JF-79 " Kaito"

17-09-2023

Nome: ----
Apelido dado: "Kaito"
Idade: Desconhecida, mas se o início da sua existência coincide com a dos mitos, então pode chegar a pelo menos 5 décadas.
Aparência: Criatura de cabeça esquelética semelhante ao crânio de um dinossauro carnívoro como o de um Tyranossaurus Rex, porém reduzido ao tamanho de um crânio humano, com a principal diferença peculiar de não possuir olhos. Todo o resto do seu corpo é magro ao ponto de deixar os seus ossos salientes em cada curva e recanto do seu ser com a exceção da sua coluna bífida inclinada para a frente nas suas costas que se encontra coberta por uma fina vertical de pelo escuro. O JF não apresenta genitália apesar da sua anatomia ser semelhante à de um humano comum, isto retirando da equação a sua cabeça, mãos e patas, sendo os últimos dois estruturas com unhas afiadas e de dedos estranhamente esguios. Duas partes do seu corpo que, ainda assim, apresentam leves discrepâncias entre si, dado que a sua mão possui 5 dedos como os de uma mão humana comum, ao contrário do seu pé com apenas 3 dedos que se provam como suficientes na execução das suas vítimas.
Altura: ----
Regime alimentar: ----
Contenção: ----
Cela de contenção: ----
Vítimas passadas: Foram encontrados e relatados por volta de 14 cadavéres.
Habilidades: Devido à pouca frequência dos seus ataques, tornou-se desafiante averiguar esse parâmetro. Contudo, dentro das poucas habilidades confirmadas, estão incluídas:

  • Super-força;
  • Super velocidade;
  • Durabilidade aumentada;
  • Agilidade sobre-humana;
  • Sentidos aprimorados.

Fraquezas: ----
Classe: 

 
Aparições: ----

Relato:


Fint abriu a porta do chalé e, para sua surpresa, foi recebido com muita animaçã da parte de Colin.
Colin: "Fint, ainda bem que chegaste!"
Disse o seu amigo, que já se encontrava virado para a porta assim que chegou. Uma das grandes coincidências do destino, como aquela que o levou a conhecer este grupo.
Fint queria ter respondido algo a Colin, mas não conseguiu graças à algazarra estressada vinda da cozinha ao fundo e dos gritos de celebração e jubilo provenientes da sala de estar à direita. 
Megan: "Olá, Fint."
Drew: "Bem-vindo rapaz."
Saudaram-no a mãe com o bebé ao colo e o velho de cabelos grisalhos, respetivamente, enquanto sentados no sofá da sala a distrair-se com a televisão.
Como tal, ele deixou que a maré o levasse a ele, às suas botas cobertas de neve e à mochila enorme que levava às costas. Neste caso, isso significava deixar que Colin o levasse pelo ombro.
Colin: "Estávamos mesmo à tua espera, meu. Acho que chegaste mesmo na altura certa, porque parece-me que a Mara está mesmo agora a preparar-se para servir o jantar."
Comentou, aproximado ao recém-chegado. E, agora que Colin dizia, Fint conseguia mesmo confirmar que o cheiro quente no ar devia ser da torta de carne que a Mara sempre fazia para o grupo, nos encontros de domingo. Um prato que só ele sabe fazer. A prova desse facto eram as tentativas fracassadas dele próprio que apenas resultaram em acidentes gastronómicos que despoletaram a ira dos seus pais, enfurecidos com um jantar péssimo da sua autoria.
Colin: "Anda daí. Eu mostro-te o quarto e trato de tudo contigo lá em cima. Depois juntamo-nos aqui com eles." 
No instante a seguir à frase ter acabado, Fint nem conseguiu acenar afirmativamente com a cabeça que os gritos da cozinha o desconcentraram. Lop saiu carrancudo da divisão em questão logo a seguir a murmurar maldições que pregava sem alvo algum, migalhas da discussão que devia estar a ter com Mara quanto à confecção da torta. Ele rapidamente se recompôs ao ver Fint, recuperando o seu sorriso característico.
Lop: "Fint! Como é que estás meu rapaz?"
Fint: "B-Bem, senhor Lop."
Retorquiu, apanhado de surpresa com a abordagem repentina do líder dos "Braços Caídos". Pelos vistos, não foi o único a sentir a presença imponente do homem de sorriso escancarado, pois Colin também endireitou as costas com a sua chegada.
Lop: "Então fico feliz por estares feliz."
Ri-se sozinho, antes de Colin se juntar a ele.
Lop: "Enfim, correu tudo bem?"
Fint: "Sim, a mochila não pesou tanto."
Lop: "E a neve?"
Fint: "Já esteve pior. De qualquer maneira, vai ficar é mau esta noite com os prenúncios da tempestade de amanhã."
Lop: "Tens razão. Mas também não deve afetar os nossos planos. Ah, e quanto aos teus pais?"
Perguntou, a curva que definia o sorriso a desvanecer-se ao de leve.
Fint: "Fiz como o senhor nos indicou. Menti a dizer que ia ficar fora na casa do Colin por uns dias."
Lop: "Boa. É que, como o Colin é teu amigo, não irá levantar suspeitas."
Disse, com o sorriso de volta força total.
Lop: "Enfim, vejo que estás bem encaminhado pelo Colin. Por isso, deixo-vos aos dois, ok?"
Fint: "Ok, senhor."
Colin: "Entendido."
Lop piscou-lhes o olho e foi ter com Megan no sofá, a fazer caretas para entreter o bebé no colo da mesma.
Saída a figura de autoridade de perto de ambos, Colin, visivelmente mais relaxado, remata em tom trocista: 
Colin: "Bem, ouviste o chefe. Segue-me, caloiro."
Fint riu, trazido de volta ao momento em que Colin o introduziu ao grupo dos "Braços Caídos". Entranhou-se de tal maneira na cena passada que se viu a dizer, enquanto assentia:
Fint: "Está bem, meu segundo mestre."

Quanto mais tempo passava dentro do clima abafado do chalé, com mais calor se sentia. Curioso, dado o facto de ter estado a estremecer de frio por todo o caminho até ali. O seu carro apenas o conseguiria levar até à fronteira entre o último espaço plano daquele monte e a inclinação derradeira rumo ao cimo. Era aí que os turistas paravam para tirar as suas fotos ou onde os alpinistas faziam as suas preparações antes de começarem a escalar.
Fint, tal como todos os outros naquela estrutura de madeira, não vinha com nenhum desses propósitos.
Mesmo assim, qualquer um que visse a maneira como Fint estava vestido, e presumidamente como todos os outros estariam vestidos para percorrer o trilho rumo ao chalé, diria que estavam ali com um intuito desportivo. Aquelas botas pesadas, o casaco gigante que deixava Fint a parecer um pneu ambulante, o gorro, as suas luvas, cachecol, a monstruosa mochila, tudo reforçava essa noção. 
Também deixava Fint com demasiado calor agora que se encontrava dentro das paredes de madeira do chalé.
Colin optou por começar o seu tour pelo andar de cima. E estavam ainda os dois a subir as escadas, quando Fint começou a desenrolar o seu cachecol e a tirar as luvas. Tinha passado um minuto desde que Lop os tinha deixado a sós para um visita guiada, mas um minuto foi o que bastou para Fint começar a sentir porque é que aquele tipo de edifício tinha sido criado especificamente para estes climas gelados. Ao que parecia, a madeira cumpria bem o seu papel a isolar a energia gélida de fora e a preservar o calor de dentro.
Colin: "Assim que te vi, também achei que estivesses a usar demasiadas camadas."
Comentou o homem à sua frente, a subir as escadas como ele próprio. Devia ter notado nos seus gestos poucos subtis à medida que se despia dos apetrechos que trouxe.
Fint: "Já sabes que todo o cuidado é pouco."
Colin abanou a cabeça em negação, acompanhado de um suspiro.
Colin: "Ai, ai, Fint. Não sei como, mas as tuas suerstições ainda me conseguem surpreender."
Eles chegaram ao andar de cima, subidos os restantes degraus. Diante deles destacava-se uma porta branca na parede do fundo que delimitava o limite do piso. Uma escolha de cores leves que se diferenciava das portas castanhas presentes tanto na parede da direita como na parede da esquerda.
Colin começou por guiá-lo precisamente no caminho da divisão do fundo. Abriu a porta, revelando uma casa de banho. Com um chão de madeira. Sanita e pia de porcelana limpíssima. Espelho posto acima da torneira. Apenas com um chuveiro de vidro a servir de barreira entre o espaço criado para tomar banho e o espaço feito para outras funções que não requiram estar molhado. 
Era uma boa casa de banho. Pena que não vá ser muito utilizada depois da manhã do dia seguinte.
Dali, eles passaram para as portas de cores pesadas, o que representavam todas as restantes divisões. A começar pelas do lado da direita. Colin estava mesmo disposto a dar-lhe uma visita completa e Fint agradecia, as suas costas assoladas pelo peso descomunal da sua mochila e vestimentas é que não.
Por isso, para ser sincero, não fixou muito dos detalhes daqueles quartos da direita. Lembrou-se do essencial deles, como o facto do quarto de Megan ter um berço para o seu filho, posicionado ao lado da cama da mãe. Ou do quarto de Drew, situado ao lado do de Megan, ter uma foto dos seus netos na mesa de cabeceira. 
Quando passou para os quartos da esquerda, os seus ânimos espevitaram e a sua atenção voltou por pouco. Não só pela sua consciência e Colin apontarem que faltava pouco para chegar à vez dos seus aposentos, como também por ter sido apresentado ao quarto de Lop e Mara.
Uma divisão vestida de cortinas carmesins perto da janela que pousavam uma aura sedutora pelo quarto. A cama era coberta com lençóis de um branco que se assemelhava ao do leite. Na mesa de cabeceira, um candeeiro de abajur nos mesmos tons rubros da cortina destacava-se. O tapete azul, a cama de madeira minimalista, a vasilha vazia, a vermelhidão do vermelho, tudo apontava ao facto daquele ser provavelmente o melhor quarto dali.
Quer dizer, também não podia esperar menos do líder do grupo.
A casa é de Lop, no final das contas. Ou pelo menos pertencia à família dele. Não o pode culpar por ter ficado com o quarto mais bem composto. Se Fint tivesse tido os mesmos previlégios que Lop, também faria questão de ficar com a sua mulher no quarto mais impressionante do chalé. Os outros que fiquem com os restos. Não que não sejam de importância, mas claramente não apresentam maior significância que as vontades do eu.
Contudo, pensando bem, ainda ficou de ver o último quarto.
Colin: "E aqui chegamos aos seus aposentos, meu senhor."
Falou em tom trocista, chegado à porta do último quarto a apresentar. 
Fint: "Não me digas que era assim que tratavas os hóspedes lá no hotel."
Colin: "Muito formal, não é? Também achei, mas não me deram ouvidos. Lá está uma das razões para não ter durado muito tempo naquele poço de snobes."
Fint riu-se.
Colin: "Contemple."
A manter o disfarce de atendente, Colin abriu a porta e revelou o quarto.
Fint não hesitou em entrar. E não demorou a entranhar o que os seus olhos viam.
Duas camas separadas semelhantes à de casal que Lop e Mara tinham no seu quarto encontravam-se no lado esquerdo a uma longa distância uma da outra. Por muito que estas duas fossem feitas para serem camas individuais. O extenso tapete cobria o chão e as pernas das suas camas, inclusive, delimitando a proteção daquele espaço.
A secretária à direita tinha alguns papéis, livros e um candeeiro barato que, ainda assim, tinha o seu charme. É claro que nenhuma daquela tralha devia ser de Colin, ninguém odeia mais ler do que ele. Provavelmente sejam evidências de atividades passadas, quando outra pessoa residia naqueles aposentos. Talvez até seja o familiar de Lop, o tal dono deste estabelecimento.
Mas deixemo-nos de comentários. Há uma coisa clara. Uma cama tem tralhas em cima e a outra está livre. O resto, o corpo de Fint que o diga. 
Este deixou as alças da mochila deslizar dos seus braços para cair em cheio na cama. Seguiu-se o seu casaco, cachecol, luvas e todos os aparatos que o desnecessariamente cobriam em meado ao calor descomunal do chalé.
Por fim, conseguiu algum alívio. Por fim, o seu corpo conseguiu respirar.
Fint: "Por fim, descanso."
Exclamou da boca para fora, a traçar com os dedos a marca deixada pelos agasalhos apertados na base do seu pescoço. 
Colin: "Fica à vontade. Foste tu quem sofreu mais no caminho."
Informou-o, a dirigir-se para as cortinas que Fint nem teve paciência de notar. 
Fint: "Desculpem não ter conseguido vir convosco. Estava ocupado com..."
Colin: "Tudo bem. Não importa. O que importa é que chegaste. E mesmo a tempo do jantar e de veres esta vista."
Com um movimento brusco, ele abriu as cortinas, mostrando a vista que os vidros expunham. Isso aliado à varanda que levaram Fint a deixar o queixo cair.
Colin: "O Lop e a Mara têm o melhor quarto. Mas, sabes que mais? Prefiro este. Ao menos temos uma varanda, somos os únicos com varanda."
Continuou, a observar o retrato diante de si. 
Fint logo se juntou a ele na admiração do presente. Na observação da paisagem branca, recheada, coberta, esmagada pela neve da noite. Surpreendente, acima de tudo, levando em consideração que a tempestade só virá amanhã e, ainda assim, a superfície já se encontra vencida pelas tonalidades brancas que a natureza lhes confere. 
A tempestade...estava longe...mas parecia tão próxima...
...próxima até demais.
Colin: "Ei, diz-me lá o que se passa."
Pressionou-o com um olhar reto para os seus próprios olhos. Só então Fint se apercebeu da posição cabisbaixa dos seus lábios e dos seus ombros.
Fint: "Er, desculpa?"
Colin: "Não finjas, meu. Eu conheço-te. Sei quando mentes. Sei que costumas ficar mais calado que o costume. Retraído. Pensativo. Como agora."
Fint suspirou.
Fint: "Colin, eu não sei o que te diga."
Colin: "E que tal a verdade?"
Colin virou todo o seu corpo a mirar em Fint. Contudo a deixar transparecer a subtileza amigável que permeava a sua figura naquele instante.
O homem recém-chegado suspirou. Quebrou o contacto visual, incapaz de manter intimidade com alguém com quem estava a fingir honestidade nestas recentes interações. Fint foi descoberto. Continuar a farsa não era opção. Por isso, prefere confessar sem grandes compromissos, de olhos postos no chão.
Fint: "Colin, achas que vai dar certo?"
Disse, em tom baixo. 
Colin: "O ritual? Não tens que te preocupar com isso. O Lop certificou-se que os rumores são verdadeiros, Fint. Vai funcionar."
Fint: "Não é isso. É outra coisa que me preocupa."
Colin: "Dificilmente irá continuar a preocupar-te. Presumo que será impossível haver preocupações após a morte, meu amigo."
Ele pousou a mão no ombro do seu amigo inseguro. A sua reação foi mínima, com um leve erguer da sua cabeça. Mal Fint sabia que era isso o que Colin pretendia.
Colin: "O Lop planeou tudo. Nós temos um plano. Resta segui-lo. Depois, será segundo a vontade daquilo. Nada nos sobrará para fazer senão esperar o seu julgamento. Afinal, foi por ele que aqui viemos, em primeiro lugar."
Fint: "E se não for isto o que eu quiser?"
Perguntou, tímido.
Colin limitou-se a esboçar um sorriso e a responder:
Colin: "Nesse caso, eu responsabilizo-me. Fui eu quem te introduzi a estas pessoas. Seria justo ser eu a pagar pelo erro que mesmo que indiretamente tenha causado."
Fint compôs um sorriso a imitar o do seu amigo.
Colin: "Vá, limpa esses pensamentos negativos. Vamos focar-nos na torta de carne à nossa espera lá embaixo, ok?"
Fint: "Sim, acho que aguento um sacrifício desses."
Colin: "Fogo, que terrível uso de ironia."
Fint: "Já devias saber que ia ser assim."
Colin: "Erro meu. Bem, vou ver é se não cometo outro erro ao deixar os outros comerem a torta na minha vez. E tu devias ir fazer o mesmo."
Concluiu, a dar-lhe uma palmadinha no ombro com a exata mão que estava pousada ali durante toda a sessão de aconselhamento.
Colin virou as costas a Fint de peito erguido. Como sempre, confiante. Determinado a traçar aquele caminho, ciente dos custos dele. Disposto a fazer os sacrifícios para vencer.
Colin: "Vejo-te lá embaixo, Fint."
Mal ele saiu do quarto para traçar o caminho de regresso ao andar de baixo, Fint sentiu uma ponta de inveja no seu coração por não poder ter a mesma sorte que ele. Por não ser capaz de ter a certeza se aquilo era o que queria. Se fez bem em ter vindo até ali. Em ter seguido as palavras do grupo.
Sentia-se incompleto por não conseguir sentir aquela confiança.
Fint tornou novamente para a janela. Cravou o olhar não na varanda, não na paisagem coberta de neve e sim na colina ao fundo. 
O verdadeiro propósito desta viagem.
O destino final de todos aqueles que repousavam agora no chalé.
Restava era Fint decidir se iria juntar-se à tempestade ou se iria lutar contra ela, mesmo que em minoria.

