"Crime na Cidade"- UEF
A cidade de Los Angeles prova-se cada vez mais perigosa. Como se não bastassem os problemas com as criaturas, o crime anda à solta e parece ser um problema tão grande quanto parece. Cabe a Damian encarar Iza e os seus planos. Agora palavras não o salvarão. Terá de recorrer a outro tipo de método. Um mais violento.
Género: Drama

Dentro do seu carro, um homem parecia inquieto.
Estava estacionado junto à escola. Provavelmente à espera do seu filho. Mas, para as horas que veio, ele estava a demorar.
Levando-o a bater com o pé no chão do carro, inquietamente.
À espera de novidades súbitas.
Quando-
*Bip* *Bip* *Bip*
O seu flip phone, que se encontra no bolso, começa a tocar. Algo que o homem estranha, franzindo a sobrancelha. Quem poderia ser àquelas horas...?
*Bip* *Bip* *Bip*
Bem, poderia fazer as suposições que quisesse, mas mais valia atender para descobrir. Portanto, ele prepara a voz, tira o telemóvel do bolso e começa a falar:
Adulto: "Aham...Estou?"
Telemóvel: "...Gareth, Quellit vshgdgh" *inaudível*
Adulto: "Quill. Estranho estares a ligar a estas horas. Ainda agora estive aí."
Telemóvel: *inteligível*
Adulto: "Ok. Bom saber disso. Também seria idiota da parte deles meterem-se connosco. Somos novatos no jogo, mas temos garra."
Telemóvel: "Praggfahfatsgshhshs. Peagcytabhbs."
Adulto: "..."
Telemóvel: "Pragfahhshshshshbs. Elebdhendjdbebs!"
Adulto: "Estou a ver..."
Telemóvel: *inteligível*
Adulto: "Nesse caso, comecem por agradecer ao Reyner pela ajuda que tem dado nas nossas 'aventuras'. Quanto ao Filly, já que se está a fazer de espertalhão, preguem-lhe um susto. Nem precisam de o magoar nem nada. Falem de mim que ele e a 'Outer' logo saem do nosso pé. Basta relembrá-lo do que eu fiz pela família deles que logo nos fazem um desconto."
Telemóvel: "Prafgfhgarff."
Adulto: "Esse tipo? Ok, espera que depois vou aí. Mas nesse caso, usa a mesma medida que descrevi. Diz que eu próprio vou negociar com ele. Vais ver se não fica com a bolinha mais baixa..."
*PLIMM* *PLIIIM* *PLIM* *PPLIM*
Adulto: "Oh, porra. O meu filho está a caminho, Quill. Tratamos disto mais tarde. Vá, vai aguentá-los enquanto eu não chego. Prometo que não demoro."
*Pim*
Apressado pelo som dos sinos, ele despacha aqueles negócios que terá de deixar para mais tarde. Ele vê a sua aprência no retrovisor e verifica a aparência do carro para manter o segredo.
Olha para o lado da janela, onde está a Florida Public School.
Espera um pouco e...
Rapazes: "Andem daí!"
Multidão de jovens: "SEGUE!!! PARA AÍ!"
Alunos começam a sair. De todas as idades, vestindo todo o tipo de vestimenta. Levando consigo bolas de futebol ou sacos que levavam para a muda de roupa na aula de educação física.
Nisso, vários pais que estavam à espera dos filhos, saem dos carros mal avistam os seus filhos. O adulto no carro faz o mesmo até avistar o seu e agir do mesmo modo.
Adulto: "Ali."
Ele sai do carro. Indo ter com o rapaz loiro nos seus 7 anos. O mesmo rapaz acompanhado de outro jovem na mesma idade, de cabelos castanhos. Sendo que este último parece estar a consolá-lo com o braço enquanto andam.
Certamente algo estranho de se ver à tarde. Porém, o adulto aproxima-se de qualquer forma com um sorriso, chamando-o:
Adulto: "Iza! Aqui!"
A sua voz chama a atenção do rapaz cabisbaixo, Iza Ingram. E o seu amigo, também o chama a atenção para tal.
Reconhecendo o homem à frente, os dois vão ter com ele. Aparentemente com algo em mente, no que trata ao filho, que o fez ficar assim.
Mas o pai decide não pensar muito nisso. Espera para chegarem para poder descobrir.
Adulto: "Olá, meninos. Damian, estás bem?"
Pergunta ao rapaz ao lado do seu filho, numa tentativa de pô-lo a ele e ao seu filho à vontade.
Damian: "S-Sim, senhor Ingram."
Responde, relutante por não saber como o abordar depois do que aconteceu com Iza.
Adulto: "Bom saber. E, já agora, onde é que está a vossa amiga, a Maria?"
Diz, estranhando a sua ausência e guardando a melhor pergunta para depois.
Damian: "A Maria ficou na sala. Disse que os pais só a podiam vir buscar mais tarde. Ela própria disse que eles estão bastante velhos e, ainda assim, muito ocupados."
Adulto: "Compreensível..."
Quebrado o gelo, ele olha para o que mais importa. O seu filho que não para de olhar para o chão, enquanto a multidão passa ao seu lado entusiasticamente.
Um contraste tão grande que sinaliza ao seu pai que algo de mal se passa, sem dúvida alguma. Basta descobrir o quê...
Adulto: "E tu, filho? Tudo bem contigo?"
Pergunta, de forma mais séria e pessoal. Ao que o rapaz claramente triste, na maior sinceridade, responde, no meio de toda a barulheira que lentamente vai desaparecendo:
Iza: "Não."
Damian: "..."
Surpreendendo Damian pela falta de subtileza com que ele respondeu. Facilitando somente o trabalho para o seu pai extrair a verdade.
Adulto: "Hum. Bem direto ao ponto...então, como já vi que aconteceu algo de mal, importas-te em dizer o que foi?"
O rapaz olha para o pai nos olhos pela primeira vez. Pela primeir vez ele tira os olhos do chão e permite que o pai o veja como realmente é. Que veja as suas lágrimas nos olhos.
Iza: "Pai..."
Ele começa, repembrando-se daquelas memórias infelizes.
Iza: "Não foi nada de mais. Não...não é assim tão importante-"
Adulto: "Mas quero saber."
Damian: "..."
Iza: "..."
Adulto: "Como teu pai exijo saber e é por isso que vais contar-me."
Com aquelas palavras tão fortes do pai sorridente, Damian chega a sentir-se intimidado. Percebendo que aquela conversa era agora entre pai e filho, ele afasta-se de Iza, largando-o de vez.
Assim ficando o rapaz sem qualquer interferência externa. Sem amigos. Abstraindo-se do barulho do exterior. Elementos que fazem pressão para dizer a verdade.
E, sendo sincero, ele próprio já aceitou esse facto com o pai sério que tem, decidindo não resistir mais.
Iza: "Foi o Milu..."
Confessa, envergonhado.
Adulto: "Milu?"
Iza: "Ele continua a implicar comigo. Não se cansa de gozar comigo."
Damian: "..."
Iza: "Nas aulas de artes é que ele fica pior. A fazer pouco de mim e dos meus desenhos..."
Adulto: "A sério?"
Iza: "Sim. E ainda fica a dizer aquelas coisas de sempre."
Adulto: "Tais como...?"
Iza: "Que para filho de arquiteto, desenho muito mal. E que, para fazer o que faço, deves ser mesmo mu no que fazes."
O pai sorri. Quase que se rindo com aquelas provocações tão claras e idiotas, mas que, apesar de tudo, surtem efeito no seu filho. Se isso não demonstra a fragilidade das crianças, então nem ele sabe o que será...
Já que o seu filho fica ainda mais triste só de descrever os acontecidos. No entanto, como pai, ele próprio tem de o consolar mais do que qualquer um.
Adulto: "Ai, ai, ai. Esse rapaz é mesmo mauzinho..."
Comenta, sempre de sorriso no rosto.
Ele agacha-se, ficando com os seus olhos ao mesmo nível dos do filho. O pai tira do bolso um pacote com lenços. Abre-o e tira de lá um lenço que passa para o seu filho.
Adulto: "Toma. Não queremos que os outros te vejam chorar."
Subitamente, os olhos da criança brilham. Numa mistura de sentimentos que acabam por amenizar aquela tristeza. Que o fazem lembrar que aqueles momentos são insignificantes.
O seu pai quase que se ri, ao ver o filho a pegar no lenço e a limpar-se, mas Iza não se sente insultado. Não com o seu pai que está tão compreensivo. Que o conhece bem. Que lhe diz, em forma de concelho:
Adulto: "Sabes, Iza, antes de ser arquiteto, ninguém acreditava em mim. Eu próprio também não. Antes de ter encontrado o lugar certo, passei por muitas dificuldades como tu. E...até por pessoas que também falavam mal de mim. Pessoas más que queriam ver o meu fracasso. Pessoas tal como o Milu."
Iza limpa as lágrimas no canto do olho e pergunta, numa oportunidade de aprendizagem:
Iza: "Mas...o que é que fizeste com eles, pai?"
O sorriso do homem misteriosamente desaparece. Ele pausa por um bocado. Como se tivesse sido atravessado por uma lança de arrependimentos que lhe retiram a sua máscara.
Não. Não isso não pode acontecer. Não perante Damian e especialmente Iza.
O adulto faz um esforço para improvisar. Tentando esconder o desconforto deste assunto e as memórias que lhe traz para não o deixar sem resposta. Para lhe deixar aquela lição:
Adulto: "Bem...essas pessoas...eu...arranjei uma solução. Uma boa solução que fez com que eles nunca mais me dirigissem a palavra. E consistiu em simplesmente trabalhar. Trabalhar no duro. Trabalhar ao ponto de lhes calar a boca assim que sequer ousarem falar mal de mim, porque saberão que isso implicaria dizer uma mentira. Porque saberiam que isso implicaria desrespeitar-me."
Damian: "..."
Iza: "E-E resultou?"
O sorriso do homem regressa. Juntamente com a sua mente sã que mostra ao público. Culminando na sua resposta simples e satisfatória:
Adulto: "Se resultou? Hunf. Filho, se não tivesse resultado, achas que estaríamos aqui neste momento?"
Até uma criança vê a ironia da resposta. Levando Iza a sorrir de volta. Emoldurando aquele momento na sua memória como um bom momento passado com o seu pai.
Um bom momento de uma era que nunca voltará por...
...inúmeros fatores.
Mas para Damian...
...o rapaz que observava tudo em segundo plano e ainda assim de tão perto...
...
...
...
...aquele momento...
...aquele momento...
...parecia quase uma mensagem do que o futuro viria a tirar-lhe.
E, acima de tudo, uma lição que ele teria de aplicar ao presente, ou, pelo menos, ponderar aplicar para enfrentar quem o opuser.
A questão é:
será mesmo necessário?
Damian ia pelo passeio. Uma vizinhança pela qual nunca havia passado.
Uma vizinhança estranhamente vazia. Onde não via mais de cinco pessoas.
Talvez pelas notícias recentes que têm passado. As que vê todas as manhãs sobre a taxa criminal na rua. Tópico esse que...conhece mesmo bem.
Ele dirigia-se a um local. Pretendia ir a uma loja. Tem todo o tempo do mundo, agora que está dispensado.
Todos andam na rua. Afinal, já passam das 13 horas.
Damian vai andando por entre essas pessoas. Arranjando um caminho.
Por isso é que está a demorar tanto para chegar ao local pretendido. Embora não pareça, é complicado passar por entre os outros. Especialmente quando são muitos, como hoje é o caso.
Há meia-hora que tem caminhado. Se o que dizem é verdade, a loja está exatamente à sua direiiiitaaaaaa...
Damian: "Aqui."
O homem vira-se para a direita. Olha para o que aparenta ser uma loja. Contudo, esse não é o caso.
Paredes de madeira e uma montra de vidro. Depois de olhar melhor é fácil de perceber que se trata de uma loja. E vendo a montra percebe-se o tipo de loja que é...
Damian: "A loja de armas mais rasca da Califórnia. Tinha que ser logo a loja mais perto do 'The Right'."
Realmente, não tinha vontade alguma de lá entrar. Só o aspeto do estabelecimento é capaz de afastar qualquer um. Contudo, não tem muitas opções.
Ele precisa de uma arma. Precisa de uma e urgentemente. Sendo fraco como é não conseguirá proteger-se amanhã.
Não conseguirá arranjar o dinheiro da dívida. O mínimo que pode fazer é proteger Jeff e a sua casa. Mas para isso precisará de uma arma de fogo. Isso é imperativo.
Damian tira o dinheiro do bolso e contempla-o. O mesmo maço de notas que Daniel lhe deu. Vai dar-lhe bom uso.
O escritor respira fundo e expira.
Damian: "Vamos a isto."
*Dim* *Dim* *Dim*
O sino no topo da porta repica com a entrada de Damian.
Damian: "Boa tarde."
Vendedor: "O que o traz aqui?"
Pergunta o senhor, em pé, atrás do balcão.
Damian para ao pé da porta. Antes de se adentrar e ver o interior da loja decide primeiro respoder à pergunta. E que pergunta estranha.
Damian: "P-Procuro uma arma."
Responde firmemente, ainda estranhando a pergunta. Quer dizer, se está numa loja de armas de fogo é porque veio comprar uma arma. É um pouco óbvio, diria.
Vendedor: "Vejo que estranha a pergunta, não precisa de esconder. Também assim ficaria se o dono de uma loja de armas de fogo perguntasse o que veio comprar numa loja de armas de fogo."
Leu-me completamente a mente.
Damian: "Acho que não sou bom a esconder a verdade."
Vendedor: "Pois não."
Damian imediatamente cala-se. Nunca tinha boas respostas para quando alguém lhe apontava um defeito. Não seria em meia dúzia de segundos que iria ultrapassar isso.
Entretanto, o senhor do balcão encara-o mais seriamente como se estivesse a avaliar o tipo de cliente que ele seria. E é uma análise aparentemente bem completa. Tanto que demora alguns minutos até concluir.
Vendedor: "Acho que chega de perguntas da minha parte. Fale comigo."
Damian: "S-Sim."
Então, nervosamente, Damian vai caminhando em direção ao balcão de madeira onde se encontra o suposto proprietário da loja. Vai, no entanto, a passos lentos, uma vez que aproveita para apreciar a localidade na sua totalidade.
Vê que é tudo de madeira. Parece ser um negócio individual, pois a loja não tem lá muito bom aspeto. Quer dizer, a madeira está literalmente podere. Tanto no chão quanto nas prateleiras.
É verdade. As prateleiras. Estas que se encontravam à esquerda e à direita, sempre coladas àquela parede que podia desabar a a qualquer momento. Sobre elas estavam cartuchos e algumas armas de pressão de ar, juntos a uma pequena plaquinha onde constava o respetivo preço do produto. E essas armas de pressão de ar. Aquelas armas que magoam e não matam e, como tal, podem ser vendidas aos montes. Rapazes e raparigas compram-nas para se divertirem. Ou quando querem se proteger e não têm a certeza se serão capazes de matar. E essa é precisamente a situação em que o pai de Jeff se encontra.
Não. Tem dúvidas quanto a isso, mas não serão as suas inseguranças que o levarão até à morte. Pode ter dúvidas, mas bem sabe ele que aquele tipo de armas Mas não eram essas as armas que Damian procurava. Ele precisaria de algo maior. Mais poderoso e que...
...matasse.
Vendedor: "Tem alguma ideia do que procura?"
Pergunta o senhor atrás do balcão. Atrás de si, está uma vitrine com algumas armas. Devem ser as mais requesitadas e perigosas. São essas as que deve comprar.
Damian: "B-Bem, quero uma arma."
Responde, nervosamente.
Vendedor: "Para que é que o quer, ao certo?"
Damian: "É um assunto pessoal e não me sinto seguro em partilhar, mas garanto-lhe que é para autodefesa."
Vendedor: "Espero muito bem que sim. A última coisa que quero é vender uma arma para um criminoso. Mas é bom saber que existem clientes que vêm aqui sabendo o que querem."
Damian: "É assim tão comum?"
Vendedor: "Porque é que acha que lhe fiz a pergunta ao entrar?"
Damian: "Bom ponto."
Responde, sentindo que o senhor fez um genuíno bom ponto, de uma perspetiva que não lhe tinha vindo à cabeça.
Vendedor: "Só gostava de saber uma coisa, caso não se importasse, claro."
Damian: "Pode dizer."
Vendedor: "Por acaso não quer uma arma para se defender das criaturas que por aí andam, pois não?"
Mas que raio. Esta pergunta veio do nada. Criaturas? Será que ele se está a referir aos recentes estranhos acontecimentos que têm ocorrido por todo o país? E se esse for o caso, será que ele acredita na existência destes seres sobrenaturais? Daniel não acredita. A maioria das pessoas não parece acreditar. Isso torná-lo-ia uma exceção à regra.
Damian: "Hum, bem..."
Vendedor: "Seja sincero."
Se quer que seja sincero, prefere nem dizer. Considera que seja uma assunto idiota que não merece a atenção de ninguém. Mas, já que chegou até aqui e vendo que o homem do balcão não lhe parece estar a dar uma chance para ficar calado, Damian vê-se obrigado a dizer algo:
Damian: "Bem, eu não acredito nesse tipo de coisas."
Vendedor: "Afinal não é muito diferente dos outros."
Damian: "Parece que o decepcionei."
Vendedor: "Não, mas estava curioso para ver se as suas opiniôes também fossem diferentes das da multidão. Acho que pensei mal."
Damian: "Já me está a julgar assim tão rapidamente só porque não acredito em teorias da conspiração?"
Pergunta, num tom um tanto quanto agressivo. Não é que esteja propriamente farto deste tipo de perguntas, porém sente que este tipo de estupidez não merece a atenção que tem. Existem assuntos mais importantes no mundo do que monstros e acontecimentos sobrenaturais. Embora, como o tempo parece estar a mostrar, o seu trabalho parece depender cada vez mais deste tipo de assunto.
Vendedor: "Vamos lá ter calma. Essa tua última frase está errada em diferentes níveis."
Damian: "Então, faça-me o favor de explicar-se melhor."
O velhote debruça-se no balcão de madeira, pretendendo passar melhor a mensagem.
Vendedor: "Penso que deu para perceber que eu pertenço ao pequeno grupo de pessoas que acredita que todos estes acontecimentos violentos e de carácter sobrenatural estão conectados. Em outras palavras, acredito que os seres sobre-humanos e os monstros de que tanto falam são reais."
Damian: "Ok e o que é que o faz pensar assim?"
Vendedor: "Porque já experienciei algo do género."
Ora aqui está algo de que não estava à espera. Ele podia ter dito isso mais cedo. Assim, escusava de criar uma pequena discussão.
Agora Damian está mais intrigado. A informação que ele tem pode vir a ser útil. Não quer chegar a este ponto, mas é uma alta possibilidade apontar o sobrenatural como a causa do desaparecimento dos três soldados, embora, como já deixou bem explícito, ele não acredite nesse tipo de coisas. Talvez, só talvez, seja melhor ouvir o que ele está prestes a dizer com atenção e cuidado.
Damian: "Importa-se de explicar-me a experiência detalhadamente?"
Vendedor: "C-Calma. Antes de mais, não me aconteceu a mim. Foi a outra pessoa, eu apenas testemunhei tudo em primeira mão."
Damian: "Essa pessoa..."
Vendedor: "Uma amiga. Era minha vizinha, sabe. Viviámos no mesmo bairro. Comunicávamos bastante. Se um tinha um problema, o outro ia ajudar. Também não é como se tivéssemos de percorrer grandes distâncias para nos encontrarmos."
Damian: "Já é melhor que a minha vizinhança. Nem conheço os meus vizinhos. Não tenho tempo para isso. Vou embora de manhã e chego a casa de noite. Mas eles parecem-me boas pessoas. Sei que, se o Jeff estiver em perigo, vão ajudá-lo."
Comenta para o velhote, pretendendo quebrar o gelo e deixá-lo mais aberto à partilha da experiência. Também o disse porque realmente o sentia no coração.
Os seus vizinhos devem ser boas pessoas. Jeff também deve partilhar do mesmo otimismo, contudo, os dois nunca saberão. São e sempre foram demasiado introvertidos. Damian tinha desculpa e Jeff também.
Vendedor: "Essas esperanças que tem quanto aos seus vizinhos, aplicam-se completamente a ela. Na altura, ela tinha 35 e eu 27. A sua pele era tão escura como a minha. Lembro-me muito bem do sorriso dela sempre que me via chegar do trabalho. É que na altura tinha emprego no banco como contabilista. Tempos terríveis que lá passei. Não fazia dinheiro algum e também não me divertia. A verdade é que apenas me encontrava lá porque a minha família inteira foi para contabilista. Não poderia ser a única exceção à regra, mas deixa-me dizer que,vê-la a sorrir, sempre que chegava a casa, fazia todo aquele esforço valer a pena. Ela ajudava-me bastante, dando-me alguns momentos de felicidade. Por isso, também decidi ajudá-la, sempre que conseguia e estava presente em casa. Assim, acabámos por nos conhecer melhor. Quando dei por mim, já éramos amigos. Amigos que acabaram por fazer uma promessa: iríamos entreajudar-mo-nos, sempre que o outro precisasse. Essa promessa jurei nunca quebrar e prometi a mim mesmo que sempre estaria ao lado dela para a proteger, pois, para mim, ela era a pessoa mais importante do mundo."
A cara com que falava aquilo tudo mostrava o quanto sente falta desse tempo. A felicidade era aparente no velho senhor, à medida que recontava cada um dos detalhes daquela época. Ele e aquela senhora eram claramente bastante próximos.
Não quer estar a teorizar, mas é bem capaz de eles serem mais do que vizinhos ou amigos. Porém, não quer perguntar-lhe e tirar aquele sorriso do seu rosto. No entanto, ainda tem algumas dúvidas antes que ele continue.
Damian: "Ela tinha emprego?"
Vendedor: "Não. Passou a vida a estudar ciências, algo que gostava realmente, mas..."
Damian: "O que é que se passou?"
Vendedor: "Nenhuma instituição a aceitou. Até se candidatou a trabalhar na 'Neuer', provavelmente a melhor instalação de pesquisas do país, contudo também a recusaram. Só por causa do seu tom de pele. Não teve a mesma sorte que eu. O 'Surge Bank' onde trabalhava, ao menos, não era preconceituoso."
Infelizmente, essa é a realidade que muitas pessoas negras enfrentam. As coisas parecem estar a melhorar, mas, ainda assim, é uma realidade que muitas pessoas de tom de pele mais escuro têm que enfrentar todos os dias.
Damian: "Lamento. No entanto, se me permite, ela não parecia triste."
Fala, lamentando a tragédia com a vizinha e, ao mesmo tempo, suavemente mudando de assunto.
Vendedor: "Isso deve-se ao tipo de pessoa que ela era. Quando queria algo, não desistia. Porém, para até ela desistir, é porque já tinha se candidatato várias vezes e tinha sido recusada em todas. Caso contrário, isso iria contra os seus ideiais e o tipo de pessoa que ela é."
Damian: "Parece ser boa pessoa."
Comenta, genuinamente admirando a pessoa descrita. Ela parece o tipo de pessoa que muitos aspiram a ser. Lembra-lhe até um pouco da sua mulher.
Uma mistura de tristeza e felicidade pulsa pelo corpo de ambos. Felicidade de se lembrarem da pessoa fantástica que eram as mulheres e tristeza por ambos saberem que elas já não se encontravam mais no mundo real.
Vendedor: "Tens razão, ela era uma pessoa muito bondosa. Dava-me pena vê-la tão decepcionada e triste por não conseguir arranjar emprego. Ela tentava esconder essa dor com aqueles sorrisos e piadas infantis, mas não enganava ninguém. Eu não me deixava enganar. Porém, quando estava perto de mim, essa tristeza interior que ela tanto tentava esconder despaarecia. De uma forma estranha, um precisava do outro para ser feliz. Eu para aliviar o stresse do trabalho e ela para se esquecer das dores do passado. Mas essas dores, por muito que desaparecessem quando estava comigo, pareciam voltar sempre a aparecer."
Subitamente, o tom da conversa muda. Um ar sinistro percorre o ar. É como se a próxima parte da história fosse mais pesada e a mudança no ambiente fosse um presságio do que vinha em momentos.
Vendedor: "Como te disse, nós os dois comunicávamos bastante. Se havia algo de errado com um, o outro ficava logo a saber. E foi exatamente isso o que aconteceu quando 'aquilo' apareceu."
Damian: "Como assim 'aquilo'?"
A historia está prestes a entrar na parte mais importante. Parte essa que é mais sombria e parece envolver algo mais sobrenatural.
O escritor fica intrigado e temendo o que aí vem. Mesmo sabendo que nada de bom virá, ele teme pela rapariga e pelo que possa ter acontecido com o vendedor no passado.
Ele continua a falar:
Vendedor: "Certo dia, vinha eu do trabalho e estava ela no jardim a regar. Acenou-me, como sempre faz, e eu acenei de volta. Porém, também me pediu para eu ir ao jardim falar com ela. Estranhei. Porque é que ela quereria falar comigo, especialmente naquele momento? Já era de noite e eu vinha estafado, mas, ainda assim, a minha curiosidade venceu."
