em tufos espaçados, lembrando uma relva fina e frágil, balançando suavemente conforme Brad caminhava. Aquilo não era vida… ou, se era, era o tipo mais estranho e distorcido de vida que o inferno poderia criar. Enquanto avançava, a mente dele fervilhava. Queria respostas. Precisava de respostas. Quem era aquele palhaço deformado que ria enquanto o arrastava? O que era aquela criatura de duas cabeças que havia aparecido primeiro, faminta por sua alma? Alguma lógica parecia existir naquele lugar, mesmo que fosse retorcida e cruel. E havia a mulher. A única pessoa viva que ele encontrara desde que chegara ali. A única que parecia minimamente consciente do funcionamento daquele mundo. Ela sabia algo. Sabia muito mais do que Brad… e por algum motivo, havia preferido fugir do que ajudá-lo. Isso fazia sentido. Quem quer que estivesse ali… não era confiável. E Brad entendeu isso com clareza. Se aquele lugar era realmente o inferno, então todos ali eram pecadores. Gente destruída. Gente cruel. Gente quebrada de maneiras que ele nem imaginava. Aquelas pessoas não eram vítimas. Eram monstros de carne e osso, igual a ele. Talvez mais perigosas que as criaturas. A única regra era sobreviver. Brad apertou a chave Stillson com mais força, sentindo seu peso puxar sua mão para baixo. O saco de pano balançava leve ao lado do corpo, contendo a pedra e a barra de cereal, seus recursos mínimos em um deserto condenado. Enquanto caminhava, ficou claro para ele que cada passo naquele lugar devia ser cuidadoso, silencioso, atento. A brisa quente continuava passando pela pele de Brad de maneira constante, quase ritmada. Dentro de toda aquela deformidade infernal, aquela sensação não era totalmente ruim. Pelo contrário. Havia algo quase hipnotizante no contraste entre o vento e o calor estático do descampado. O chão avermelhado e seco, queimado como campos de trigo carbonizados, se estendia até onde a vista alcançava e, apesar de tudo, havia uma estranha beleza na paisagem árida diante dele. A solidão era desconfortável, esmagadora, mas naquele lugar até o desconforto podia se tornar uma forma torta de conforto. Era melhor estar sozinho do que ser observado. Melhor o silêncio da brisa do que risadas distorcidas. Melhor a sensação de vazio do que a presença de criaturas que sabiam sorrir de um jeito errado. Brad caminhava devagar, medindo cada passo. Não tinha pressa. Não podia ter. Recordou que, depois de fugir da criatura de duas cabeças, havia sentido sede, uma sede profunda, cortante, quase tão dolorosa quanto o medo. Agora ela não estava presente, mas ele sabia que mais cedo ou mais tarde voltaria. E a fome também. Nesse lugar onde até morrer não era uma saída, a fome provavelmente teria seu próprio tipo de tormento. Por isso, ele conservava energia. Respirava devagar. Caminhava com calma. Observava tudo à sua volta. Ao longe, tanto à direita quanto à esquerda, via a borda do descampado tomar forma. Árvores mortas erguiam-se de maneira irregular, completamente sem folhas, como esqueletos vegetais que cercavam o descampado em duas enormes florestas. Os troncos secos e retorcidos formavam padrões inquietantes, e as copas ausentes deixavam as silhuetas parecerem mãos gigantes apontando para o céu vermelho. Eram florestas vastas, silenciosas, que pareciam estar esperando algo. Ou alguém. Brad engoliu seco, o som abafado na própria garganta, e continuou caminhando. Quanto mais caminhava, mais claro ficava que o descampado não era apenas um espaço vazio. Brad caminhou por um período impossível de medir. Podiam ter sido horas, podiam ter sido apenas minutos. No inferno, o tempo parecia existir como um conceito torto, algo que esticava e encolhia conforme queria. A brisa quente vinha e ia em intervalos irregulares, e o sol negro no céu não se movia nem um centímetro. Era como andar dentro de um instante infinito. Com o passar do tempo, o descampado começou a mudar. Lentamente, quase imperceptivelmente, o espaço livre foi ficando mais estreito. As árvores mortas que antes estavam distantes começaram a se aproximar dos dois lados, como se o mundo estivesse se afunilando em torno dele. Cada passo deixava claro que aquele campo aberto estava chegando ao fim. E chegou. Eventualmente, o descampado se fechou completamente, transformando-se em um simples caminho ladeado por florestas de árvores sem folhas. Era um túnel natural de morte e silêncio, feito apenas de troncos secos e galhos retorcidos que pareciam querer tocar o céu. Nada sobrenatural, apenas a natureza daquele lugar deformado impondo sua própria geometria. Mas então o caminho acabou abruptamente. Diante dele, à distância, havia um grande amontoado de arbustos secos. Eram tantos galhos entrelaçados que formavam uma parede espessa e sem vida, obstruindo completamente a passagem. Para a direita, uma floresta tão escura quanto a da esquerda. À frente, apenas aquela barreira de galhos mortos, rígidos como ferro. Brad parou. Olhou para um lado… olhou para o outro… depois levantou o rosto para o céu vermelho como se buscasse algum sinal. Suspirou fundo antes de dizer, cansado e irritado...