Ia Fint a descer as escadas até que, a meio, parou, surpreendido com a algazarra. Naquela altura, tinha vestido uma camisola grossa de pijama azul que combinava com as suas calças que lhe chegavam aos calcanhares. Achava que devia vestir algo acolhedor para condizer com o clima acolhedor do andar de baixo.
Certo?
Bem, nem tinha descido todos os degraus e já conseguia perceber que tinha feito o julgamento errado.
Drew e Megan ainda estavam no sofá, entretidos pela televisão que parecia debitar notícias deprimentes que apenas deviam justificar a decisão deles de ter vindo aqui. A rajada de informação da televisão sobre uma mesa de de madeira descontentavam o já habitualmente resmungão Drew. Mesmo Megan, a baloiçar a criança nos seus braços numa tentativa de o embalar, torcia os lábios em negação.
Lop continuava a implicar com Mara, como indicado pela gritaria enérgica na cozinha. É claro que não cabia a Fint ou a nenhum dos outros meterem-se nos assuntos do casal, mas, se lhe perguntassem, Fint diria que as mudanças de Lop eram desnecessárias. A torta era boa como era. Desnecessário seria mudar essa combinação vencedora.
Mara: "Sabes que mais, isto está bom! OUVIRAM? PODEM VIR COMER!"
Os gritos de Mara provaram-se mais poderosos que os do marido. Dava a entender que ela tinha levado a melhor, contudo isso seria entrar em espaço de teorias.
Colin: "Fint. Estás aí. Anda, vamos comer."
Chamava Colin, da base das escadas, onde ele se encontrava no momento. Ele advertiu-o e seguiu direto para a cozinha. Não deveria mesmo querer perder a sua última vez a comer a comida de Mara.
Fint seguiu-o, uns intantes atrás. De ambos os seus lados, juntaram-se Drew e Megan com o seu bebé, na curta caminhada rumo à cozinha do fundo.
Colin sentou-se numa cadeira aleatória daquela mesa circular que marcava os limites entre a cozinha e a sala de estar. Fint seguiu-se, escolhendo um lugar à esquerda do de Colin. Megan e o bebé, por sua vez, sentaram-se do lado livre de Fint. Drew foi o último a sentar e decidiu tomar lugar longe de Megan e do conglomerado que se formava numa das metades do círculo ao pegar na cadeira à esquerda de Megan e a puxá-la para o lado da seguinte cadeira vazia.
Colin: "Parece que o velhote não gostou das notícias."
Sussurrou Colin, o único entre Megan e Fint que soltou um comentário ao invés de se limitar a franzir a sobrancelha.
Lop: "Ora, ora, pessoal, espero que estejam bem."
Lop chegou com o seu sorriso brandido sem a menor das preocupações. Chegava a criar um contraste com o aparente clima efusivo que ambientava a cozinha há pouco tempo. Apesar de tudo, a sua autoridade era clara, pelo que bastou o mesmo assentar as mãos na cadeira antes de se sentar para todos acenarem com a cabeça e afirmarem com risos e sorrisos as preocupações do líder.
Colin: "Estamos todos bem."
Megan: "Graças a esta boa casa que nos dêste." 
Drew: "Tem tudo funcionado."
Até o velho rabugento fingiu um contentamento inexistente.
Lop: "E tu, Fint?"
Perguntou o líder dos "Braços Caídos", sentado ao lado de Drew, na extremidade oposta da mesa à de Fint.
Fint: "Ah, bem. Não tenho reclamações também. Sim, esta casa é excelente. Tem tudo e mais qualquer coisa."
Lop acentuou o sorriso no canto da boca.
Lop: "Ainda bem que gostas. Na verdade, ainda bem que gostam."
Ele partilhou um olhar ternurento com cada um dos presentes.
Lop: "Sei que estamos a chegar perto do fim, por isso achei condizente dar-vos o melhor. Como um presente por serem o melhor grupo que eu podia ter pedido. Sem vocês, o grupos 'Braços Caídos' não seria metade do que é."
A criança no colo de Megan murmurou algo na sua voz aguda, uma vez acordado pelo barulho da coversa.
Lop: "Sim, até o Filo está incluído."
Os seus seguidores riram-se em uníssono. Fint também se viu quase obrigado a forçar uma risada dissimulada.
Mara: "Cuidado, está quente!"
Do fundo da cozinha vinha a mulher de Lop com a travessa da torta numa mão e uma pilha de pratos com talheres e guardanapos no outro. Se não fosse pelo passado dela como ajudante na cozinha de um restaurante, algum deles teria se levantado para a ir acudir. 
Mara: "Finalmente, a grande torta, após algumas...divergências na sua confeção."
Disse a pousar a travessa, rematando com um olhar descarado direcionado a Lop que reagiu com o mesmo sorriso.
Mara seguiu a distribuir os pratos com uma rapidez surpreendente. Acoplando um conjunto de prato, talheres e guardanapo por cada um dos participantes na roda. A começar por Colin, seguido de Fint, Megan, Drew e, quando ia chegar na vez de Lop, esta pousou o conjunto dos mesmos apetrechos no seu próprio lugar de cadeira ainda vazia. Só depois é que serviu o marido enquanto se sentava. Uma pequena vingança pela disputa.
Mara: "Pronto, podem servir-se."
Lop: "Sem os copos?"
Mara: "Raios, os copos!"
Exlamou a levar as mãos à cabeça.
Lop: "A tua sorte é teres um bom marido ao teu lado."
Disse, a levantar-se antes que ela o fizesse. Mara ainda ia tentar impedi-lo, mas percebeu que ele já estava na dispensa quando o se preparava para falar.
Mara: "Ah, aquele homem..."
Disse a acompanhar um suspiro, a voltar a cara para os que a acompanhavam na mesa.
Megan: "Faz-me lembrar o meu ex-marido com a velocidade com que consegue mudar da faceta de marido irritante para marido útil."
Mara: "Oh, nem fazem ideia do quanto ele me irrita." 
Megan: "Mas, no fim, acho que são essas discussões que iremos recordar com mais afeto, não é?"
Mara: "É, talvez."
Confessou, em relapso. O clima ficou pesado, de súbito. Ainda por cima com todos eles a observarem Mara e a sua face a fechar-se numa linha sisuda que indicava a viagem da sua imaginação a um lugar a que ainda não tinha chegado, a que só ia chegar amanhã quando m-
Lop: "Não é 'talvez'. É de certeza. Nem penses que te vais livrar da minha cara, mulher. Nem na morte!"
Interveio com uma torre de copos chegada ao peito, atraindo a atenção de todos.
Todos eles que puseram os lábios erguidos na forma do sorriso que Lop também transportava.
O líder dos "Braços Caídos" distribuiu os copos um a um, reservando um para si por último.
Lop: "Ok, agora sim."
Disse, a sentar-se.
Só que...
Fint: "Erm...por acaso têm água?"
Megan, Mara e Colin arregalaram os olhos. Drew rosnou. Quanto a Lop-
Lop: "Merda! Tens razão!"
Mara: "Estamos mesmo fora de nós hoje, não estamos?"
Comentou Mara a fazer um esforço visível para não se desmanchar em risos, segurando na única mão do marido que não foi erguida para o ar com a surpresa da realização. Da mesma realização que era partilhada por aqueles à mesa. Nenhum dos quais se lembrou daquele elemento supérfluo porém essencial.
Exceto o próprio Fint. 
Fint: "Ah, d-deixem para lá. Acho que todos estamos com mais fome do que sede, de qualquer modo."
Lop: "Penso que sim. Bem, então vamos lá a isto."
Os outros acenaram a cabeça em confirmação. Todos em sintonia quanto a como proceder. E todos queriam prosseguir com a refeição que há tanto andava a ser adiada quer por problemas na sua confeção, quer por esquecimentos estúpidos. Para além disso, faminto como estava, Fint também não podia reclamar quanto a receber uma fatia da torta de carne de Mara.
Mas era inegável o clima estranho que se tinha formado ali.
Não era por Drew andar rabugento, porque rabugento é o seu estado de espírito habitual. Não era por Lop andar com um olhar mais atentivo a tudo e todos. Não era por Mara andar esquecida. 
Era por todos andarem esquecidos menos Fint.
Todos eles estão com a cabeça noutro lado. Com a cabeça em algo que ainda não veio. Com a cabeça no futuro. Com a cabeça a imaginar o que vai acontecer amanhã.
Fint era o único com a cabeça no presente, e tudo por causa da grande dúvida que paira na sua cabeça, contradizendo a aparente determinação dos restantes presentes: se quererá o que lhes irá acontecer.
No entanto, a sua mente foi tranquilizada. Graças ao jantar, conseguiu focar as suas energias em apreciar uma refeição tão bem como repô-las. O que bem precisava tendo em conta o caminho tortuoso na subida e as dores nas suas pernas.
A torta sabia exatamente como se lembrava. Saborosa, recheada de especiarias que explodiam vida dentro da sua boca. Segundo o que Mara lhe contava, ela polvilhava a massa e a carne com uma infusão especial de pimenta e sal (com uns ingredientes adicionais que ela nunca revelou de modo a manter o secretismo da receita), o que favorecia a massa estaladiça da crosta exterior e beneficiava o recheio que ganhava novas dimensões com cada dentada.
Mara insistia em fazer esta torta em quase todos os encontros do grupo. Não era a primeira vez que Fint, Colin, Drew, Megan e que Lop, este acima de todos, a comiam. Ainda assim, as suas reações abençoadas davam a entender que se deliciavam como se fosse a primeira garfada. 
É estranho pensar, porém, momentos como estes, evaporarão a partir de amanhã. Tudo se reduzirá a nada. Os seus sonhos fracassados de fazer algo produtivo para o mundo que não trabalhar no "Ambrus". Família que deixou em casa na falsa esperança de que um dia voltará. Amigos, alguns dos quais terão os seus momentos finais ao seu lado amanhã. 
Tudo está destinado a acabar, mas será que estará disposto a desistir quando sabe o que vem?
Passados os momentos iniciais de silêncio passados a mastigar a comida e a saciar a fome negra que tinham, as pessoas à mesa pouco demoraram para se envolverem em conversas. Mara começou a fazer algumas perguntas a Megan sobre como ela tratava da dieta do filho que também era alimentado com porções da torta, o máximo que um bebé da idade dele tem apetite para digerir. Colin tratou de saber mais sobre a casa a Lop, que passou talvez demasiado tempo a explicar a linhagem da sua família e sobre como este chalé que pertencera ao seu tetravô foi passada ao seu trisavô, daí para o seu bisavô que a passou para o seu avô até chegar ao seu falecida pai que a passou para ele nos seus últimos laives de vida. E Drew, por muito que fingisse desinteresse, ouvia bem atentamente esta conversa.
Lop: "É verdade. Já que estamos aqui todos, quero informar que amanhã não poderei tomar o meu último pequeno-almoço em comunhão convosco, por muito que me custe."
Irrompeu, no meio da conversa sobre imobiliários.
Fint e Megan pararam a seguinte garfada na borda do prato. Os outros cerraram o olhar, prestando atenção ao que era dito.
Lop: "Por volta da madrugada desta noite, vou ter que partir para o alto da colina."
Drew: "Tão cedo?"
Perguntou, sem conseguir mascarar a intriga.
Lop: "Não se preocupem, eu não vou morrer sem vocês. A promessa permanece: o grupo 'Braços Caídos' vai morrer em conjunto."
Disse, a beber um pouco de água, que, entretanto, Mara trouxe do frigorífico assim que Colin se engasgou depois de falar enquanto mastigava.
Mara: "Sabes, era bom se me tivesses avisado mais cedo. Tudo bem estares a avisá-los agora, mas acho que A TUA MULHER teria algum interesse em saber, não é?"
Replicou, sarcasticamente a esfregar as costas da sua mão nos nós dos dedos de Lop. Pode ter sido impressão sua, contudo, naquele momento, Fint jurou ter visto Lop a estremecer ao de leve com a intimidação da mulher. É preciso coragem para enfurecer a Mara.
Lop: "E eu peço desculpa. Irei compensar-te devidamente pela inconveniência."
Respondeu, segurar na mão de Mara. Ela também respondeu, a rematar com um olhar sedutor bastante descarado que deixou o clima...estranho...para todos os presentes que se reclinaram nas cadeiras, sentindo-se a mais ali...até Colin intervir.
Colin: "Certo...erm, já agora, o que é que vais lá fazer ao certo?"
Lop tossiu, mudando de tópico.
Lop: "Claro. Bem, vou fazer algumas preparações para o ritual."
Drew: "Pensava que isso já tinha sido tratado."
Cuspiu Drew, de braços cruzados.
Lop alargou o sorriso.
Lop: "E de certa forma tinha, meu sisudo Drew. Antes de vos ter sugerido a ideia, já tinha cá vindo a esta casa para fazer pesquisas sobre o mito."
Fint: "Então esta ideia anda na sua cabeça há muito."
Lop: "Até antes de vos ter contado."
Confirmou, a acenar com a cabeça.
Mara: "Não se preocupem. Disto eu já sabia. Vim aqui com ele nessa vez e tudo. E ele contou-me a ideia uma noite. Na véspera da reunião em que vos fez o anúncio."
Megan e Colin riram-se. Drew dispensou essa cortesia. Fint também, mas mais pelas implicações daquela sugestão do que por qualquer outra coisa.
Então, Lop reverteu o seu sorriso a uma linha formada pelos seus lábios.
Os membros do público até ficaram mais tensos nos seus assentos com a súbita apreensão.
Lop: "Mas é verdade. Já andava com alguns pensamentos a borbulhar na minha cabeça. Pensamentos que todos vocês também devem ter. Ideias de morte. De ânsia por um fim. Para escapar à vida. A este mundo."
Ouviu-se a respiração pesada de Drew na curta pausa que Lop fez questão de fazer para depois continuar, agora que todos estavam com os ouvidos apurados, incluindo a sua mulher.
Lop: "Estava era com dúvidas sobre como o fazer. Esperava que o mundo rebentasse?"
Lop mirou o olhar em Drew.
Lop: "Ia procurar meter-me propositadamente em problemas?"
Passou a olhar para Mara, com um leve tom de ternura na sua voz.
Lop: "Despedia-me de todos?"
Daí para Megan, a segurar num bebé que cresce gradualmente inquieto pelos intervalos de silêncio.
Lop: "Suicidava-me?"
Para Colin.
Lop: "Ou esperava que os problemas viessem ter comigo?"
Em Fint.
Lop: "Acho que o mundo escolheu por mim antes que sequer pudesse conjeturar algo. E veio na forma de burburinho, das notícias que relataram um caso de desaparecimentos consecutivos nesta zona. Mais especificamente, de pessoas que escalaram a colina ao pé deste chalé e que nunca voltaram."
Ele levantou-se da cadeira.
Lop: "E bastou uma faísca para criar o incêndio em que nos encontramos agora. O incêndio que, amanhã, culminará numa explosão."
O líder do grupo imitou o som de uma explosão.
Lop: "Vá, admitam lá. Até estive bem com esta apresentação, não estive."
De um momento para o outro, o silêncio transformou-se numa onda de risos e sorrisos. O tom pesado e interpessoal do clima a dissipar-se para dar lugar a uma familiaridade que já era habitual.
Lop: "Não vou mentir, o começo saiu-me um pouco da boca para fora, mas daí fui apanhando a corrente e até que ficou bem, não ficou?"
Ponderou, a sentar-se em meado a um frenesim de jubilos incompreensíveis.
Fint apenas conseguiu ouvir os comentários que Colin e Megan soltaram no meio das risadas desenfreadas daqueles presentes (incluindo daquele velho rabugento).
Colin: "Tu és mesmo diferente, Lop!"
Megan: "Sim, essa foi boa."
Ela comentou, se bem que permanecia a questão se foi algo que disse apenas para se juntar ao resto do grupo enquanto se preocupava verdadeiramente com o bem-estar da criança cada vez mais inquietada com o flutuar entre momentos de silêncio e momentos de grande agitação.
Lop: "Aposto que devem estar gratos com esta minha tentativa humorística."
Continuou a falar, aproveitando o barulho decrescente.
Lop: "O que serve de transição perfeita para fazermos os nossos agradecimentos, aproveitando que agora sabem que esta vai ser a minha última refeição convosco. A última reunião de grupo dos 'Braços Caídos', de certa maneira."
Mara acenou a cabeça com entusiasmo. Foi ela quem inclusive levantou o seu próprio copo no ar em apoio ao marido. Mas não era necessário chegar a esse ponto. Havia um consenso entre todos os membros do "Braços Caídos" que, se o Lop queria algo razoável, ele haveria de o ter.