O velhote para de se debruçar para cima do balcão e fica com o tronco reto. O olhar dele fica mais vazio, mais sombrio e denso. Já sabe o que aí vem e dá a crer que não é nada de bom.
Vendedor: "Ela diz-me que, nos últimos dias, sempre que se encontra na cama, sente que está a ser observada. Também me contou que, no meio da penumbra, pareceu-lhe ter visto uma figura num canto do quarto. Infiltrado nas sombras e na noite, ele fica no canto do quatro a obsevá-la."
Damian: "Mas que..."
Ficou com tantas perguntas. Até começou a duvidar da veracidade do acontecimento. Contudo, aquilo não podia ser falso. Senão, aquela era uam atuação digna de um prémio.
Quer lhe perguntar tantas coisas. O que é que era aquela criatura? O que é que ela queria? E porque é que só atacava de noite? Contudo, a pergunta que não quer calar é...
Damian: "E-E ela não ligou a luz para averiguar de que se tratava?"
Ao que o senhor lhe responde com um sorriso malicioso pertencente a alguém mais experiente:
Vendedor: "Homem, ela tentou."
Damian: "E então?"
Vendedor: "Por alguma razão, sempre que ligava a luz, a criatura já não estava lá."
A resposta foi satisfatória para o pai de Jeff. Ele chegou logo a uma lógica conclusão que faz sentido a um nível médico.
Mais aliviado, julgando que o sobrenatural não existe, ele responde:
Damian: "Afinal não é nada de mal. Sem ofensa, mas a sua amiga estava com problemas psicológicos, é que, por vezes, o trauma pod-"
Vendedor: "Vai deixar-me acabar a história?"
Interrompe-o, mal se apercebe que Damian arranjou uma conclusão idiota. Já sabia que, qualquer coisa que saísse daquela boca seria parvoíce, contudo, quando ouviu que a sua vizinha tinha distúrbios mentais, aí foi a gota de água. Ainda por cima, o velhote sabia a verdade do que tinha acontecido. E tinha umas boas provas. A segurança na sua interrupção deixou esse aspeto bem claro. Por isso é que Damian parou e decidiu ouvir o que o velhote tinha a dizer.
Damian: "Perdão. Continue."
Pede desculpas, sentindo-se mal pelo que ia dizer. Devia ter levado em conta que o homem sabia tudo. Realmente, deveria tê-lo deixado acabar. Ainda ia dizer alguma idiotice e, como tal, o homem fez bem em calá-lo.
Vendedor: "Não faz mal. Entendo comos e sente. Reagiria mais ou menos da mesma forma se alguém me contasse uma história tão absurda como esta. Mas garanto-te uma coisa: a minha amiga não estava maluca, porque o que aconteceu a seguir, não era proveniente da mente dela."
O senhor acaba por inclinar o corpo para trás. As suas costas aproximam-se da parede e ele começa a olhar para cima, como que tentando se lembrar melhor das coisas que a seguir aconteceriam. Pelos vistos, esta seria uma das partes mais importantes e necessitaria do máximo de detalhes possíveis para a contar.
Vendedor: "Ela pediu-me para ficar do lado dela, nem que seja só por aquela noite. O que tinha de fazer é ficar no quarto dela, a fazer de segurança e a verificar que tudo estava bem e que a criatura não a estava a atormentar. Só havia um problema: isso significaria que não dormiria nada naquela noite e que talvez até chegasse atrasado ao trabalho."
Damian: "Mas é só trabalho, também não perderias muito se faltasses num só dia."
Vendedor: "Aí é que está o problema. Não era um só dia. No dia seguinte, receberia a minha promoção. O chefe finalmente reconheceu o meu esforço e seria recompensado por tal. Assim, poderia finalmente sustentar-me. No entanto, se faltasse, poderia esquecer a promoção. Continuaria como um contabilista nornal e continuaria a comer a mesma comida ao pequeno-almoço, almoço e jantar. Mas, se lá fosse, a minha vida mudaria. Teria finalmente alguma liberdade financeira e, quem sabe, talvez a minha família até me viesse a respeitar."
Damian: "E o que é que escolheste?"
Pergunta, não aguentando mais o suspense e necessitando de uma resposta, e depressa.
Vendedor: "Se eu decidisse ficar ao lado dela, pela noite, perderia uma oportunidade única na minha vida, contudo, também me asseguraria de que a minha amiga ficava viva. Bastava lá fica, de pistola na mão, esperando que algo de anormal acontecesse. Acredita, faria de tudo para protegê-la. Não havia pessoa no mundo que mais me era importante. Como te disse, nós protemos entreajudar-mo-nos, mas aquela situação era demasiado especial."
Damian: "Tu quebraste a promessa."
Concluiu, desta vez, corretamente. E é uma conclusão a que não queria chegar. Para dizer a verdade, esperava o contrário e sente alguma decepção quanto ao senhor por isso. Embora a dedução tenha sido correta, o velhote ainda sente vergonha.
É vergonha dos seus atos passados. Mesmo não tendo desculpa, sente que tem a necessidade de se explicar, principalmente agora que viu o olhar de decepção de Damian.
Vendedor: "Eu sei que foi idiota da minha parte. O trabalho é algo comum, mas um amigo não. Sei que fiz a escolha errada. Todavia, quero que entendas que fiz aquilo para não me arrepender no futuro."
Damian: "E como é que te sentes?"
Vendedor: "Arrependido."
Apesar dos seus esforço em evitar um sentimento de arrependimento no futuro, não conseguiu. A progem deste arrependimento vem do que aconteceu a seguir. Só sabendo as consequências das suas ações é que os humanos reconhecem os seus erros e aprendem. E, para este velhote se arrepender do que fez, é porque as consequências não devem ter sido menos do que catastróficas.
Vendedor: "Assim o fiz. Disse-lhe que não podia. Contei-lhe toda a verdade sobre o trabalho e como tinha uma oportunidade única em mãos. E, em vez de ela ficar zangada ou decepcionada comigo..."
Lágrimas começam a sair-lhe dos olhos. É como se estivesse a viver o momento. Está a viajar no tempo so de contar aquela história. Não consegue conter a tristeza e felicidade que tem em rever o tipo de pessoa que era a sua vizinha.
Vendedor: "Ao invés de se zangar e talvez até deixar de ser minha amiga, ela sorriu e ficou feliz por mim. Disse que não se importava. Desde que esta minha escolha me fosse trazer felicidade, ela não se importava de passar uma noite junto a um possível monstro."
Neste ponto, não consegue aguentar. As lágrimas começam a cair do seu rosto como se estivesse a chover. A sua voz ficou cometamente trémula na sua última intervenção, mas agora ficará ainda mais.
O arrependimento e tristeza tomam conta do seu coração. O senhor já quase que nem tem forças para permanecer em pé. A chorar, o vendedor pousa o seus ombros no balcão e reclina todo o peso do corpo na superfície de madeira. Ela era mesmo boa pessoa. Damian também conseguia perceber isso nas palavras do velhote. Sentia pena, ao saber que tudo aquilo acabaria rapidamente e de uma forma trágica.
Antes de continuar o homem acalma-se. Respira e expira várias vezes. E, quando se sente prontoz continua:
Vendedor: "No dia seguinte, acordei cedo. Estava lreocupado com ela. Tão lreocupado que quase que nem dormi. Por muito que considerasse que fiz a escolha certa, ainda tinha as minhas preocupações. Qual não foi a minha surpresa quando saí de casa para ir para o trabalho e nem a vi a regar as plantas no jardim, como sempre fazia àquelas horas. Estranhei. Até lhe cheguei a ligar antes de ir, só para saber se estava tudo bem, mas ela não atendia. Algo de mal se passava. Comecei a arrepender-me de fazer a escolha naquele momento. Sentia que, se algo de mal tinha acontecido com ela, era minha responsabilidade. Por isso, antes de ir para o banco, fui descobrir de que se tratava."
O sentimento de culpa e a sua imaginação deviam estar a formular cenários terríveis e surreais. É por isso que fazia questão de investigar o que tinha acontecido. Sentia culpa pelo que aconteceu. Um sentimento com que Damian está bem acostumado.
Vendedor: "Eu fui bater-lhe à porta. Nada. Bati outra e outra vez, mas permaneci sem resposta. Já não aguentava. Algo de mal se passav e tinha de descobrir. Temia o pior, mas queria verificar as minhas suspeitas. Portanto, concentrando todo o peso do meu corpo em empurrões na porta, após algumas tentativas consegui arrombá-la. A correr, entrei pela casa adentro, gritando o nome dela. Subi as escadas e fui até à porta do quarto dela. Respirei fundo antes de entrar e só depois é que abri a porta."
Damian já estavcom curiosidade no máximo. Após minutos de preparação e explicação para chegar a este momento da história. É agora que tudo será explicado.
Vendedor: "Puxei a porta para o lado e entrei no quarto. Contudo, algo de muito esquisito estava lá. Não via a minha vizinha em lado nenhum. Julguei que os meus olhos me podiam estar a enganar. Foi quando olhei para o chão que caí de joelhos ao ver que...que...que..."
Damian: "Vamos, diga-me o que é que viu!"
Insiste, curioso e farto de esperar. Quer saber como acaba. Quer saber o resultado do velhote ter quebrado a promessa.
O senhor, hesitantemente abre a boca para falar. Detesta lembrar-se daquele momento e tem tentado evitar lembrar-se dele. Porém, já chegou muito longe. Mais vale acabar o que começou. Então, ele diz, num tom de medo e choro:
Vendedor: "Olhei para o chão e vi o tapete dela, manchado de sangue. Não. coberto de sangue. Sangue por todo o lado. Estava cometamente sujo. E eu, eu não consegui fazer nada. Fiquei perplexo, não só por ver sangue no tapete, mas também por estar um dedo em cima do mesmo tapete. Sim, o dedo, foi a única padte do seu corpo que restou."
Damian: "Que restou?"
O vendedor muda para um tom mais sinistro e assombrador. Muda para este tom de modo a passar bem a mensagem e atrair a atenção do ouvinte. Ele olha Damian nos olhos e espera um bocado antes de responder. Queria criar suspense e fazer com que a resposta fosse impactante. Assim, quando abriu a boca para responder, as atenções todas de Damian estavam focadas em ouvir a resposta do velhote:
Vendedor: "Sim, foi o que sobrou do ataque da criatura. Foi o que restou do ataque do monstro noturno."
O 'monstro noturno'. Estava já pronto para julgar, dizendo que a história é falsa. Contudo, não podia. A narração foi tão convincente e detalhada que o homem não podia ter inventado no momento. Mesmo que tivesse a história memorizada, seria impossível tornar a narração convincente.
Vendedor: "Naquele momento percebi que fiz a escolha errada. Não me considero forte o suficiente para derrotar uma criatura subrenatural, mas talvez, só talvez, se tivesse decidido ficar com ela, seria bem possível que a minha amiga ainda estivesse viva. Assim, estaria mais feliz e não estaria aqui a trabalhar."
Damian: "Não compreendo a parte de estar aqui a trabalhar. O que é que isso tem a ver com a sua amiga?"
Vendedor: "Lá estás tu outra vez. Já te disse para me deixares acabar a história."
Damian: "Ah! Desculpe."
Diz, envergonhado por cometer o mesmo erro duas vezes. Tem que se lembrar desse facto.
Vendedor: "Como estava a dizer, nem sabia o que fazer. Tinha, contudo, uma vaga ideia do que tinha acontecido. Aquela criatura tinha sido a responsável. Certamente ela devorou-a ou dilacerou-a de uma forma a que a única coisa que restasse dela neste mundo fosse um único e mísero dedo. A primeira coisa que me lembrei de fazer foi ligar à polícia. Porém, antes que pudesse fazer, fiquei minutos a processar o que tinha acontecido, de joelhos no chão. E, quando peguei no meu flip phone para ligar às autoridades, eles já tinha chegado. Mais tarde, cheguei a saber que um vizinho avistou-me a entrar na casa da minha vizinha. É claro que alguém que não sabe o contexto irá fazer uma denúncia. No fim, os polícias chegaram e viram-me a mim, de joelhos, a contemplar um tapete manchado de sangue, contendo na sua superfície rugosa e almofadada um dedo pertencente à pessoa que eles suposuram ser a moradora da casa. A que conclusão é que achas que chegaram?"
Damian: "Que foste tu quem a matou."
Vendedor: "Para a minha sorte, isso não passava de uma dedução e, sem provas suficientes, não me poderiam acusar. Todavia, se havia algo de que me podiam acusar era de ter entrado à força na casa de outra pessoa. Já havia testemunhas e câmaras. E como é que eu iria explicar ter arrombado a porta? Dizendo que iria ver se a minha amiga tinha sido ou não assassinada por um 'monstro noturno'?"
Damian: "O que é que decidiste fazer?"
Vendedor: "Entreguei-me. Sabia que não valia a pena resistir. Apenas iria piorar as coisas. Também não é como se estivesse em condições de fugir de 7 polícias. Então, lá fui eu com os senhores de azul. Levaram-me para os interrogatórios, onde tudo correu exatamente como tinha planeado. Disse-lhes a minha versão e o inspetor fartou-se de rir, pensando que eu andava a ver muitos filmes de terror. Até hoje, nem devem ter resolvido o caso. Acabado o interrogatório, levaram-me para a minha cela, onde viria a ficar a viver uns bons anos da minha vida com um tal de Todd. Foi terrível."
Damian: "Mas depois conseguiu sair."
Relembra-o, tentando puxar o lado mais positivo da situação, mas esquecendo-se de lembrar que ele, na época, ainda estava a superar a morte da amiga. Era melhor ter ficado calado.
Vendedor: "Claro que consegui. Caso contrário não estaria aqui a falar contigo. O problema maior foi reintegrar-me na sociedade. Durante quase uma semana fui o principal alvo dos media. Ninguém me queria a trabalhar na loja deles. Literalmente niguém, pois acredita, eu tentei. Tentei tanto voltar a ser um humano normal, porém, por muito que tentasse e quisesse, a sociedade não me permitia. Já que ninguém me queria a fazer parte do seu negócio, decidi criar o meu. E, pronto, chegámos a este preciso momento."
A história foi toda contada na sua integridade, com uma quantidade bastante surpreendente de detalhes. Deve ser porque aquele dia foi marcante para aquele velhote. Provavelmente deve lembrar-se daquele dia sempre que vai dormir. Como tal, conhece tudo o que acontece. É isto o que a culpa faz a um homem. Agora que ouviu a história toda, Damian conclui que e ele e aquele senhor passarm por experiências semelhantes. Se existem duas pessoas que no mundo que devem ter uma maior compreensão um do outro são eles os dois.
Vendedor: "Olhe que parece compreender bem o que sinto."
Fala, ao mesmo tempo que limpa as lágrimas dos eu rosto com as mangas da sua camisa velha.
Damian: "Como?"
Questiona, tendo sido apanhado de surpresa.
Vendedor: "Já tenho idade para ver quando alguém compreende o outro e posso dizer com toda a segurança que este é um dos casos. Estou errado?"
Não tinha planeado contar experiências pessoas, mas, já que chegou a este ponto, é melhor ir até ao fim. Afinal, o senhor já lhe contou a sua história, é a vez de Damian lhe retribuir o favor.
Damian: "Não se preocupe, está correto. Já passei por algo semelhante, embora não envolva nada de sobrenatural."
Vendedor: "Tenho bom olho. Mas então, já que esse é o caso, conte-me."
O à princípio hesitante Damian acaba por concordar. Partilhará a sua dor de perder alguém com outro. É algo que já deveria ter feito há muito bem.
Mais vale tarde do que nunca. Após todos estes anos de sofrimento interno, fianlmente abrirá o seu coração para falar de algo mais pessoal. Nunca imaginou que essa pessoa seria o velhote do balcão de uma loja de armas a deteriorar-se.
Damian: "Ok. É a minha vez. Há alguns anos atrás, na verdade, há muito tempo atrás, era eu uma criança, vivia a vida a brincar. É que não fazia mais nada. Em casa, brincava. Os meus pais, que ainda estão vivos, não me impediam e, então continuava. Ao jantar, brincava. No médico, brincava. Na casa de familiares, brincava. Na creche, brincava e...pois é, na creche."
Diz, lembrando-se vividamente das memórias pertencentes à sua infância. O velhote partilha de uma boa memória tanbém, apesar da idade. Que posso dizer? Os nossos momentos mais marcantes simplesmente não nos aem da cabeça, independentemente do passar dos anos e do envelhecimento do nosso corpo.
Damian: "Lá na creche, tinham muitos brinquedos que putos como eu usavam para brincar. Eles brincavam uns com os outros, usando aqueles bonecos e peças de construção para criarem as suas proprias historias e narrativas. Eu fazia o mesmo. Criava as minhas lutas com os meus próprios bonecos. Aprendi a admirar a criação de histórias, uma paixão que sigo até hoje"
Vendedor: "Como dizem, a infância cria a pessoa que seremos no futuro."
Damian: "E comigo não foi diferente. Passava os dias inteiros a brincar e a criar narrativas tão estúpidas e inúteis que me deixam constrangido só de lembrar."
Vendedor: "E brincavas sozinho?"
Damian: "Sempre. Não me orgulho muito disso, mas sim, não havia uma situação em que fosse interagir com os outros. Graças à minha insistência em permanecer no meu mundinho, os outros também não insistiam."
Vendedor: "Havia alguma razão particular para quereres brincar sozinho?"
Damian: "Para ser sincero, não faço ideia. Contudo, se tivesse de apostar, conhecendo-me bem, diria que era para evitar que as ideias dele estragassem as minhas brincadeiras. Devia achar que as outras crianças só estragavam a minha brincadeira. Elas também não se aproximavam. Nunca se iriam aproximar do misterioso Damian. Isso foi até um certo dia..."
O tom da história muda. Vai para uma parte mais positiva e Damian também se alegra, pelo menos naqueles momentos.
Damian: "Uma rapariga aproximou-se de mim. Ela que se encontrava a brincar com o seu amigo veio ter comigo. O nome dela era Maria. Veio perguntar-me se eu queria me juntar a eles. Isto era inédito. Foi a primeria pessoa a querer aproximar-se de mim. O que é que ela tinha na cabeça? Com certeza, não tinha sido ideia do seu amigo, pois ele fazia uma cara de quem quer que eu recuse a proposta. Veio tudo da cabeça dela. Mas com que intenção? A resposta é que ela simplesmente queria alguém para brincar, mas eu não queria acreditar nisso. Não, teria de haver algo a mais. Estava pronto para lhe dizer que não queria, mas a minha curiosidade venceu-me e acabei por aceitar."
Vendedor: "Pela forma que falas, até parece que te arrependes por ter tomado essa decisão."
Damian: "Na altura, pensava que me arrependeria daquela decisão."
Vendedor: "E hoje?"
Damian: "Não me arrependo nem um segundo."
O escritor do "The Right" esboça um largo sorriso. Lembra-se com alegria do momento em que a sua vida genuinamente começou. Aquele momento fez de si a pessoa que é.
Por muito que, mais tarde, o final possa ter sido trágico, aquele momento de origem, em que tudo começou, é um momento que guardará para sempre no coração até ao dia em que morrer. Isso é algo de que nunca se arrependerá de fazer.
O velhote vai puxa uma cadeira de madeira que se encontra ali para o pé para se sentar.
Vendedor: "Essa rapariga que te convidou é quem eu estou a pensar, não é?"
Damian: "Posso dizer-te que comecei a brincar com ela por curiosidade, mas acabava sempre por voltar dia após dia. Cada dia, percebia um pouco mais da personagem que era aquela tal de Maria. Fiquei fascinado com ela. Ela que era hondosa e sempre solta e um tanto quanto rebelde. Foi por isso que me convidou parabrincar com ela em primeiro lugar. Sendo a rebelde que é, olhou para mim e pensou que, talvez, aquele miúdo não seja assim tão mau. Como tal, aproximou-se e tentou a sorte. Respeito-a por isso até hoje. Respeito-a não só por me ter aberto a relações humanas, como por também me ter dado uma chance de ser alguém."
Vendedor: "Acho que conseguiste comprovar a minha suspeita."
Diz, feliz por ter acertado.
Damian: "Tentei dizer o mínimo, mas acho que é impossível esconder o destino que ela e eu viríamos a ter. Mas o amigo dela é que terá um futuro bastante inesperado."
Vendedor: "Espera! Ele também é importante para a história?"
Pergunta, surpreso.
Damian: "Calma, deixa-me acabar a história."
Virou o feitiço contra o feiticeiro. Aprendeu com as reprimendas que o velhote lhe deu. Mostrou que não é ignorante e aproveita os erros como método de aprendizagem.
Já o velho ia fazer um comentário engraçado, porém a vontade de rir era tanta que o impediu. Deixou que aquela risada que deu servisse como uma forma de dizer "touché".
Damian: "Como disse, o amigo dela não parecia me quere pá muito ali, mas, com o tempo, foi habituando-se à minha presença e até começou a falar comigo. Quando dei por mim, a Maria e ele já se tinham tornado meus amigos. Vê lá tu. Comecei por brincar por curiosidade e acabei como amigo deles. O mundo realmente dá-te um destino completamente diferente para as mãos."
Vendedor: "Só tenho uma pergunta: como é que se chamava o amigo da Maria?"
Ele pausa um pouco antes de responder. Sabe o destino desse tal amigo. Conhece muito bem o que lhe aconteceu. E, pelos vistos, atualmente, essa pessoa não foi pelos melhores caminhos.
Vendedor: "Ei! Para quê essa pausa toda?"
Damian: "Nada, apenas não consigo me esquecer da pessoa que ele se tornou. Foi uma mudança bastante drástica."
Fala, num tom melancólico e pensativo.
É capaz ser melhor deixá-lo em paz. Se ele não quer contar, também não vai forçá-lo a fal-
Damian: "Iza."
Diz, imediatamente, sem criar mais suspense.
Pensava o velho que ele já tinha desistido da ideia, quando, subitamente, ele fala. Aquele nome não lhe diz nada, mas, para Damian, aquele nome deve ser quase proibido. Bem, acho que virá a descobrir o que aconteceu com ele, se continuar a ouvir a história.
Damian: "O nome dele é Iza Ingram. É o nome do amigo da Maria."
Reitera, fazendo questão de realçar a identidade da pessoa em questão.
Damian: "Os anos foram passando e nós apenas íamos ficando mais próximos uns dos outros. Passámos a creche e escola todos juntos. Marcávamos saídas. Chegámos até a ir ao cinema juntos e tudo. E à medida que íamos passando as diferentes fases da nossa vida, também comecei a sentir algo pela Maria. Algo mais profundo. E, sim, pode dizer-se que apaixonei-me por ela. Porém, nunca lhe contei o que sentia lá no fundo. Temia que iniciar uma relação apenas poderia estragar a nossa amizade. Ela poderia recusar-me e, mesmo que aceitasse, poderia haver alguma fricção com o Iza. Decidi não arriscar por um bom tempo. Quer dizer, éramos inseparáveis, pelo menos até ao último ano da universidade. Cada um de nós tirou o seu próprio curso. O Iza tirou qualquer coisa de gestão, enquanto eu tirei jornalismo e a Maria tirou medicina. Lembro-me de, no último dia, estarmos os três a chorar, temendo que nunca mais nos veríamos. Porra, nós éramos três idiotas."
Faz o máximo para não se rir. No momento, aquilo poderia ser uma triste despedida com alguma pitada de húmor, todavia, agora, aquele momento tem uma conotação triste. Esta vontade de rir é uma das várias formas que Damian arranjou para lidar com a frustração. Neste caso, frustração da sua situação presente.
Damian: "Quando a nossa festa de graduação acabou, nós conversámos uma única vez. Falámos sobre o que faríamos no nosso futuro. Cada um ia para o seu lado. Era essa a minha última oportunidade para dizer o que sentia lá no fundo. Fiquei em dúvida se deveria confessar. Até tinha falado com o Iza para saber a sua opinião e, para minha sorte, ele apoiou-me. Era ali ou nunca. Só tinha mais uma oportunidade. Uma oportunidade que não desperdicei. Aproximei-me dela e nervosamente pedi-lhe para falar a sós. Então, desconexo do mundo, disse-lhe aquelas três palavras: 'eu estou apaixonado'. Estava nervoso. Bastante nervoso. Ainda por cima tinha bebido a mais. Devias ver a minha cara, estava com medo que ela me recusasse e que me fosse mijar todo."
O velhote ri-se da história. Damian também se ri ao relembrar-se daquele momento. Os dois parecem estar a conectar-se através dos seus passados, quer através das partes más quer através das partes boas.
Vendedor: "No fim, conseguiste?"
Pergunta, ainda se recuperando da risada.
Damian: "Nem queria acreditar. Ela não me deu uma tampa. Pelo contrário. Sorriu de uma ponta do rosto à outra e disse: 'eu também'. Com aquelas palavras, indiretamente, disse que sentia o mesmo. Fiquei tão feliz. Estava com o coração a mil e quase a mijar. Que cena! Nem sei como é que ela se apaixonou por um idiota como eu. Ela era demais. Demasiado boa para mim."