Brad: É só a mim que acontece este tipo de coisas.

Ele ergueu a chave Stillson com as duas mãos e, com um golpe forte vindo de cima para baixo, atingiu os arbustos. O impacto quebrou diversos ramos de uma vez, lançando farpas secas para todos os lados. Os pedaços caíram no chão com um estalo leve, como ossos quebrados. Ele golpeou de novo, e mais galhos foram se partindo, abrindo espaço aos poucos.

Brad: Grande merda… não é uns arbustos acabados que me vão impedir de continuar a seguir o meu caminho.

A cada frase dita entre dentes, a cada movimento de braço, a chave Stillson rachava mais da parede de arbustos. Golpe após golpe, usando força, esforço e teimosia pura, Brad fazia seu caminho através daquela barreira seca que parecia determinada a impedi-lo de prosseguir. Brad avançava sem parar, golpeando cada galho, cada ramo, cada obstáculo seco que surgia diante dele. A chave Stillson subia e descia com força, estalando pedaços de madeira morta que voavam para os lados. Quanto mais ele entrava naquela barreira de arbustos, mais o mundo ao redor desaparecia, substituído apenas por um túnel compacto de galhos quebradiços. O suor começou a escorrer pelo rosto e pelo pescoço, misturando-se ao calor sufocante daquele labirinto improvisado. Seus braços já doíam, mas os ramos eram tão secos que um golpe mal executado ainda era suficiente para parti-los. Ele avançava como uma lâmina quente atravessando manteiga, abrindo caminho centímetro por centímetro. Já tinha andado vários metros quando percebeu que estava completamente cercado pelas plantas mortas. Galhos acima, galhos aos lados, galhos atrás. O som de suas próprias respirações abafava o estalar constante das quebras de madeira. Foi então que, em meio a um golpe mais descuidado, suas mãos suadas perderam o controle da ferramenta. A chave Stillson escorregou dos dedos e caiu entre os galhos com um som seco. Brad aproveitou o momento para puxar ar. Estava ofegante, dobrado de cansaço, respirando pela boca aberta, o peito subindo e descendo rápido demais. Apenas depois de alguns segundos ganhou fôlego suficiente para se abaixar novamente e pegar a ferramenta. Mas ao se agachar, aconteceu. Um galho pontiagudo arranhou sua testa, abrindo um pequeno corte. Não era profundo, mas o sangramento começou imediatamente, escorrendo em uma linha fina e quente pelo lado do rosto.

Brad: Foda-se… ( Disse entre os dentes )