Drew: "Ah, já que insistem, eu começo."
Disse num resmungão, por muito que ninguém tenha insistido e ninguém tenha desejado que ele começasse.
Drew pegou no seu copo e levantou-o, exibindo-o ao alto.
Drew: "Portanto, eu agradeço por me terem feito companhia mesmo após a morte do meu filho e da minha mulher."
Cuspiu numa voz sincera, tomando um gole da água e pousando o copo uma vez terminada a confissão.
Lop e Mara uniram as mãos de novo com um afeto amplificado pelo amor que transparecia na constatação do velho rabugento que finalmente deixava de fingir ser alguém tão mau quanto o mundo que habitava. Ali, pela primeira vez, a revelar que, lá no fundo, é uma pessoa como todos eles. Eles que se deixaram tocar com as palavras dele, com Colin a reagir com um olhar sincero e Megan a responder com um suspiro de carinho acompanhado com a satisfação materna de ter conseguido apaziguar o bebé.
Fint é que aparentava ser o ser sem-coração o suficiente para destrinchar aquelas palavras com a razão ao invés de apenas senti-las com o coração.
Lop: "Obrigado, Drew. Agradecemos os teus agradecimentos. Raros agradecimentos, diga-se de passagem. E seguimos para..."
Mara: "Posso ser eu."
Proclamou a levantar o seu copo. Clareou a garganta e ela, a mulher do lado de Lop, com um braço erguido e o outro pousado na mão do marido, tomou a sua vez:
Mara: "Eu quero aproveitar para agradecer todos os vossos elogios. A vossa bondade. Essa característica que é dificilmente encontrada neste mundo que estamos tão cansados de saber pelas nossas sessões de discussão e reuniões que está corroído até ao núcleo."
Deu um gole da água e pousou o copo.
Mara: "Por sinal, os elogios a que me referia eram maioritariamente relacionados com o vosso feedback da minha torta que eu bem sei que adoram. E isso deixa-me muito feliz."
Admitiu, a baixar a cabeça com um sorriso idiota no fim. Lop, apercebendo-se da pieguice dos atos dela, deu-lhe umas palmadinhas fracas na cara em gesto de brincadeira. O que lhe ganhou umas risadas de Colin e de Megan, que nervosamente reparava nos murmúrios do bebé, e um grunhido...cómico de Drew. 
Colin: "Bem, acho que não me importo de continuar a tradição."
Repetiu o mesmo gesto que envolvia erguer o copo no ar e fez o seu sermão:
Colin: "Nesse caso, quero agradecer-vos a todos me terem aceite de braços aberto. E, bem, acho que isso também se encaixa a todos aqui, mas especialmente comigo e com o meu amigo."
Naquele instante, Colin rematou com um olhar na direção de Fint, que fez de tudo para parecer envolvido no momento e não nos seus pensamentos.
Colin: "Quando vim ter convosco depois de ter perdido o meu emprego como atendente de hotelaria após um erro que...não se enquadrava com os padrões de qualidade do 'King's Inn', vocês pouco quiseram saber de quem eu era. Do que eu sabia, de onde vinha ou de o que pretendia. Vocês aperceberam-se que eu vinha literalmente de braços caídos, com a fé no mundo perdida. E abraçaram-me, acolheram-me e fizeram por me entender, apercebendo-se que, tal como vocês, acreditava que este mundo estava repleto de erros."
Ele deu um pequeno gole e pousou o copo, sério, concluindo:
Colin: "Creio que é isso o que mais levarei deste grupo."
Disse, a forçar um sorriso.
As conotações pessoais da sua declaração levariam a outro momento de silêncio. Algo que já se estava a tornar comum nesta última refeição em grupo. O que valeu foi Lop com a sua vontade incessante de controlar o ambiente.
Lop: "Obrigado, Colin. Foi muito gentil da tua parte. Dito isto, penso que poderíamos passar a palavra à próxima pessoa. Talvez a Megan. Se não se importar, claro."
Disse a matar o silêncio constrangedor que voltaria, ao invés disso voltando as atenções todas para Megan.
Megan: "Oh, eu? Bem, er, ok. Posso ser eu. Não me importo."
Ela ajeitou a cabeça de criança ao seu peito, balançando-o para cima e para baixo de modo a tentar embalá-lo em meado a uma constante agitação da sua parte.
Megan: "Er, eu quero agradecer por todos terem me ajudado a cuidar aqui do Milo. Que eu sei o quão chato pode ser. Quer dizer, mesmo agora está a inquietar-me."
Megan parou de embalar o bebé por um segundo e olhou-lhe nos olhos.
Megan: "Mas tenho de admitir que ele é a minha razão de ser."
Lágrimas começam a formar-se no canto dos olhos dele.
Megan: "É, mesmo quando começa a fazer birra."
Todos acenaram. Lop e Mara até bateram palmas. Pelos vistos, não houve ninguém que não tivesse gostado da intervenção de Megan. Até Fint achou carinhoso.
Lop: "Obrigado, Mara. Já que estamos nesta onda, posso aproveitar para me juntar. Sim, posso ser eu o próximo."
Coincidiu com o momento em que o bebé de Megan começou a chorar.
Megan: "Oh, vá lá, rapaz. Não chores..."
A ignorar o distúrbio da criança e as carícias que Megan fazia ao filho para o acalmar, Lop virou-se para a televisão. Esta que continuava a tocar embora num volume menos alto de modo a não perturbar o fluxo das conversas à mesa.
Lop: "É curioso, na verdade. Como a televisão consegue ser o espelho que revela a podridão deste mundo. O quão miserável é."
Continuou, olhos cravados na tela distante da televisão que falava sobre outro recente tiroteio em Nova Iorque resultante das altas taxas criminosas.
Lop: "Achava que era maluco por pensar que este mundo, esta vida não valia a pena ser vivida se teríamos que aturar com estas idiotices para todo o sempre."
Girou a cabeça, encontrando o rosto da mulher sentada, abaixo de si.
Lop: "Pouco depois percebi que não era o único que possuía um amor ao ódio deste planeta."
Mara tocou com a mão na bochecha a tentar tapar os tons rosados que tinham lá surgido.
Lop: "E umas semanas a seguir, reuni todo um grupo de pessoas que pensavam o mesmo que eu. Que ninguém deve viver num mundo de guerras, doenças, tiroteios, roubos, injustiças, fome e de eventos trágicos inexplicáveis, como incidentes em minas ou assassinatos em série no Japão. Pessoas que percebiam que não valia a pena viver aqui."
Levantou os braços.
Lop: "E aqui estão vocês, meus membros dos 'Braços Caídos'. Todos nós reunidos para morrer antes que toda a arquitetura do mundo se antecipe em nos assassinar."
A sua cara virou-se para todos, envolvendo-os na sua discussão.
Lop: "E tudo nos levou até aqui. Um grupo unido pelo desdenho do mundo. Determinado em acabar com tudo."
Lop baixou os braços e sentou-se lentamente.
Lop: "Acho que é essa a minha gratidão para convosco."
Ouviram-se alguns suspiros vindos de Mara e Colin, captados pela paixão do líder dele à causa. Drew sorriu, apesar de tentar escondê-lo a coçar a cara. Algures, a birra do filho de Megan ainda podia ser ouvida, mas já parcialmente dissipada. As crianças podem ter muita energia, contudo, rapidamente se cansam.
Tal como todas as refeições devem chegar ao seu fim. Especialmente esta. Com todos os envolvidos com os talheres pousados e unidos na borda dos pratos. A torta toda comida, sobrando apenas as migalhas na travessa em que veio e nos pratos em que as suas fatias foram distribuídas. 
E com o grupo dos "Braços Caídos" a terminar a sua reunião fina-
Lop: "Fint, queres dizer os teus agradecimentos?"
Fint arregalou os olhos. Lop, Mara, Colin, Drew e Megan voltaram-se para ele. Em grande expectativa. Prestes a ouvir os agradecimentos da última pessoa que faltava.
Lop: "Os outros devem ter tido tudo, mas, já que só faltas tu, e dado o facto de estarmos na nossa última refeição em grupo, mais vale dar a oportunidade a todos. Até aos mais calados." 
Finalizou a destacar mais uma vez o seu sorriso. Enjoativo sorriso. Sorriso que, naquele momento, para Fint, ganhava retoques maliciosos.
No entanto, se maldade existia nele, também parecia ter a sua semente plantada nos outros.
Colin: "Este Fint sempre foi muito quietinho."
Disse a dar-lhe umas palmadas amigáveis nas costas.
Mara: "Deixa. Ele sempre foi mais do tipo que observava e processava tudo em silêncio do que do tipo que intervinha a cada segundo com perguntas e comentários."
Megan: "Mas não te acanhes. Pelo menos só nesta vez."
Dirigiu-lhe a palavra, a balançar a criança de olhos cerrados, à beira do sono, de um lado para o outro.
Drew: "Pode ser. Não me importo."
Lop: "Mas não te pressionamos. Falas se quiseres, Fint."
O rapaz em questão endireitou as costas, tenso com a chuva de atenção que lhe estavam a dar. 
Um pouco contraditório. Querem deixá-lo à vontade para decidir se responde ou não. E fazem-no ao pressioná-lo com olhares e palavras supostamente pacificadoras que lhe dizem precisamente o contrário.
Sim, isto é que é dar a escolher...dar a escolher quando só há uma opção em cima da mesa.
Lop: "Sem stresses, Fint. Quando quiseres."
Reiterou, a sua voz a romper o véu de silêncio que tinha estado a cobrir a atmosfera até agora.
Fint: "S-Sim, eu vou fazer os meus agradecimentos."
Improvisou, a acenar a cabeça num falso sentido de segurança.
Lop acenou do mesmo modo, passando-lhe a palavra.
Debaixo da mesa, os dedos de Fint entrelaçavam-se assim que a sua boca começou a falar:
Fint: "E quero agradecer...er, agradecer a todos vocês. A todos vocês por me terem...ajudado ao longo deste percurso, desta jornada repleta de lixo a que chamamos...vida."
Silêncio.
Drew tossiu.
Percebendo-os insatisfeitos, Fint continuou:
Fint: "Amanhã...tudo acabará...felizmente, quero dizer...sim, é felizmente que tudo...tudo acabará. Morreremos juntos, nas mãos da criatura da colina. Nas mãos do mesmo mal do mundo que tanto criticamos. Porque até na morte vamos provar que o mundo é a perdição de todo o ser humano. E que é apenas uma questão de tempo até ele nos matar a todos. Agora não percebem. Podem existir pessoas que não percebem. Uns quantos deles, uma boa porção deles, uma grande parte, na verdade. Mas...sinto que...se nos ouvissem...é...iriam juntar-se a nós."
Fint calou-se.
Ele sorriu, a tentar imitar o gesto que, neste ponto, era característico do grupo. Que devia deixar todos confortáveis. Não perdurar o silêncio já interminável.
Fint: "..."
Lop: "Bem, obrigado pelo teu discurso, Fint. Acho que são palavras que todos nós partilhamos de uma forma ou de outra."
Disse numa parabenização dissimulada em meado às sobrancelhas franzidas dos restantes ali presentes.
Fint: "S-Sim, obrigada."
Fint baixou a cabeça e fixou os olhos na toalha de mesa, completamente recatado. Pior que isso, envergonhado. Ao tentar assimilar o seu pensamento ao deles, passou o contrário. Deu a entender que não entendia aquele grupo. De que não sabia o que estava ali a fazer.
O que é verdade.
Megan: "Tenho uma pergunta, Lop. É mais um detalhe, mas, que seja..."
Lop: "Força."
Replicou, surgida a oportunidade de fugirem do clima constrangedor que se instalara.
Megan: "Quanto ao mito da colina, o monstro, o..."
Lop: "O Kaito."
Megan: "Isso."
Lop: "Ok, nesse caso, é alguma dúvida em particular?" 
Megan: "Conseguiste averiguar alguma coisa quanto ao ritual de invocação dele."
Lop: "Por acaso sim. Até porque não iria obrigar-vos a vir aqui, deixando entes queridos com desculpas esfarrapas falsas apenas para vos fazer perder tempo."
Colin, Mara, a própria Megan e Drew, se bem que sorrateiramente, soltaram um riso enérgico.
Lop: "Mas sim, brincadeiras à parte, não te posso culpar pela pergunta. Mesmo tendo feito a minha pesquisa toda relativamente ao mito, indo de pessoa em pessoa na cidade e nas redondezas da colina em busca de uma versão da narrativa que me dêsse as respostas definitivas a todas as minhas dúvidas, nenhuma delas mencionava a parte mais importante: como é que ele surge."
Lop assentou as mãos sobre a mesa, inclinando-se para a frente.
Lop: "Todos os relatos que vinham das bocas das gentes descreviam-no como um monstro irracional sem olhos ou piedade. Claramente pareciam relatos mais sensacionalistas do que os da televisão que, em comparação limitavam-se apenas a descrever o que acontecia, que era o desaparecimento sucessivo de pessoas que, por acaso, nunca eram vistas depois de pisar solo na colina."
Colin: "Olhem só! O Lop a elogiar a televisão!"
Lop: "Bem visto, Colin. Bem visto e bem tecido. Mas olha que, com isto tudo, descobei que havia um fundo de verdade nas línguas folclóricas, mais até do que na televisão, não que isso fosse uma conclusão a que não tivesse chegado antes para começar. E percebi que aquelas tagédias eram obra da criatura mítica de que tanto falavam. Ao menos, foi nisso que decidi acreditar. Pelo bem do nosso futuro, escolhi acreditar nesta possível salvação, por muito que pudesse ser falsa. Pois, ainda bem que não foi."
Fint franziu a sobrancelha. Mais ninguém estranhava a afirmação, eles acenavam e sorriam, levando-o a sentir-se perdido ali no meio. Ainda mais do que antes. Então, Lop cruzou olhares com ele.
Lop: "Não faz mal estares confuso, Fint. Foste o último a chegar, por isso é que ainda não te contei que já prestei a minha visita à colina. E verifiquei uma pedra circular no topo da mesma. Uma pedra manchada com tons de vermelho do que eu posso supor ser sangue. Sangue das outras vítimas dele."
O queixo de Fint caiu, sem este se ter apercebido.
Lop: "Os rumores e as histórias foram o suficiente para afugentar qualquer pessoa dali. Ou pelo menos qualquer pessoa sã da cabeça, porque, para além de nós, existem sempre outros malucos. Caso contrário, estas histórias não teriam origem ou fundamento. Nem me permitiriam confirmar que era preciso haver um sacrifício para o invocar."
Fint: "S-Sacrifício?"
Lop: "Não te preocupes. Não falo de sacrifício humano. Ninguém vai ter de dar a vida. Quer dizer, ninguém vai ter de se suicidar diretamente para tal. Considera-a mais como uma oferenda. Sim, foi assim que os raros relatos que dele falavam me descreveram."
Fint: "E de que tipo de oferenda estamos a falar?"
Perguntou, stressado, de garganta seca, a memte a rodopiar com as possibilidades.
Lop sorriu. Sorriu. Sorriu. Sorriu! SORRIU!!!
Fint: ".............."
Todos se calaram.
Em silêncio.
Todos a sorrir.
Fint: "..."
Lop: "Prefiro guardar o suspense. Mas acreditem: eu vou tratar disso, não se precisam de preocupar com mais nada. Apenas esperem até amanhã, até que comece a tempestade e mais ninguém se atreva a sair senão nós. E então, quando mais ninguém estiver lá fora, nós efetuaremos o ritual. E, num piscar de olhos, será como se nunca tivéssemos lá estado. O plano perfeito, a morte perfeita, que eu vou me assegurar que terão quando sair antes de vocês para fazer os últimos preparativos. É o mínimo que vos devo por me terem acompanhado nesta jornada, meus caros seguidores."
Colin assobiou e daí seguiu-se uma onda de aplausos direcionada ao líder sorridente que se rendia às comemorações. Mara levantou-se e foi de encontro a Lop, rendendo-se nos seus braços com um beijo. Foi isso o que conseguiu perceber no meio de uma dor de cabeça que lhe enchia os neurónios, assemelhando-se a aum aneurisma que muito provavelmente adulterou a verdadeira sucessão de eventos e a veracidade dos acontecimentos.
Mas se há algo que leva cono certeza é que os membros da ceia começaram a dispersar-se. A recolherem-se aos seus aposentos.
Drew. Megan e o bebé. Lop juntamente com Mara. E Colin após avisar Fint que estava cansado.
Fint.
Ele foi o único a permanecer na mesa a pensar nas implicações daquelas palavras. No peso do que estavam prestes a fazer.
Naquilo em que se foram meter. 