Faz uma grande pausa, antes de continuar. Não sabe se tem coragem para lhe contar as próximas partes. Envolvem assuntos demasiado pessoais e tristes.
Sabe que disse ao velhote que contaria a sua história, mas a sua fraqueza emocional não o permite. Conclui isso infelizmente, pois o senhor tem sido muito bondoso com ele e sempre aberto para lhe falar de assuntos pessoais. É uma pena não vir a conseguir retribuir-lhe essa gentileza ao contar a sua história.
Já está a chorar. A chorar bastante. Inúmeras lágrimas escorrem pelo seu rosto, algumas até caindo no chão. Ele faz de tudo para reprimi-las, mas a dor é demasiado forte.
Bem sabia que não aguentaria tamanha pressão. As memórias simesmente não lhe saem da cabeça. Isso vale para as boas e para as más. O tempo passa e Damian julga que se esquecerá do que perdeu, mas é sempre o contrário. O tempo passa e a dor que sente simplesmente fica maior. Taovez nunca vá superar a morte dela.
Vendedor: "Não faz mal. O passado contém os nossos maiores tesouros e mágoas. Se achas que não consegues continuar não faz mal."
Damian: "N-Não, eu c-continuo."
Tenta insistir, com o rosto cheio de lágrimas e voz trémula. Sabe que não está em condições para lhe falar, porém, ainda assim, insiste, tentando fazer um esforço para lhe retribuir.
Vendedor: "Acredita, não é preciso. Percebo que tal como eu, tens muita dor guardada nesse teu coração. Tu e eu já passámos pelo melhor e pelo pior que este mundo tem a oferecer."
Para além de ser bondoso e aberto para a partilha de experiências, também é compreensivo. Ambos passaram pela mesma dor de perder alguém. Se existe pessoa no mundo capaz de compreender Damian seria aquele velhote.
Ele é mesmo espetacular. É um modelo de humano a seguir. Damian aspira ser alguém como ele. Quem lhe dera.
Recompõe-se. Limpa as lágrimas com as mangas. Demora algum tempo a fazê-lo, pois elas não param de vir.
Vendedor: "Já divagámos o suficiente, não é? Voltemos aos negócios."
Damian: "S-Sim."
Vendedor: "O que é que querias mesmo?"
Damian: "Não tenho preferências. Só quero uma arma capaz de matar e que seja possível comprar com este dinheiro."
O pai de Jeff pousa as notas que Daniel lhe deu na bancada. É com aquilo que comprará a sua arma. O velhote pega no maço de notas e dá uma olhada. Passa os dedos por cada uma das notas e vai contando quanto dinheiro ali tem. Fá-lo uma vez e repete para ter a certeza que fez bem as contas. Quando se sente seguro, diz-lhe:
Vendedor: "Muito bem. Penso ter a arma perfeita."
O velho pousa o maço de notas no balcão vira-lhe as costas. Dá uma olhada na vitrine de armas atrás de si. Olha bem, bem, bem, talvez muito bem. Até que...
Vendedor: "Aqui está!"
Diz, entusiasmado.
Então, ele coloca a mão no bolso e tira de lá uma chave. Insere a chave na fechadura da vitrine e gira. Abre a vitrine e tira de lá a arma que considera ser a certa. Ele segura-a com as duas mãos, como se estivesse a pegar no Santo Graal.
Vendedor: "Esta aqui é um revólver 357 TAURUS, de 6 tiros."
Informa, ao mesmo tempo que pousa a arma na mesa. Aproveita e também coloca a caixa com as munições em cima do balcão, após se agachar e ir buscar de uma gaveta a caixa.
De qualquer forma, ali estava ela. A arma que tanto desejavava. Sente-se bastante nervoso só de estar na sua presença. Está a exagerar bastante.
Damian: "Isto é uma pistola, certo?"
Pergunta, nervoso e com medo do potencial do objeto na sua presença.
Vendedor: "Sim, falando de uma forma mais simples."
O escritor fica com medo de pegar na arma. Está com as mãos a tremer. Só de saber que aquele instrumento é capaz de tirar vidas deixa-o perplexo e incrédulo.
Sabe que talvez possa estar a exagerar, porém imaginar que será com aquela arma que terá de se proteger da gangue do Iza, leva-o a pensamentos crueis e violentos. Não sabe se será capaz. Não sabe se conseguirá disparar quando o momento chegar. Não sabe se conseguirá matar. Isso significaria quebrar a promessa.
Relutantemente, pega na pistola. Ele ergue-a com as duas mãos e olha para ela. Nunca tinha visto uma pistola tão de perto. Os seus pais tinham uma e já os tinha visto a usar uma quando iam praticar a mira nos centros de prática. Mas nunca pegou numa. Nunca precisou, felizmente. Todavia, agora, as circunstâncias são diferentes.
Vendedor: "O que achas?"
Damian: "Parece-me bem. Nunca peguei numa arma antes, por isso, não falo com certeza."
Vendedor: "Hoje em dia é raro encontrar alguém como tu que nunca ergueu uma arma de fogo."
Damian: "Que posso dizer? Nunca fui de me meter em problemas e, felizmente, nunca me envolvi em problemas. Nunca precisei de uma."
Vendedor: "Pelos vistos, as coisas mudaram."
Ele tem razão. Nem em mil anos se imaginaria a comprar uma pistola numa loja de armas de aspeto pobre como aquela. Como a vida já lhe tinha feito antes, mudou o seu destino.
Damian segura na pistola com uma mão, como se a fosse usar. O homem vira-se para trás e aponta a arma para a porta. Quer simular e compreender como é que é apontar uma pistola a alguém. Quer saber como é que é ter a vida de uma pessoa à distância de um gatilho. Se bem que...
Damian: "Isto não está carregado, pois não?"
Pergunta, enquanto fecha o olho esquerdo, de modo a praticar a mira com o seu olho diretor. O que ele pretende é simular uma situação de combate, fazendo de conta que o inimigo está na porta. Antes de comprar a pistola, quer saber como é que se sente com ela.
Vendedor: "Não, as balas vêm à parte. Agora que falo nisso, lembrei-me que há algo que tenho de lhe perguntar."
Damian imagina Iza na porta. Imagina que tem ali o inimigo. A pessoa que causou toda aquela confusão. Será capaz de tirar-lhe a vida? Será capaz de tirar a vida mesmo à pessoa que mais pesadelos lhe causou? Ou não consegue e não passa de um cobarde?
Estava tão concentrado. Tão focado nesta simulação, nesta situação hipotética que nem ouviu o que o velhote disse.
Vendedor: "EI!"
Grita-lhe, pretendendo que ele preste atenção.
Damian: "S-Sim?"
Volta à realidade. Para de apontar a arma para a porta e torna para o senhor.
Vendedor: "Ia perguntar-te se consegues abrir a arma."
Damian: "N-Não. Não sei."
Vendedor: "Bem me parecia. Ok, coloca a arma no balcão."
O pai de Jeff segue as indicações e pousa a arma sobre a superfície de madeira. As preocupações ainda não despareceram. O velho também conseguiu compreender que algo de mal se passava com ele. Talvez as memórias com a sua mulher que agora esteve a rever devem estar a afetá-lo.
Vendedor: "Perdoe-me, mas estava a vê-lo e...está tudo bem?"
Fala o velhote, preocupado com o estado mental dele. Até porque, se Damian não se sente bem, a culpa será do próprio dono da loja que o encorajou a falar do passado. Por isso, sente que precisa de saber.
O escritor do "The Right" ponderava em contar-lhe ou não. Contudo, acaba por ceder. Pensou que é o mínimo que lhe pode contar, de modo a retribuir a sua gratidão e disponibilidade.
Damian: "Esta arma parece ser perfeita para me proteger a mim e ao meu filho. Acredite que sim. É só que..."
Vendedor: "Não tenha medo, eu não o julgarei."
Ficou um pouco mais seguro para compartilhar esta sua insegurança. Não pode ficar com este pensamento para sempre na sua cabeça. É necessário partilhar as nossas mágoas e soltarmo-nos ou ainda nos tornamos em bestas.
Sabe disso. E tem medo que isso aconteça. Então, ele abre a boca e começa a falar:
Damian: "Não quero entrar muito em detalhe, mas, antes da minha mulher concretizar o seu destino, fiz-lhe uma promessa. Estávamos nós os dois entre a espada e a parede. Na época, sabiámos que algo de mal aconteceria. Não sabiámos o que é que iria acontecer e, principalmente a quem. Por isso, decidimos fazer promessas. Combinámos que iríamos criar juramentos que o outro teria que cumprir até ao dia em que morresse, apenas caso as coisas dessem para o torto. Eu fiz-lhe prometer que ela protegesse o Jeff, o nosso filho, sempre que pudesse. Já ela...ela..."
Vendedor: "..."
O momento era sério e um grande peso seria libertado do peito de Damian em segundos. Apenas tinha que dizer aquelas palavras. Apenas tinha que contar um dos seus maiores segredos que guarda no fundo do coração.
Vendedor: "Podes dizer."
É o momento.
Damian: "Ela fez me prometer que, independentemente do que acontecesse, permanecesse que eu sou."
Já está. Está feito. Sente-se mais leve. Parece que pode voar. O peso caiu no chão. Mas quer continuar, quer esclarecer ainda mais as coisas, ficar ainda mais leve, expressando mais os seus pensamentos:
Damian: "Eu aceitei e prometi-lhe fazer de tudo para continuar a ser eu. Ser uma pessoa pacífica, que fica na sua e não deseja nem faz mal a alguém. Para ser sincero, não sei o que é que ela tinha na cabeça. A Maria não devia ter noção das consequências que isso causaria. Isso significa que, agora, não tenho a certeza se posso disparar essa arma contra as pessoas que me desejam mal. Talvez até vá ter o mesmo destino que ela se o fizer, mas, quebrar essa promessa, significaria desrespeitá-la e cuspir no seu túmulo. Agora, sstou confuso. Estou separado entre o lado que me diz para disparar e proteger os que mais amo, contudo, o meu outro lado grita, grita e diz-me para seguir as palavras da minha mulher, mesmo que isso cause a minha própria e quem sabe até a do meu filho, tudo porque, assim, não a estaria a desrespeitar. Entendes o que sinto? Entendes o quão complicado isto está a ser? Não consigo viver assi-"
Vendedor: "Ok, já entendi."
Interrompe-o, impedindo que Damian continue a divagar e que esta dor e incerteza o acabe por consumir. O velhote pode não saber o que se está a passar ao certo, mas sabe que ele deve ter algum tempo para pensar.
Vendedor: "A vida não é um pouco fácil, contudo temos de fazer o máximo para não nos arrependermos das nossas decisões. Posso não saber ao certo o que estás a enfrentar, mas sei que terás tempo suficiente para fazer a decisão certa."
Estas palavras conseguem acalmar e deixar Damian mais tranquilo. Precisava exatamente disso. Apenas precisava de umas palavras motivacionais vindas de alguém que sentiu uma dor como a dele.
Agora sim, está em condições de seguir em frente e refletir. A decisão que irá tomar vai definir se vive ou não e se será capaz de viver consigo e se descupar ou não. Tudo dependerá da decisão que tomar. A sua vida, dignidade, e bem-estar do seu filho, tudo está em suas mãos.
Damian: "Obrigado pelas palavras."
Vendedor: "Sem problemas. És sempre bem vindo. Mas, voltando ao assunto em mãos..."
Ele pega na arma.
Vendedor: "Deixa-me mostrar-te como é que se abre a pistola."
Então, num movimento rápido e proveniente de um especialista em armas de fogo, ele bate com a arma na palma da sua mão. Com o impacto, para o lado sai o tambor, a câmara onde se colocam as balas. Mostro eficientemente como se deve fazer para colocar as balas.
Damian, que nem tinha a certeza se estaria pronto para matar, prestou atenção àquela demonstração. Sabe que aquilo dará jeito no futuro.
Vendedor: "Entendeste como é que se faz?"
Damian: "Acho que sim."
Vendedor: "De resto, é só colocar as balas, sempre que esta câmarazinha ficar vazia e já não conseguires disparar. Por isso, acho que está tudo."
O velho insere o tambor para dentro e pousa a pistola no balcão. Prepara-se para fazer negócios. Esta interação está a chegar a um fim. Só falta perceber se Damian quer aquela arma.
Vendedor: "Que me dizes?"
Damian: "Parece-me bem. Levo esta arma."
Vendedor: "Muito bem. Podes ir. Fica por conta da casa."
Hã? Nem parece que ouviu bem.
Damian: "E-Espera. Podes repetir?"
Vendedor: "Disse que não precisas de pagar nem um cêntimo."
De modo a reforçar o ponto, ele pega no maço de notas que pousou no balcão e empurra-os para o lado do balcão onde está o escritor. Acho que é impossível deixar mais claro.
O próprio Damian é que não consegue acreditar. Para ele, e segundo o estado da loja, o homem deve estar à beira da falência. Ter algum dinheiro era capaz de lhe dar jeito. Não é como se dar dinheiro a alguém que é gentil e o compreende fosse um sacrifício.
Damian: "Tens a certeza disto? Não quero que o teu negócio vá abaixo. Acredita, depois desta conversa, não te quero ver triste."
Vendedor: "Confia em mim. Podes ir em paz. Arranjarei forma de compensar esta perda."
Damian: "A sério? Tens mesmo a certeza?"
Vendedor: "Sim, podes ir."
Diz, já farto da insistência do cliente.
Damian: "Ok."
Após garantir que não estará a ofender o seu novo amigo, ele pega no maço de notas e volta pô-lo no bolso. Pega na arma e coloca-a no bolso do casaco. É o lugar onde ninguém deve se aperceber que leva uma arma de fogo. Obolso do casaco é grande, por isso, no bolso do outro lado, coloca a caixa de munições.
Damian: "Muito obrigado. Antes de ir, gostaria de saber o teu nome, se não te importasses. Estive a falar contigo por quase uma hora e nem sei o teu nome."
Vendedor: "Michael. Podes tratar-me por Mike."
Damian: "Mike. Bem, foi bom ver-te, Mike. Obrigado pela conversa e...bem, pela arma. A sério, ajudaste-me bastante."
Vendedor: "Cuida-te e usa bem a tua arma. É das boas."
Damian: "Prometo que terei cuidado.
Vendedor: "Vê lá não vás quebrar essa promessa."
Damian: "Não te preocupes, não a quebrarei."
Fala enquanto lhe vira as costas.
Assim, o encontro chega a um fim. Damian vai caminhando até à entrada. Ao mesmo tempo, ele lembra-se do que aconteceu com a sua mulher. A poça de sangue que estava na sua porta naquele fatidico dia.
O Mike ajudou-o a lembrar-se de tudo isso. Das boas e das más partes. E acha que foi para o melhor. O passado faz de nós quem somos. Será também o passado a decidir o nosso destino, consoante o que fizemos no passado.
Vai precisar de pensar bem. É a conclusão que chegou através daquela conversa. Precisará de tempo para pensar e fazer a melhor decisão. Não pode é demorar muito tempo, pois apenas lhe falta um dia. O tempo está a contar.
Damian alcança a porta e abre-a. No entanto, antes de ir, olha para Michael que se encontra ao fundo. Sorri-lhe e despede-se:
Damian: "Adeus, Michael."
E fecha a porta, indo em direção à sua próxima paragem e deixando apenas Michael sozinho, a ouvir o repicar dos sinos, que tocaram com o impacto do fechar da porta.
*Dim* *Dim* *Dim*
O sol começa a pôr-se. O fim do dia aproxima-se. E Jeff permanece entediado como sempre. Raios, smepre pensou que as férias fosse mais empolgantes do que isto. Ficou o dia inteiro a fazer nada, sentado no sofá.
Ou talvez fazer nada seja hipérbole. Viu televisão, durante pouco tempo, e, acima de tudo, pensou sobre o que tem passado. Pois, acho que não vale a pena esconder. De vez em quando, em certos momentos do dia, em certos momentos,lembrava-se da criatura.
Na verdade, sempre que não se encontrava a ver televisão, aquela figura vinha-lhe à cabeça. E isso aconteceu bastante. Até quando via televisão, fazia questão de evitar o canal onde dava aquele programa animado com os ursos, o mesmo programa que lhe deu um ataque de ansiedade. Fazia-o por razões óbvias
É só que aquela criatura...não sabe o que tem, mas...traz-lhe memórias que quer esquecer. Memórias que nunca mais quer ver. Ele que deu de tudo para superar o passado e que estava a conseguir, agora, por razões sobrenaturais, foi-lhe relembrado do que passou.
Jeff: "..."
Está sentado no sofá de uma forma peculiar. Parece que está a fazer o pino, enquanto vê as notícias. Nem sei o que é mais esquisito. O facto de um puto do 8°ano estar a ver o jornal ou a forma como se encontra no sofá.
Cabeça no assento do sofá, costas quase coladas ao encosto e pés no ar. Tal como disse, parece que está a fazer o pino numa aula de educação física. O tédio parece ter atingido o ponto mais alto de todas as suas férias.
Pivô do jornal: "Recentemente, têm havido relatos de que certas carrinhas têm transportado armas biológicas. Segundo câmaras de vigilância, estas carrinhas pertencem a membros de duas gangues. As autoridades descobriram que o conteúdo é nocivo, dado que, por onde passam as carrinhas, é deixado um grande rastro de radiação. É recomendado aos cidadãos que se mantenham o mais longe possível das zonas delimitadas pela polícia e que estão atualmente a ser investigadas. Acompanhados a estes incidentes, intensificam-se os avisos e recomendações das autoridades para evitar saídas de casa, a não ser que seja para trabalho ou compras essenciais."
Jeff: "Que seca!"
Diz ele, que se encontra de pernas para o ar.
Já está a parecer o seu pai. A ver notícias no tempo livre. Ele ao menos tem desculpa, pois trabalha como escritor num jornal, mas Jeff não. Sente-se envergonhado por ter descido a um nível tão baixo.
Não tinha nada de jeito para fazer. Pelo menos que lhe viesse à cabeça. Talvez apenas precise de se esforçar e algo virá. Então, ele pensa, pensa, pensa e pensa muito bem.
Afinal pode existir algo mais interessante que possa fazer. Sente que está próximo de uma resposta. Vai buscando informações até cantos do cérebro que nunca ia. Está perto. Muito perto de lá chegar. Até que enfim, depois de muito esforço...
Jeff: "Já sei."
Faz-se luz.
Sai daquela posição esquisita e senta-se normalmente, dando uma volta para o lado. De seguida, vai para o chão. Fica com a barriga no chão.
O que é que está a planear? Será sequer coisa boa? Independentemente do que for, é algo de que se lembrou subitamente e que apenas está interessado em fazer por puro tédio.
O rapaz assenta a palma de ambas as suas mãos no chão, apoiando também o joelho no chão. Aquela posição...ele vai mesmo fazê-lo? Está de gatas. Mas porquê?
Rapidamente, estica os pés para trás. Coloca-se na posição perfeita. Pois é. Aquela posição não engana ninguém.
Ele vai fazer flexões.
Jeff: "Ok."
Inspira e expira antes de começar aquele esforço físico. A verdade é que praticamente não faz exercício físico em tempos livres. Só faz nas aulas de educação física. Não que seja obeso, pelo contrário. Contudo, ele próprio sente que pode melhorar a sua forma física. Acredita que pode ir de magricelas a musculado. E qual não seria o melhor momento para essa transformação do que agora nas férias de inverno.
É agora o momento. Não é como se tivesse algo melhor para fazer. Isto foi a melhor atividade que se conseguiu lembrar. Acha que não se vai arrepender. Então...
Jeff: "Vamos!"
Ele estende os braços, elevando os quadris e, quando se sente pronto, vai abaixo. Contrai os braços, levando o peito quase a tocar no chão. Nesse ponto, volta a estender os braços e fica na posição em que começou. É assim que se faz uma flexão, uma bastante amadora, vale a pena acrescentar.
Uma já está. Sente que ainda pode fazer mais umas quantas. Está perfeitamente bem e sem dor alguma a percorrer-lhe o corpo. Mais umas 30 repetições e deve cansar-se aí. Caramba, é muito fácil. Não se lembra de ser assim nas aulas de educação física. Senão, já teria obtido um 5.
Jeff: "Um já está. Posso fazer mais uns."
Diz, confiante.
Vai abaixo, contraindo os braços e volta para cima, estendendo-os. Acabou de fazer mais uma. Sente uma leve dor nos braços, mas não é como se estivessem a tremer.
Faz mais uma vez. Vai acima e abaixo, mantendo a mesma técnica. Conseguiu com facilidade. Porém, sente que os seus braços começam a falhar.
Outra vez. Acima e abaixo, agora mais lentamente e com os braços a tremer. O seu peito quase que toca no chão. A execução está a ficar cada vez pior e mais lenta. Será que chegou ao limite? Será que deve parar? Não. Mais uma vez e verá.
Lá vai ele. Outra flexão. Vai abaixo, com os braços a tremer e quase a ceder. Desce lentamente e, desta vez, o peito até toca no chão. Por fim, volta a cima, fazendo um grande esforço e tocando com a parte inferior toda no chão, mas eventualmente consegue.
Conseguiu fazer 5 flexões. Os seu corpo já está no limite. Todo dorido e a tremer. Não se encontra habituado a este tipo de esforço, mas não faz mal. O desconforto faz parte da construção muscular. Basta continuar a praticar que superará esta dor. Pode fazer mais um. Só mais um. E amanhã fará ainda mais um e, quando der por si estar-
Jeff: "Desisto."
Esqueçam o que disse.
O miúdo desiste e volta para cima do sofá. Está bastante quente e a suar debaixo dos braços. O seu pijama ficou sujo e agora está a feder. Precisará de um banho.
Jeff: "Dá demasiado trabalho."
Conclui, a ofegar, sendo essa a sua desculpa para ter parado.
A verdade é que ele simplesmente tem fraca motivação. Desistiu logo quando as coisas começarama a custar, pois, quando tudo estava fácil, já quase que se tinha decidido que iria começar a praticar exercício físico diariamente. Talvez esteja a ser muito duro.
Ele ainda é uma criança. Não tem nada para fazer, é verdade e poderia aproveitar as férias para fazer algo produtivo, mas dá-lhe muito trabalho. Enfim, as férias são para descansar. E ele tem todo o direito de o fazer, mas isso não apagará o facto de que tem fraca força de vontade.
Jeff: "Preciso é de um banho."
Um casino. Um lugar diferente daqueles que Iza e sua gangue usavam. Não estavam num territorio conhecido e muito usado por eles. Não, aquele território pertencia a outra gangue.
Era um local mais a sul da Califórnia. No interior, as pessoas jogavam jogos e torravam o dinheiro que acumularam ao longo dos anos. Havia de tudo, desde slot machines até partidas de blackjack. Sim, ele estava a jogar blackjack.
Ainda assim, para o habitual, estavam poucas pessoas. Encontrando-se somente aqueles ignorantes ou que não vitam as notícias.
A causa principal: as notícias e recomendações da polícia.
E, apesar disso tudo, o negócio flui.
Quatro homens encontravam-se sentados em cadeiras de veludo vermelho ao redor de uma mesa com um baralho de cartas nas mãos de cada um. Ocupando o seu próprio lugar na mesa, mas mantendo-se em pé, está o dealer, o supervisor do jogo.
Eles analisavam atentamente o jogo. Decidiam que cartas lançarem. Olhavam uns para os outros, tentando prever os futuros movimentos do oponente. Eram 4 jogadores e todos pareciam dar de tudo para ganhar. Todos menos um.
Havia um homem que estava mais tranquilo. Nem parecia que queria ganhar. Aquilo para ele era tranquilo, um tanto quanto entediante, se for dizer a verdade.
Não estava tão bem vestido quantos os outros. Vinha vestido com uma camisa de botões branca e calças pretas. No entanto, era notável que só veio assim vestido quase por obrigação, senão vinha de fato de treino.
Os outros não pareciam ir com a cara dele. Um velhote que jogava não parecia muito inquietado con ele e o jovem que lá jogava estava inquietado com ele, mas não a um ponto extremo. Contudo, havia um deles que estava mais inquietado com aquela figura.
Era um homem muito bem vestido com fato e gravata, tal como os outros dois. Usava anéis em todos os dedos da mão e, à volta do pulso, um relógio dourado. Aquele homem era com certeza bastante importante.
Olhava para o homem de camisa com desprezo. A forma tranquila como esteve a jogar desde que chegou tem-no irritado. A sua sorte é que ele não tem feito jogadas muito interessantes e não parece estar em vantagem. Por enquanto, está tudo no papo e o vencedor será ele.
Dealer: "Estão prontos para fazer as vossas jogadas?"
Pergunta o supervisor, olhando para cada um dos jogadores enquanto baralha um monte de cartas.
Jogador mais velho: "Sim."
Jogador mais novo: "Tudo bem por mim."
Homem de camisa branca: "Vamos lá despachar isto."
À medida que confirmam, cada um dos jogadores põem em frente da mesa as fichas que estão a apostar.