Passou a mão rapidamente no corte, o que apenas espalhou o sangue. Depois pegou a ferramenta, apertou-a firme e voltou ao trabalho. Braços cansados ou não, suor caindo nos olhos ou não, ele continuou balançando a chave de um lado para o outro com força. As farpas secas estalavam ao redor, caindo como chuva de madeira morta. Foram dois minutos. Talvez três. E então, em um golpe final, os galhos diante dele se abriram e Brad quase tropeçou para fora da barreira. Ele segurou o equilíbrio por pouco, os pés derrapando na poeira seca. E quando levantou a cabeça, percebeu que não estava mais no descampado, nem perto das árvores mortas. Estava diante de uma cidade. Brad deu apenas alguns passos para fora da barreira de galhos quando percebeu onde havia surgido. Ele não estava em uma rua comum da cidade. Não estava diante de prédios ou avenidas. Na verdade, o lugar à sua frente era um jardim público, ou pelo menos a versão distorcida de um. Árvores finas e retorcidas formavam uma espécie de corredor irregular, seus troncos secos lembrando esculturas abandonadas. Bancos estavam espalhados pelo caminho, alguns quebrados ao meio, outros ainda inteiros, porém com a madeira tão podre que pareciam prestes a desabar com o toque do vento. Havia mesas de piquenique deformadas, com tampas afundadas, pernas tortas e superfícies cobertas por rachaduras profundas. Mesmo assim, a estrutura geral do lugar deixava claro que um dia aquilo fora um parque para famílias, crianças e descanso. Agora era apenas mais um fragmento corrompido do inferno. Ao longe, entre as copas mortas e o horizonte vermelho, era possível ver prédios se erguerem. Torres altas, de aparência abandonada, imóveis como lápides gigantescas marcando o contorno da cidade. Brad soltou um suspiro irritado, a frustração escapando pelos lábios antes mesmo de perceber.