Já todos deviam estar a dormir.
Fint sabia que Colin estava. Ressonava, quando Fint recuperou controlo do corpo após ter terminado o seu raciocínio que o encaminhava à mesma estrada conclusiva de sempre. Como tal, em luta com os seus pensamentos que o deixavam incapaz de repousar na cama e adormecer, Fint seguiu direto para a varanda nem que fosse apenas para renovar as ideias.
Mal o fez, um sentimento de arrependimento espetou-se no seu peito. Seria isso ou o frio de rachar da neve? A neve, esse sinal da tempestade que se aproxima a cada hora, cada minuto, cada segundo, cada respiração que faz pela boca, resultando na saída de uma nuvem branca por entre os seus lábios.
A paisagem estava ainda mais branca do que da última vez que viu. E isso foi há umas duas horas atrás. O mundo deve estar até mais ansioso que o grupo dos "Braços Caídos" para que chegue a hora da invocação.
Da invocação daquela besta.
Lembra-se das entrevistas que a televisão insistia dar aos moradores locais desta região na procura de descrições sensacionalistas. Todas apontavam para um ser de características animalescas. Movido pelo instinto, pela fome. Com a sua cabeça...pontiaguda e...sem olhos...e ainda assim consegue ver e matar todos à sua frente para...os comer-
Colin: "O que é que estás aqui a fazer tão tarde?"
Fint olhou para trás e viu Colin de pijama às riscas com um dos seus pés cobertos com meias a pisar no chão de madeira da varanda. Nesta sua abstração enm deu pelo som de abertura da janela atrás de si que dava passagem à varanda.
Fint: "Bem, podia dizer o mesmo de ti. Pensava que já estavas a dormir."
Retorquiu, a transitar para um estado amigável e propício a uma conversa tranquila. Longe de estar pensativo e a contemplar o que o amanhã trará.
Colin: "E estava. Até terem começado a mover móveis a estas horas."
Fint: "Como assim?"
Colin: "Aqui podes não ouvir com estes ventos fortes, mas lá dentro pareces encurralado pelo ranger das camas e das mesas de cabeceira do quarto ao lado. É um horror para adormecer."
Colin chegou ao lado de Fint e debruçou-se no parapeito.
Fint: "O quarto ao lado é o do Lop e da Mara, não é?"
Colin: "Sim. O que é que tem?"
Fint: "Achas mesmo que eles estão a mover móveis a estas horas da noite?"
Colin piscou os olhos, numa expressão impossível de ler.
Fint: "Pensa bem. O Lop. A Mara. Namorados."
Colin inclinou a cabeça para o lado, a sua cabeça a fazer um esforço para alcançar aquilo que Fint dizia.
Fint: "Meu, isto é o último dia deles vivos. O último dia em que vão estar juntos. Se tu tivesses namorada neste momento o que é que farias?"
Colin: "Er, tentava aproveitar o tempo ao máximo, acho eu."
Fint: "E como é que o farias?"
Insistia, cotovelo a picar no ombro do amigo.
Colin: "Conectando-me com ela..." 
Fint: "Que seria através de..."
Colin: "De?"
Fint: "De..."
Colin: "Oh, que nojo!"
Disse, a pôr a língua de fora enquanto abanava a cabeça em completa negação. Em gesto de resignação face à realidade. Honestamente, a sua inocência ainda faziam Fint ganhar algumas risadas.
Colin: "Enfim, pondo a vida sexual do nosso líder de parte, devo dizer que tens andado um pouco estranho."
Fint: "Não tens frio com esse pijama?"
Colin: "Vês? Até estás a tentar desviar-te do assunto."
Fint repousou os braços no apoio de madeira sobre o qual Colin se inclinava. Os dois de olhos postos na paisagem. Acima de tudo, na colina ao fundo.
Fint: "A sério, não é nada de mais."
Falou, a sua voz num tom retraído e sério.
Colin: "Isso é o que dizes quando se passa algo de mais."
Fint: "Desculpa, mas não sei onde é que foste buscar que o meu comportamento está a ser estranho."
Colin: "Ok. E que tal começarmos por agora? Onde, ao invés de dormir, te metes aqui fora a olhar para a colina."
Fint: "O mesmo se aplica a ti. Ou não me digas que também não estás a olhar para o cume."
Colin: "Porque te quero entender."
Fint: "Não há nada aqui que valha a pena."
Colin: "Admite. Tem a ver com os teus pais. Arrependes-te de os deixar sem um filho amanhã."
Fint: "..."
Colin: "Ou sentes-te culpado por lhes teres mentido ao dizer que ias passar algum tempo na minha casa e não que irias te suicidar com o teu grupo de apoio emocional que provavelmente eles nem sabem que existe, quanto mais que tu fazias parte dele." 
Fint: "..."
Colin: "Trata-se de culpa. É, não é?"
Fint: "..."
Colin: "O que explica o facto de andares muito calado. Ocupado a processar tudo o que se vai passar, quem sabe até a ponderar se isto é o caminho a seguir."
Fint: "..."
Colin: "Fint, nós viémos ter com este grupo porque nos sentíamos perdidos. Desmotivados. Quer devido à perda de um emprego como eu ou devido a estarmos decepcionados com a vida, como inagino que tu estavas."
Fint: "..."
Colin: "Tu estavas nas sessões. Ouvistes as nossas discussões. Sabes quais foram os resultados de cada debate. Este é o caminho lógico a seguir. A solução do nosso problema é a morte."
Fint: "Como é que tu imaginas a morte, Colin?"
Perguntou Fint, deixando Colin perpelexo com a questão que surgiu de forma inusitada.
Fint: "Tenho a minha opinião, mas gostava de saber a tua."
Tornou a sua face na sua direção, fixando os seus olhos no rosto de Colin. Ele repetiu:
Fint: "Como é que imaginas a morte?"
Colin: "A morte?"
Fint: "Ela existe? Se há vida após a morte? Se se trata de uma entidade, de um ser-"
Colin: "Fint, não há muito que se lhe diga. A morte é...bem...a morte." 
Fint: "Portanto, ela existe."
Colin: "Existe. Mas é como um conceito. Não como uma pessoa. Um conceito que se manifesta fisicamente nos nossos últimos momentos de vida. Mais precisamente, no nosso último fólego."
Fint: "Interessante. Na minha opinião, a morte existe. Falar da morte é tratá-la como uma pessoa, é chamá-la de Morte com 'm' maiúsculo."
Colin passou a mão pelo rosto, com dificuldade em acompanhar.
Colin: "Certo, e como é que ela é?"
Fint: "Tem silhueta humana. Isso é certo. Quanto ao resto, parece-me um pouco arbitrário. Se é roxa, preta, azul ou vermelha como o sangue. Só a própria Morte deve saber, porque todos os que a encontraram nunca viveram para contar a história."
Ele virou-se na direção da colina, olhar cravado nela.
Fint: "Agora uma coisa te garanto. Nunca em mil anos teria imaginado que a Morte pudesse ter forma inumana. De uma besta sem olhos com fome de carne humana. E que habitasse..."
Levantou o seu braço, estendeu o seu dedo indicador, apontou para o cume do monte:
Fint: "Tão longe e tão perto de nós ao mesmo tempo." 