Só falta a confirmação de uma pessoa. Apenas parece que ela está demasiado absorvida nos seus pensamentos.
Dealer: "Está pronto, senhor Giusé?"
Pergunta, colcando as suas três cartas na mesa.
Giusé: "Sim, sim. Estou pronto."
Diz, conseguindo esconder muito bem a raiva que tem para com um dos jogadores em específico, e pondo as suas fichas.
Dealer: "Muito bem. Façam as vossas jogadas."
Imediatamente, todos colocam em cima da mesa as suas cartas. Neste jogo, a estratégia é uma das partes mais importantes e uma das chaves da vitória e a outra é conseguir o máximo de pontos possíveis, de modo a que não supere os 21 pontos.
Logo, não se lançam logo as melhores cartas. Porém, o jogo já está a mais de metade. Este é um momento onde cada um dos jogadores faz de tudo para ganhar. Todos querem ganhar e farã de tudo para alcançar a vitória.
O dealer observa as cartas postas em jogo. Calcula o valor de cada uma das cartas através de memória pura. Rapidamente, chega a uma conclusão e decide quem ganhou a jogada, sem sequer precisar de mostrar as suas duas cartas ocultadas:
Dealer: "Senhor Giusé tem um blackjack. Ganhou a jogada."
Que sorte. Esta é a jogada suprema em que o jogador ganha automaticamente. As fichas devidas são dadas ao vencedor, para a trditeza de alguns e felicidade de um.
Mas aquele homem, mesmo tendo perdido a jogada, permanece tranquilo e a achar aquilo uma seca. Até boceja. Os outros jogadores estão demasiado tristes e concentrados em recuperar pontos. Contudo, Giusé aoenas fica com ainda mais raiva daquele homem. Já não há tempo para tal. A próxima jogada está prestes a começar.
Dealer: "Próxima jogada."
Giusé faz o sinal com a mão e requisita cartas. O dealer segue a indicação e dá-lhe um pequeno baralho. Por sua vez, o dealer coloca as suas três cartas em cima da mesa, estando uma delas virada para cima e duas viradas para baixo, anunciando o início da jogada.
Todos preparam-se e veem o que têm de jogar. O jogador velho está mais seguro nesta sua jogada e faz uma aposta mais arriscada, colocando mais fichas à frente do que qualquer outro. O jovem, prém, está pouco seguro e coloca poucas. Quanto a Giusé, faz uma aposta grande. E aquele homem aposta pouco.
Por fim, com a indicação do dealer, cada um faz as suas jogadas. Eles põem as cartas em cima da mesa. Desta vez, não está garantido. O dealer observa bem e calcula os valores até concluir:
Dealer: "Senhor Giusé, ganhou outra vez."
Assim, as fichas são divididas. Ganhou outra vez. Neste ponto, está ganho. Tudo está decidido. O vencedor muito provavelmente será Giusé. Alguns até desistem.
Jogador mais novo: "Ah! Desisto."
Jogador mais velho: "Eu também. Apostei demasiado alto. Não me vejo a ganhar."
O dealer deixa os jogadores desistirem e recebe os seus baralhos. Mesmo assim, eles querem ver o final, embora já tenham quase total certeza de quem irá ganhar. Isto deixa Giusé precisamente com a outra pessoa que mais odeia. Aquele tipo...
Dealer: "Também quer desistir, senhor Reyner?"
Pergunta para o homem de camisa branca que continua tranquilo e parecendo que está a apanhar uma maçada.
Reyner: "Não. Quero ir até ao fim."
Que idiotice. No que é que ele estava a pensar? Não consegue ver que Giusé vai vencer?
Isto foi a gota de água. O ódio de Giusé por ele ficou tão grande que jánnem consegue manter para si.
Giusé: "Se eu fosse a ti já tinha desistido. Não vais conseguir mais nada. O vencedor já foi decidido há muito."
Diz, num tom maldoso e provocador. Quer deixar bem claro as suas inteções e sentimentos para com ele. Porém, o homem nem muda de expressão facial e ainda revida:
Reyner: "Agradeço a preocupação, mas se eu fosse a si focava-me no jogo e não em dar conselhos a outros jogadores."
Um movimeto ousado. Mostra que está tão confiante quanto Giusé. A questão é durante quanto tempo é que esta confiança durará? Sim, isto tornou-se numa batalha de egos.
Giusé, por sua vez, não se sente intimidado. Ficou com apenas mais raiva e viu aquela provocação como um desafio. Desafio esse que enfrentará com todo o gosto. Mostrará a esse Reyner quem é que manda.
Dealer: "Façam as vossas apostas."
Antes de começar a jogada, é preciso saber oq ue está em jogo. Giusé tem um número muito maior de fichas que Reyner. O modo como fala e a confiança que transborda também dão a crer que pode apostar pouco e ganhará a jogada. Para ele, está fácil, mas para Reyner, a situação está muito mais complicada.
Mas a vitória também se decide pelo que está em jogo. Por isso é que decidir o que vão apostar é muito importante. Reyner antecipa-se e coloca pouco em jogo, uma só ficha.
Espera...só pode estar a brincar? Ele tem mais fichas disponíveis. Não são muitas, é verdade, mas são umas quantas. Que é que ele está a fazer? No que é que ele está a pensar? Como é que ele, que está a perder, ainda tem a ousadia de lhe fazer perder tempo? Porque é que ainda não desistiu? Se pretendende irritar Giusé, bem, ele conseguiu.
Giusé ia jogar pelo seguro, contudo, depois de ver que o oponente ainda está a tentar ganhar, não vai deixá-lo durar mais uma jogada. Vai acabar com isto e agora. Então, com raiva no coração, ele empurra a sua pilha de fichas e coloca tudo em jogo, para a surpresa de todos.
Reyner: "Vejam só. Disto é que não estava à espera."
Jogador mais velho: "É bastante ousado."
Jogador mais novo: "Não sei se isto vai resultar."
Giusé: "Calem-se. No fim, vemos quem é o vencedor."
Até o dealer fica surpreso com esta investida de Giusé. Ele podia jogar no seguro e ganharia em duas ou três jogadas, porém, parece que ele já está farto disto e quer acabar logo com tudo nesta jogada.
Dealer: "Tem a certeza, senhor?"
Giusé: "Estou confiante nisto."
Responde num tom de voz que mistura confiança e raiva.
Dealer: "Muito bem, senhores. Estamos prontos?"
Giusé: "Ó, se não estou pronto."
Reyner: "Quando quiser."
Ambos dão a confirmação. Deste modo, o dealer sente-se seguro para dar início à próxima, e provavelmente, última jogada. Ele põe três cartas na mesa, como sempre, sendo uma virada para cima e outras duas para baixo. Só falta os jogadores fazerem as suas jogadas.
O primeiro é Giusé. Lança duas cartas. Uma cimbinação em que está confiante que é capaz de vencer as cartas que o dealer colocou em cima da mesa. Tão confiante que se reclinou na cadeira, mal pôs as suas cartas escolhidas na mesa.
Giusé: "Faz melhor que isto, Reyner."
O dealer olha para o outro jogador, aquele que ainda não jogou. Ele olha para as cartas a seu dispor e para as cartas na mesa, alternadamente. É como se quisesse garantir que iria fazer a escolha certa. Ou talvez soubesse que já tinha perdido a jogada e só estava a fazer tempo.
Parece que o vencedor já foi decidido. Giusé vai ganhar e vencerá o jogo. É isso que irá acontecer e até o dealer já previa algo do género. Sentia pena dele e dá-lhe uma chance de admitir a sua própria derrota:
Dealer: "Quer desistir, senhor Reyner?"
Pergunta, com pena e bondade a transparecer na sua voz. Está ali uma última chance. Uma chance que poupará Reyner da humilhação.
No entanto, subitamente, Reyner sorri. A pergunta quase que lhe deu vontade de rir. Até parece que a realidade que o dealer e Giusé imaginavam era diferente da que ele imaginava. Tudo parecia estar a dar uma volta naqueles instantes.
Eventualmente, Reyner não consegue mais conter-se e começa a rir-se. Um riso alto, malicioso e gozão é solto e atrai a atenção de outros frequentadores daquele casino. Desde as pessoas das slot machines, que se encontravam perto da mesa onde os 4 homens jogavam, até aos cavalheiros que jogavam poker. Todos focaram as atenções naquela mesa.
Dealer: "T-Tudo bem, s-senhor?"
Dirige-se a Reyner, pretendendo entender a piada. O comportamento dele estava estranho. Ele já lá vinha jogar umas quantas vezes, mas nunca o viu de uma forma tão aterradora e estranha.
Ao ouvir a pergunta, a risada fica mais baixa. O jogador acalma-se até a risada e a piada dissiparem-se por completo. Só nessas condições, quando se encontra mais calmo, é que abre a boca, muda para um tom mais sério e responde:
Reyner: "Porque é que havia de desistir quando o jogo já está ganho?"
Então, surpreendendo a todos, Reyner lança as suas cartas. Não, não são simples cartas. São uma combinação capaz de garantir a vitória da jogada instantaneamente ao jogador que a lançar. O que ele lançou é nada mais nada menso do que um...
Dealer: "É um blackjack..."
Murmura, em voz baixa para si mesmo, incrédulo com a reviravolta que acabou de acontecer.
Dealer: "Reyner fez um blackjack, garantindo-lhe a vitória da jogada. Assim, todas as fichas de Giusé são transferidas para Reyner, ficando ele com um total de 21 pontos."
Anuncia em voz alta para todos.
Jogador mais velho: "Não pode..."
Jogador mais novo: "Isso significa que..."
Dealer: "Reyner é o vencedor deste jogo."
Ninguém que estava a observar compreendia o que se passava mesmo e o porquê de os envolvidos no jogo estarem todos surpreendidos. O jogador mais velho estava praticamente boquiaberto e o mais jovem estava com a mão a tapar a sua boca, como se ainda estivesse a processar o que acabou de acontecer.
O dealer já lá trabalhava há tempos, mas nunca viu uma reviravolta tão grande. Daí a sua dificuldade em acreditar no que aconteceu. Já Reyner permanecia com a mesma postura tranquila, apenas observando a surpresa dos espectadores, especialmente de Giusé.
Pois é, Giusé. Dizer que ele estava irritado seria um eufemismo. Estava é com vontade de esganar Reyner e tirar o ar do seu corpo até ao último suspiro. Em outras palavras, queria é matá-lo. Contudo, tem de se conter.
É que simplesmente não consegue acreditar que foi enganado. Todo este tempo, isto fazia parte da estratégia do inimigo. Reyner fingiu estar em desvantagem, de modo a fazer baixar a guarda dos seus oponentes e levá-los a fazerem atos idiotas e estúpidos. Foi isso o que aconteceu com Giusé, ele que caiu direitinho na armadilha.
Que idiota. Caiu que nem um patinho. Devia ter previsto algo do género. Sabe que, no fim, a culpa foi sua por ter sido arrogante, mas simplesmente não quer admitir derrota. Simplesmente não quer admitir que a causa da sua derrota foi ele mesmo. Por isso, é que decide atirar a culpa em Reyner.
Giusé: "Conseguiste, meu sacana."
Insulta, com raiva nos olhos e quebrando o silêncio constrangedor que se formou com aquela reviravolta.
Reyner: "Perdão?"
Finge que não ouviu o insulto, só para não se irritar.
Giusé: "Era esta a tua estratégia, não é? Fingir-te de fracote em desvantagem para baixar as guardas dos outros jogadores. Foi isso o que te levou à vitória."
Reyner: "Sim, e então? Não vejo nada de mal com isso. Este tipo de jogos requer estratégia para vencer e eu simplesmente coloquei a minha em prática."
Responde tranquilamente, com um argumento bastante válido.
Giusé: "Cá para mim, esse é uma estratégia digna de um filho da put-"
Reyner: "Ei! Cuidado com a linguagem!"
Giusé: "Porque é que não te calas? Até parece que mandas aqui."
Com os nervos à flor da pele, Giusé farta-se da discussão e levanta-se da cadeira. Já não consegue ver mais aquele gajo à frente. Antes que comece à porrada, decide sair dali.
Reyner: "Que foi? Já vais embora?"
Pergunta num tom provocador ao ver Giusé a virar as costas, pronto para ir embora.
Giusé: "Estou farto deste casino e das tuas tretas."
Diz, ao mesmo tempo que começa a dar os primeiros passos em direção à saída.
Reyner: "Pena. Se soubesse que sempre foste um fracote já teria começado a jogar a sério."
Nesse instante, ele para. Só deu 5 passos e já parou. Não, depois de ouvir o que aquele tipo disse, não pode simplesmente sair.
Aquilo foi uma provocação, como muitas já feitas. Contudo, esta era diferente. Esta feriu-o mais gravemente. Esta atingiu um lado mais íntimo. O que Reyner sugeriu é que nem estava a jogar a sério, caso contrário, já o teria vencido e humilhado há muito. Ele é que pediu. Depois não vá reclamar, pois agora, Giusé não o iria deixar sair impune.
O homem que parou no início do caminho, vira-se de novo para a mesa e encara a pessoa que mais odeia cim um olhar assassino. Porém, o alvo nem parecia ter mudado o seu comportamento.
Giusé: "Desculpa, acho que ouvi mal. Podes repetir o que acabaste de dizer?"
As suas intenções ficaram bem claras. O que ia fazer seria algo violento, caso Reyner repetisse o que tinha dito há segundos. Ninguém parecia entender isso. Ninguém exceto, curiosamente o próprio Reyner.
O mais lógico a fazer seria ficar calado. Evitaria uma luta desnecessária. Mas não é isso o que o Reyner quer. Já que chegou longe a humilhá-lo, mais vale ir até ao final. E é isso que faz:
Reyner: "Eu disse que te teria humilhado ainda mais se estivesse a jogar a sério."
É então que a tensão atinge o ponto mais alto. Os espectadores deixam o que estavam a fazer e observam atentamente o que se está a passar. Aquele conflito, em poucos momentos, será mais do que uma luta de palavras.
O homem bem vestido acena com a cabeça. É como se estivesse a garantir-se a si mesmo que o que iria fazer seria o mais correto. Bem sabia ele que não, mas sabia que ficaria mais satisfeito se assim o fizesse. Por fim, com uma frase em voz alta, conclui o seu monólogo interior e prepara-se para a sua investida:
Giusé: "Ok, parece que ouvi bem."
Imediatamente, Giusé corre na direção da mesa onde está sentado Reyner. Vai a toda a velocidade, perfazendo os 5 passos que deu em meros segundos.
Os outrso jogadores e restantes espectadores olham fixamente para o que estará prestes a acontecer. Será algo mais interessante do que os jogos com que se entretiam. Algo incrível e inédito naquele casino terá começado: uma luta.
Então, chegando perto da mesa, o homem salta e assenta um pé em cima da mesa, seguido do outro, garantindo uma boa aterragem e dando continuidade à corrida mesmo em cima da mesa. Nem os que estavam perto conseguiam impedir Giusé. Eles estavam perplexos e não conseguiam pensar rapidamente o suficiente para parar aquela força imparável que era Giusé.
O homem dá uns quantos passos em cima da mesa, dirigindo-se à peszoa que se encontra sentada na outra ponta da mesa. Vai arranjar uma luta e das feias. Haverão consequências, mas isso é algo que todas as ações têm.
Um, dois, três, quatro. São o número preciso de passos que dá naquela corrida em cima da mesa. Então, dado, o número perfeito de passos e chegado perto o suficiente do seu alvo que sorria perante o perigo, ele prepara-se para o ataq-
*Bang*
...
...
...o quê...
O que é que aconteceu?
Sem saber como e porquê, no preciso momento em que ia saltar para cima de Reyner, o corpo de Giusé sente algo de estranho. Começa a comportar-se de forma estranha. É como se tivesse sido atacado por algo que não era vindo de um humano.
Ali, naquele momento, o corpo de Giusé perde a força e cai para o lado. Ninguém sabe o que se está a passar? Não conseguem compreender. Há um segubdo atrás, Giusé estava completamente bem, mas no outro ficou logo mais fraco. Algo se passou. E, agora que pensam bem, ouviram um som antes do corpo do agressor ter sucumbido.
Foi quando se aperceberam disso que olharam para o alvo daquele ataque e descobriram o que aconteceu. Veem Reyner, com o mesmo sorriso de sempre, mas a segurar algo na sua mão direita. O que ele segura explica muito bem o porquê de Giusé ter caído e perdido as forças.
Reyner segura nada mais nada menos do que uma pistola na sua mão direita.
É uma glock, para ser mais preciso. Ele sacou a arma e disparou em Giusé quando o mesmo corria em cima da mesa, fazendo-o perder as forças e cair deblado para o chão. Isso explica tudo. Olhando bem, é possível ver Giusé com a mão na barriga a aplicar pressão. Foi aí que a bala o atingiu e provavelmente perfurou um dos seus órgãos. Mas uma arma era algo que ninguém esperava.
Giusé: "Ah!"
A dor começou a surgir. Por momentos, Giusé olha para o local onde foi atingido. Está repleto de sangue que mancha o seu caro fato. Sangue esse que também se encontra nas suas mãos.
Não parecia vir a desaparecer tão cedo aquele dor, pelo contrário, estava a intensificar-se com cada segundo. O homem que levou o tiro não consegue fazer nada senão permanecer deitado no chão, aplicando pressão no local da bala, esperando que a dor vá, nem que seja por um segundo.
Entretanto, Reyner levanta-se da cadeira com a pistola em mão. Fica em pé e vai em direção do homem ferido, passando pelo dealer, que o olha com medo.
Reyner: "Não faças algo idiota sem antes ter em conta as consequências da tua ação. Essa é a mais básica que existe."
Diz, enquanto dá os seus últimos passos em direção ao homem que se encontra no chão.
Giusé: "S-Sabia lá eu que-Ah!...q-que irias sacar d-de uma ar-arma."
Fala aos soluços. Pela garganta acima começa a vir sangue que não o permite falar tudo o que quer sem interrupções. Mas não vale a pena ficar irritado com isso, até porque consegue passar a mensagem e tem um problema maior em mãos.
Reyner: "Amigo, eu apenas estava a proteger-me. Tu é que vieste para cima de mim em primeiro lugar."
Quando acaba a frase, para. Finalmente alcançou-o. Chegado perto suficiente do inimigo, Reyner agacha-se, ficando ao mesmo nível do homem ferido no estômago.
Reyner: "Dito isto, não inventes desculpa. Tu é que cavaste a própria cova ao meteres-te comigo."
Diz, olhando-o nos olhos com intenção de acabar com o que começou.
Giusé: "Mas quem é que tu pensas que és? Achas-te o dono do casino, é?"
Pergunta-lhe, pretendendo obter respostas e denegrir um pouco o homem que, em poucos segundos irá tirar a sua vida. Não irá vencê-lo, porém. neste ponto em que se encontra, levará qualquer vitória.
Reyner: "Tens razão. Não sou o dono deste estabelecimento, mas, por acaso, conheço o dono e sou um grande amigo dele. Infelizmente, não posso revelar muito mais. E tu, Giusé? Quem és?"
Giusé: "E-Eu? Não sei o que ganhas com isso, m-mas trabalho na 'Sarta', apenas a m-maior empresa de costureira do mundo."
Reyner: "Disseste 'Sarta'? Essa empresa não é italiana? Bem me parecia, Giusé não é um nome muito comum por estes arredores."
Giusé: "S-Sou de Itália, mas vim para aqui em trabalho. A 'Sarta' mudou o seu q-quartel-general aqui para os Estados Unidos, precisamente na C-Califórnia."
Reyner: "E os teus superiores pediram que tu viesses ajudar, não é? Ok, agora que sei quem és, já te posso matar."
Ele ergue a arma e aponta-a para a cabeça daquele trabalhador italiano. Já se fartou daquilo. Obteve toda a informação necessária para garantir que não matava alguém muito importante. Como tal, não mostra remorso no que está prestes a fazer.
Giusé: "Woah! Ei! A-Acalme-se, por favor. Ah!"
Suplica pela sua vida, enquanto a dor continua a atuar sem misericórdia.
Reyner: "O que é que foi?"
Giusé: "Isto não p-precisa de ser assim. E-Eu tenho dinheiro. S-Sim, a 'Sarta' pode dar-lhe algum dinheiro, se quiser. Ou até um novo fato."
Uma oferta. Um ato desesperador vindo de alguém que não quer morrer, que tem medo da morte. Então, para evitar a morte, este tipo de pessoa é capaz de dar tudo, sacrificar tudo, só para conseguir viver mais um pouco.
Mesmo assim, o homem com a arma não parece muito intrigado e convencido com a proposta. A sua mão não recua e demosntra que irá até ao fim.
Reyner: "Perdão, mas não estou interessado."
Acho que é o fim Não há nada que possa fazer. Por muito que lhe custe, o homem tem que admitir a sua morte. E é isso o que ele faz.
O seu corpo sente-se mais confortável no chão. Giusé baixa a cabeça, como se já tivesse desistido de insistir em viver. A dor continua, mas isso já não importa. Tudo irá acabara em breves momentos. Queria fazer muito mais, mas esta é a vida: cruel e curta. Só tem um último pedido:
Giusé: "Ok, j-já vi que não te posso impedir. P-Podes ao menos não acertar-me na cara, p-por favor?"
Reyner: "Humm, ok. É o mínimo que posso fazer."
Até surpreendeu a vítima. Nem esperava que ele o respeitasse um pouco, mas, segundo as palavras dele, irá seguir a exigência que fez. É como se o homem se arrependesse dos seus atos e soubessem que eles o tornão irredimível. Portanto, de modo a sentir-se melhor, decide respeitar a memoria da vítima. Como ele disse, é "o mínimo" que pode fazer.
Reyner deixa de mirar na cabeça e passa a apotra apara o peito. A bala acertará o seu coração e matá-lo-á. O resultado será o mesmo. Estando decidido, ele puxa o ferrolho da arma para si, deslizando-o e diz as últimas palavras que Giusé ouvirá vindas de outra pessoa:
Reyner: "Últimas palavras?"
Giusé: "Sim, ouve-as com atenção. Diz à minha mãe que eu-"
*Bang*
É dado o disparo. Um estrondo que atrai a atenção dos poucos que não tinham notado naquela luta e surpreende a todos os que já estavam a cumprir o papel de espectadores. Forma-se um grande silêncio, silêncio de surpresa e respeito para com a vida que foi perdida.
Afinal foi tudo uma ilusão. Nada mais do que uma ilusão, um falso vislumbre de uma luz ao fim do tunel que não passava da morte.
Reyner enganou bem Giusé. Deixou-o mais tranquilo, dizendo-lhe que cumpriria as suas últimas obrigações de morte só para o enganar. Giusé pediu-lhe que ele ouvisse as suas últimas palavras e Reyner nem se deu à vontade de ouvi-las, tendo, ao invés disso, dado o disparo mortal. Não, pois nem no disparo, mesmo no próprio ato deassassinato o respeitou. Já que Giusé pediu que ele não atirasse na sua cara, precisamente o local do seu corpo em que Reyner deu o disparo final.
A multidão que observava já nem conseguia acreditar no que estava a acontecer. Sabia que aquele conflito não iria terminar bem, no entanto, não esperavam que fossem testemunhar um homicídio num espaço público.
Reyner: "Que idiota. Até parece que eu te ia deixar falar as tuas últimas palavras."
Fala, no meio do silêncio formado com o estrondo do disparo. Faz tudo com o mesmo comportamento de sempre. Pensando bem, ele nunca mudou a sua postura. Desde o jogo de blackjack até ao momento em que matou Giusé, sempre se manteve tranquilo.
Reyner acaba por se levantar, tendo acabado o serviço. Volta a ficar em pé e acaba por reparar no quanto ficou famoso. Todos olham para ele, sem excepção. É tudo por causa dos atos cruéis de que ele é capaz. Mas não pode ficar assim para sempre. Isto tem que parar.
Reyner: "O que é que há de tão interessante, malta? Podem explicar-me?"
Dirige-se aos espectadores. Quando percebem isso, imediatamente, vários dos que observavam desviam o olhar ou voltam ao que faziam. Estavam com medo de arranjar problemas com aquele assassino e, quem sabe, tornarem-se a sua próxima vítima.
Reyner: "Não há nada de mal aqui, compreenderam?"
Assim, ele acaba por comandar a sala. Sem precisar de dizer "parem de olhar", conseguiu passar a mensagem. É incrível como o caos e medo controlam as pessoas. Depois do que ele disse, já ninguém põe os olhos nele, embora seja bem claro o medo que permanece no ar.
Uns até começam a sair do casino. Os jogadores mais velho e mais novo aproveitam esta corrente de pessoas de saída e fazem o mesmo, camuflando-se na multidão. Reyner ainda pensou em dizer-lhes algo, mas decidiu não o fazer. Já é capaz de ter afugentado clientes suficientes do casino do seu amigo.
Como tal, ele guarda a pistola nas suas costas, presa entre a sua roupa interior e as suas calças. Vai até ao dealer, que está a tremer de medo e confuso quanto ao que fazer.