Brad: Puta… merda…

O garoto escorregou o corpo para baixo, descendo o pequeno desnível que marcava a entrada do jardim. A terra ali era mais fofa, misturada a raízes secas e fragmentos de madeira podre. Ele deixou para trás os arbustos quebrados e o descampado, mergulhando mais uma vez em um novo ambiente do qual não fazia ideia do que esperar. Continuou avançando com passos um pouco mais rápidos, alerta, os olhos varrendo cada canto. Observava bancos, caminhos de terra rachada, sombras suspeitas entre as árvores mortas. Qualquer movimento estranho seria suficiente para fazê-lo correr sem hesitar. Mas nada se movia. Nada respirava. Nada emitia som. O jardim inteiro parecia preso em um silêncio congelado, como se estivesse esperando algo acontecer. Brad seguiu adiante até que algo chamou sua atenção. Passou por um pequeno canteiro e viu flores. Flores vivas. As pétalas eram pretas, de um brilho opaco, densas como veludo queimado. As folhas eram finas e retorcidas, mas a planta estava viva. Totalmente viva. Crescendo no solo seco, como se o inferno tivesse decidido permitir vida naquele único ponto. Era a primeira plantação realmente viva que Brad via desde que chegara naquele lugar. E isso, de alguma forma, tornava a visão ainda mais perturbadora. Brad seguiu pelo jardim até alcançar a saída, sentindo a textura da terra seca sob seus pés e o silêncio pesado acompanhando cada passo. Antes de deixar aquele espaço distorcido, algo chamou sua atenção. À direita, parcialmente coberta por folhas mortas e rachaduras do tempo, erguiam-se os restos de uma fonte de água. Ele parou. Por um instante, o mundo ao redor pareceu desaparecer. A fonte estava completamente seca. Nenhuma gota de água, nenhum brilho, apenas pedra rachada e musgo escuro cobrindo as bordas. Mas, mesmo abandonada, ela ainda guardava certa beleza. Uma beleza triste. Trincada. Perdida. Brad largou o saco de pano e a chave Stillson no chão. Aproximou-se lentamente e passou as mãos sobre a superfície áspera e fria da fonte. O toque despertou algo dentro dele. Uma memória. Uma sensação que não sentia havia muito tempo. Em vida, ele sempre gostara de observar a água corrente. As pessoas relaxavam ouvindo música ou desenhando. Ele relaxava vendo água escorrer. Achava hipnotizante. Pacífico. Quase curativo. E isso o levou direto às lembranças de sua mãe. Quando era pequeno, os dois costumavam passear por jardins parecidos. Ele se lembrava dela segurando sua mão, sorrindo, apontando para as fontes e cachoeiras artificiais, explicando como a água caía, por onde circulava, por que não parava nunca. E havia aquela fonte específica. Aquela grande fonte feita de cerâmica branca reluzente, com detalhes dourados que Brad, quando criança, acreditava serem ouro de verdade. A água jorrava do topo e descia em cascatas perfeitas. Ele podia quase ouvir o som da água agora, mesmo estando ali no inferno. A lembrança atingiu seu peito como um peso. Uma única lágrima escorreu pelo canto do olho dele. Não havia dor física comparável a isso. O que lhe apertava o coração não era o inferno, nem as criaturas, nem o calor sufocante. Era a lembrança do rosto de sua mãe e do quanto ele havia quebrado seu coração quando apertou o gatilho pela primeira vez. O arrependimento que nunca admitira em vida agora pulsava forte dentro dele. Brad ergueu o rosto, tentando fazer a lágrima voltar, tentando parecer forte para ninguém que estivesse olhando. Mas já era tarde. Ela caiu. Sozinha. Silenciosa. Ele fechou os olhos, respirou fundo e abaixou a cabeça. Então se recompôs. Pegou o saco. Pegou a ferramenta. Endureceu o semblante. Sem olhar para trás, atravessou os portões enferrujados do jardim e pisou na calçada da cidade. A nostalgia e a dor ficaram ecoando no peito dele, provando que, às vezes, basta uma ruína silenciosa para despertar memórias que o inferno havia tentado enterrar.  Brad deu os primeiros passos fora do jardim e imediatamente sentiu a mudança no ambiente. A cidade diante dele era muito maior do que qualquer outra que já tinha atravessado naquele inferno. Prédios enormes se erguiam como colunas cinzentas, janelas quebradas formando olhos vazios que observavam o nada. As ruas largas, largas demais, tornavam a paisagem ainda mais silenciosa. Parecia uma capital abandonada, esquecida pelo tempo, engolida por um céu vermelho sem misericórdia.  Em vida, ele sempre sonhara em viver num lugar assim. Numa cidade grande, movimentada, onde ninguém o conhecesse, onde pudesse desaparecer entre multidões, onde pudesse recomeçar longe da cidade pequena onde tudo sempre doía mais do que deveria. Agora estava ali. Numa cidade enorme. Mas vazia como um túmulo. A sensação era estranha… quase irônica. Brad caminhou pelo meio da estrada sem qualquer preocupação. Não havia carros. Não havia trânsito. Nem sinal de vida além de seus próprios passos. Se havia uma vantagem mínima em estar morto, era essa: atravessar avenidas sem medo de ser atropelado. Depois de tanto tempo andando, algo familiar o atingiu. Foi um som baixo, quase tímido, mas inconfundível. Sua barriga roncou. Brad parou e franziu o rosto. Era estranho sentir fome ali. Sentir qualquer necessidade física ali. Mas fazia sentido. O inferno não parecia disposto a deixá-lo esquecer que ainda tinha um corpo, e corpos… precisam comer. Ele ajustou a chave Stillson, apoiando-a no ombro por um instante, depois enfiou a mão no saco de pano. Tateou por dentro até sentir o plástico enrugado da barra de cereais. A retirou sem hesitar. Sem pensar muito, abriu a embalagem com os dentes e deu uma mordida. O gosto era horrível. Parecia manteiga de amendoim estragada, fermentada, quase amarga. Sua boca reclamou