No dia seguinte, Fint acordou com frio. A tempestade fazia-se sentir. Mesmo através das paredes isolantes de madeira. Um verdadeiro testamento à potência da natureza naquela manhã. Ele ainda se andou a remoer na cama por um bocado antes de eventualmente aceitar a derrota na procura de um segundo sono e decidir levantar-se. 
E viu que Colin já se tinha levantado.
É verdade. Agora que repara, está a vestir os seus pijamas. Sempre chegou a trocar-se depois da conversa com Colin. Na verdade, depois de ter apontado para a colina, Colin recolheu-se. Fint ficou na varanda por uns minutos a mais, a pensar no que seria de si, negligenciando a saída abrupta de Colin sem uma palavra nem nada.
Deve se ter apercebido que não conseguia perceber o seu amigo que julgava tão próximo e tão semelhante a si mesmo. Fint queria provar-lhe o contrário. Queria mostrar que o seu amigo estava bem. Mas ele próprio era uma contradição ambulante. Quer parecer bem quando não está. Enquadra-se num grupo com quem sente já não se identificar mais. 
Junta-se à missão suícida deles quando, na verdade, quer é...
Fint: "Esquece."
Murmurou para si mesmo. Fint levantou-se e saiu do quarto.
Neste que seria o último dia da sua vida.
As suas últimas horas vivo.
No andar de baixo, estava uma conversa vívida. Megan, Mara e Drew falavam e soltavam piadas. Riam-se. Todos eles riam-se. Até mesmo Drew. Riam-se enquanto tomavam o último pequeno-almoço das vidas deles.
Numa mesa completamente suja. Repleta de migalhas de torradas bruscamente barradas com mel e compotas que trouxeram de casa até aqui. Drew comia os restos da torta do jantar. Já que esta era a sua última refeição, não havia de se preocupar com a sua saúde. Por isso é que Megan e Mara preferiam comer um pacote inteiro de batatas fritas da "Gains". Algumas delas eram dadas ao bebé, Milo que...
...pobre coitado...nem sabe o que aí vem...
Mas Lop já teria partido. 
E Colin não estava ali.
Fint sentou-se ao lado de Drew em meado à tempestade de risos que surgiu de súbito graças à conclusão de uma história de Megan. Ele notou que havia uma barra de chocolate recheada com caramelo e decidiu tomá-la como sua, aproveitando que ninguém parecia interessado nela.
Esta também é a sua última refeição. Não precisa de se preocupar se é saudável ou não.
Megan: "Aquele meu ex-marido era mesmo um idiota!"
Falou aos gritos no meio das risadas de todos, inclusive da sua.
Fint desembrulhou o chocolate e tirou uma mordida generosa, surpreendendo-se com a bomba de açúcar que poderia vir numa quantia tão ínfima.
Megan: "Ai, sabem que mais? Ainda bem que ele me traiu. Caso contrário nunca me teria encontrado convosco."
Disse, mais calma e com os risos contidos. Numa proclamação estranha, distópica, que mereceu um olhar lateral de Fint. Este que, neste ponto, começava a duvidar do que era realidade e do que era...
Fint: "Alguém sabe do Colin?"
Mara: "Está a tomar banho lá em cima."
Fint: "Ah, ok. Está bem."
Encolheu-se. Voltou a comer. Os outros voltaram a falar entre si, como se Fint nem ali estivesse. Como se fosse uma figura que não causa problemas nem benefícios. Um ser que existe. Que observa. E observa mal, porque não tinha ouvido o som do chuveiro quando saiu do quarto para descer e, no processo, passou junto à casa de banho. Muito menos se apercebeu de que todos ali estavam ainda de pijama. Como ele.
Mas Colin...Colin é que não estava mesmo ali.
Drew foi o primeiro a recolher-se, soltando alguns risos raros de presenciar, recuperando de um comentário cómico de Mara sobre Lop. O velho dirigiu-se à casa de banho. Pelos vistos, teriam decidido que ele seria o próximo.
Fint acabou de comer.
Esperou no sofá a ver a televisão. 
Mas não conseguia parar de pensar em Colin.
Não, Colin era o pretexto.
Pois ele estava mesmo a pensar em...
Mara: "O som do chuveiro parou. És o próximo, Fint."
Informou Mara, que observava as notícias da televisão em pé. 
Não se lembra de ter combinado isto. Porém, anuiu e subiu as escadas.
No topo, viu Colin agasalhado. Completamente vestido com um casaco de malha e umas calças laranjas a condizer com os sapatos e roupa no tronco.
Ele sorriu-lhe e desceu as escadas.
Fint parou ali mesmo, no topo.
Colin ainda era o seu amigo. Claro. Nunca duvidou disso. O que o preocupava era...
Ele livrou-se dos pensamentos. Seguiu em frente.
Tomado o banho, Fint decidiu vestir a mesma roupa que tinha levado ontem. Moda era a última das duas preocupações no seu último dia.
Colin não era uma das suas preocupações. Não, eles são amigos. Sempre foram amigos durante anos. Desde a escola. Não haveria de ser hoje, no último dia vivos, em que deixariam de ser, e especialmente não haveria de ser por causa de uma conversa estranha que Colin com certeza não percebeu, contudo...
Fint desceu lá para baixo. 
Sentou-se no sofá de novo. Ao lado de Colin. Os dois conversaram. Falaram sobre qualquer coisa que não se recorda. Recorda-se, no entanto, de ter feito um esforço para parecer natural. 
Para tentar fazer conversa ao mesmo tempo que a sua mente se recolhia no cantinho da cogitação.
A conversa de ontem repetia-se na sua cabeça. Os detalhes. Pormenores que pouco diziam senão o que sabia. A confusão de Colin. Colin não concordava com o que dizia. Não, ele nem compreendia. Não compreendia como é que Fint poderia estar a perguntar sobre o dia de amanhã. A esclarecer as suas dúvidas na véspera, logo quando, no ponto de vista de Colin, não havia nada a questionar. Morrer fazia parte do...
Megan desceu com o filho nos braços. O bebé igualmente acasalhado quanto a mãe, vestindo cores vermelhas condizentes. Conseguia dizer o mesmo de todos os outros, com casacos de peles moderadamente caros. Sapatos de couro de marca. Cachecóis que lhes seriam arrancados do pescoço daqui a minutos.
Mesmo assim, uma pessoa tinha de ir bem vestida para o seu funeral.
Eles saíram do chalé antes do meio-dia. Àquela altura, o céu estava escuro. Ou aparentava estar escuro, uma vez que a neve caía como se de uma chuva de pedras se tratasse. Em quantidade. Em peso, impedindo o vislumbre do sol.
Mara, a quem Lop deixou as chaves antes de ter partido na madrugada, fez questão de deixar tudo fechado. Aquela casa poderia já não vir a ser habitada por ninguém, mas Lop tinha insistido que queria certificar-se que a memória dos seus antepassados ficava intacta. Aquela cabana sobreviveu durante geração, era o que faltava ser Lop aquele que fosse arruinar os dados.
Cobertos da cabeça aos pés, de mochila às costas, eles partiram. A trazer tudo o que queriam para a execução nas mãos da criatura. Drew mal pode esperar por esse momento, uma vez que nunca ninguém o viu tão sorridente. Tão...pronto. Pronto. Prontos estavam todos.
Drew, é claro. De Lop nem se falava. Mara também. Megan. Até Colin.
Sim, ontem percebeu, à conversa com Colin. Percebeu algo que o impediu de pensar em outra coisa além daquele momento na varanda, explicando as suas inexplicáveis divagações psicológicas para aquele instante, aquele momento em que...
Os membros dos "Braços Caídos" começaram a subir a inclinação que levava ao topo da colina, o lugar onde Lop estaria à espera deles para fazer o ritual.
Era um solo íngreme. Inclinado. Tudo apontava que o declive apenas viésse a aumentar quanto mais próximo chegassem do topo, do objetivo deles. Felizmente, as botas colavam-se facilmente ao solo. Pouca seria a probabilidade de derraparem. Especialmente levando em consideração que, adiante, a neve acumulada conseguia chegar ao nível dos seus joelhos. Com certeza seria um aparo útil.
Eles seguiram em fila. Um atrás do outro numa coluna vertical. Na cabeça da fila seguia Mara, a mais jovem e mais informada, graças às palestras que deve ter aturado por parte do marido relativamente a estes detalhes. Drew seguia-se, depois Megan com o bebé. Fint era o penúltimo da fila, apenas à frente de Colin.
O grupo seguia em silêncio. Tomando especial atenção no modo como assentavam os pés no chão. Em subidas, o solo poderia ser traiçoeiro e alguns começavam a frustrar-se com isso.
Drew: "Raios. Devia ter trazido os meus bastões de caminhada."
Murmurou, num inédito raio de frustração no dia do seu suicídio.
Megan, que se encontrava à frente de Fint, levava o bebé, Milo nos seus braços. Este que estava enrolado no pedaço de pano azul mais grosso que Fint alguma vez viu em toda a sua vida. Isso somado às roupas fartas que ele devia ter vestido ali debaixo assegurariam que a criança não teria frio, mesmo com as baixas temperaturas que faziam Fint tremer apesar de todo o aparato que levava. 
Colin: "Parece que a estratégia da cébola não está a funcionar, não é?"
Fint: " 'Cebola'?"
Questionou, enquanto desviava-se de um tronco particularmente grande que se encontrava no caminho.
Colin: "Vestes várias camadas de roupa, sabes. Como uma cebola."
Fint: "Ah, ok."
Atrás de si, Colin tossiu.
Colin: "Ouve, está tudo bem?"
Fint: "Penso que já tivemos esta conversa antes."
Disse, com a resposta na ponta da língua, preparada para evitar posteriores confusões. Lá no fundo, sabia que não devia ter dito o que disse ontem. O que faz agora é um controlo de danos que nunca quis vir a recorrer.
Colin: "Ok, não digo que não. O problema é que ontem também andavas a desviar o assunto e, no fim das contas, tiveste muita coisa a dizer."
Fint: "Então aí tens a resposta."
Colin: "E não precisas de ser tão agressivo, Fint. Entendo que possa estar a intrometer-me em demasia, mas é tudo com boa intenção."
Fint cerrou os lábios em lapso. Apesar de estar atento ao chão e ao caminho, jurava que conseguia sentir aquele olhar de julgamento do seu amigo.
Colin: "O que tu pensas não me interessa. Interessa-me saber se me preciso de preocupar?"
Fint inspirou fundo e expirou pela boca, uma nuvem esbranquiçada a sair como consequência do frio.
Fint: "Não, Colin. Está tudo bem."
Ele disse, esperando uma resposta. A resposta não veio. O assunto ficou encerrado. 
Fint é que ficou com a percepção de que Colin, afinal, sempre levou em consideração o que ele disse na noite anterior. Pode não ter percebido o que disse, contudo percebeu o suficiente para compreender que havia algo de errado no seu amigo. 
Colin não estava a ser chato. Fint sabia disso. Não havia razão para se chatear. Fint sabia disso. A sua agressividade inicial foi o método que arranjou para afastá-lo do que guarda dentro de si. Fint sabia disso.
Resta saber se...
Drew: "Vamos lá, falta pouco!"
Alguns comentários foram libertados no meio da caminhada. É natural que com as toneladas de esforço que exerciam, saíssem algumas frases em repetido sem que o falante se apercebesse. Bem, durante todo este processo, parecia que Drew andava a repetir sempre a mesma frase.
Drew: "Vamos lá, falta pouco!"
Muitos traziam gorros, como Fint, que permanecia de de cabeça baixa focada no caminho inclinado. Os que não traziam tinham o azar de levar com neve no cabelo. Mesmo assim, neste ponto nem vale a pena arranjarem-se.
Drew: "Vamos lá, falta pouco!"
A Morte vem a todos. Neste caso, eles vêm ter com a Morte.
Drew: "Vamos lá, falta pouco!" 
E Ela não discrimina. Não julga.
Drew: "Vamos lá, falta pouco!"
Ela simplesmente mata. 
Drew: "Vamos lá, falta pouco!"
Por curiosidade, Fint decidiu levantar a cabeça por um pouco. Olhou para cima. Para o topo. E viu que não estava tão longe como pensava.
Drew: "Vamos lá, falta pouco."
Continuou o velho, de voz quase rouca. Apesar de, agora, a sua exclamação fazer todo o sentido.
Caramba, com todo o esforço empreendido nas coxas, esqueceu-se de se certificar se estava perto ou longe do seu objetivo. Pois bem, ele está perto. Bem perto do topo que via da varanda do quarto, ao longe como algo que deveria ser inalcançável.
Distante.
O distante que está a meros metros de si.
Drew: "É já aqui!"
Ao menos ele alternou a deixa, uma vez alteradas as condições do piso. Sim, daqui em diante, nestes últimos passos rumo ao cume, o caminho era uma autêntica vertente inclinada.
Acontece que, passado tanto, já ninguém sentia ou reclamava de nada.
E rapidamente, ao fundo, uma silhueta de um homem encasacado tornou-se visível.
Lop estava à espera deles.
Lop: "Cá estão vocês!"
Exclamou em tom entusiástico à medida que eles chegavam aos poucos.
Havia algo diferente nele, ainda assim. 