Mas essas preocupações nem têm tempo para se desenvolverem, pois Reyner aproxima-se dele. Nesse momento, começa a temer pela sua vida. Queria correr e gritar por ajuda, contudo isso só tornaria a situação pior. Demorou tanto tempo a pensar que, em pouco tempo, já estava frente a frente com a pessoa que mais temia.
Reyner: "Vai lá fora. Quando estiveres mais calmo, volta para aqui, entendido? E, no caminho, pede aos guardas que venham limpar esta sujeira."
Ao que ele hesitantemente responde:
Dealer: "S-S-Sim."
Reyner: "Ainda bem."
E vai embora, para a felicidade do trabalhador do casino. Vendo que ainda se encontra vivo e tendo muito bem ouvindo as indicações do aterrador homicida, o dealer vai a correr para fora do casino. Tem que se acalmar, chamar os guardas e voltar. Acalmar, chamar os guardas e voltar. Sim, parece fazível.
Resolveu o problema com o Giusé e, pelo que via, nenhuma das testemunhas parecia ter coragem o suficiente para denunciar o acontecido. Com isso já não tem de se preocupar.
Mas quer ficar mais um pouco ali. Não conseguiu divertir-se com aquele conflito. Era fixe encontrar outro jogo de blackjack por ali. Se bem que, depois do que fez, mais ninguém deve querer jogar com ele, seja o que for.
Olha em redor por um momento. Leva aquele tempo para aabsorver tudo o que aconteceu. Olha para o cadáver aos seus pés. Aquele tipo mereceu. Só pode ter feito mal em ter optado por tratar dele logo no momento e no local. Por muito que esteja seguro que ninguém vá abrir a boca para o exterior, nunca se sabe.
No meio destas reflexões, dois seguranças vestidos tão bem quanto alguns dos clientes chegam. Parece que o delaer cumpriu bem o trabalhoq ue lhe foi entregue.
Segurança: "Ouvimos que precisa de ajuda."
Reyner: "Sim, preciso que tratem deste idiota aos meus pés. Já devem estar habituados a isto, não é?"
Segurança: "Dentro do casino é a primeira vez."
Queria ver se o dono do casino também já se tinha exaltado ao ponto de matar alguém, pois este seu amigo era quase tão perigoso quanto ele. Pretendia saber de modo a fazer sentir-se melhor por ter cometido um erro bastante amador. Enfim, as coisas não funcionaram como queria.
Reyner: "De qualquer forma, façam como sabem e garantam que ninguém vá abrir a boca quando saírem. Ameacem-nos ou façam negócios, não importa. Apenas não deixem que o que aconteceu aqui saia daqui senão ainda vamos atrair mais a atenção dos media, como se já não tivéssemos suficiente. Estamos combinados?"
Seguranças: "Entendido."
Respondem em uníssono.
Segurança: "Só temos uma mensagem para lhe entregar, antes de começarmos os nosso serviços."
Reyner: "Vem de quem?"
Segurança: "Iza Ingram. Ele está à entrada e requisita uma conversa consigo."
Reyner revira os olhos quando ouve o nome. Conhece bem a pessoa em questão. É apenas a pessoa que mais odeia no mundo.
Primeiro o Giusé e agora o Iza. O mundo odeia-o mesmo. No entanto, não vale a pena reclamar. Se Iza quer uma conversa é uma conversa que terá. Já para não falar que seria perigoso deixá-lo à espera por demasiado tempo.
Reyner: "Ok, eu vou lá."
Diz, contra a sua vontade.
Ficando tudo combinado, os seguranças vão tratardo corpo e silenciar as testemunhas. Em troca, Reyner fará a sua parte.
Reyner: "O mundo odeia-me mesmo."
Murmura para si mesmo, antes de começar a caminhar em direção à entrada.
Iza e Ner estão à entrada. Veem algumas pessoas a sair. Isso é algo que lhes aguça a curiosidade e a provável razão do Reyner se estar a demorar. Ainda assim, isso não impede que os dois fiquem entediados.
Iza: "O gajo deve ter armado uma grande cegada para estar a demorar tanto."
Comenta para o seu braço direito, encontrando-se de braços cruzados com as costas juntas à parede, servindo-lhe de apoio.
Ner: "Já se passaram uns...deixa-me ver..."
Ner, que se encontra junto a Iza começa a contar com os dedos para verificar. Caso não tenham percebido, ele não é capaz de contar mentalmente. Ao menos conseguiu chegar a um resultado, depois de uns quantos segundos.
Ner: "Passaram-se uns 5 minutos."
Iza: "Lembra-te do que te disse: se me exaltar, tens permissão para me parar."
Ner: "Sabes que o farei."
Iza: "É assim mesmo."
A espera parecia demorar. Duas almas ainda saíam a correr. Mais parecia que alguém tinha morrido. Talvez porque alguém tinha mesmo morrido. De qualquer forma, a seca ia durar mais um grande bocado.
Felizmente, os dois conseguiram encontrar um lugar junto à entrada e perto da porta onde ficassem a salvo daquela multidão. Querendo ou não, aquilo é bastante perigoso. Alguém pode acabar por ficar esmagado, de tantas pessoas que corriam com o coração nas mãos.
O casino em questão é bastante conhecido. Não pertence ao território de Iza, mas sim ao território de outro grupo. Trata-se de um grupo que é a união de duas gangues e elas usam secretamente aquele casino, que é propriedade de uma das gangues, como quartel-general.
E, por sinal, por muito que Iza não queira admitir, aquele casino é mesmo bom. Tem três andares e salas particulares e excelentes para reuniões. Dá para ver que tem inveja deste grupo. Este Reyner com quem quer falar é precisamente o líder de uma dessas gangues, por isso é melhor ter cuidado.
As pessoas é que não param de vir. Para o fluxo ainda não ter parado, é porque o incidente ocorreu por perto, provavelmnet logo no primeiro andar. Contudo, as especulações acabam quando se ouve:
Reyner: "Desculpem pela demora."
A voz capta a atenção dos dois. Vem da direita, no meio da multidão. Desse local, destaxando-se da multidão, sai um homem que veste uma camisa branca com botões e umas calças pretas. É ele, Reyner.
Reyner: "Como devem estar a ver, houve um pequeno problema."
Fala aos dois, enquanto se aproxima cada cez mais deles.
Iza: "É? Olha que este problema não me parece pequeno. Ao contrário da tua clientela."
Reyner: "Sabes como é. São coisas que acontecem. Tal como as recomendações da polícia que só me fizeram perder dinheiro e agora com possibilidades de haver uma semi quarentena, as coisas estão a ficar mais complicadas. E não se aplica somente a mim. Envolverodos os criminosos. Grandes e até pequenos, Iza. "
Diz, tentando denegrir o acontecimento e fazendo de tudo para parecer amigável, embora, lá no fundo, querer mesmo é matá-los. Iza e Ner também o odeiam, com a diferença que estes nem tentam esconder este ódio. É um ódio mútuo.
Iza: "Ok, vamos ao que interessa. Precisamos de conversar."
Reyner: "Mas é claro. Tenho uma sala no segundo andar reservada só para nós. Que me dizem?"
O que queriam era sair dali. Porém, tinham um negócio para tratar. Um negócio bastante importante e que pode dar-lhe bastante dinheiro. E, no fim do dia, é isso o que o seu comprador quer: dinheiro.
Iza: "Pode ser."
Informa-o, ao mesmo tempo que descruza os braços, preparando-se para ir ao lugar destinado.
Reyner: "Basta seguirem-me."
Assim, sem mais nem menos, Reyner vira-lhes as costas e começa a caminhar por entre a multidão, dirigindo-se para o interior do edifício. Iza e Ner não têm grandes opções e seguem o homem, metendo-se entre aquelas incontáveis pessoas. Aqueles três dirigem-se à sla do segundo andar, a sala onde farão o que vieram ali fazer, em primeiro lugar.
Reyner: "Estamos quase lá."
Informa os visitantes, enquanto sobem as escadas.
Os dois capitães da gangue mais perigoda da Califórnia limitam-se a seguir o guia. Estão bastante desmotivados, querendo apenas despachar a fase da negociação e sair. Só precisam de fazer isso, sem necessitar de criar mais conversas desnecessárias. Por isso é que nem respondem a Reyner.
E, por falar nele, Reyner também percebe as intenções dos seus visitantes. Como tal, decide ficar calado até chegarem ao destino.
Simplesmente sobe as escadas, cobertas com um tapete de veludo vermelho, uma espécie de passadeira vermelha. Aquele casino era mesmo luxuoso. Muito bem iluminado e com os vidros que dão visão ao exterior completamente fumados. Faz parte das estratégias dos casinos para prender os turistas e outros frequentadores o máximo possível aos jogos e máquinas. Maligno, mas uma estratégia que, evidentemente, funciona.
Mas, finalmente, depois de uma longa subida por um corredor de escadas que parecia interminável, eles chegam ao segundo andar. Seria qui que ocorreria a negociação. Faltava saber a sala reservada para tal.
Reyner: "Ali."
Diz, apontando para a porta lá no fundo.
Na verdade, aquele segundo andar era bastante vazio. Ao contrário do primeiro andar, este não tinha flip machines ou mesas para jogar poker e blackjack. Era realmente um monte de espaço vazio, delimitado por umas paredes pintadas de veemelho. Ok, talvez não totalmente vazio. Por alguma razão, num dos cantos estava uma daquelas máquinas de café instantâneo. Vá se lá saber porquê.
Mas, tal como Reyner indicou, à esquerda deles, mesmo colado à parede, está porta. Ela deve levar para a tal da sala.
Reyner: "Façam favor."
Estavam com algumas dúvidas e suspeitas relativamente ao raio da sala, mas decidem ficar calados. Como disse, eles querem é despachar-se. Só por isso é que decidem ficar calados e seguir as indicações do guia.
Sendo assim, Iza e Ner vão em direção à porta. Caminham em passo apressado, passando pela máquina de café instantâneo, o único elemento daquele andar que parece normal. De resto, é tudo vazio.
E os dois vão seguindo, assentando rapidamente os pés, um depois do outro, no chão, coberto pelo mesmo tapete vermelho de veludo. Isto até que chegam.
Param mesmo à frente da porta. Porta de madeira castanha. Uma porta que parece cara e...porque é que estou a falar sobre uma porta? Vamos ao que interessa.
Iza estende a mão e assenta-a sobre a maçaneta. Não querendo gastar mais tempo, ele gira a maçaneta de uma forma rápida e eficiente e então...
...ele abre-a.
Com a porta para o lado, é revelada a tal da sala. De poucos metros quadrados e com as paredes sem pintura. Não existe cor alguma, é apenas uma sala com uns sofás cinzentos e uma mesa suja no meio. Ao menos, é melhor do que nada.
Reyner: "Não se acanhem. Entrem à vontade."
A voz do guia parece de confiança. Pelo menos, transparece confiança. Deve ser por isso que, apesar de ambos desconfiarem de Reyner, eles adentram-se na sala.
Iza e Ner seguem para dentro, sendo que Reyner fica à entrada, à espera que eles se acostumem com o espaço e se sentem, só para depois também entrar. Fá-lo só por precaução e para eles não levarem a mal a presença daqueles dois.
Os dois convidados, por enquanto, não parecem desgostar do espaço. Claro que gostariam de nem estar ali presentes, em primeiro lugar, mas podiam estar piores. A mesa pode estar com seringas e droga por lá espalhada e os sofás podem estar todos furados, porém, não vieram lá para relaxar. O que importa mesmo é o negócio.
Mas essa tranquilidade não demorou muito. Num instante em que ainda olhava em redor, Ner vira-se para trás e olha para a entrada. Foi então que ele viu a surprezinha.
Ner: "Podias ter avisado que trazias companhia."
Ouvindo o comentário do seu braço direito, Iza vira-se para trás e percebe a indignação de Ner.
Iza: "É verdade. Não sabia que o grande Reyner tinha medo de nós."
Diz, ao mesmo tempo que olha para o que se encontra na entrada, junto à porta.
Tratam-se de duas pessoas. Dois seguranças de fato e gravata encostados à parede, junto à porta, um no lado esquerdo e outro no lado direito.
Reyner: "E olhem que não tenho medo. Apenas os trouxe por precaução."
Fala, encontrando-se de fora da divisão, esperando o momento certo para assentar o pé dentro da sala.
E, realmente. Os dois guardas que escolheu pareciam bem disciplinados. Apenas se encontravam junto à porta com os braços cruzados. Não se mexiam, falavam ou olhavam descaradamente para os visitantes. É como se tivessem sido ordenados para observar e apenas agir quando lhes ordenassem.
Nem parece algo assim tão mau. Os seguranças poderiam trazer más coisas, caso se compartassem mal. Reyner claramente os quis pôr ali de vigia, apenas para deixar bem claro quem é que estava em posição de poder. Idiota, mas parecia estar a funcionar.
Por muito esquisito que se pareça, Iza e Ner decidem aceitar aquelas condições. Sabiam que não poderiam tentar algo mais agressivo, mas também não planeavam ir lá para brigar. Como já disse, só importava o negócio e ficar a reclamar apenas adiaria ainda mais este processo. Mais valia engolir o orgulho deles e seguir adiante.
Iza: "Ok. Vamos é despachar isto."
Comenta, já decidido e conformado com a situação em que se encontra. Deste modo, ele volta as costas para a entrada e vai até a um dos sofás, onde se senta.
Vendo que o seu líder não reclama, Ner faz o mesmo. Ele vai até ao mesmo sofá onde está Iza e senta-se ao seu lado. Fá-lo quase por obrigação, pois, se fosse por si, já teria saído por aquela porta adentro e ter deixado o negócio para lá.
Ner: "Que seja."
Os convidados parecem ter cedido às suas exigências. Apenas não esperava que eles tivessem reagido tão bem. De resto, tudo está a correr como planeado. Sendo assim, Reyner finalmente sai de ao pé da porta e entra na divisão. Dá um, dois três passos e já se encontra dentro da sala. Ele fecha a porta e dá por começado o encontro.
Reyner: "Digam-me lá o que é querem para um dia pouco habitual como hoje."
Pede, fechando bem a porta.
Ner: "Temos negócios para discutir contigo."
Reyner: "E de que tipo?"
Pergunta, passando pelos seguranças e dirigindo-se ao sofá em paralelo ao sofá onde se encontram os seus convidados.
Iza: "Os mesmos de sempre. Acho que sabes do que estamos a falar."
Reyner: "Querem o meu produto, não é? Para variar."
Conclui, ao mesmo tempo que se senta no sofá rasgado. Está pronto para ficar sério e ter uma conversa menos civilizada. Este é o ponto que marca essa mudança.
Iza e Ner percebem esta mudança de tom. Parece que o guia já não está mais para brincadeiras. Sabe que não se brinca em serviço. Embora tenha uma personalidade meio provocadora e brincalhona, é, ainda assim, um homem com prioridades.
Devem proceder com cuidado. É o que concluem os líderes da gangue. Cada palavra pode contar. Entrar em conflito no território inimigo é má ideia. Especialmente quando estão em desvantagem numérica.
Iza decide não desperdiçar mais tempo e escolhe responder. Mais calmo, ele chega-se para a frente no sofá e abre a boca para falar. Ner ia impedi-lo, mas, já que o seu líder insiste em falar, é porque se sente confiante e, se ele se sente confiante, não é boa ideia pará-lo. Sim, até porque Iza parece estar a dizer, sem abrir a boca, que irá ser cuidadoso e pensará duas vezes antes de falar. Exatamente, nada irá correr mal:
Iza: "És rápido a perceber as nossas intenções."
Comenta, de tom calmo e tranquilo, começando a conversa, verdadeiramente.
Surpreende Reyner com a calm que fala. Esperava que o convidado já ficasse irritado, mas, até agora, isso ainda não aconteceu. Ainda bem, não queria entrar em outra luta, de qualquer forma. Calhou bem e agora conseguirá continuar a conversa sem precisar de se preocupar em arranjar problemas. Ou isso espera ele...
Reyner: "Como é que não poderia ser? Sempre que aqui vêm trazem sempre o mesmo motivo. Hoje, por muito estranho que seja o dia, não deve ser diferente."
Iza: "Então acho que é desnecessário estar a explicar-te detalhadamente o que desejamos."
Reyner: "Pois é. Esse teu vocabulário caro que agora usas também não esconde. Tentas ser educado e parecer letrado para ver se me convences. Fica já a saber que isso não funciona. Eu conheço-te bem, Iza. Lá fora, és um belo de um grunho. Andas a matar pessoas a torto e a direito só para conseguir uns trocos. Não admira que as notícias nos andam a massacrar com barbaridades desse género."
Iza: "Tch. Mas olha que o crime não anda só aqui em São Francisco e nos teus casinos fajutos. Não com estes recém-chegados compradores. E é verdade que lucro, mas não o faço de bom grado ou apenas para ganhar dinheiro. Acima de tudo, faço-o para cumprir a promessa que fiz com o meu pai antes de ele morrer e tu bem sabes disso."
Defende-se, tentando contra-argumentar no momento com um argumento pouco fundamentado que criou no momento por necessidade de manter a sua imagem.
Reyner: "Sim, o teu pai era um bom homem. Um homem que nunca se venderia para uns riquinhos que andam por aí a contratar gangues e criminosos para sujarem as mãos por eles. Não sei se te apercebes, Iza, mas estás a ser usado."
Iza: "Não, não estou. Caso contrário já teria desistido de trabalhar para eles. Na verdade, se esse fosse o caso, muitos já teriam percebido isso e desistido. Mas esse não é o caso. Como podes ver, quase todas as gangues, espalhadas por todo o mundo, trabalham para eles, angariam fundos para eles. Fazem-no, porque acham que genuinamente beneficiam deste acordo. É simples. Estas pessoas dão-nos dinheiro para nos lhes darmos ainda mais dinheiro."
Reyner: "Sim, à primeira vista nem parece mau. O problema é que tu nem sabes para quem é que estás a trabalhar. Ou tens o nome dos compradores, por acaso?"
Deixou bem claro de que lado se encontra. Quase todas as gangues parecem ter sido compradas por uns misteriosos "compradores". Estas misteriosas pessoas dão dinheiro a gangues de todo o mundo para lhes arranjarem ainda mais dinheiro. É como se fosse um investimento.
Contudo, ninguém sabe quem são esses "compradores". Apenas se sabe que eles entraram em ação há cinco anos atrás, quando começarama fazer estas quase propostas de trabalho a gangues de todo o mundo. Eles ofereciam dinheiro, na verdade, muito dinheiro, e diziam que as gangues poderiam conseguir mais se trabalhassem para eles e os ajudassema ganhar ainda mais dinheiro. É claro que todas as gangues aceitaram a proposta, incluindo a gangue de Iza. Mas, como em tudo, existem sempre os do contra.
Iza: "Como disse, o trabalho é simples. Os compradores vêm até nós e oferecem-nos dinheiro. Prometem-nos mais dinheiro se trabalharmos para eles e os ajudarmos a angariar fundos para lhes entregarmos no fim de cada mês. Caso consigamos, pagam-mos. Senão, largam-nos e deixam-nos. Não entendo o que é que é tão complicado de entender."
Reyner: "Complicado é entender como é que vocês caem que nem uns patinhos nesses esquemas."
Responde, levantando mais a sua voz. Deixa ainda mais claro a raiva que tem de todas as gangues ue aceitaram a proposta dos compradores. Isso significa que odeia todas as gangues criminosas do mundo, exceto a sua e a do dono do casino. Sim, apenas duas gangues recusaram a oferta e permaneceram independentes.
Ninguém sabe porque o fizeram. Nem se sabe porque é que aparentam ter ódio pelos tais de compradores. Apenas se sabe que odeiam os comradores e quem trabalham para eles. Talvez seja a hora de saber o porquê.
Iza: "Sempre soube que não eras um fã de qualquer gangue que aceitou o acordo dos compradores. O que faz com que tu odeies todas as gangues criminosas no mundo, exceto a tua e a do dono deste casino. Vocês foram os únicos que recusaram e deixaram as vossas gangues como as únicas duas gangues que não trabalham para ninguém. Contudo, em nenhum destes anos que nos conhecemos, me disseste o porquê."
Reyner: "Talvez porque achei melhor não falar das minhas motivações pessoais a um idiota que apenas me vê como forma de obter dinheiro. Na verdade, vocês criminosos atuais que trabalham para aqueles riquinhos só veem dinheiro. É como se nem existisse mais nada de importância no mundo."
Iza: "Até parece que tu também não lucras."
É capaz de ter dito a frase errada. Sugeriu que o Reyner não tinha tantas diferenças quando comparado com gangues como a de Iza. Nem preciso dizer que é má ideia comparar alguém a algo que ela odeia. Agora, Reyer deve estar com os nervos carregados de raiva. E apenas foi preciso uma frase, uma mísera frase que Iza disse vinda diretamente do seu coração, uma frase em que disse o que realmente pensava, ao contrário das suas últimas falas.
Em resposta, Reyner muda a sua postura. Passa de tranquilo a irritado. Porém, a transformação é completamente invisível ao exterior. Ele não muda de expressão facial, postura ou respiração. A mudança ocorre no interior, sendo apenas capaz de notar a partir do exterior, olhando para os seus olhos.
Os olhos dele que parecem querer matar os dois que se encontram à sua frente. Estão acerrados e determinados. Fica bem claro a posição de poder em que se encontra e como não seria um problema matar alguém para ele.
Por sua vez, Iza e Ner ficam intimidados. E, por falar em Ner, este começa a sentir que, se as coisas continuarem a escalar assim, rapidamente terá de intervir. Só não tem a certeza se terá coragem para o fazer. Nos últimos minutos tem ouvido uma discussão entre dois líderes de gangue. Aqueles dois estão claramente acima do seu nível e não tem a certeza se Reyner se sentirá intimidado pela sua presença. E olhem que Ner é um grandalhão de quase dois metros, Reyner é que é forte mentalmente e percebe que, acima da força física, o que mais importa é a dorça mental.
Reyner: "Deixa-me esclarecer-te umas coisas."
Ele abre a boca para falar. Fala agora de um modo mais sério, profissional e...intimidador.
O homem pausa por um bocado. Desencosta-se do sofá e chega-se para a frente e Iza, que também estava inclinado para a frente, retrocede os seus movimentos e volta a encostar-se. Reyner conseguiu intimidar Iza e deixá-lo a saber que manda. Na verdade, deixou Iza com medo até. Nem o próprio sabe o que tem. Deve ser uma mistura entre os seus olhos e aparência exterior aparentemente tranquila que se combinam para espalhar um ar aterrador que até os seguranças da entrada sentiam. Então, finalmente, ele abre a boca para falar:
Reyner: "Eu sou um criminoso tal como os outros. A diferença é que eu sou um criminoso superior. Mato e faço dinheiro tal como eles, é verdade. Posso não ser o melhor ser vivo do mundo, é verdade. Mas ao menos tenho algo que é muito importante neste mundo: respeito."
A explicação acabou de começar e Iza e Ner já estão borradinhos. Já previram tudo e o caminho onde a conversa levará não parece nem um pouco promissor. O discurso de Reyner parece ter um fim trágico e que o levará a entrar em erupção, largando a sua personalidade tranquila de sempre. Só então se tornará ele mesmo. Mas, até então, a explicação ainda tem um longo caminho a seguir:
Reyner: "Sou um criminoso que não anda por aí a matar pessoas a torto e a direito. Isso é um erro de principiante. Por enquanto, podem estar tranquilos, mas, daqui a algum tempo a polícia não será a vossa única preocupação e, quando derem por vocês, tornar-se-ão o inimigo público número um. E olhem que, no vosso caso, talvez essa seja mesmo a melhor opção, já que o vosso respeito nas ruas está na lama."
Iza: "Ok, mas como é que faremos dinheiro então?"
Reyner: "Vêm ter comigo. Dão-me o dinheiro necessário e eu dou-vos produto para distribuírem. Vocês têm-no feito há um bom tempo, não é? Quer dizer, vocês vieram aqui para literalmente terem mais pó para distribuir."
Ner: "Chega-te de rodeios. Onde é que queres chegar?"
Intervém pela primeira vez, já chateado pelo facto da conversa estar a demorar mais do que o necessário.
Reyner: "O que eu quero dizer é que o vosso lugar será sempre abaixo. Abaixo de mim e até dos vossos compradores. Não importa o quanto tentem e prosperem, nunca vão deixar de ser subordinados daqueles homens e nunca vão deixar de aqui vir, de joelhos no chão e mãos no ar, a implorar por narcóticos."
Iza: "Desculpa, mas nós não trabalhamos para ti."
Diz, levemente mais agressivo. Vê-se que Reyner está a picá-lo. Contudo, aquelas provocações parecem genuínas e são, nada mais nada menos, do que os seus pensamentos interiores. Lá no fundo, ele odeia todas as gangues que não são independentes.
Reyner: "Sim, és capaz de ter razão. A droga que eu vos dou é o que sobrou do dia e nem vos pago. Vocês é que aqui vêm e pagam pela dose que querem para depois irem vocês vender. Mas sabes que mais? Não é por não trabalharem para mim que não deixam de ser inferiores. Pelo contrário, desde o momento que vocês aceitaram aquela mísera proposta tornaram-se uns palhaços. Foi nesse momento que eu vos venci."
