JF-13 "Minha Cara Metade"
SEM IMAGEM DA CRIATURA

Apelido dado: "Minha Cara Metade"
Idade: ----
Aparência: De acordo com relatos de testemunhas, ele trata-se de um homem com bigode de fato e gravata com uma cartola no topo da cabeça. Metade da sua figura encontra-se a preto e a outra metade num branco total que envolve até o seu cajado, que parece sempre levar consigo na mesma mão para lhe providenciar apoio.
Altura: ---
Regime alimentar: ----
Contenção: Por efetuar.
Cela de contencão: ----
Vítimas passadas: ----
Habilidades: Teoriza-se que ele reduz tudo nas suas proximidades à mesma cor em que se apresenta ao mundo: preto e branco. Se bem que isso seja apenas uma grande suspeita e as especificidades dessa suposta habilidade ainda estejam a ser determinadas.
Fraquezas: ----
Classe:
Aparições: ----
Tekka saía da sua barraca com as primeiras radiações do sol a banhar os bagos de milho com a sua saudável luz.
Ele não sabia que dia era. Dia de trabalho, só podia. Quer dizer, para o seu conhecimento só existiam dias de trabalho e dias para descansar. E o último era um recurso a que dificilmente recorria.
É que nestes solos da Zâmbia a última coisa que se podia fazer era descansar. Não quando Tekka sabia que tinha ir ver das colheitas para as ir vender logo mais tarde. Não quando a vida junto às florestas tinha mudado drasticamente há uns anos atrás com aquela estranha infeção que veio e desapareceu num piscar de olhos. Não quando o continente africano inteiro ainda estava a sofrer com a crise de alimentos resultante dos misteriosos parasitas que subitamente atacaram os seres humanos.
Épocas que ele prefere esquecer, uma vez que foi a contaminação dos animais locais que o fez largar a caçadeira. Ainda assim, num gesto de esperança idiota, Tekka insiste em deixar a arma encostada a uma parede junto à entrada. À espera de um momento em que o dever o chame, em que um veado venha reacender o fogo que ainda queima dentro de si, por muito que vagamente.
Se bem que a atividade do parasita é capaz de ter matado todos os animais naquelas proximidades. Tornando a sua ânsia numa mera químera. Ou é isso o que dizem os seus associado quanto à sua esperança de que o dia chegue.
Mas, até esse dia chegar, se é que chegar, terá de se contentar com o que tem. Com o negócio que construiu ao dedicar-se a criar a sua própria flora. Até porque disso sobrou pouco após a peste deflagrada.
E, mesmo que Tekka não queira admitir, foi a peste que lhe deu esta oportunidade de ouro que o deixou mais economicamente seguro do que antes, quando ainda tinha a paixão pelo que fazia.
Junto à porta da sua barraca, Tekka estendeu os braços adiante e espreguiçou-se, ossos a estalar com cada centímetro esticado. O sol brilhava lá ao alto, fazendo com que a sua barba branca ficasse a reluzir. Na verdade, à luz, o seu rosto negro e velho parecia mais traído pela idade do que já era. Uma maldade o que o mundo fez com ele, decerto. Mas, ao mesmo tempo, não será esta uma maldade que o mundo faz com todos?
Tekka baixou os braços. Decidiu não ir logo direto ao trabalho nem que fosse só para deixar o seu corpo acordar. Já que ele próprio só ia tomar o pequeno-almoço depois do trabalho de manhã. As desvantagens de viver sozinho nas floresta da Zâmbia numa barraca isolada de qualquer civilazação é mesmo essa: é preciso aproveitar as primeiras horas do dia para preparar as coisas antes que seja tarde demais e isso é imperativo, algo pelo qual o pequeno-almoço bem pode esperar.
Ao olhar para os pés das espigas de milho bem erguidas no ar, ele tinha a certeza que essa razão que o fazia perder horas de sono era muito lucrativa. É que, com a recente crise de alimentos causada pela chegada daquela nova espécie parasita e a falta de vendedores dispostos a vender os poucos que existem a preços baixos, criou o ambiente perfeito para o negócio de Tekka prosperar.