imediatamente, mas seu estômago não questionou nada. Ele mastigou e engoliu do mesmo jeito. Comer algo nojento ainda era melhor do que enfrentar a fome naquele lugar. Quando terminou, amassou a embalagem plástica sem qualquer cuidado e a soltou no chão. O papel caiu lentamente, varrido por uma brisa quente, até parar no asfalto rachado. Brad respirou fundo, limpou a boca com as costas da mão e retomou a caminhada. A cidade estava diante dele, vasta e silenciosa. E, apesar do medo constante, havia também algo como… curiosidade. Brad seguiu caminhando sem direção definida, seus passos lentos batendo no asfalto com um ritmo quase constante. A cidade vazia parecia não ter fim. A cada esquina, novos prédios surgiam, todos silenciosos, todos mortos, todos carregando aquela atmosfera de abandono que já se tornava familiar desde sua chegada naquele inferno. No meio da caminhada, uma ideia começou a surgir na mente dele. Recursos. Comida. Água. Talvez armas improvisadas. Ou qualquer coisa que pudesse ajudá-lo a sobreviver por mais tempo. Se existiam restaurantes, shoppings ou mercados por ali, talvez ainda houvesse algo aproveitável em seu interior. Um pacote esquecido, uma garrafa fechada, ferramentas. Mesmo no inferno, talvez os objetos permanecessem onde foram deixados. Com essa possibilidade em mente, Brad passou a caminhar com o olhar mais atento. A cabeça dele balançava levemente de um lado para o outro enquanto tentava ler fachadas despedaçadas, observar símbolos antigos e procurar placas que resistiram ao tempo. Mas quase nada fazia sentido. As construções estavam tão deterioradas que muitas tinham perdido completamente a identidade. Letras arrancadas, paredes derretidas pelo calor, portas arrancadas ou trancadas por destroços. O estilo arquitetônico era próximo ao humano, mas deformado de forma que tornava difícil adivinhar o propósito original de cada prédio. Enquanto caminhava pela calçada rachada, Brad tentava espiar pelas janelas quebradas. Algumas mostravam salas escuras demais para serem analisadas. Outras exibiam mesas viradas, prateleiras vazias, corredores tomados pelo pó. Em alguns lugares havia sinais de que algo havia passado ali, móveis arrastados, marcas no chão, sombras profundas que não pertenciam a nada reconhecível. Mas nada, absolutamente nada chamava sua atenção. Nada parecia útil. Nada parecia seguro. Mesmo assim, a ideia de encontrar algo valioso não o abandonava. Enquanto caminhava entre os prédios distorcidos, um som rasgou de repente o silêncio do céu. Um grito agudo, longo, estridente, que ecoou entre as estruturas abatidas e vibrou no ar quente acima da cidade. O som não vinha das ruas. Vinha do alto. Brad sentiu o corpo inteiro reagir no mesmo instante. O susto foi tão abrupto que ele travou por um segundo antes de erguer a cabeça. Quando olhou para o céu, viu a silhueta da criatura. Ela planava entre o vermelho do céu e o brilho do sol negro. As asas eram largas, irregulares, abertas como lâminas vivas cortando o ar. O corpo lembrava o de um pássaro, mas era grande demais, pesado demais, deformado demais para ser algo natural. Não chegava a ser gigantesco, mas era grande o suficiente para impor respeito apenas com a presença. A criatura desceu em círculos lentos até pousar no topo de um prédio alto, suas garras se fixando no concreto quebrado como se aquilo fosse carne macia. No mesmo instante, Brad se jogou para trás de um contentor de lixo tombado. O coração batia acelerado no peito. Agachado, respirando com cuidado, ele espiava por uma fresta de metal amassado, sem desviar o olhar da criatura. À distância, os detalhes eram difíceis de distinguir. Mas mesmo assim, ele podia perceber que aquele pássaro não era apenas maior que o normal. Ele era torto. As asas tinham articulações estranhas. O pescoço parecia longo demais. A forma da cabeça não era correta. Aquela coisa não tinha sido apenas aumentada. Tinha sido moldada para aquele inferno. O sol negro atrás da criatura derramava uma luz branca e agressiva, criando uma silhueta quase impossível de olhar diretamente. O brilho se espalhava pelo céu vermelho como uma ferida de luz. E então a criatura se moveu. No instante exato em que ela deslocou a cabeça, o alinhamento mudou. O sol deixou de ficar atrás de seu corpo e, por um único segundo, o facho de luz branca atingiu em cheio o rosto de Brad através da fresta do contentor. O feixe entrou direto em seu olho. A dor foi imediata, brutal, como se uma lâmina incandescente tivesse sido cravada dentro de sua cabeça. Seus músculos travaram num reflexo violento. O grito saiu antes que ele pudesse conter. As mãos voaram para o rosto no mesmo instante em que o corpo cedia. Brad caiu no chão ao lado do contentor, contorcendo-se, as pernas se dobrando sem força. A dor pulsava em ondas ferozes dentro do crânio, espalhando-se como fogo líquido. Ele esfregava o olho com desespero, mas a sensação apenas piorava. O mundo ao seu redor parecia dissolver-se em manchas distorcidas de luz e sombra. Era a primeira vez desde que chegara ao inferno que ele havia olhado diretamente para o sol negro. E o preço veio na mesma fração de segundo. Quando finalmente afastou as mãos, o corpo tremendo, a respiração quebrada pelo sofrimento, ele tentou abrir o olho atingido. Mas já não havia visão alguma. A metade do mundo diante dele tinha simplesmente desaparecido, engolida por uma escuridão morta. Brad havia ficado cego de um dos olhos. Brad se ergueu com dificuldade, apoiando todo o peso no contentor de lixo enquanto tentava recuperar o equilíbrio. A dor no olho latejava como um coração estranho dentro de sua cabeça. Ele respirava curto, desesperado, soluçando entre cada palavra.