Palavras fortes. Palavras com um sentido não tão literal. A vitória de que ele fala é uma vitória moral. Considerando ele que os criminosos inferiores são os que aceitaram a proposta e os superiores os que recusaram. É nisso que acredita.
Iza e Ner começam a ceder. A raiva já está a subir-lhes. Sobe lentamente até tomar controlo dos seus corpos. Daqui a uns momentos tomará controlo. Basta umas frases para desencadear essa reação. Afinal, Reyner ainda não esclareceu tudo por completo.
Reyner: "É que não sei se sabem, mas roubar, para mim, não é só um mero ato. É muito mais do que isso. Talvez cabeças pequenas como as vossas não vão entender nada quando digo que ser um criminoso não é um estilo de vida, é uma arte. Arte essa que vocês andam por aí a arruinar. Com cada morte, cada vida tirada por motivos egoístas, desprezam esta arte. E deixa-me dizer, vocês matam-na só porque apresentam o mínimo de perigo para vocês e isso, por sua vez, é causado pela falta de coragem para matar alguém que vos deve dinheiro. E a pior parte é que tu, Iza, nem tens a decência de sujar as mãos como líder, não, tens que deixar o teu amigo e os teus capangas sujarem as mãos por ti. Mesmo nas raras ocasiões em que vais fazer o trabalho, nem tens a decência de lhes dares uma morte lenta com uma arma de fogo, não, tens de usar uma faca. Isso é que me impressiona mesmo. Nem o básico conseguem fazer bem e sabem porquê? Vocês não o fazem porque gostam, fazem-no porque foram obrigados ou porque apenas querem uns trocos. Isso, para mim, é uma vergonha. E, acreditem quando digo isto, que será a vossa falta de amor por esta arte que vos levará ao fim do trilho."
Nem mais. Disse tudo o que queria. Pode ter passado uma imagem um pouco mais excêntrica, mas foi verdadeiro a si mesmo e conseguiu irritar ainda mais aqueles seus convidados. Ou verá se conseguiu na próxima intervenção.
Iza: "Não sei o que te deu. Deixa-me que te diga, mas tu, hoje, estás mais provocador que o normal. Há alguma razão?"
Ignora o antigo discurso de Reyner e segue para o próximo assunto. Já está farto daqueles jogos mentais e seguirá para o que mais lhe interessa.
Reyner: "Tudo o que disse é apenas o que penso. Acredita, não estou a mentir. Mas sim, apenas estou a dizer o que genuinamente penso de vocês com uma razão: fazer-vos desistir deste negócio."
Ner: "E porquê agora, no dia de hoje, nesta reunião?"
Reyner: "Porque já não precisarei do vosso dinheiro. Na verdade, não vos verei mais."
Iza: "Estás bastante convecido..."
Comenta, com uma enorme vontade de lhe dar um soco.
Reyner: "Pois é. Não sei se sabes, mas recentemente têm havido indícios de que algumas gangues criminosas transportam armas biológicas. Está a dar em todos os jornais e-"
Iza: "Nem precisas de dizer mais nada. Foste tu, não foste?"
Reyner: "Bem sabes que sim. Queria guardar como surpresa para esta reunião, mas parece que os jornais querem sempre estar em cima das novidades."
Iza: "E é por isso que andas tão confiante. Só não entendo o que pretendes fazer com isso, embora tenha as minhas ideias."
Reyner: "O que é que eu fazer? Perguntas-me o que é que vou fazer?! Já era para teres percebido."
A pessoa levanta-se. É como se estivesse a afastar-se deles cada vez mais, da mesma forma que se vai afastando cada vez mais do tema da conversa. Ele mostra, novamente a sua superioridade e vantagem no espaço. Prepara-se para fazer a grande revelação. Em breves instantes dirá a razão de ter angariado armas biológicas.
Nem quer revelar mais detalhes obre estas armas biológicas. Só quer dizer porque é que tem andado com interesse nelas e a sua utilidade. Então, de pé, olhando Iza e Ner, que se encontram sentados no sofá, intimidados, olhando-os de cima, ele revela:
Reyner: "Sou capaz de vos ter irritado com algumas das minhas provocações anteriormente, mas não me arrependo de nenhuma delas. Tudo o que disse já deixei claro em outros destes encontros que temos no fim de cada mês. Contudo, caso não entendessem, deixei ainda mais claro. Mas fiquem apenas a saber que só estou a mostrar o ódio que tenho por vós hoje, neste momento, porque sei que não estarão vivos durante mais tempo. Afinal..."
Ele pausa por um instante. Ner e Iza engolem em seco, já com medo de virá. Até que, enfim, ele diz:
Reyner: "Daqui a umas semanas, as minhas armas biológicas irão matar-vos a vocês, criminosos de baixa laia. Na verdade, chamar-vos de criminosos é um insulto. Nem conseguem seguir os vosso ideiais idiotas até ao fim. Eu bem sei o que se está a passar contigo e o teu amigo que está em dívida. Sabes que o tens de matar, mas não tens coragem, não é? É por isso que ele sobreviveu a todos estes anos. Mas agora que vês a tua reputação nas ruas a ser ameçada já decides matá-lo. Isso é patético e um ato digno de uma criança com medo. Mas, não te preocupes! Aqui, o Reyner, vai poupar-te deste dilema com que te tens deparado e ainda não resolveste. Por isso, que me dizes?"
É como se fosse uma proposta. Uma proposta num tom de gozo e de provocação. Ele não quer ajudá-lo. Quer matá-lo a ele e a todos os que não seguem a sua filosofia.
Já sabia disso. Odeia isso. Odeia ainda mais ter de ouvir isto tudo por minutos. Detesta o facto de esta visita estar a demorar tanto para acabar. É que já nem estão a falar de negócios. Não, a conversa há muito que divagou desse assunto. Tudo porque aquele idiota quis mostrar-lhes a sua superioridade!
Mas não. Tem de se acalmar. Tem de se acalmar, por muito que saiba que não consegue. Tentou este tempo todo, mas, no fim, a raiva cabava sempre por escapar, por muitoq ue fosse em poucas quantidades.
Tal como um certo amigo seu, não consegue esconder as suas inteções. Neste ponto, é inútil. Porque é que resiste? Porque é que tenta fazer algo com que não está acostumado? As pessoas foram feitas para serem honestas consigo próprias e não para fingirem ser quem não são.
Sim, já chega. Já chega de fingir ser quem não é. O punho cerrado por detrás das costas não engana ninguém. Apenas está a enganar-se a si próprio. Agora, está a lixar-se para tudo. Para o mundo, para os seguranças, para as consequências e, principalmente para Reyner.
Não quer saber de mais nada. Apenas de se satisfazer-se a si próprio. Quer ficar feliz com o presente para nunca se vir a arrepender no futuro. Vai fazer o que quer e ninguém o poderá impedir. E, neste momento, o que mais quer é uma coisa e uma só coisa: dar um soco no Reyner.
Iza: "Muito bem, acho que já ouvi o suficiente."
E, foi nesse momento que o balão rebentou. Perante uma ameça séria, Iza rebenta. O vulcão entra em erupção. Isso não ocorre com Ner, uma vez que este acabou por reagir à ameaça com medo e não com raiva. Talvez seja por isso que ele não conseguiu reagir a tempo para impedir o que viria a acontecer.
Iza: "ANDA CÁ!"
O homem impulsiona-se para a frente, levantando-se do sofá e num salto para a frente, lança-se para cima de Reyner. Dá um salto tão grande que nem sabia que era capaz de dar. Foi num só salto que conseguiu passar por cima da mesa cheia de seringas e cocaína e alcançar o alvo. Mal chegou perto o suficiente, ainda em suspensão no ar, ele estende a mão direita para a frente e...
*Pam*
Acerta com um forte soco no rosto de Reyner antes de cair de chapa no chão. O seu corpo dói, mas a adrenalina do momento mascara alguma da dor. O que interessa é que conseguiu dar um soco em Reyner.
Nunca se sentiu tão bem na vida. Foi provavelmente o momento mais satisfatório de sempre. Só de ver o rosto de Reyner a contorcer-se com o soco vale a pena qualquer punição que possa vir. E uma punição vem aí.
O soco não foi o suficiente para derrubar o criminoso artístico. Reyner, com a vermelha cometamente vermelha e marcada com os punhos de Iza, foi capaz de se manter em pé, equilibrando-se bem para a frente. Como tal, mantendo a sua posição, ele rapidamente recimpõem-se e decide contra-atacar. Ele dá dois passos em frente acerta com um pontapé fortíssimo na cabeça do inimigo deitado no chão. Um pontapé que bateu com a bica perto da região do olho e contraiu como um chicote.
*Tlam*
O golpe esfolou bem o rosto de Iza e causou uma hemorragia na zona da sobrancelha com sangue que fluiu até à bochecha dele. Mas aquele golpe não foi o suficiente. Reyner não deixaria que alguém que lhe bateu saísse só com sangue na cara. Por isso, ele volta a erguer o pé, preparando-se para enterrá-lo na cabeça do inimigo, quando alguém vem.
Ner surge a correr a um metro de onde estão os dois protagonistas do conflito. Ele vem rapidamente a chegar ao local e, quando chega, violentamente empurra o homem para trás, aproveitando a sua força que nem parece humana. Reyner saí imediatamente impulsionado com enorme velocidade para trás, chocando com as costas na porta.
*Param*
O choque foi tão forte pessoas do andar debaixo, a jogar, devem também ter ouvido. Pelo menos para os seguranças, aquele era sinal de que deviam agir. Sabiam que necessitavam da ordem do chefe, mas a situação estava a ficar fora de mão. Se não agissem agora, seria tarde demais. Porém...
Reyner: "Nem pensem. Eu vou já acabar com isto. Aqui não vai haver luta."
Garante aos seus guardas, enquanto sofre com uma enorme dor nas costas que não parece parar, que, relutantemente, retornam às suas posições habituais. discordam da decisão, mas têm de a respeitar.
Reyner: "E quanto a vocês, Iza e Ner, recomendo-vos a desistirem. Se querem lutar, aqui é o pior lugar para o fazerem. O casino está rodeado de seguranças. Por muito que custe admitam, vocês não têm chance de vencer em território inimigo."
Informa-lhes, com a dor nas suas costas atingindo o seu ponto máximo. As boas notícias é que, atingido o ponto mais alto, a dor apenas diminui a partir daí.
Tem razão. É verdade e, por muito que custe, têm que admitir. Não há forma de vencerem e o melhor a fazer é mesmo desistir.
Ner: "..."
Iza e Ner ouviam tudo, mas, pelo menos para o brutamontes, aquelas palavras entravam-lhe por um ouvido e saíam pelo outro. Acontece que este encontrava-se ocupado a tentar pôr Iza, que se encontra deitado com sangue a sair da sua cabeça até ao chão, de pé. E tem sido uma tarefa complicada. Mesmo com tanta força, o seu chefe é pesado e requer algum esforço para levantar. Contudo, ele eventualmente consegue.
Ner: "Já está. Desculpa, dizias algo, Reyner?"
Chega a parecer que está a provocá-lo. Se não o tivesse visto completamente empenhado em tentar ajudar os eu companheiro há uns segundos atrás, Reyner já o estaria a insultar. No entanto, consegue conter-se e permanece calmo, como já se habituou a fazer.
Reyner: "Sem problema. Eu digo uma outra e última vez, agora que o teu colega aí está em pé e pode ouvir-me: vocês não têm hipótese de vitória no meu território. Por isso, saíam daqui!"
É impossível deixar mais claro. Todos na sala ouviram e compreenderam muito bem o que ele disse. Até Iza, que tinha dificuldades em permanecer em pé e, como tal, apoiava-se no ombro e braços de Ner, ouviu tudo perfeitamente. E ele não gostou nem um pouco do que ouviu. O problema é que não tinha forças para agir, apenas podia falar.
Iza: "Tens sorte que estamos em desvantagem, pois se tu estivesses no nosso território, a situação seria muito diferente."
Ameaça-o, com uma enorme dor na cabeça e a ofegar.
Reyner: "Podes ter razão. Podes também não ter. Acho que nunca saberemos. O que podes fazer é educadamente pores-te a andar."
Iza: "Cá para mim, estás é com medo de lutar connosco, seu corbarde."
Insulta-o, com uma voz mais alta e com rastros de raiva. Embora grande parte da sua raiva tenha sido dissipada com aquele soco, alguma ainda restou e permanece forte no seu corpo. Reyner também sente a tentação da raiva, mas consegue resistir o suficiente. Apenas necessita de insistir e avuentar mais um pouco que eles irão embora.
Reyner: "Medo, dizes tu. Até dá vontade de rir, porque se há algo que eu não sinto é medo. Porque é que haveria de ter medo de uns criminosos de uma laia tão baixa que nem têm nome para o vosso grupo. Mas escuso de explicar as razões do meu ódio, sinto que já deixei tudo bastante claro."
Iza: "Sim, acho que não temos muita escolha. Ou ficamos aqui para morrer ou vamos embora."
Reyner: "Para mim é indiferente. Se saírem agora apenas estaras o a adiar a vossa morte para outro dia. Ganharei de qualquer forma."
O pior é que ele tem razão. Iza e Ner têm dificuldade em admitir, mas ele diz a verdade.
Iza: "Acho que ganhaste desta vez, Reyner."
Reyner: "E não será a última."
Iza: "Pois, pois. Nós sabemos."
Responde, ironicamente.
Deste modo, Ner começa a andar em direção à porta, com Iza a apoiar-se nele e indo ao mesmo ritmo do colega, embora esteja claramente zonzo. Os dois lá vão, com os seus orgulhos destroçados, sendo obrigados a bater em retirada.
Reyner, por usa vez, sai da frente da porta, abrindo caminho para aqueles visitantes passarem. Não tinha qualquer intenção de negociar com eles. Nem esperava que eles viéssem, mas, já que decidiram vir, rebeliou-se e mostrou que não servirá mais criminosos que trabalhem para os compradores. Apenas o fez no passado para fazer o seu dinheiro, mas agora que tem o suficiente para financiar as suas armas biológicas, já não precisa mais deles para nada.
Assim, acabou a reunião. Uma que começou para discutir negócios e que acabou em conflito físico. Ninguém esparava o que vinha dali. É que ninguém mesmo esperava que-
Reyner: "Que isto sirva como declaração de guerra à vossa gangue e a todas as outras que trabalham para quem quer que sejam os vossos superiores. Não importa, matarei todos para trazer de volta esta arte que tanto amo."
Ao ouvir esta declaração de guerra contra os restantes criminosos, Ner e Iza chegam à porta. Sabiam que ele não ia conseguir. A determinação estava lá, mas julgavam que armas biológicas não seriam o suficiente para derrotar estas organizações todas. Talvez até consiga derrotar todas as gangues, mas nunca conseguirá vencer os superiores que as compraram. Disso têm total certeza. E por isso é que, antes de sequer abrirem a porta, Iza, com sangue ainda a pingar da sua cabeça para o chão, olha para Reyner nos olhos e diz-lhe com toda a seriedade:
Iza: "Talvez consigas derrotar as outras gangues, porém, quando se trata dos superiores, podes esquecer, não conseguirás nem morto. De qualquer forma, boa sorte. Acredita, vais precisar."
Então, Ner abre a porta e os dois estão prontos para sair da divisão em segundos. Porém, ao ouvir o que eles disseram, ficou com ainda mais vontade de os matar. Começa a querer ainda mais destrui-los e começa a acreditar que é capaz. Aquelas palavras não o desmotivaram, pelo contrário, motivaram-no ainda mais. E, foi neste momento, que decidiu fazer algo inesperado.
Reyner: "Esperem um pouco. Não podem ir de mãos vazias."
Interrompe-os, deixando-os parados, perante a porta aberta. Estão curiosos para saber o que é que aquele idiota lhes queria mostrar, especialmente no que pareciam ser os últimos instantes da reunião. Rapidamente, perceberam de que se tratava.
Reyner vai até aos sofás e agacha-se. Ele coloca a mão direita debaixo do sofá e, no momento seguinte, quando retira a mão, está a segurar uma saqueta transparente com uma substância branca lá dentros.
Os olhos não enganavam ninguém. Aquilo era, sem dúvida alguma, cocaína. Logo, inúmeras perguntas vêm à cabeça de Ner e Iza, mas antes que tenham tempo para o fazer Reyner levanta-se e arremessa a saqueta na direção deles.
Reyner: "Tomem."
Diz, ao mesmo tempo que arremessa a saqueta.
Ner é rápido a reagir e consegue apanhar a saqueta com eficiência na sua mão esquerda. Apanhada a saqueta, ele examina o conteúdo e vê que as suas suspeitas estavam certas. Iza também consegue ver a saqueta mais de perto e também chega a uma conclusão.
Ner: "Isto é..."
Iza: "É cocaína, mas...porquê?"
Reyner: "Bem, não podem voltar de mãos a abanar. Considerem isto como um presente por me terem comprado droga nos últimos meses. Foram os únicos com coragem de cá vir. Foram vocês os únicos a virem aqui e a pagarem bom dinheiro pela mercadoria que eu vos dou. Asseguro-vos de que esse dinheiro foi bem usado com os investimentos que terão o previlégio de experienciar."
Nem a ser gentil consegue parar de humilhá-los. Ner e Iza acham curioso o ato. Talvez ele não seja assim tão má pessoa. Ou então ele apenas está a tentar atormentá-los ainda mais.
Agora que a verdadenfoi revelada, Ner e Iza sentem-se piores. Agora sabem que eles foram cúmplices nos planos da pessoa que mais odiavam e que agora é inimigo deles e de todas as outras gangues que conhecem. Se alguém morrer será por culpa deles e isso é algo com que não conseguirão viver.
Mas ainda é demasiado cedo. Seja o que for que vá acontecer, ao menos levarão algo. Podem levar ainda mais raiva e até algum medo quanto ao que virá, mas, pelo menos, conseguiram o que queriam, apesar das dificuldades no caminho.
Iza: "Foi uma boa conversa. Acho que já tivemos tempo o suficiente para discutir."
Ner: "Também acho."
Reyner: "Veremo-nos quando o destino quiser."
Iza: "Podes crer."
Com esta breve troca de palavras, eles despedem-se de uma forma bastante mascarada. Iza e Ner dão os passos adiantes e saem da sala. Deixam aquele espaço, mas levam o que lá se passou na cabeça. Os acontecimentos irão repetir nas suas cabeças para sempre até ao dia das suas morte. Sim, não se esquecerão do que lá se passou.
Os convidados saíram. Imediatamente, os seguranças fecham a porta. Quem fica é Reyner e os dois seguranças. Com o barulho de fechar da porta, a reunião é dada como encerrada. Uma reunião que começou com negócios, mas que acabou com uma declaração de guerra. Guerra essa que está por vir em breve e que Reyner mal pode esperar.
O escritor do "The Right" ainda não chegou a casa. Simplesmente porque decidiu ainda não ir lá. Queria ir a dois lugares antes de ir para casa: o supermercado e a habitação de Danic.
Sim, o mesmo Danic que o capitão Tren lhe indicou. Tem a certeza que não o conseguirá entrevistar hoje, mas pode tentar amanhã. Para isso, terá de fazer algum trabalho hoje. Isso requere arranjar a sua localização. Felizmente (ou infelizmente), isso é algo que está disponível para praticamente toda a gente. Eu disse praticamente, pois é requerido um aparelho com acesso à internet, algo que Damian não tem.
Pode ter um flip phone, maseste é bastante limitado nas suas funcionalidades. Jeff nem tem telemóvel. E também não há computador em casa. O que significa que para ter acesso à internet necessita de ir a um local em que tem que pagar para usar um aparelho eletrónico específico. Mesmo lá no escritório não há internete. Afinal, o "The Right" ainda é um jornal amador com um escritório que faz jus a essa reputação. Acho que já estão a entender onde quero chegar.
Damian poderia ter voltado ao escritório e ter feito a pesquisa no computador. Contudo, isso significaria que teria de fazer uma longa caminhada. Por isso, optou por ir a um local mais perto. Decidiu ir a um internet café.
Damian: "É aqui."
Comenta para si mesmo, em voz baixa, quase que confirmando se aquele era o local. Tinha até, mais acima da entrada, colada à parte de cima da parede, uma placa de neón com o nome do local escrito em miúsculas: "DIMO'S HUT" (A CABANA DO DIMO).
Tal como com a loja de armas, ele não tinha muita escolha. Este é o internet café mais perto do último local de onde veio. Mas agora que chegou ao local, pensa se terá feito a escolha certa.
Vamos começar pelo próprio letreiro a néon que tem uma letra apagada, devendo ser uma falha de energia. Mesmo à sua frente, está uma parede de vidro com uma porta de vidro no centro. Aquilo era a entrada.
Queria desistir daquilo e ir para um lugar mais longe, mas como melhor aspeto. Porém, isso seria como morrer na praia. Já está no local e tudo. Seria idiota desistir aqui. Por isso, contra a sua vontade, Damian anda para a frente. Lá vai ele, com a pistola no bolso do casaco e espírito de investigador.
Ele abre a porta de vidro e entra. Entra numa pequena secção do edifício que não passa da receção. Com paredes de tijolo nos lados e uma parede de fundo feita de vidro com porta do mesmo material que permite vislumbres do espaço interior com os computadores e clientes, aquele cenário todo sinalizava que o local era de baixa popularidade e rendimento.
Depara-se com um balcão de madeira, à frente da parede de vidro que parece estar a deteriorar-se. Nesse balcão, o outro lado, está um homem. Gordo, aparentemente de meia-idade e com um uniforme azul e típico de quem lá trabalha. Perto da zona do seu peito, tem um crachá que o identifica. Damian olha para o crachá e vê o nome dele.
Damian: "Dimo."
Lê em voz alta.
Dimo: "Sabe ler, amigo. Mas está correto. Eu sou o Dimo. Agora, posso saber em que posso ajudá-lo?"
Fala o senhor, orgulhosamente erguendo aquela barriga redonda e que provavelmente surgiu como resultado do consumo excessivo de bebidas alcoólicas.
Damian é apanhado de desprevenido. A última pessoa com quem falou era, no geral, bastante fechada e raramente demonstrava uma boa disposição. Agora, este tipo, era outra conversa. Falava muito alto e estava demasiado feliz. Isso é impossível. Ninguém é tão feliz assim. E isso vem de alguém que trabalha num jornal . Ele conhece bem o mundo do trabalho.
Imediatamente, não foi com a cara daquele homem. Começou com o pé esquerdo. Talvez seja cedo demais para fazer esse tipo de deduçôes tão extremas. Vamos dar-lhe uma chance.
Dimo: "Que se passa, filho? Não falas? O gato mordeu-te a língua, hã?"
Damian: "N-Não. É que eu estava mesmo a querer confirmar se você era mesmo a pessoa do letreiro."
Responde, inventando uma desculpa esfarrapada só para não ter de escutar mais a voz daquele homem de meia-idade a fazer troça dele.
Dimo: "Claro que sou. O nome é o mesmo. Eu sou o Dimo Xiol, dono deste estabelecimento. Por isso, pergunto outra vez: o que o traz aqui? Veio apenas com fome ou deseja usar os computadores?"
Para além de brincalhão, também é um homem cuidadoso. Ao menos nem tudo é mau.
Damian: "Só os computadores, por favor."
Dimo: "Ok, sem bebidas e nada. Afinal, terá que conduzir de volta para casa, não é?"
Foi uma tentativa muito má de comédia. A intenção estava lá, porém não foi nem um pouco efetiva. Damian nem esboçou um sorriso ou soltou uma risada. Pobre do Dimo. Teve azar. Fez a piada precisamente a um tipo que não tem carro. Acho que o silêncio é sinal do universo para voltar ao assunto.
Dimo: "Aham! Voltando ao assunto. Durante quanto tempo precisará? Existem muitas opções, meu comparsa. Depende do tempo que precisa. Vai durar minutos? Horas? Talvez um dia inteiro ou-"
Damian: "Não, 30 minutos é suficiente."
Diz, rapidamente, interrompendo o homem e poupando-se de ouvi-lo mais.
Dimo: "Muito bem, 30 minutos serão. Isso dá-lhe um total de 27$."
E foi aqui que tudo foi ladeira abaixo. Tudo o que foi preciso foi dizer aquelas palavras. Bastou dizer que custava vinte e sete dólares.
Sim. Exatamente. São vinte e sete dólares por trinta minutos. Vinte e sete dólares. Vinte e sete dólares. A porra de vinte e sete dólares. Vinte e sete dólares. Vinte e sete dólares. Vinte e sete dólares. Vinte e sete dólares. VINTE E SETE DÓLARES.
Damian: "VINTE E SETE DÓLARES?!"
Grita, numa mistura de surpresa e indignação. Agora é que se arrependeu totalmente de ter decidido vir a este local. Nunca mais aqui virá. Não, depois de saber os preços absurdos que cobram por esta merd-
Dimo: "Calma, senhor. Fale mais baixo."
Damian: "Ah! D-Desculpe."