Uma nódoa negra no seu olho esquerdo...credo...não me digam que ele se magoou na noite escaldante que passou com Mara.
Enfim. 

Lop: "Não se preocupem comigo. Este olho roxo foi só um...precalço da noite anterior. E não precisei de esperar durante muito tempo."
Drew seguiu-se para o abraçar. 
Lop: "Ah, e certifiquei-me de que estava tudo pronto. O que significa que nem precisei de fazer muito. O local parecia imaculado."
Abraçou a próxima pessoa na fila, Megan, acariciando também o bebé.
Lop: "Tive é de varrer a neve que se tinha acumulado sobre o tablete de pedra que se encontra pousado no chão. Vocês devem notar do que estou a falar."
Mara deixou-se levar pelo abraço do marido. Num envolvimento longo que parecia nunca vir a terminar. Até que terminou. 
Fint seguiu-se. E antes que pudesse levantar os seus braços para o abraçar, Lop antecipou-se, recolhendo-o junto ao seu peito enquanto dizia numa voz mais baixa:
Lop: "Acreditem. É difícil de ignorar as manchas vermelhas de sangue seco que repousam sobre a sua superfície."
Fint ficou imobilizado. Os braços de Lop recolheram-se, permitindo a sua saída de junto dele. Mas ele ficou. Porque não sabia como reagir perante aquelas palavras. 
Apenas agora é que lhe caiu a ficha.
Lop: "Fint, tudo bem?"
Ouvir o seu próprio nome fez Fint estremecer. Em parte por se ter apercebido que estava a atrair olhares suspeitos por parte de Colin, que estava atrás dele, e de Megan, Drew e Mara, do seu lado. Como também por ter finalmente percebido que iria seguir em frente com o plano dos "Braços Caídos".
Lop preparava-se para abrir a boca outra vez devido à ausência de resposta por parte de Fint. Contudo, este conseguiu ser mais rápido, pelo menos só desta vez, e moveu-se para o lado.
A altura em que estava foi uma ideia que nem lhe cruzou a mente. Presenciar o clima através desta sua nova posição mais elevada nem lhe pareceu interessante. Ir falar com os seus outros companheiros que já tinham também cumprimentado o líder pareceu-lhe fútil.
Ao invés de fazer qualquer uma dessas coisas. Ao invés de tentar dar a entender que estava bem, ao invés de tentar contradizer o modo como agiu...Fint quis ver a tablete de pedra.
Portanto, ele girou um pouco no seu próprio eixo.
Escaneou os arredores daquele curto espaço plano, coberto de neve.
E avistou um pequeno espaço quadrangular, uma pequena anomalia, uma mancha vermelha no meio de uma paisagem branca.
Fint aproximou-se.
Parou.
Inclinou-se para a frente.
Olhou para a pedra.
Vermelha pedra.
E para a colher que estava nela pousado.
A colher metálica que Lop levou do chalé lá de baixo.
A ferramenta que o líder admitiu ser essencial para realizar o ritual-
Lop: "Ok, estão todos cumprimentados. Acho que podemos parar de enrolar e ir diretos ao ponto."
Fint virou para trás. Colin tinha se juntado a todos eles. Ele era o que faltava. Quer dizer, Fint também está a faltar.
Lop: "Estamos todos aqui pela mesma razão. Todos aqui já falámos sobre isto vezes sem conta."
Fint recuou e foi ter com Colin.
Lop chegou junto da tablete de pedra onde Fint esteve há segundos.
Lop: "Vocês mentiram às vossas famílias, concordaram em não trazer telemóveis e aceitaram o estado doente do mundo. E onde é que isso vos trouxe?"
Lop agachou-se e pegou na colher de metal, provavelmente gelada com a exposição à temperatura gélida do ar. Meteu-se atrás da peça de pedra e concluiu, erguendo-se e olhando para cada um deles:
Lop: "Exato. Trouxe-vos até ao lar da besta."
Fint olhou para Colin discretamente. O seu amigo estava cem por cento concentrado no discurso de Lop. Bem como todos os outros, estes que estavam lado a lado, a formar o arco de um semicírculo em torno de Lop. 
Um espetáculo estava a acontecer, a plateia limitava-se a comer tudo o que vinha na sua direção.
Lop: "Fizemos a nossa parte. Tentámos e o mundo não retribuiu. Vejamos se o monstro nos ajudará, se a realidade corroborará as histórias."
Alguns deles acenaram. Deixando Fint hirto, com uma leve sensação de estar no lugar errado a esfaquear-lhe as costas.
Lop: "Para terem chegado tão longe, presumo que não querem desistir, não é?"
Drew e Mara riram-se. Colin sorriu. Megan acenou afirmativamente com a cabeça numa postura determinada.
Já Fint segurou na sua perna, atacado com uma súbita vontade correr.
Lop: "Muito bem."
O líder do grupo ergueu a colher.
Lop: "Assim sendo, eu, Lop, líder dos 'Braços Caídos', abençoo este ritual."
Ele baixou o braço.
Lop: "Desejo a todos vós uma boa morte."
Fint tremeu da ponta dos pés até à cabeça.
Ninguém mais achava aquilo macabro.
O silêncio era prova da determinação de todos eles...talvez exceto da de Fint.
Lop: "Recomenda-vos a fechar os olhos nesta parte. Não só será uma passagem mais tranquila para o outro lado, como também não vos permitirá ver o que vou fazer."
Lop aproximou a colher da sua cara.
Os espectadores tinham todos cerrado as pálpebras.
Faltava Fint.
Lop sabia disso.
E rematou-o com um olhar...
...juntamente com a sua última frase...
Lop: "Também não é como se eu vá saber se decidirem não o fazer."
Então, Lop afundou a colher no olho direito.
Fint soltou um grunhido de forma inconsciente.
Ninguém disse nada. Ninguém reagia. Eles tinham fechado os olhos. Seguido as instruções do seu líder. Só um se encontrava de olhos abertos, a observar tudo.
Fint levou a mão à boca ao mesmo tempo que estalos vinham de junto de Lop. Barulhos crocantes de veias a serem rompidas, fios e maquinações criadas com carinho a serem destruídas pelas extremidades redondas de metal do talher.
Lop revirou a colher de um lado para o outro, a deslizar aos solavancos no seu compartimento ocular. Mordendo os lábios. Sem soltar um grito. Toda a dor a ser reprimida para si.
O líder dos "Braços Caídos" puxou a pega da colher para fora.
E o olho saiu com um estalo final.
Caindo mesmo em cima da placa de pedra.
Manchando a sua superfície com sangue fresco.
Fint tirou a mão da boca, chegada aquela grotesca demonstração ao fim. Já sentia o pequeno-almoço na garganta, a querer sair. Pelo menos tudo indicava que tinha acabado. Lop ofegava. Estava cansado.
Lop mergulhou a colher no seu outro olho, o olho roxo.
Fint baixou a cabeça e olhou forçosamente para o chão. O ruído nojento de há pouco a voltar. A mente dele a fazer de tudo para se focar em...algo que não aquele OLHO!
Por isso, Fint uniu os dentes.
Rangeu-os.
As suas pernas tremiam.
As suas unhas escavavam a pele das costas da sua mão.
Marcas de arranhões surgiam enquanto ele aumentava a velocidade em que coçava, enquanto o primeiro grito de dor saiu da boca de Lop, enquanto...o som de mil vísceras a serem expostas saía!
Sangue pingou da palma da mão de Fint como consequência dos arranhões profundos nele causados.
Seguiu-se um grito longo da parte de Lop.
Depois um som idêntico ao da há bocado, o indicador da extração de outro olho.
Lop gritou mais uma vez para o alto.
Fint não aguentou.
Também gritou.
Gritou.
GRITOU.
GRITOU PORQUE NÃO CONSEGUIA ACREDITAR NA MERDA QUE SE ESTAVA A PASSAR!
...
Fint: "..."
Por fim...
...
Um pouco de silêncio.
...
Lop: "Vem até nós...agora..."
Fint levantou a cabeça.
Sabia que depois da tempestade vem a calmaria.
Lop: "Aparece..."
Continuava Lop, em voz trémula.
Lop: "Ouve as nossas preces."
Fint viu o que estava à sua frente. Deparou-se com...
Lop sem os seus glóbulos óculares. Duas correntes de sangue, como se de lágrimas vermelhas se tratassem, a escorrer no lugar onde faltavam os seus olhos. Daquele vazio escuro, escarlate sombrio, onde estavam duas esferas vivas de carne.
Essas duas órbitas estavam neste momento sobre uma base dura de pedra.
Lop: "Acuda-nos! Salve-nos deste mundo!" 
Ouviu-se o choro de uma criança. 
O bebé de Megan tinha começado a chorar com o escândalo que se tinha instaurado.
Lop: "Vem até nós!"
Lop disse a cair de joelhos na neve.
Lop: "Mostra-te, Kaito!!!!!!!!!!!!"
Subitamente, os dois olhos na placa mexeram-se. Puseram-se lado a lado. Com a íris voltada para o céu. De forma inexplicável que dava a entender que...aqueles olhos já não pertenciam a Lop.
Lop: "Vem, vem, VEM, KAITO-"
O seu discurso foi interrompido e a sua figura desapareceu.
O barulho de uma queda ouviu-se ao de leve. 
Fint não tinha piscado os olhos.
O quê?
Mas Lop...
Estava mesmo agora aqui.
No lugar onde ele estava está...nada.
Mais ninguém abriu os olhos. Eles deviam estar curiosos. Deviam querer perceber o que se estava a passar. Porque é que Lop estava a gritar. Que sons estranhos eram aqueles estalos. Mas apenas Fint tinha os olhos abertos. 
Foi só ele quem virou a cabeça à procura de Lop.
Foi só ele quem o viu deitado a uns bons metros de onde estava inicialmente. 
Mais ninguém senão ele reparou que Lop estava morto, com uma poça de sangue a manchar o solo branco, muito provavelmente o resultado da queda violenta que se seguiu àquele rápido movimento. Ali, junto a ele, apenas Fint viu o vulto escuro monstruoso a pairar sobre ele a abocanhá-lo.
Fint: "Ha!"
Não soube se foi um grito assustado. Não soube o que pretendia com isto. Não soube...o que era aquilo.
Aquela silhueta entroncada. Marreca. Constantemente inclinada oara a frente. Com uma cabeça...animal...talvez...semlhante à de um dinossauro pré-historico...constituída pura e completamente por osso e dentes. 
O resto do seu corpo era nu. Cinzento. Com pelos a cobrir a parte onde deveria estar a sua coluna vertebral. Que, a julgar pelo quão esguia e megra era a figura, era de louvar que aqueles pedaços de pelo cobrissem toda e qualquer saliência ou protuberância perturbadora no corpo daquela...coisa.
Aquela coisa que estava debruçada sobre o corpo de Lop mastigar o ombro dele, a mastigar o lugar onde devia estar o ombro dele e ao invés disso está apenas um monte de carne exposta de cor escarlate ainda a pulsar sobre...o sorriso exposto no cadavér.
O sorriso que se recusava a deixá-lo mesmo na morte. 
Este era ele, não é?

Kaito.

Ninguém falava.
Previam o que estava a acontecer.
Não podem dizer que não era isto que esperavam.
Pois...Fint gostava de dizer o mesmo.
Gostava.
Gostava.
Gostava de-
Kaito deixou de remexer no cadavér do homem sem olhos.
A espinha de Fint congelou.
Imobilizado, ouviu a respiração ríspida da besta.
O modo como os seus dedos ossudos revestidos por uma camada de pele esticada até ao seu limite remexiam ansiosamente.
Os olhos no tablete mexeram-se ao mesmo tempo que Kaito virou a cabeça na direção de Drew, na ponta da fila oposta à de Fint.
Fint cerrou o punho de modo a tentar conter o seu próprio nervosismo.
Os olhos mexeram-se outra vez.
Agora, a besta observava a pessoa seguinte na fila, Mara.
E os olhos tornaram a remexer-se em cima da pedra.
E mais uma vez quando o encarou e Fint cingiu os seus dentes e lábios e tudo o quanto podia para não gritar e...
E mais uma vez.
E...
A seguir, ele saltou para cima da plateia, a começar por aqueles à direita de Fint.
Drew foi o primeiro a gritar.
Fint fechou os olhos, asoberbado pela sensação...a vontade de...

Fint queria...