Brad: Merda… merda… merda…

Ele cambaleou para longe dali, passos trêmulos, tropeçando na própria sombra enquanto tentava entrar no beco mais próximo. A visão borrada, desequilibrada, só piorava sua coordenação. O medo arranhava o interior do peito como garras. Mas no exato momento em que ele se movimentou, o som o traiu. O peso do corpo batendo no chão, o roçar do metal do contentor, o arfar alto, tudo isso ecoou o suficiente para chamar a atenção da criatura lá em cima. O pássaro negro virou a cabeça de maneira abrupta, quase mecânica. Seus olhos profundos, estreitos, pareciam duas fendas brilhando dentro da sombra. Ele não havia percebido Brad antes porque o garoto estava oculto pelo contentor… mas agora, exposto, mancando e tentando fugir, Brad estava completamente visível. A criatura soltou um rugido tão grave e profundo que fez até o concreto vibrar. Não era um som de pássaro. Era o rugido de um leão misturado ao grito de algo faminto e cheio de ódio. E então ela se lançou do topo do prédio. As asas abriram-se com violência, cortando o ar com tanta força que o vento quente bateu contra os becos abaixo. A sombra da criatura atravessou a rua num instante. A boca se abriu revelando camadas de dentes tortos, irregulares, serrilhados como garras de ferro. Era a boca de algo que nasceu apenas para rasgar. Brad ouviu o som das asas descendo sobre ele, o bater pesado, o deslocamento do ar, o rugido se aproximando. Ele virou instintivamente para trás, mas com a visão comprometida só conseguiu ver uma mancha negra gigantesca caindo sobre ele. A criatura estava a um segundo de atingi-lo. Brad começou a correr, tropeçando nos próprios pés, quando sentiu o ar atrás de si rasgar. Uma mordida feroz passou a poucos centímetros de sua nuca. Ele se jogou para o lado no último segundo, deslizando no chão áspero do beco enquanto o pássaro monstruoso errava o ataque e raspava as garras no cimento, produzindo um som agudo que fez o peito do garoto vibrar. Ao se desviar, Brad bateu com o ombro contra uma parede úmida, sentindo a dor irradiar até o braço. Bem ao lado dele havia uma porta de metal enferrujada. Sem pensar, impulsionado apenas pelo instinto, ele empurrou a porta com toda a força e entrou, batendo-a atrás de si com violência. O impacto recém cessara quando uma patada colossal atingiu o outro lado. A porta voou pelos ares como se fosse feita de papel. O metal ricocheteou nas paredes da pequena entrada da pizzaria, entortado, enquanto três cortes profundos abriram a bochecha de Brad. O ardor queimou instantaneamente. O garoto se jogou para trás, caindo no chão com um baque seco. O coração batia tão forte que parecia querer sair pelas costelas. Ele se levantou rápido, cambaleando, e viu a monstruosidade tentando passar pela abertura. A criatura empurrava, forçando o corpo enorme contra o batente, mas só o bico conseguia atravessar, um bico comprido, torto, rachado em vários pontos, pingando saliva negra que caía no chão e chiava ao tocar o piso queimado. Brad: Queres me pegar?... Hein...? Filho da puta… O garoto olhou ao redor desesperado. O lugar parecia ser uma pizzaria pequena, mas agora era apenas um esqueleto carbonizado do que já tinha sido: mesas viradas, cadeiras quebradas, um letreiro caído pela metade; o cheiro enjoativo de mofo e gordura velha impregnava o ar. Nada ali parecia útil, nada que pudesse virar arma ou proteção. Mas atrás do balcão havia uma pequena cozinha, e atrás dela, uma porta dos fundos. Brad saltou por cima do balcão, escorregando nas manchas escuras do chão. Entrou na cozinha e olhou em volta rapidamente: prateleiras vazias, panelas corroídas, um forno esmagado por algum impacto antigo. Nada, nada que pudesse ajudá-lo. O rugido abafado da criatura ecoou no local inteiro. Ele alcançou a porta dos fundos, respirando rápido, e girou a maçaneta com cuidado, abrindo apenas o suficiente para espiar. Um novo beco o aguardava do outro lado. Brad deslizou para fora, fechando a porta atrás de si tão silenciosamente quanto conseguia

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Pietas

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