Pede perdão, recompondo-se, envergonhadamente, e voltando ao seu eu mais introvertido e que não demonstra os seus sentimentos a cada momento.
Dimo: "Entendo que possa se sentir frustrado, mas essas são as regras. Já para não falar que a afluência nas ruas diminuiu muito com as notícias. Por essa razão, o negócio não tem estado muito bem e provavelmente ficará assim por um tempo com as ameaças da polícia de obrigar cidadãos como eu a ter de ficar em casa. E o senhor sabe como é: um homem precisa de comida no prato, hehe."
Damian: "Mas eu não tenho dinheiro para andar por aí a gastar."
Dimo: "Não é preciso exagerar. São apenas vinte e sete dólares, amigo. Não é por isso que lhe vão cair os parentes na lama."
Damian: "Pode até ser para si ou para o típico cidadão americano, mas eu não tenho esse tipo de liberdade monetária. Peço-lhe que faça algo, pro favor. Quer dizer, abra uma exceção. Pode fazer isso."
Implora, com toda a raiva e fibras do seu corpo.
Dimo: "Estas são as regras. Não posso fazer nada."
Damian: "Vá lá! Eu preciso mesmo desta oportunidade. É essencial para o meu emprego. Com 30 minutos, estarei a contribuir para a sociedade. Por favor. Você é o dono. Tem que poder fazer algo. A sério. Só lhe peço isso."
Parece que está mesmo a falar seriamente. Entrar ou não entrar poderá determinar o seu futuro. Tudo depende do dono do estabelecimento. Não é que não tenha dinheiro para usar. Ainda tem o maço de notas que Daniel lhe deu, mas não esperava utilizá-los agora. Já para não falar que estaria a estragar os planos que tinha para depois. Recusa-se a entregar o maço e pretende apelar ao lado humano do dono. Uma coisa é certa: dali não saiŕa até receber uma resposta.
Damian está a suar da testa. É uma mistura da tensão, com o seu desespero e calor no local. Vê-se que quer mesmo entrar. É alguém que fará de tudo para entrar. Isso está bem claro. Contudo, determinação e emoções podem não ser suficientes para vencer.
Dimo leva a mão ao queixo, vendo que o cliente não desiste. Terá mesmo que tomar uma decisão. Fica a pensar se poderá realmente abrir exceção para aquele homem. Sente alguma pena por ele. Ainda assim, isso não é o suficiente para o convencer a quebrar as regras que ele próprio inventou.
Por isso, encontra-se em dúvida. O que fará? Deixá-lo-á entrar? Ou manter-se-á verdadeiro a si próprio e às suas regras? Ou uma ou outra. O que será?
Dimo: "Tu estás a deixar isto complicado..."
Vê-se que já está a demorar algum tempo. Parece dividido. Damian começa a ter alguma esperança neste instante. Talvez ainda possa entrar.
Dimo: "Acho que já sei."
Exclama, tirando a mão do seu redondo duplo queixo.
Damian: "E então?"
Pergunta Damian, curioso e apressado para saber a conclusão.
Dimo: "Tens sorte, filho. Hoje não temos mais reservas."
Damian: "Isso significa que..."
Dimo: "Podes entrar."
Damian: "BOA!"
Nem consegue se conter com o anúncio. Fica tão feliz que se esquece do aviso anterior do dono e torna a gritar. Logo se corrigirá, mas, por ora, tem que aproveitar. Ele que já nem acreditava, conseguiu o que queria.
Dimo: "Ei! Pouco barulho!"
Damian: "Peço desculpa...outra vez."
Como disse, já se está a desculpar. Se bem que, desta vez, ele sabia muito bem o que estava a fazer e fê-lo por impulso e felicidade.
Dimo: "Caramba. És logo apressado. Nem me deixas acabar a frase."
Damian: "Erro meu."
Dimo: "Como ia dizer, deixo-te entrar, mas com uma condição. Estás disposto a aceitá-la."
Damian: "Sim. À vontade. Farei qualquer coisa para entrar. Diga-me só o que é que quer."
Nesse instante, Dimo sorri. É um sorriso maroto e de quem tem malícia no coração. Porém, o que ele estava prestes a pedir não era necessariamente mau. Apenas estaria a aproveitar-se do cliente.
Damian: "O que é que quer, senhor?"
Dimo: "Fiz mesmo a escolha certa."
Fala para si próprio. Sozinho no seu próprio escritório, repleto de papéis espalhados na mesa e colados às paredes. É aquele o seu pequeno santuário onde vai para descontrair, embora aquele seja um local para fazer contas e trabalhar. Mas aquele momento era especial.
Dimo: "Isto é que é vida."
Está sentado na mesa de rodinhas do escritório, com pés em cima da mesa e com uma fatia de pizza repleta de toppings e queixo que pode esticar até metros na mão. Pois, em cima da mesa, estava precisamente uma caixa de pizza. Acho que já começam a entender o que aconteceu.
Dimo: "Dimo, tu és mesmo inteligente. Pois sou."
Ao mesmo tempo que dá uma dentada na pizza com um queijo que estica muito, reclina-se ainda mais na cadeira e estica mais os pés para a frente. Nunca esteve tão satisfeito e feliz com uma escolha miserável.
Deixou Damian entrar, mas com a condição que ele lhe pagasse o jantar. Assim foi feito. Foi maldoso da parte de Dimo, mas, para ele, foi justo. Simplesmente foi mais inteligente, reconheceu a fraqueza do inimigo e explorou-a ao máximo. Bom ou mau, no fim, foi ele quem mais ficou a ganhar nisto tudo.
Entretanto, Damian já se encontrava frente a frente ao monitor. Estava contente por ter conseguiu o que queria, mas teve de gastar dinheiro à mesma. Isso era algo que não esperava.
Na verdade, quando o Dimo lhe disse que apenas precisava de fazer algo, não esperava que ele lhe pedisse para pagar uma pizza. Especialmente uma pizza tão cara e cheia de toppings. Ele aproveitou-se dele. Agora não sabe se o pode considerar burro ou inteligente.
Já não importa. O que realmente importa é que Dimo o deixou passar pela porta de vidro e entrar na zona com os computadores. É uma zona muito bem iluminada, com lâmpadas LED no teto. Tem várias mesas de vidro com cadeiras extremamente almofadadas muito bem espalhadas por todo o espaço.
Estavam por volta de 20 mesas com um computador em todo o espaço e nem meia-dúzia de pessoas a utilizá-los. Claramente o estabelecimento deveria estar a passar por complicações monetárias. Essa é capaz de ter sido a razão do homem ter pedido jantar. Levando isso em conta, já não se sente tão mal.
Chega já de divagações. O homem deu-lhe 30 minutos. O tempo está a contar e ainda tem de comprar o jantar de aniversário do seu filho. Já são 19h30m. É praticamente de noite, por isso, é melhor fazer o que tem a fazer e rápido.
Damian apenas usa o computador no trabalho, mas isso não significa que não saiba mexer no aparelho. Ele mexe no rato e abre o pesquisador. Digita com o teclado que brilha luzes coloridos nos espaços interstícios da tecla o nome da pessoa: "Danic Verty". E, com um só clique na tecla, tem um monte de resultados à sua disposição.
São tantos que poderia ficar um dia inteiro só a rastejar com o rato para baixo. Contudo, para sua sorte, o que resultado que procura está logo acima. O site do governo com todas as informações sobre a pessoa que procura. Até se sente mal por ter toda aquela informação à distância de um clique. Porém, este é o seu trabalho e dever como Damian Mindler, escritor do "The Right". Por isso, sem hesitação, ele clica na parte direita do rato.
*Click*
Entra na página, sem mais nem menos. Chega a ser impressionante. Quando alguém chega aos 18 anos, tem toda a sua informação disponível na internet e exposta para todos e qualquer um verem. Damian, Sarah, Daniel, até mesmo este Danic estão todos expostos ao mundo e suscetíveis a atos maliciosos de pessoas com más intenções. Só de pensar que Jeff sofrerá do mesmo quando fizer 18 anos, deixa Damian com medo.
Enfim, de volta ao que interessa. Damian olha para o layout do site. É típico de qualquer site pertencente ao governo americano. Tal significa que está familiarizado com este tipo de site. Acostumou-se a usá-lo quando escrevia artigos e precisava de informações sobre os suspeitos. Conhecendo bem as suas capacidades, 30 minutos não serão necessários.
O pai de Jeff vai lentamente para baixo na página. A esta velocidade consegue passar os olhos e ter alguma informação adicional sobre a pessoa em questão. Por exemplo, viu que ele tem 37 anos e é solteiro. Atualmente, está desempregado, tendo trabalhado no exército como piloto desde os seus 24 anos. Além disso, não encontrou mais nada de relevante.
Leu algures que ele trabalhou num "Ambrus" há alguns anos atrás, algo que é bom, pelo menos Damian gosta bastante dessa cadeia de fast-food. Mas, tirando isso, não encontrou mais nada de relevante. Continua a andar para baixo, ansiando por aquela peça de informação que o vá ajudar. Sabe qual é, apenas espera encontrar no site o que tanto procura.
Rasteja para baixo. Rasteja, rasteja, rasteja, rasteja e rasteja. Vai sempre dando scroll, passando rapidamente os olhos pela palavra-chave que vá desencadear a descoberta. Ele continua e permanece a rastejar até os seus olhos, naquela busca incessante, pousarem numa palavra: "...habitação...".
Damian: "Cá está."
Ele para imediatamente, como se a sua vida dependesse da descoberta. Para naquela exata secção do site e lê bem, agora com cabeça, tronco e membros. Demora segundos para ler, assimilar e interiorizar toda aquela informação contida num parágrafo.
Damian lê que Danic Verty é um adulto de 37 anos que vive num apartamento. Quanto à morada, diz que é na "Bird Street, 292".
Lá está a peça de informação que precisava. Agora sim, com esta peça de informação, poderá fazer a entrevista amanhã. Basta ir ao local mencionado no site e...qual é que era mesmo o nome? Ah! Já me lembro! É...
Bird Street, 292.
Bird Street, 292.
Bird Street, 292.
Damian: "Bird Street, 292. Bird Street, 292. Bird Street, 292. Não me posso esquecer."
Murmura para si mesmo, em voz baixa. Já está a ficar tarde e quer chegar a horas de jantar. Não se pode atrasar, não no aniversário do seu filho.
Ele continua a murmurar a morada de Danic vezes e vezes sem conta. Então, quando sente que já memorizou tudo, levanta-se da cadeira e sai pela porta. Vai com a pistola no casaco e com localização da moradia de Danic na cabeça. Volta à receção e chega a notar que Dimo já voltou. Parece que gostou da pizza, tanto que a acabou rapidamente e ficou com a bochecha suja com molho de tomate.
Dimo: "Tenha uma boa noite."
Diz o senhor, enquanto Damian vai a andar em direção à saída, quase que ignorando Dimo e o seu sorriso irritante.
Damian: "Igualmente."
Então, de costas para o homem do balcão, ele abre a porta e sai rapidamente. Fá-lo por não aguentar Dimo e por ter coisas mais importantes para fazer. Por isso, não tem tempo para gastar com aquele personagem idiota. Pelo menos, hoje, esse não é o caso.
Assim que o cliente sai, Dimo fica mais tranquilo. Já valeu a pena ter encontrado aquele tipo. Só pelo jantar valeu a pena. Bem, por hoje, não deve ter mais nada para fazer. São só mais alguns minutos e o estabelecimento fecha. Já mais nada acontecerá. Acho que pode relaxar um pouco.
Dito isto, Dimo saca o flip-phone do seu bolso e vai ver se recebeu alguma mensagem. Nada do que esperava. Ninguém da sua família ou círculo de amigos lhe mandou mensagem. Apenas recebeu um SMS da rede de notícias local a falar sobre teorias. Mais especificamente, teorias sobre os recentes incidentes e sobre as supostas criaturas que os causaram.
Ele nem se dá ao trabalho de ler. Para ele, aquilo não passam de balelas. Notícias criadas só para encher espeço. Não, nem isso. São apenas teorias da conspiração. Nada de mais.
Dimo: "Estes maluquinhos podem ir enganar outro. Deixem-se com essa porcaria das criaturas. Todas as pessoas sabem que isso não passam de teorias."
Como tal, ele apaga a mensagem. Sem mais nem menos. O que aquelas notícias são não passam de lixo e isso é algo que nunca mudará.
Dimo: "São apenas teorias."
Iza: "E foi isso o que aconteceu."
Ner: "Sim, praticamente."
A dupla já está num lugar seguro. Estão num beco escuro, um onde costumam fazer roubos e espancar inocentes. São atos de que Iza não se orgulha nem um pouco, mas com que terá de viver para sempre.
O importante é que eles estão em território deles. Num beco sujo e escuro, rodeados por uma dúzia de homens a quem contam o que se passou, alguns dos quais podem até reconhecer. Tentam, no entanto, dar-lhes uma versão diferente dos eventos. Uma versão em que eles ficam mais bem vistos, por assim dizer.
Homem: "Então vocês apenas recuaram para não arranjar problemas."
Iza: "Exato. Senão, tê-los-íamos derrotado facilmente. Não é, Ner?"
Ner: "S-Sim, c-claramente."
Fala, quase por obrigação e tentando manter a postura de durão e a mentira em pé. Mesmo assim, alguns poucos não pareciam convencidos e, mesmo os convencidos já se mostravam relativamente irritados, mas faziam de tudo para fazer dessa raiva uma mera cara feia. Admito, algo de estranho se passava.
Iza: "Acho que deixei bem claro o que aconteceu."
Jamis: "É verdade, mas porque é que nos deu esta informação?"
Iza: "Porque mais tarde ou mais cedo teria de acontecer. Mas também porque quero que passem a palavras a todos os membros da nossa gangue que encontrarem. Ouviram? Quero que vão ter com eles, mesmo que estejam no meio de um assalto ou assassinato e lhes digam o que aconteceu no casino."
Outro homem: "Entendido."
Homem com uma faca: "Pode deixar conosco."
Iza: "Muito bem, de que é que estão à espera? Vão, vão, temos muito dinheiro para angariar! E, se encontrarem o Hirq, digam-lhe para vir ter comigo. Gostava de lhe dizer algumas coisas."
Assim, erguendo a sua voz, e tendo dado as ordens, eles dispersam-se e desconstroem o círculo que tinham formado. Vão com a mesma tarefa em mente: ganhar dinheiro. É um pouco triste, mas a vida deles resumiu-se a arranjar dinheiro para ganhar dinheiro. Eles é que não se apercebem disso. Para além disso, vão também com uma missão secundária: encontrar o Hirq, líder de uma gangue afiliada que trabalha para o mesmo chefe. A pessoa em questão tem estado desaparecido e não se ouve nada dele há algum tempo. Quem sabe, talvez seja desta que o voltarão a ver. Mas, como disse, essa não é, nem por sombras, a maior prioridade deles.
Em segundos, Iza e Ner ficam sozinhos no beco. São apenas os dois, a escuridão, a sujeira e os ratos que circundam o caixote do lixo local. Com os subordinados de fora, podem falar mais seriamente e contar os factos.
Iza: "Conseguimos enganá-los."
Ner: "Só não entendi porque é que precisaste de o fazer. Não é vergonhoso evacuar do território inimigo, especialmente quando estás em desvantagem numérica."
Iza: "Eu sei. Apenas queria passar uma imagem melhor."
Dito isto, ele cala-se e vai até à parede mais próxima. Coloca o braço junto à parede e deita a cabeça nesse braço, como se fosse uma almofada. Está em pé, com o braço junto colado àquela parede suja e a olhar para baixo. Não se sente bem. Não vai desmaiar, no entanto. Sente-se mal por ter ouvido as palavras de Reyner.
Ner: "Ei. Agora que estamos sozinhos, Iza, gostava de falar contigo sobre algo que tem estado a contever aqui entre membros da gangue."
Diz, falando mais seriamente e parecendo ter um assunto de conversa mais sério do que o normal.
Iza: "Ok, podes só me dar um segundo."
Responde, parecendo não se encontrar bem. Disse isto porque, sim, não estava nas melhores condições para ter uma condição de tal importância, contudo, também porque queria se focar naquele novo problema e, mais do que tudo, para retomar o seu pensamento.
Agora, sobre o que é que estava a pensar? É claro, na reunião que teve com Reyner. Bem, ele apenas não gostou do que ouviu. Bem sabe ele que, contudo, é verdade. Tudo o que Reyner disse é verdade. Por muito que lhe custe admitir, por muito que lhe custe aceitar que aquele arrogante, idiota, provocador e manipulador disse a verdade, tem que ser sincero. Tudo o que Reyner disse, toda a santa palavra foi verdadeira.
Iza não quer matar Damian. Iza tem medo de matar o seu melhor de amigo de infância. A verdade é que tem adiado o momento em que tenha de matar essa pessoa que lhe é tão querida. E, na verdade, ele ainda não se mentalizou para esse facto. Lá no fundo, ainda o vê como um amigo.
Mesmo sabendo que ele está em dívida, mesmo sabendo que precisa de o punir de modo a manter a sua reputação, promessa feita com o seu pai e imagem no submundo do crime, ele não consegue. Tudo porque não se sente capaz de matar um amigo. Tudo porque não consegue superar o passado, da mesma forma que irá cumprir a promessa que fez com o seu pai.
Estes são os seus ideais e comprometeu-se a cumpri-los. As suas experiências, promessas e sentimentos fazem de si quem é e recusa-se a pô-los à parte. Nada o fará mudar de ideias, mas estes são tempos diferentes.
O mundo está maluco. As pessoas parecem desrespeitá-lo. Hoje em dia, as únicas coisas que parecem assustar o público, e mesmo assim apenas assustam as minórias, são as tais das criaturas. De resto, mais nada. É capaz de ser essa a razão de Reyner ter decidido este como o momento perfeito para atacar, para além do facto de ter sido a época em que conseguiu todos os preparativos.
Talvez onde Iza esteja a tentar chegar é que os tempos estão a mudar e ele também precisa da mudança. É a única maneira de se manter relevante e temido nas ruas. Necessita de fazer algo que intimide todos e qualquer um, um ato capaz de afugentar qualquer um com um mero vislumbre da sua silhueta e menção do seu nome. É esse o tipo de pessoa que quer ser, mas, para isso, necessita de fazer a escolha difícil, necessita de matar o seu melhor amigo: Damian Mindler.
Por isso, o que fará? Matará o seu melhor amigo para aumentar a sua reputação e continuar a cumprir a promessa que fez ao seu pai de se tornar um criminoso digno da família Ingram? Ou decidirá continuar a adiar esta tarefa e tornar-se-á para sempre conhecido como o criminoso que está há anos para punir quem lhe deve? Que tipo de ação tomará e que tipo de pessoa se tonará?
Esteve a adiar isto por demasiado tempo. Anos e anos se foram, tentando adiar o momento em que teria de fazer esta escolha. E parece que esse momento chegou. Normalmente, faria um aviso a Damian e fingiria que não o fez nas semanas seguintes. Contudo, desta vez, seguirá adiante, sem hesitar. Já se tinha decidido, relutantemente, quando fez o ultimato a Damian. Decidiu que amanhã tudo acabrá. Amanhã, ele invadirá a casa de Damian e acabará com tudo pessoalmente. Sim, exatamente.
Vai custar, não pode fingir que não. Mas será bem recompensado. Certo, só há um problema...é mais fácil falar do que fazer.
Raios. São nestes piores momentos que lhe surgem memórias. Memórias de instantes bem embaraçosos e idiotas da sua vida. Não é que agora se lembrou do dia rm que se gradou. Sim, esse mesmo dia. Lembra-se bem dos detalhes...
O sol já se estava a pôr, bem como no presente. Estavam montes de alunos no campo de futebol americano da escola. O mesmo campo que era apenas utilizado para torneios interescolas ganhava novo uso nestes dias especiais.
Montes de alunos estavam bem vestidos com os fatos e gravatas mais caros, no caso dos homens, e com os vestidos mais brilhantes e chamativos, no caso das mulheres. Todos se reunião num banquete, alunos e os seus pais, com mesas e cadeiras de plástico improvisadas e colocadas ali só para aquele dia en específico.
Eram nessas curcunstâncias que se encontravam os três amigos: Iza, Damian e Maria. O trio de idiotas. Estavam dispersos pelo local, cada um ocupado a fazer a sua coisa. Damian estava com Maria, a devorarem a mesa de petiscos. Não deixavam nada escapar, comiam tudo, desde pastéis de frango a fatias de queijo amanteigado. Mais parecia que eles não comiam há semanas. A sorte é que não trouxeram os seus pais, caso contrário, muito provavelmente já teriam levado um puxão de orelhas e dos bons.
Vários dos alunos e pais se surpreendiam com o apetite daqueles dois. Chegava a dar vergonha. É por isso que Iza decidiu se afastar deles. Era amigo deles, porém tem de admitir que, em certos momentos, estes lhe davam vergonha. Pelos vistos, este é um desses momentos em que Iza se arrepende de ser amigo deles. Na verdade, até se começa a perguntar: o que é que eu vi neles para começar uma amizade?
Bem, já é tarde demais. Não é como se conseguisse alterar o passado. Apenas se pode contentar com o que tem. Como tal, permanece onde está. Continua a beber o seu ponche num copo de plástico vermelho descartável e a observar aquele espetáculo que os alarves ao fundo estão a fazer na mesa de petiscos.
Fica muito bem, afastado da multidão e dos outros, encostado àquela gigante trave onde são marcados os pontos num jogo de futebol americano. Leva mais um pouco do ponche à boca enquanto observa o meio em que se encontra. Nota que, ao fundo, está também o seu pai. Iza convidou-o para vir e, felizmente ele disse que podia, algo que o surpreendeu, pois este diz sempre estar ocupado com os negócios de família. Nunca lhe contou que tipo de negócios eram, apenas sabia que devia ser um trabalho cansativo, tanto fisicamente e mentalmente para o seu pai, sempre que chegasse a casa, querer tomar banho e ir deitar-se.
De qualquer forma, Gareth Ingram, o seu pai, não parecia vir a inquietá-lo. Já passavam das 20 horas e o seu pai prometeu que iriam embora às 21 horas, por isso, não é como se tivesse muito tempo para o fazer. Gareth Ingram parecia demasiado entretido a olhar para o telemóvel, sem falar com ninguém, incluindo o seu filho. Realmente, tal pai tal filho.
O clima corria como de costume. Música alta a tocar na coluna, muita comida, bebida e gritaria. Sim, aquilo era uma celebração, acima de tudo. Importante não esquecer isso. Pode até vós parecer idiota ter que vos relembrar isso, mas o que aconteceu a seguir certamente fez Iza se esquecer do ambiente em que se encontrava.
Estava a olhar para o seu pai e, por coincidência, esse foi o preciso momento em que viu algo de interessante. Um homem de terno preto e óculos de sol escuros como a noite que se aproximava anda em direção do seu pai. Esse homem veste-se quase identicamente a Gareth, contrastando com Iza que apenas veste uma camisa branca de manga comprida, mas isso não importante. O que é importante é que aquele homem, aquela pessoa parecia querer algo do seu pai.
Finalmente algo de interessante parecia vir a acontecer naquela festa. À medida que o homem dava cada passo, Iza espaculava coisas cada vez mais mirabulantes. É que nunca viu aquela pessoa na vida e, ainda assim, sentia uma estranha intimacia entre o seu pai e aquela figura masculina, por muito que eles ainda nem tenham falado.
Mas todas as suas questões são respondidas quando o homem para à frente do seu pai. E então, com a maior facilidade, o homem diz algo. E é algo que, em resposta, o seu pai fala, tranquilamente. E o homem responde de volta, sem sequer mudar a sua expressão facila. E...pois, já está bastante evidente. Os dois conhecem-se, Iza é que não sabia disso.
Ok, mas, tendo em conta que se conhecem, como é que se conheceram? Qual é o tipo de relação que têm? Aquilo era tudo estranho para ele e ainda não tinha sido processado. Mais tarde, no mesmo dia, viria a ter uma explicação, porém, até aí, teria que esperar mais um pouco.
Damian: "Iza! Para onde estás a olhar?"
Sem que os seus pensamentos possam avançar, o seu raciocínio é cortado pela chegada do seu amigo. Damian vem com a boca suja de migalhas e com um prato de gelatina na mão. Isso é que confundiu Iza, afinal, saiu da mesa dos petiscos apenas para continuar a comer. Enfim...
Iza: "Damian. Vi que estavas a fazer o estrago na mesa dos petiscos."
Damian: "Eu e a Maria. E nem venhas com as tuas, pois, se tivesses visto o que eles lá tinham, também irias à loucura."
Iza: "Fala por ti, eu fico-me pelo ponche."
Damian: "Tens a certeza? Olha que tenho aqui um prato com gelatina."
Responde-lhe, com uma proposta quase que irrecusável. Ele até lhe balança o prato à frente da cara, como que para o tentar. Porém, naquele dia, Iza estava é cheio e saberia que, ao chegar a casa, teria um banquete à sua espera. Em outras palavras, decidiu poupar-se para algo melhor, por muito que aquela proposta fosse tentadora.