O seu negócio que consistia na venda daquelas espigas de milho a preços supostamente baixos, mas com uma taxa acrescida, da qual muitos dos compradores não estavam conscientes ou sequer interessados em ouvir tal era o desespero por uma ração. E Tekka tinha os seus contactos, sabia com quem falar para cobrar quem lhe devia, para cobrar aqueles cegos que não ouviam os seus avisos dados em altos brados à boca da sua banca.
Não foi por falta de aviso. Não foi por não ter tentado informá-los. O erro foi deles e Tekka sabe mais do que ninguém que tudo vem a custo.
Farto de procrastinar o árduo e inevitável trabalho pela frente, Tekka caminha na direção do pequeno espaço quadrangular que mantinha os seus grãos de ouro de serem levados pelas leves brisas secas que passavam. Antes de se pôr a arrancar as espigas, teria de ir verificar qual das espigas estavam prontas a vender. Hoje, numa curta análise ao longe, parecia que iria ter uma boa colheita.
Talvez umas vinte espigas. Muito acima das normais doze. Para além disso, a qualidade delas também aparenta estar acima da média com uma cor tão linda.
Uma cor a preto e branco.
Tekka para de imediato. Os seus olhos arregalam-se ao ver...realmente a preto e branco. Uma das espigas da extremidade da direita estava a preto e branco. Ou, afinal, Tekka achava que era só uma, porque depois surgiu outra.
A espiga ao lado daquela ainda a cores mortas copiou a sua contemporânea em estilo.
E, de seguida, a terceira da mesma fila horizontal.
Tekka sentiu as suas memórias a encharcarem-no de imediato. Os vislumbres de animais mortos, as plantas a murcharem...caídas no chão...a perderem a sua cor.
Ele deixou de mirar nas espigas, agora com uma fila inteira contaminada e uma segunda a metade do processo, e começou a passar os olhos por todos os cantos. Além das espigas, nas árvores que pareciam ainda normais. Daí passou para a sua intacta cabana de madeira castanha-escura. Para depois passar para o solo ao lado das espigas que estava...preto e branco.
Preto e branco. A coloração mórbida a espalhar-se pelo chão. Como uma mancha monocórdica a contaminar tudo ao seu alcance. Mesmo a árvore do fundo que, como Tekka viu ao revirar o olhar naquela direção mais uma vez, estava a perder a sua coloração. Numa doença que escalava desde o seu tronco na base até às suas folhas outrora esverdeadas no topo.
Como...como há um ano atrás.
Tekka: "..."
Tudo o trazia de volta àqueles tempos. À época da praga. Que...muito bem podia estar de volta. Para roubar-lhe o seu novo negócio. Da mesma forma que arruinou o seu antigo. Da mesma forma que lhe arruinou...
A sua vida anterior.
A sua carreira passada.
A caça.
E, agora, como Tekka percebeu através da mancha preta e branca a ir de encontro consigo e com a sua cabana, esta praga preparava-se para tirar-lhe o seu novo negócio.
Pois o parasita tinha voltado.
E ele vinha ceifar aquilo que não matou da última vez.
Tekka: "Merda!"
Tekka virou as costas à mancha que se dispersava pelo solo com um brado solto em plena frustração e desatou numa corrida destinada à barraca. Sabia que não poderia combater uma doença. Nada podia parar a natureza e os males que a própria criava. Mas também não era capaz de simplesmente se entregar sem lutar.
Não quando corre o risco de perder mais do que da outra vez.
Tekka aproximou-se da parede da barraca que segurava a sua caçadeira e não perdeu tempo em sacar a arma. Apoiado pela memória muscular dos bons tempos áureos, ele encostou a extremidade plana da arma ao ombro de modo a segurar com um braço o cano e com o outro o gatilho, pronto a disparar a qualquer instante.
Não esperava que este fosse o momento em que fosse pegar na arma, porém ninguém conseguiu prever que o parasita havia de voltar. Portanto, nesse quesito, está em pé de igualdade com a ameaça iminente.
O ex-caçador escanea o seus arredores, com o seu torso e cano da arma a acompanharem a direção do olhar. Passando os olhos nas espigas, neste ponto todas a partilhar a mesma paleta de cores. A árvore do fundo que permanece viva, por muito que a sua antiga personalidade se encontre morta. Nas folhagens do fundo, do lado da árvore que, como repara pela primeira vez, também estão a preto e branco. Também em pé...