Ele escutava os grunhidos de dor de Drew.
A pele a ser arrancada.
Osso a ser partido.
A sua cabeça, crânio e cérebro...ele sabia que estavam a ser comidos.
Fint queria... 
Os seus pés estavam inquietos, desconfortáveis ali, queriam era...queriam era...FUGIR!
Fint queria... 
Finalmente os gritos de Drew cessaram...a morte chegara...
...
...seguiu-se Mara.

Fint queria...

Barulhos incontornáveis vieram.
Até mesmo da segunda pessoa mais dedicada à causa depois de Lop.
Nem a sua mulher resistiu à dor.
Era isto o que queria?
Fint.

Fint queria...

Fint abanava a cabeça.
A tentar acordar deste pesadelo, a tentar ignorar o barulho que por muito que tentasse e quisesse era...inevitável.
A Morte era inevitável.

Fint queria...

Queria sair dali.

Fint.
Fint queria...
Esquecer o facto que até Mara deixou de se ouvir.
Queria pôr de parte o facto que...

Megan e o seu bebé eram os próximos.   

Fint começou a chorar ao mesmo tempo que os berros guturais da mãe ecoaram pelo vento que rompia naquele momento.
Fint queria...
O bebé também chorava.
O choro transformou-se em gritaria, dor, acompanhado por ruídos...viscerais...perturbadores...de entranhas...
Morte.
Fint estava em lágrimas.

A sua perna tremia, não só em choque, não só a temer a força da natureza perto de si...mas porque...

Fint queria...
Fint sabia que era o próximo.
Depois seria Colin.
Fint queria...
Fint sabia...

Desde que veio até aqui, Fint sempre soube...

QUE QUER VIVER!!!

Fint: "AHHHHHHH, MERDAAAAAA!"
O homem desfeito em lágrimas beliscou a perna através das calças, limpou as lágrimas gritando, agarrou no braço do seu amigo e, juntos, começaram a correr.
Colin: "Ei, Fint! O que é que-"
Fint: "SEGUE-ME!!!!!!!" 
Gritou do fundo dos seus pulmões ao puxar o seu braço com maus força.
Os dois desciam da colina.
Fint tinha os olhos abertos. Colin também devia ter os seus abertos agora que foi empurrado pelo amigo para ganhar consciência. Ainda assim, nenhum deles prestava atenção ao chão. Nenhum via bem onde pisava. E certamente que nenhum dos dois se atrevia a virar a cabeça para trás nem que fosse para ver a proximidade da besta relativamente a eles.
O que Fint decidira fazer foi correr. Era isso o que ele se limitava a fazer com todas as fibras do seu corpo. Independentemente dos rugidos que os seus ouvidos captavam vindos de trás.
Colin: "Fint, podes ao menos dizer onde vamos?!"
Inquiria-o, exaltado, quase a tropeçar na grossa camada de neve do chão.
Fint: "PARA O CHALÉ! VAMOS CONSEGUIR SOBREVIVER ASSIM!"
Colin: "Mas quem é que disse que eu-"
Fint: "APENAS LIMITA-TE A SEGUIR-ME!!!"
Também não é como se ele tivesse escolha. O impulso da queda aliada à pega firme de Fint no braço dele impediam-no de tomar as rédeas do seu corpo no momento. 
O vento rompia o ar com uma intensidade nunca antes vista. A fúria e fome da criatura parecia estender-se ao que o rodeava. Pois também a criatura era uma criação da natureza. Mesmo que ele seja um ser cuja existência é inexplicável.
Tal como os olhos de Lop que...se mexeram.
Mexeram-se no preciso instante em que o monstro parecia escanear o seus arredores.
Tudo aparentava estar ao seu controlo, ao controlo do Kaito.
Ele não podia lutar com ele.
Ele não podia comunicar com ele.
Ele não podia fazê-lo recuar!

Ele só podia fugir.

Fugir para um abrigo.

O chalé.

E ele não soube como ou quando, mas a verdade é que chegaram lá mais rapidamente do que esperava.
Fint parou diante da porta, Colin a fazer o mesmo, compelido pelas garras do seu amigo que se recusava a largá-lo. Os dedos de Fint escorregaram na maçaneta inicialmente devido ao temor nele causado pelos uivares ao longe. Lobos? Kaito? Seja o que for, nada importa quando a sobrevivência está em jogo. Ele limpou o súor da palma da mão ao casaco e abriu a porta.
Querendo ou não, Colin também entrou, arrastado pela força do amigo.
Colin: "Fint, mas tu podes parar por um segundo!"
A essa altura, ambos tinham entrado. Fint tinha finalmente o largado. Estava agora a fechar a porta com todas as precauções.
Fint: "Um segundo, Colin. Tenho de me certificar que isto está trancado. Aquela coisa não pode entrar."
Respondeu ofegante, passando a inspecionar as janelas da parede ao pé da porta.
Colin: "Como assim 'um segundo'? Fint, tu arrastaste-me até aqui contra a minha vontade sem me dar uma explicação!"
Fint: "Porque não é preciso uma."
Retorquiu, a mover-se na direção da cozinha.
Colin: "O quê? Mas tu tens sequer ideia do que acabaste de fazer?"
Disse, a segui-lo para a outra divisão.
Colin: "Tu tinhas ouvido o plano! Sabias o combinado!"
Parou inclinado na bancada a observar Fint a vasculhar cada prateleira.
Fint: "Sim, e o combinado era morrermos."
Colin: "Exatamente! Então explica-me que raio de ideia foi a tua ao decidires, no último segundo, que o melhor era fugir!"
Fint: "Eu não estava a fugir!"
Anunciou a fechar uma dispensa com especial força. 
Colin: "Claro, até porque nós nem descemos a merda da colina nem nada, Fint!"
Fint: "E qual é que era a tua ideia então?"
Colin: "Oh, quem sabe, e que tal seguir o maldito plano até ao fim? O raio do plano que andámos tanto tempo a organizar e a coordenar, um plano que custou a vida do nosso líder para executar! Hã? Que tal te parece?"
Fint: "Parece-me suícida, Colin! É isso o que me parece!"
Anunciou aos brados, a tirar a cabeça dos utensílios que vasculhava para encarar o seu amigo.
Colin e Fint olharam um para o outro em silêncio por uns segundos.
Fint ganhou coragem e rompeu o silêncio.
Desta vez sem medo de dizer o que sempre quis dizer durante toda a sua estadia:
Fint: "Ouve, Colin, os 'Braços Caídos', este grupo, eles são mais do que uma coletiva ou um grupo de apoio, eles são...são amigos queridos meus que partilham as mesmas opiniões que eu e acham o que eu acho e sempre lá estiveram para me apoiar nos bons e maus momentos. Em todos eles. Mas especialmente nos maus momentos. Tal como tu lá estiveste há mais tempo do que eles aliás."
Um sorriso surgiu no rosto de Fint antes de progredir.
Fint: "O problema não são eles. O que eu acho deles não muda. Continuo a amar cada um deles. Até porque eu também concordo com o ponto deles. Também acho que o mundo é uma merda. Q-Que o mundo é cruel e repleto de maldade, de sangue, tristeza, decepções, traições e de...e de morte."
O sorriso dele dissipou-se.
E as lágrimas que ele pensava ter apagado retornaram.
Fint: "Eu também quero acabar com isto. Sei que o mundo é sofrimento, Colin. E não quero continuar a sofrer. Eu queria acabar com isto antes que o mundo o fizesse por mim. Por isso, sim, Colin, eu estava do vosso lado, eu concordava com a vossa solução, eu queria que...a besta me levasse como...como levou o Lop...a Mara...o Drew...a Megan e o seu..."
Ele sentiu um nó na garganta. Cedeu à dor por um momento. Mas voltou, limpando a corrente de lágrimas que continuava a vir.
Fint: "Mas estando ali, ouvindo a perdição de cada um deles, a estar perto a perto com a representação da própria Morte, não consegui parar de sentir que...que o meu corpo...e até a minha mente, a minha mente lá no fundo queriam que..."
Colin: "Queriam o quê?"
Perguntou em tom solene.
Fint engoliu em seco.
E respondeu:
Fint: "Queriam viver, Colin. Eu não sabia, mas inconscientemente sempre quis viver. E não importava o quanto me convencesse o contrário, isso nunca iria mudar. Não importava o quanto me convencessem e o quanto eu quisesse concordar, o meu eu interior iria semrpe querer o mesmo: viver."
Colin fitou-o por um segundo.
Em silêncio.
Fint não desviou o olhar.
Sim, agora ele sabia, tinha a certeza.

Era isto que queria.

E Colin sentiu essa determinação na sua breve troca de olhares.
Colin: "Não discordo do que tu dizes, Fint. A nossa conversa ontem à noite já me tinha alarmado para o facto que és uma contradição ambulante. Isso eu consigo ver. Agora, o que não consigo perceber é porque é que me tens de arrastar junto a ti?"
Questionou-o, arqueando a sobrancelha em tom de ameaça.
Fint passou a mão pela garganta, seca garganta.
Fint: "Colin, isso é porque-"
Um rugido ecoou lá fora. O rugido da besta. O rugido do Kaito.
Ele estava perto.
Fint e Colin estavam distraídos.
Fint: "Merda, agora não..."
Sussurrou, a tirar uma faca da gaveta que tinha deixado aberta para vasculhar antes de ter começado a discutir.
Fint dirigiu-se à sala de estar, a coçar a sua cabeça com a mão livre. Visivelmente perdido, com a ansiedade a borbulhar à flor da pele.
Colin, por sua vez, permanecia na cozinha, encostado ao frigorífico, contemplando o que para ele eram os esforços insignificantes de um humano que foge ao seu destino.
Colin: "É isto a que tudo chega. Mais tarde ou mais cedo."
Fint: "Mas não precisa de ser agora."
Respondeu a clicar num botão do comando repousado no sofá. A televisão logo se ligou. Estava a dar uma novela barata da coreia com uma dobragem em inglês péssima.
Colin: "Foi tudo planeado para ser agora. O Lop concordou. A Mara concordou. O Drew, a Megan e até tu tinhas concordado. Eu tinha concordado."
Fint: "E peço desculpa. Mas isto não precisa de acabar aqui."
Fint regressou à cozinha. Deve se ter lembrado de algo. Os nervos não o ajudavam a organizar uma sequência lógica de eventos.
Claro, o barulho crescente dos uivares do monstro também o distraíam.
Colin: "A julgar pelos teus apelos e a tua insistência em arrastar-me até aqui, seria correto assumir que me queres tirar daqui."
Fint: "Vamos fugir à besta e depois vamos os dois juntos."
Acrescentou, ligando a torneira da cozinha na intensidade máxima.
Colin: "Para onde?"
Fint: "Um lugar seguro. Onde possamos viver."
Colin riu-se.
Fint abanou a cabeça de modo a recuperar sentido da realidade. Ele passou pelo seu amigo no rumo às escadas enquanto este falava, em tom trocista:
Colin: "Não acredito nisto! Portanto, tu trouxeste-me contigo, livrando-me da cerimónia que tu sabes que eu desejava apenas porque não me conseguias ver morrer!"
Fint: "Oh, o que é? Vais dizer-me que é pedir muito?"
Falou junto aos degraus, numa voz agressiva, virando-se para ele de súbito.
Colin: "É egoísta, Fint! É o que é!"
O peito de Fint subia e erguia com tamanha raiva. Ele passou os dedos pelo cabelo já despenteado a tentar segurar um fio de controlo. Por muito pequeno que fosse. Esqueceu-se é que já não havia nenhum.
Fint suspirou.
Cravou os olhos em Colin. Os olhos. Olhos à beira de se esvair em lágrimas.
Fint: "Diz-me: é egoísta querer viver ao lado do meu amigo?"
Qualquer vestígio de felicidade no rosto de Colin desapareceu. Sobrou apenas...seriedade. Pura. Crua. Nada de hesitação. Era somente ele e os seus desejos, ideiais e filosofias. E eles ditavam que...
Colin: "É isto, Fint. Nada mais."
Fint: "..."
Colin: "Esta é a minha decisão."
Esta era a decisão dele.

Fint tinha feito a sua.
Colin também.
A diferença é que elas indicavam para caminhos opostos.
Era desnecessário complexificar o que era simples.

Desnecessário será impedi-lo, especialmente quando Colin não fez nada para o impedir.


Fint soltou um barulho indistinguível de boca fechada. Foi o que lhe ocorreu na altura. Eventualmente, conseguiu colecionar os seus pensamentos e formulou a sua resolução:
Fint: "Então...o serviço acaba aqui, não é?"
Disse a brincar, com uma lágrima contrastante a trespassar a sua bochecha.
Colin deu uma risada ao de leve e fez uma vénia. Em postura eloquente idêntica à que aprendeu no seu curto espaço de tempo no "The King's Inn".
Colin: "Agradeço que nos tenha escolhido para a sua estadia."
Disse de cabeça baixa na sua pose de agradecimento. Nos cantos dos seus olhos, Fint avistou também lágrimas. Lágrimas que caíram no chão já ensopado.
O chão já estava molhado. É verdade, ele tinha feito questão de deixar a torneira aberta.
Outro som monstruoso soou.
Colin levantou a cabeça, recompondo-se.
Não tinham muito mais tempo.
Fint limpou as lágrimas com a mamga do braço.
Colin: "Vai, Fint. Se queres viver, então vive. Eu não te posso impedir..."
Fint: "Não agora."
Falou a completar a frase.
Por entre o seu rosto molhado, Colin deixou visível um sorriso. Mesmo no fim, mesmo na morte, sorria. Como Lop sorria. Até na morte.
Colin anuiu. Ele acenou com a cabeça ergueu a mão, a imitar o gesto de alguém que tirava um chapéu.
Colin: "Obrigado por tudo."
Respondeu, em voz trémula. 
Fint acenou afirmativamente com a cabeça. Ele é seu amigo. Sempre será. Mesmo depois disto. Portanto não o vai impedir. O verdadeiro amigo respeita a escolha do outro, por muito que venha a custo de tudo.
A porta tremeu.
Colin tornou-se para a mesma.
Alguém estava a entrar.
Na vez seguinte, uma pancada fez-se sentir na porta, propulsionando-a para a frente. Se não fosse pela massa enorme de fechaduras no interior, o monstro teria entrado.
Fint sabia o que Colin queria. Ele já nem lhe batia o olho. Estava virado para a porta. Totalmente entregue aos instintos da besta, entregue à Morte.
Ora Fint também sabia o que queria.
Com um sentido de urgência, Fint mirou nos degraus. Ele começou a subi-los. Antes de perder Colin de vista, olhou para ele uma última vez.
Viu o seu rosto sorridente. O seu olhar convencido. As costas arqueadas. Alma projetada...no que vinha.
A porta foi propulsionada de novo para a frente, com alguns pedaços da estrutura a racharem-se e a caírem no chão com o impacto.
Criando pequenas fendas que permitiam ver...as garras da criatura.
Esse vislumbre bastou para urgir Fint a arranjar um caminho para a sua sobrevivência.
Ele tem de viver.
Fint alcançou o andar de cima assim que um estrondo se ouviu do lado de baixo, marcando a entrada forçada daquela coisa. 
Ele tem de viver!
Fint passou os olhos por todo o lado, por cada uma das portas fechadas à dua disposição, perdido com tantas possibilidades e tão pouco tempo.
Ele tem de viver!
Três pisadas grandes no solo do andar do rés-chão sentiam-se mesmo no segundo andar.
Ele tem de viver!
A isso seguiu-se uma rápida sucessão de pegadas, uma atrás da outra que, por fim, cessaram logo após o monstro rugir e...se calar.
Ele tem de viver!  
Nada mais soava de lá de baixo. Nem Colin...
Era apenas...a televisão...água a pingar.
Ele tem de viver! 
Ele tem de viver! 
A água...a televisão...assegurou-se que funcionassem.
O barulho da televisão aliado à torneira aberta deveriam confundir o monstro, iludi-lo a pensar que outra pessoa estaria por perto.
Ele tem de viver! 
Ele tem de viver!
Isto tudo partindo do princípio de que iria aproveitar cada segundo!
Ele tem de viver! 
Ele tem de viver!
Ele tem de viver! 
Fint pegou no volante dos seus nervos e sentidos, atirando-se impulsivamente na direção do quarto de Drew.
Entrou de rompante na divisão às escuras.
Ele tem de viver! 
Ele tem de viver!
Ele tem de viver!
De seguida, abriu o armário na sombra que abraçava toda a divisão pertencente ao velho...o já então falecido velho.
Eventualmente, os seus dedos passaram por um objeto firme, metálico.
stick de escalada.
Ele tem de viver! 
Ele tem de viver!
Ele tem de viver!
Algo vinha a correr.
Algo pisava nos degraus com tal força que os faziam ranger.
Algo avançava com potência e instinto assassino.
Para matar.
Ele tem de viver! 
Ele tem de viver!
Ele tem de viver!
Faca na mão direita, um bastão de metal improvisado na outra, Fint recuou para trás virado na direção da porta.
De onde sentia aquilo a aproximar-se, de onde irradiava a luz que perfurava naquela divisão escura por pouco.
Ele tem de viver! 
Ele tem de viver!
Ele tem de viver!
Os passos e barulhos pesados cessaram.
Ele tem de viver! 
Ele tem de viver!
Ele tem de viver!
Tornaram-se leves, surgindo em menor quantidade.
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
A silhueta do monstro surgiu na porta do fundo.
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
Fint manteve pega firme nas duas armas estendidas para a frente.
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
Pelo vulto da figura, discerniu-o a abrir a boca, preparado para morder o próximo humano em linha, o último humano que lhe faltava.
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
Foi naquele momento que ele percebeu algo básico.
Os dois não sabiam ver no escuro.
Por isso é que estavam hesitantes em agir.
Por isso é que estavam ambos a fazer figura parva, num impasse, imobilizados, a encarar a direção oposta a eles 
Guiados pela certeza de que o inimigo está ali...algures.
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
Isso era bom: significava que estavam os dois em pé de igualdade.
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!!!!
De um segundo para o outro, Fint atirou a faca para a parede à sua esquerda.
De imediato, a criatura saltou oara o local.
E Fint correu.
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
Fint correu rumo à luz, à brecha de liberdade vislumbrada à distância.
A saída ao alcance.
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
Kaito deve se ter apercebido que tinha sido enganado.
Pois rugiu.
Saltou.
Caiu mesmo à frente de Fint.
Um obstáculo autêntico entre a fuga e a perdição.
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
ELE TEM DE VIVER!
O monstro atacou com a sua boca aberta prestes a partir o crânio do homem com as suas presas afiadas.
ELE TEM DE VIVER!
Fint paralisou.
Tinha a Morte à sua frente.
Porque haveria de lutar?
Porque haveria de resistir?
Porquê...
...porquê quando só precisa de o atrasar?
Vive.
Fint, com as duas mãos a segurar o bastão, estendeu-o diante de si na horizontal em forma de uma linha que o monstro mordeu como uma isca.
Vive.
A besta tremia e chacoalhava o seu corpo de um lado para o outro usando de uma tremenda raiva que abalava os pés de Fint e ameaçavam desequilibrá-lo.
Vive!
Sendo assim, Fint largou o stick e rondou a criatura aproveitando da sua recente distração com um novo pedaço de metal entre os dentes.
Vive!
Fint saiu do quarto em corrida, sendo banhado por um holofote de luzes.
Passos vindo de trás soaram.
O monstro não desistia de o perseguir apesar da distração surpresa.
Vive!!!
Fint corria para a frente.
Para chegar ao seu quarto em paralelo ao de Drew.
Kaito corria para a frente.
Para matar o homem em fuga.
VIVE!
Felizmente, a manobra anterior de Fint ganhou-lhe segundos essenciais para alcançar o quarto, fechar e trancar a porta de dentro e recuperar o fólego.
VIVE, VIVE, VIVE!
Fint encostou-se na parede, a alguns metros de segurança da porta agredida do lado de fora pelo ímpeto de um invasor. 
Mãos vazias.
Preso num quarto fechado.
À mercê da fúria de um ser que vai de encontro à sua porta violentamente. 
A vontade de viver era tudo o que o movia.
VIVE, VIVE, VIVE, VIVE, VIVE!
A porta estava lá em baixo.
Em baixo.
Juntamente com...o que deve ter sobrado de Colin.
VIVE!!!
Fint estava sozinho.
Derrotado.
Sem escapatória.
VIVE!
VIVE!
VIVE!
Mas vivo.
Se é que isso lhe vale de qualquer coisa agora.
VIVE!
VIVE!
VIVE!
Se é que isso lhe vale...quer dizer, o que é que vale a pena?
Viver?
Morrer?
Os seus princípios continuam tão seguros ainda?
Ainda quer manter-se fiel ao que sempre pensou?
VIVE!
VIVE!
VIVE!
Mesmo com o grupo "Braços Caídos" morto.
VIVE!
VIVE!
VIVE!
O seu melhor amigo morto.
VIVE!
VIVE!
VIVE!
A ser perseguido pelo que apenas pode ser descrito como a Morte encarnada?
VIVE!
VIVE!
VIVE!
A Morte que lhe está a bater à porta.
VIVE, VIVE, VIVE!
Fint encostou-se na parede, a alguns metros de segurança da porta agredida do lado de fora pelo ímpeto de um invasor. 
Mãos vazias.
Preso num quarto fechado.
À mercê da fúria de um ser que vai de encontro à sua porta violentamente. 
A vontade de viver era tudo o que o movia.
VIVE, VIVE, VIVE, VIVE, VIVE!
A porta estava lá em baixo.
Em baixo.
Juntamente com...o que deve ter sobrado de Colin.
VIVE!!!
Fint estava sozinho.
Derrotado.
Sem escapatória.
VIVE!
VIVE!
VIVE!
Mas vivo.
Se é que isso lhe vale de qualquer coisa agora.
VIVE!
VIVE!
VIVE!
Se é que isso lhe vale...quer dizer, o que é que vale a pena?
Viver?
Morrer?
Os seus princípios continuam tão seguros ainda?
Ainda quer manter-se fiel ao que sempre pensou?
VIVE!
VIVE!
VIVE!
Mesmo com o grupo "Braços Caídos" morto.
VIVE!
VIVE!
VIVE!
O seu melhor amigo morto.
VIVE!
VIVE!
VIVE!
A ser perseguido pelo que apenas pode ser descrito como a Morte encarnada?
VIVE!
VIVE!
VIVE! 
A partir a porta no incessante desejo de ceifá-lo.
VIVE!
VIVE!
VIVE!
E, apesar de tudo, mesmo sabendo que o futuro é pouco promissor e as suas probabilidades de sair dali ainda menores...
VIVE!
VIVE!
VIVE!
VIVE!
VIVE!
VIVE!
A sua cabeça não se cala.
O seu coração não para.
Até a sua natural biologia dita a resposta.
VIVE!
VIVE!
VIVE!
VIVE!
VIVE!
VIVE!
A mesma resposta que ele ouve em cada centímetro do que o rodeia, cada centímetro do que existe:
VIVE!
VIVE!
VIVE!
VIVE!
VIVE!
VIVE!
VIVE!
VIVE!
VIVE!
VIVE!
VIVE!
VIVE!
VIVE!
VIVE!
VIVE!
VIVE!
VIVE!
VIVE!
  





























Fint: "Eu vou viver."
Fint olhou para a colina.
A colina do ritual.
A colina onde a Morte foi invocada.
Dizendo, confiante:
Fint: "Eu vou viver."
Ele caminhou até à janela.
Abriu-a.
Fint pisou para fora.
Saiu do quarto.
Entrou na varanda.
A brisa não lhe afetava.
Os sons da porta já não o alcançava.
O inegável frio era uma preocupação distante.
Preocupação.
Preocupações não eram de importância quando a única coisa essencial era...
VIVER!!!!!
Fint aproximou-se dos apoios de madeira da varanda.
VIVER!!!
Subiu para cima da comprida tábua de madeira que delineava o suporte.
VIVER!!!!!!!!
Observou a vista branca proporcionada.
Uma vista do segundo andar.
Dali até ao chão dava uma queda de doze metros.
Mortífera, mas...a sua melhor chance.   

Respirou o ar limpo da tempestade que decorria.

Deixou que pedaços de neve o atingissem, colando-se à sua roupa.


Fint fechou os olhos.


Pensou em Colin.

Os seus pais.

O resto do grupo dos "Braços Caídos".

As suas reuniões.

As tortas de carne de Mara.

O sorriso reconfortante de Lop.

Sangue.

Machas vermelhas na neve do topo da colina.

Corpos destroçados por um monstro.

Uma luz no fim do túnel.

Uma vontade de viver.

Fint inclinou-se.


E atirou-se.

De braços erguidos.

Notas: 

Por muito que o Kaito se tenha tornado uma lenda local, pouco se sabe sobre as origens do ritual ou quem o executou nestes tempos modernos e sobreviveu para divulgar e disseminar a palavra ao ponto de formar relatos que vão parar às notícias.

Ainda é uma teoria em criação, porém crê-se que a remoção dos olhos é muito mais do que uma maneira grotesca de invocar um JF. A teoria mais aceite acredita que os olhos, uma vez pousados em cima da misteriosa tablete de pedra, formam uma ligação com a besta sem olhos. Uma ligação que confere visão à besta que, habitualmente, nunca a teria. Esses olhos em cima da pedra também se moverão sempre que o monsto desejar, se bem que a forma como o JF consegue ver o que está à frente quando tem os olhos a que está conectado em cima de uma rocha permanece um mistério.

Relatório: Código de Registro: JF-79 – "Kaito"

Classificação: Hostil – Nível de Ameaça 4
Status Atual: Não Contido – Localização desconhecida

1. Sumário

JF-79, conhecido localmente como "Kaito", é uma entidade lendária cuja existência é associada a um ritual macabro envolvendo a remoção dos olhos humanos e sua colocação sobre uma antiga tablete de pedra. A origem do ritual é desconhecida e não há registros confiáveis de sobreviventes modernos que possam confirmar a totalidade do processo. Apesar disso, a lenda se disseminou o suficiente para atrair atenção da mídia e das autoridades locais.

2. Teoria de Invocação

  • Elemento central: extração de globos oculares humanos.

  • Procedimento: deposição dos olhos sobre uma tablete de pedra de origem e composição desconhecidas.

  • Função presumida: estabelecer uma ligação sensorial entre a vítima e a entidade.

3. Efeito da Ligação

  • Visão remota: os olhos removidos passam a se mover em resposta à vontade do JF-79.

  • Capacidade adquirida: a entidade, normalmente cega, adquire visão através dos olhos conectados.

  • Mecanismo desconhecido: permanece incerto como o JF-79 processa imagens sem conexão física ou neural convencional.

4. Status de Pesquisa

  • A Fundação considera a hipótese de que o ritual funcione como um canal anômalo sensorial, permitindo ao JF-79 interagir de forma mais precisa com o ambiente e potenciais alvos.

  • A origem da tablete de pedra, seu fabricante e a extensão geográfica do ritual permanecem sob investigação.

5. Avaliação de Ameaça

  • Risco primário: fortalecimento do JF-79 em casos onde a ligação visual é estabelecida.

  • Risco secundário: disseminação do ritual em comunidades isoladas, potencialmente gerando múltiplos canais sensoriais para a entidade.

  • Recomendações:

    • Confiscar e destruir quaisquer artefatos semelhantes à tablete de pedra.

    • Interceptar informações sobre o ritual em redes públicas e círculos ocultistas.

Relator: Agente Mirela S. Duarte
Autorização: Diretor Regional Adrian K. Volkov