Tekka não se recorda de a vegetação conseguir resistir à praga. As suas memórias de há um ano atrás relembravam-no de como tudo o que era contaminado perdia a cor e...morria. Morria. Mas agora não. O que sugeria que podia ser uma nova estirpe ou uma nova forma que a doença arranjou para massacrar os contaminados numa tortura longa e dolorosa antes de os matar sem misericórdia.
Da mesma forma que a vida de Tekka estava nesse preciso momento à beira de um fio. Perto da mancha que começa a chegar a alguns metros da cabana sem que o próprio dono dê por isso.
Afinal, ele está ocupado na procura fútil de neutralizar a ameaça que ele bem sabe que não tem uma cara. Afinal, ele recusa-se a largar a arma e fugir do que foi a sua casa durante tanto tempo. Afinal, ele é incapaz de recomeçar de novo.
Afinal, ele avistou um homem a sair dos arbustos lá ao longe.
Tekka: "E-Ei! Alto aí!"
Gritou de arma apontada a gaguejar de modo a intimidar a figura que intimidava o próprio. E que nem o ouvia.
O homem saiu dos arbustos a preto a branco com a maior tranquilidade que Tekka viu na sua vida. Sem folha alguma a sujar a sua cara ou a escavacar a sua roupa. A sua cara roupa.
É que, naquele clima tropical de floresta, aquele homem com um cajado negro vestia um blazer preto com uma cartola igualmente escura em cima da sua cabeça. A sua pele pálida quase se camuflava com o branco da camisa por cima do blazer. Na verdade, a sua figura toda poderia camuflar-se com os arredores adornados a preto e branco...tal como ele.
Isso significa que...
Ele é quem está fazer tudo isto?
Tekka: "Tu aí! Estás a ouvir-me?"
Mal a hipótese surgiu na sua cabeça, o pouco tom ameaçador nas suas palavras esvaiu-se. Mesmo o cano da sua arma, ainda apontado ao homem que passeava sem escrúpulos no mato de cores mortas.
Então ele é...o vírus? Ou uma nova forma? Não sabia. Não precisava de saber. Facto era que tudo na suas proximidades perdia a cor. O que explicava o destino das suas espigas. Do seu terreno. Talvez até o que está prestes a acontecer consigo e a sua cabana, com a mancha quase a seus pés.
Tekka: "Para aí! Estás em propriedade privada!"
Disse, a tornar a erguer o cano da arma no ar, de voz mais resoluta.
Sim, foi ele. Ele que segue a caminhar para a sua esquerda junto aos arbustos de cajado na mão sem dar pela sua presença ou pela presença de qualquer coisa que o rodeie. Foi ele quem fez isto. É ele quem está a fazer isto.
E nem se preocupa com o que está a causar.
Tekka: "Quieto! Eu não quero ter de disparar!"
É por causa de entidades como ele que perdeu a sua grande paixão na vida. Graças a estas forças que se movem preocupando-se sómente nos seus interesses que boas pessoas como Tekka se veem obrigadas a trabalhar em ramos que não gostam. Que sofrem!
Tekka: "Estou a avisar! Eu não vou hesitar!"
Mas ele está à sua frente. Na verdade, encontra-se já de costas, de tão ao fundo que está no seu trajeto horizontal. E desatento. De guarda baixa. Como sempre deve estar. Pois a ideia de que vá ser atacado nem lhe deve surgir na cabeça.
Nem alguma vez cogitou que pudesse haver alguém a apontar-lhe uma arma mesmo com os tentáculos da sua mancha a centímetros de si.
Tekka: "Eu prometo! Eu vou disparar!"
De que está à espera? Não tem nada a perder. Nada de mal há em tirar tudo a quem também lhe tirou tudo! Pagar amor com amor nunca foi um crime! A polícia não o fará! O governo não o fará! E, se ninguém é capaz, então terá de ser ele próprio.
Especialmente porque já não prime no gatilho há muito tempo.
Tekka: "Não diga que eu não avisei..."
Através de um sussurro, Tekka decide disparar. Um estrondo deu-se no ar silencioso da floresta devido à força das reações executadas dentro da arma que chegavam a propulsionar ao de leve o corpo de Tekka para trás. A bala saiu da câmara e percorreu o cano a mirar na cabeça do homem. A cabeça com uma cartola a fazer de decoração.
Numa velocidade absurda, a bala seguiu da barraca. Para passar junto das espigas, flores do chão, árvores e chegar à nuca da criatura.
Onde a bala ficou esmagada com o contacto.
Tekka: "Hã???"
O homem de preto e branco plantou o pé no chão. Parou ali mesmo. De cajado espetado na terra que há minutos atrás estava castanha. Virado para a frente. Isento da vontade de bater o olho para ver quem teve a audacidade de o atingir.
Pelo menos, até agora.
Tekka: "..."
Tekka nem se lembrou de verificar, mas a mancha tinha parado no seu trajeto. Logo a uns centímetros de tocar nos seus pés e de o infetar. Como se a mancha seguisse as ordens, os movimentos daquele indivíduo estranho e que, da mesma forma como ele parou no caminho, também a doença da cor preto e branco parou, sendo a extensão da sua vontade.
A vontade dele que apenas exigia encarar o responsável pelo disparo.
O responsável por aquela bala que ele vê que está aos seus pés, ao virar-se para trás.
Virar-se para trás, erguer a cabeça e ver Tekka.
Tekka: "!"
O dono da plantação nem deu por si a baixar a arma. Deixando-a para baixo, segurando-a em mãos trémulas. Trémulas como a sua respiração. Tudo porque estava a travar o olhar com...o invasor.
Os seus olhos a preto e branco. Branco e preto. A cor do nada e a cor do luto. Luto porque alguém morre e-e esse alguém tem de mesmo merecer para morrer e e tem de ser muito estúpido para tentar e chamar a atenção, enfurecer, fazer-se ver por uma criatura de olhar tão perigoso e imponente e poderoso que ao ver a pessoa idiota o suficiente para lhe acertar com uma mísera bala lhe responde a...
Tekka: "..."
...levar a mão à cabeça...
...à cartola...
...ele segura-a e...
...e...
...e...
E.....E...............
Levanta-a pela ponta, num gesto de cortesia.
Então, vira as costas ao homem e sai a andar, desta vez para longe da sua plantação, para um lugar paralelo à plantação.
Muito, muito longe dali.
Tekka: "Gah..."
Tekka cai de joelhos no chão. Calças a sujarem-se com terra...castanha outra vez. Parte do terreno que recuperava a sua cor como todas as outras estruturas envolventes.
Como a árvore com as folhas novamente verdes. As pequenas ervas a encherem-se de esperança. O
Como os grãos de milho a ficar dourados. Como a mancha que recuava de junto de Tekka para seguir o seu criador.
O velho deixa cair a pega da espingar. De mãos livres, ele leva uma delas ao peito e sente o seu batimento acelerado, rápido, frenético a um ritmo apenas equiparado ao da sua respiração ofegante digna de alguém que correu uma maratona. Neste caso, uma maratona concentrada num só encontro, num só olhar.
Nem com o parasita se lembra de sentir tão ameaçado. Nem com o parasita se lembra de ter o coração tão acelerado. Nem com o parasita se lembra de estar tão amedrontado, agora que oara para pensar.
No entanto, acha que sabe porquê.
Porque, no meio de um mundo repleto de bem e de mal, é fácil de indetificar quais os seres benéficos e seres prejudiciais à nossa existência. Muitas vezes basta olhar para as suas ações.
Para a maneira como um altroísta põe os deveres dos outros à frente dos seus. A maneira como mães dão comida às suas crianças apesar do risco que elas próprias correm de passar fome.
Para a maneira como um ladrão põe os seus deveres à frente dos de qualquer um.
A maneira como um parasita devora tudo com a maior gula à face de todo o universo.
Ainda assim, o que muitos se esquecem, é a existência de um terceiro polo muitas vezes esquecido, um terceiro partido da ética: aqueles que são moralmente neutros.
Pois eles são bons ou maus, dependendo das circunstâncias. As suas emoções e disposições são o que determinam o lado para o qual podem pender, não podendo ser facilmente julgados.
E num mundo onde saber é conhecimento e ler os outros é poder, não saber o que uma pessoa pode fazer é o fator mais assustador de todos.