Iza: "Agradeço a proposta, mas podes tu ficar com os diabetes."
Diz, num tom irónico.
Damian: "Lá estás tu com as tuas provocações. Estás apenas a pedir para levar com um soco na cara."
Iza: "Calma! Mereço assim tanto."
Damian: "Pensando bem, não. Mas talvez venhas a merecer, sacana."
Com estes insultos idiotas e cumprimento bastante único, as introduções foram feitas. Por ora, Ixa deixa de lado as perguntas que tem na cabeça relativamente ao seu pai e àquele homem e deixa-se levar pela conversa. Afinal, aquele é muito provavelmente o último momento que verá os seus amigos. Depois disto, cada um irá no seu caminho e nunca mais se verão. Chega a ser triste pensar nisto, mas é a realidade.
Damian: "Fica já a saber que mais gelatina fica para mim. E olha que este prato será muito valorizado no futuro, ele não ficará por 1986. Ouve bem o que te digo."
Fala, continuando a conversa. Porém, foi continuada de uma forma muito pouco natural, tocando num tema que, supostamente, já tinha sido concluído. Esse conportamento do seu amigo alertou Iza para algo que possivelmente pudesse vir. Sem gastar mais tempo, decide logo responder às suas perguntas:
Iza: "Sim, sim. Olha, o que é queres?"
Diz, num tom mais sério e passando o pano ao assunto que foi trazido à tona. Foi algo bastante inesperado, mas que não se podia dizer que era incomum. Tanto que o próprio Damian arregalou os olhos com a supresa e, de seguida, voltou ao normal, pondo um sorriso na cara. Aquilo era sinal de que tinha acertado em cheio. E caso ainda não tenha ficado claro...
Damian: "Não sou nada bom a esconder as minhas intenções, pois não?"
Iza: "Aí está algo que nunca mudará, por muito que tentes."
Comenta, em tom de crítica e numa calmaria quase sobrenatural. Ainda assim, Damian ficou com a ideia de que a sua dúvida não tinha sido completamente esclarecida. Julgou a resposta um pouco vaga demais. Talvez fosse necessária uma explicação adicional. Por isso, deixa um pouco o assunto a que veio de lado e tenta saber mais um pouco sobre os seus defeitos.
Damian: "Mas agora a sério, fui assim tão óbvio?"
Pergunta com legítima curiosidade em aprender os seus erros para no futuro melhorar. Iza percebe que a pergunta pode ter voltado a surgir como consequência da sua falata de clareza. É melhor deixar tudo bem claro desta vez para que não hajam mais dúvidas. Dirá tudinho o que oensa, sem deixar uma palavra de fora.
Iza: "Para ser sincero, não comeces a falar sobre o mesmo assunto que foi terminado há segundos. Dá a entender que só o voltaste a trazer à conversa para fazer ponte com o teu próximo assunto que era-"
Damian: "Ok, já deu para entender que não sou nada bom nisto."
Interrompe-o, já ficando com vergonha de ouvir as suas falhas. A vergonha era tanta que não conseguia ouvir mais nada e decidiua cabar logo com aquela dolorosa e tediosa espécie de enumeração dos seus defeitos. Interromper o seu amigo foi a forma mais eficiente e simples de que se lembrou para parar o discurso do seu amigo que, neste ponto, parecia ter origem num ódio interno. Contudo, a próxima frase deste, que conecta com a última de Damian, veio a clarificar esse aspeto da sua personalidade:
Iza: "E desde quando é que és bom em alguma coisa?"
Este comentário é suposto chocar o jovem, porém, já ouviu isto tanto que quase se encontra anestesiado a este tipo de insultos. O pior é que ele nem varia nos insultos. Vão sempre dar ao mesmo lado. Ou são sobre como ele é smepre medíocre em tudo o que faz ou como não tem coordenação motora.
Tudo isso já o irrita. Sabe que este é o último dia e, por isso, finalmente lhe dirá o que sente. Afinal, tem guardado algumas opiniões há anos. Este Iza, por muito que seja seu amigo, há certos momentos que o tiram mesmo do sério e dão a crer que ele é mais um inimigo. É que estes insultos surgem espontaneamente, sem razão, dando a entender que é algo mesmo da sua personalidade, mas que, ainda assim, tem irritado Damian.
Damian: "Lá estás tu com a tua arrogância. Mas tudo bem, se é esse o jogo que queres jogar, lembra-te que sempre tive melhor nota que tu a português."
Iza: "Tecnicamente não, pois tu deves saber melhor do que ninguém que eu nunca estudei para isso."
Damian: "Claro, mas para educação física, o teste mais inútil, já estudavas."
Iza: "Então?! Fazia-o para subir a nota, como um humano normal!"
Damian: "Ainda dizes que é normal?! Só estudares para isso, em primeiro lugar, já te torna anormal."
Iza: "É sim, continua com essas mentiras."
Damian: "Bem sabes que digo a verdade."
Iza: "Como queiras, apenas não me venhas chatear."
Damian: "Ui! Mas é claro, sua majestade."
Assim, dá-se o fim de mais uma discussão idiota. Neste ponto já é habitual ver os dois a discutir. Uma pessoa que não os conhecesse bem até diriam que se odeiam, porém, como disse, é uma amizade bastante peculiar e esta é a sua forma de mostrar afeto um pelo outro.
Com toda esta raiva e sentimentos à flor da pele, Damian até se esqueceu ao que veio. Iza é bastante diferente. Sempre focado e raramente se esquece de algo. Mesmo nas aulas mais secantes tinha sempre em mente a matéria e o que lá fazia. Nestas situações em que a pessoa se perde, essas capacidades dão jeito.
Iza: "Visto que a nossa discussãozinha já acabou, importas-te de dizer o que é queres?"
Faz-lhe a pergunta, agora que já se passaram alguns segundos, tempo que ele julgou suficiente para acalmar os ânimos de qualquer.
Damian: "Eu?"
Pergunta, já esquecido do que queria. A verdade é que acabou por se focar tanto no joguinho de insultos que deixou a conversa séria de parte. Típico Damian e as suas brincadeiras. Chega a envolver-se tanto nelas que só não se esquece de quem é porque não calha. Sinceramente, até o seu amigo não consegue impedir-se e gira a cabeça de um lado para o outro em decepção.
Iza: "Não acredito de que já te esqueceste do que vieste aqui fazer. Mal fez um minuto que saiste da mesa dos petiscos. És mesmo assim tão burro?!"
Diz, irritado e recorrendo aos insultos, outra vez.
Damian: "Olha que por um segundo até pensei que já tínhamos passado a parte dos insultos. Nem precisas de levantar a voz para mostrares o teu ponto, já deu para entender."
Iza: "Ok, se esse é o caso diz o que queres."
Responde-lhe, ao mesmo tempo que acalma os ânimos.
Damian: "Certo. Apenas preciso de te perguntar uma coisa."
Iza: "Qual é?"
Damian: "Queres ouvir a versão resumida ou longa?"
O jovem Iza estranha esta pergunta. Ao mesmo tempo, percebe que o assunto da conversa talvez seja mais sério e complexo do que esperava, caso contrário, não haveria necessidade de fazer esta pergunta antes de começar. Mas também pode estar a exagerar. Não terá a certeza até saber qual é que é o assunto desta conversa, o que o leva a escolher...
Iza: "Pode ser a versão resumida."
Damian: "Muito bem, tu é que pediste."
Imediatamente, o rapaz cala-se. É como se estivesse a criar suspense e a criar um intervalo. Está a arranjar coragem e ar para dizer o que tem na sua cabeça. Sabe que é algo sério, o seu coração até acelerou os batimentos, por isso, tem que deixar as brincadeiras à parte, algo que este intervalo de tempo que levou até ao anúncio deixou bem claro.
Agora o clima ficou sério, de um segundo para o outro. Mesmo as expressões faciais dos dois amigos deixaram de ter sorrisos de um canto ao outro e passaram a estar neutros. Algo vinha por aí e Iza não sabia o que era, mas Damian estava bem ciente da bomba nuclear que estava prestes a largar. Então, com coração a mil, com medo da possível reação do seu amigo, ele abre a boca e diz-lhe:
Damian: "Eu estou apaixonado pela Maria."
É isto? Digo isto como se não fosse grande surpresa. Deixem-me reformular e dizer-vos como Iza reagiu:
Iza: "O QUE?!"
Grita, surpreendido, mal o seu cérebro processa bem o que ouviu.
Damian: "Tem calma!"
Iza: "CALMA?! Largas uma surpresa assim sem mais nem menos e pedes-me para ter calma?!"
Diz, falando num tom de voz elevado, a uma velocidade estúpida e claramente estupefacto.
Damian: "Em minha defesa, tu é que pediste a versão curta."
Iza: "É verdade, mas podias ao menos ter dado algum contexto antes de me dares um ataque de coração destes!"
Damian: "Ok, ok, já entendi. Mas podes acalmar-te? Acho que temos todos a olhar para nós."
Agora que fala nisso, Iza sempre julgou falar num tom de voz moderado. Nem tinha noção do escândalo e gritaria que estava a fazer na festa. Foi com este pedido do seu amigo que teve a ideia de ver a situação.
Por isso, ele olha em volta e vê que talvez tenha agido mal. Quer dizer, deveriam estar pelo menos umas dezenas de pessoas a olhar para eles, com um olhar de estranheza. Não surpreende, para alguém do exterior, deveriam ser apenas dois maluquinhos a falar.
Iza: "Aham. Desculpa, mas não consegui evitar."
Pede perdão, enquanto se recompõe com um claro sentimento de vergonha na cara.
Damian: "Também reagiste mal e nem me deixaste explicar."
Iza: "Sim, mas tu também não me podes deixar assim no vácuo com uma revelação destas. Quase que me deste um ataque cardíaco."
Argumenta, desculpando o seu deslize com a falta de sensatez do seu amigo, embora, lá no fundo, ele saiba que está errado.
Damian: "Ui, claro, claro. Já agora ias morrer por ficar sem resposta."
Diz, irritado.
Iza: "Mas podes ao menos chegar ao ponto e esclareceres as minhas dúvidas?!"
Damian: "Como se me deixasses escolha."
Iza: "Então do que é que estás à espera? Conta-me tudo!"
A discussão parece ter dado uma volta e chegado ao ponto. Ponto esse em que os outros participantes do festejo já tinham perdido interesse e deixou os dois a conversarem sem se preocuparem com o exterior. É como se o mundo, naquele momento, girasse à volta deles.
Tudo estava a indicar que aquele seria o momento para deixar as brincadeiras e falar sobre os sentimentos de Damian. Sim, falar sobre o que mais importa, com o coração e não com as piadas. Falar de amigo para amigo num conversa de coração para coração.
Iza: "Há quanto tempo é que guardas esses sentimentos?"
Pergunta-lhe, num tom sério, deixando discussões e parvoíces à parte.
Damian: "Nem eu sei, para ser sincero. Mas foi há algum tempo atrás e consegui mantê-lo guardado desde então."
Iza: "Ela tem alguma ideia do que tu sentes?"
Damian: "Ninguém sabe, tu és o único."
Iza: "E porquê eu? Ou melhor, porquê agora?"
Damian: "Porque estive a adiar este momento há anos. Cada dia tentava mentalizar-me de que iria arranjar coragem e finalmente dizer-lhe o que vem no meu coração há tanto tempo, mas, no fim, não passavam de mentiras que dizia a mim próprio. E assim foi, por todos estes anos. Nem sei se foi por medo que deixei que as coisas chegassem a este ponto. Aposto que foi por falta de coragem. Tive que chegar ao nosso último dia junto como amigos, tive que deixar chegar o nosso dia de graduação só para me aperceber que já estava na hora de deixar de ser coninhas. Por isso é que demorei tanto tempo a adiar este dia. Até porque sim, toda a minha vida fui um medricas. Custa-me dizer, mas é a verdade. Nunca fui um homem forte e capaz de tudo sem hesitar. Sou humano e um bem fraco. Essa é a realidade pura e crua que me demorou pouco para perceber. Contudo, decidi que não iria deixar a minha natureza prejudicar o meu futuro e escolhi fazer o melhor para mudar para melhor. Essa decisão leva-me onde estou, o dia decisivo em que verei se realmente estou pronto. Agora, o que me resta é esperar que tudo dê certo e que os meus impulsos não vençam, pelo menos não hoje, que tanto preciso que tudo corra bem."
Foi tudo revelado, desde os detalhes mais insignificantes aos mais íntimos. Acima de tudo, foi sincero e revelou que não é um homem forte, mas sim um medricas. Ou, pelo menos, foi um medricas quase toda a sua vida, sempre a adiar o dia em que iria se confessar a Maria. Acredita que hoje é o dia. Se não for hoje, é nunca. Foi graças a esta perceção das condições em que se encontravam que o permitiram concluir que teria que, nem que fosse por um dia, ser a pessoa que smepre quis ser. Teria que ser hoje que se tornaria um homem.
Sendo sincero, Iza não se consegue relacionar com as dificuldades pelas quais o seu amigo passa. Ainda assim, sente que seria um desrespeito menosprezar ou ignorar as dificuldades passadas por outro ser humano. Como tal, em vez de optar por uma piada de mau gostou ou por um comentário picante, simplesmente lhe disse:
Iza: "Sabes, o que mais importa é o facto de teres conseguido superar essas dificuldades. A vida é um mar de problemas, isso é inegável, mas o que mais importa é teres as capacidades para os superar e melhorar-te a ti próprio. Só de teres arranjado coragem, por muito tempo que tenha demorado, é de se valorizar. Isso é de respeito."
Mais do que a revelação, a maior surpresa da conversa parece ter ocorrido naquele momento. Não esperava que Iza agisse de foram tâo madura e adulta, quanto mais que o motivasse e o trouxesse mais para cima. Pois até agora, por muito que se conhecessem bem, nem um nem outro jamais imaginava os problemas mais íntimos pelos quais os outros passavam. E, por muito que os problemas internos de Iza não tenham sido revelados, ficou-se a saber mais sobre ele, ficou-se a saber que ele, por muito que tem os seus momentos de idiota, ainda consegue ser sério quando chega o momento.
Isso é algo que nem Damian esperava. Mas foi uma surpresa bastante positiva. Já tinha a noção de que lhe podia confiar qualquer coisa. Apenas não tinha a certeza se a reação dele seria positiva e isso era algo que o preocupava. Porém, aqui se encontrava. O seu amigo acabou de o provar errado. E nunca ficou tão feliz por tal. Antes que se apercebesse, tinha esboçado um largo sorriso no seu rosto. Um sorriso ternurento e que demonstra amor e carinho pelo outro. Então, com a felicidade no auge e a confiança lentamente a aumentar, ele fala:
Damian: "Vejo que fiz uma boa decisão em confiar este segredo ao meu amigo."
Ele fala suavemente e contendo alguma risada de felicidade. Pega o seu amigo desprevenido. Iza apenas disse o que disse sem intenções de receber elogios e, ainda assim, os recebe. O que aconteceu é que ele não conseguiu prever os efeitos que as suas palavras teriam e isso foi o que o levou ao espanto e à surpresa.
Damian, por sua vez, está quase a rir-se com um sorriso que chega de uma ponta do rosto à outra. Até porque, para ele, a grande surpresa foi perceber o quão bem fez em confiar estes seus sentimentos ao seu amigo. Isso foi o suficiente para ter a certeza que fez a decisão certa em escolher confessar-se hoje. Agora, está mais seguro quanto ao que fazer e mais confiante nos seus amigo e especialmente em si próprio. Mas já chega de falar, está mais do que na hora de agir.
Damian: "Obrigado, Iza. Sempre soube que poderia contar contigo."
Agradece-lhe, com aquele largo sorriso no rosto.
Iza: "C-Caramba."
Exclama, com ar de desabafo.
Damian: "Que foi? Disse algo de mal?"
Iza: "N-Não, é só que..."
Damian: "Diz!"
Iza: "Não sabia que conseguias ser tão lamechas."
Lá está. De volta ao normal. Por muito que as coisas pareçam ficar sérias por pouco tempo, inevitavelmente regressam ao estado básico. Exatamente como um ciclo que se repete infinitamente, cada interação entre os dois parece passar por estas fases. Que mais dizer? Existem coisas que pareçam nunca mudar.
Damian: "Tu e os teus insultos. Sabes que mais? Retiro tudo o que disse sobre ti."
Diz, de volta a um tom mais brincalhão e gozão com o seu amigo.
Iza: "E eu já estou farto de te ouvir a falar sobre as tuas complicações. "
Damian: "Tens a certeza? Parecias não te importar há bocado. Mas, de qualquer forma, bom saber que esse sentimento é recíproco."
Como disse, o ciclo repete-se. Agora voltou-se ao estágio um do início da conversa. Porém, isto tanbém marca o seu fim. E como se os sinais não se estivessem a mostrar, o que aconteceu a seguir certamente indicou tal.
A rapariga na mesa dos petiscos parece começar a mover-se. Já parece estar cheia e decide ir ter com os seus amigos. Vai de barriga cheia e peito erguido, contrastando com a multidão que a olha com um ar de repugnância. Mas ela não. Segue sem um pingo de vergonha pelo que daz e simplesmente segue em frente, sem se aperceber que tem a sua boca suja com migalhas de bolo de cenoura.
Essa rapariga é Maria. Ela estava com um vestido brnaco que lhe chegava quase até aos pés. Vinha de saltos altos que, naquele campo de terra, tinham o seu som absorvido pela superfície orgânica. Essa rapariga vinha na direção dos dois. Por falar neles, acabaram a sua conversa, mal se aperceberam que Maria vinha na direção deles. Fizeram-no para ela não saber o assunto da conversa e, consequentemente, o segredo, mas mais porque não queriam que ela ouvisse aqueles insultos estúpidos que inventavam.
Damian: "Nem uma palavra sobre o que disse."
Iza: "Não é preciso avisares, eu não sou assim tão estúpido."
Dizem um ao outro, só para, caso dê errado, não seja culpa do outro. Esse é um argumento que já não podem usar como desculpa para o fracasso. Se der para o torto, será culpa deles.
Iza: "Agora, age naturalmente. Ela está a chegar."
Tal como Iza disse. Um, dois, três segundos e a rapariga, ainda em movimento chama pelos seus nomes:
Maria: "Damian! Iza!"
Os dois tantam pôr as suas faces mais neutras possíveis. Iza até que consegue regressar à sua cara do habitual, já Damian tem um pouco mais de dificuldade e não fica tão convincente. Que seja, agora não há tempo para mais, pois Maria acabou de os alcançar.
Damian: "Deixa comigo."
Diz ele, num tom de voz baixo, tantando manter uma cara normal, com as mais variadas tantativas e taxas de sucesso.
Damian: "Foi como eu te disse, é hoje ou nunca."
Não deu tempo para mais nem menos. Menos de um segundo depois da frase, ela chega. A tempestade em pessoa e a causadora de tanto burburinho. Finalmente chegou perto deles, com um sorriso no seu rosto sujo com o bolo de cenoura que tinha acabado de comer. Contudo, por muito esquisito que pareça, a rapariga ainda parecia ter fome. Sim, eu não disse nenhum erro, ela ainda tem fome. E se não acreditam, vejam bem o que ela disse imediatamente após parar ao lado dos seus colegas:
Maria: "Isso é gelatina?!"
Pergunta de súbito, espantada, a apontar para o prato de gelatina que lentamente volta à sua forma líquida.
Damian: "Gelatina? Gelatina. O que é que-Oh!"
Já nem se lembrava que tinha trazido gelatina. Na verdade, porque é que a triuxe, em primeiro lugar? Talvez porque queria algo mais para petiscar mais tarde, mas, cim estas conversas e confissões, acabou por ficar sem apetite. Sempre teve mais olhos do que barriga.
Maria: "Nem acredito que tens. Na mesa já acabaram."
Damian: "Para ser sincero, não tenho muito apetite. Aquela tarte de carne lixou-me mesmo bem."
Maria: "Mas sabes como é que eu sou: guardo sempre espaço para sobremesa."
Sendo sincero, nem Iza e Damian compreendiam como é que ela comia tanto e ainda assim permanecia com aquele apetite. Por isso é que fizeram uma cara estranha sem notar. Aquilo deveria ser uma dos maiores mistérios da natureza. Se ao menos os cientistas soubessem da existência de tamanho espécime, certamente a levariam para estudar. De qualquer forma, está conversa já está a andar um pouco às voltas e todos pareciam saber onde iria parar.
Damian: "Tu queres a gelatina, não é?"
Em resposta, Maria nem abre a boca. Limita-se a acenar com olhos de cão com vergonha de admitir a sua previsibilidade. Contra uma figura destas é impossível lhes negar qualquer coisa.
Damian: "Não me deixas opção."
Sem hesitar, ele estende a mão com o prato de plástico para a frente e, num gesto rápido e suave, Maria tira-lho e torna o prato sua propriedade de um instante para o outro. Perante esta técnica de roubo maestral, Damian não consegue reagir. Apenas conseguiu ouvi-la a dizer...
Maria: "Obrigado."
Se bem que foi mais ela que roubo do que ele próprio a oferecê-lo, mas tudo bem. Nada a pode parar, especialmente agora que começou a devorar a gelatina com o pequeno garfo que já se encontrava espetado na comida.
A chegada de Maria marcou o momento em que Damian teria de fazer da sua. Iza olha para o seu amigo, aproveitando que a terceira pessoa estava ocupada a lambusar-se com a gelatina quase líquida. Mais do que olhar para Damian ele fala com o seu amigo sem dizer uma palavra. Basta um olhar para dizer tudo e, neste caso, ele avisava-o que, se não se impusesse agora, seria nunca.
Para responder, Damian acena-lhe com a cabeça e logo dirige o olhar para a frente. Curiosamente, naqueles pequenos segundos da troca sem palavras, Maria já tinha comido toda a gelatina. Não me perguntem como, pois estou tão confuso quanto vocês.
Maria: "Que bom. Obrigado, Damian. Estava mesmo a apetecer-me um."
Diz, estendo o braço para a frente com o prato, como que pedindo ao seu amigo para o pegar.
Damian: "S-Sim, de nada, acho eu."
Responde, estupefacto, pegando no prato de plástico.
Iza: "Maria. Bom ver-te."
Intervém num tentativa de dinamizar um pouco a conversa e de fazer ponte para a confissão de Damian que, se tudo corresse bem, viria em alguns segundos.
Maria: "Também é bom ver-vos, rapazes."
Iza: "Espero que estejas mesmo a aproveitar o momento, pois, a partir de hoje, deixarás de nos ver."
Maria: "Ena, que mauzinho. Pode até ser o dia da nossa graduação, mas vamos continuar a ver-nos. Isso e vamos continuar a encontrarmo-nos e a marcar saídas. Não entendo o porquê desse drama todo."
Iza: "Sabes como é o típico Iza. Não me podes censurar por ser eu próprio."
Maria: "Ao menos podias tentar ser um pouco mais positivo e interessado no presente do que limitares-te a fazer esses comentários deprimentes e de dupla intenção."
Iza: "Eu disse que não me podias censurar por ser eu próprio. Mas olha que tem sido difícil evitar criticar esses teus hábitos e especialmente evitar notar no tanto de migalhas que tens na tua boca."
Mesmo com as recomendações, o homem permanece o mesmo. Isso e ainda aproveita para fazer uma crítica que já tinha estado a guardar. Damian aproveitava o tempo para pensar em algo e para arranjar coragem.
Quando a frase acaba, Damian sente-se um pouco mais preparado e até Maria tem que colocar a mão no rosto. Nem ela tinha se apercebido de que teria a boca suja, mesmo que faça sentido. Apenas nunca tinha pensado nisso.
Maria: "Espera um pouco..."
Ela leva a mão à cara, tira e olha para os seus dedos sujos e com migalhas de bolo de cenoura, exatamente como Iza a avisou. Quase que dava um grito, mas conteve-se e, com muito esforço, apenas disse:
Maria: "Que chatice..."
Não se chateia. Fica um pouco triste (se é que se pode chamar de tristeza o que ela exprimiu) e esfrega bem a mão na bochecha, tendo especial cuidado de não pegar as migalhas com as mangas do seu vestido.
Pela primeira vez na vida agiu como uma adulta. Iza e Damian surpreenderam-se, já que esperavam algo mais escandaloso, contudo, o mundo veio mostrar-lhes que os tempos mudaram e hoje marca a partida deles para o mundo dos mais velhos.
Iza: "Bem, adorava ouvir sobre as tuas aventuras pela mesa dos petiscos, mas acho que ficaria com fome. Não, na verdade, vou encher a minha barriga e depois volto para me contares as tuas histórias mirabulantes sem clrrer o risco de ficar com fome."
Falou precisamente o que era necessário. Arranjou uma deixa para sair de cena e deixar Damian brilhar. Sim, até porque o seu amigo já teve mais do que tempo suficiente para se preparar. Damian pode agora parecer hesitante e nervoso, mas ele tem de saber que isto é para o seu bem. Por isso, um pouco contra a vontade de Damian, Iza sai de cena, confortando os dois, antes de sair completamente.
Iza: "Não se preocupem. Eu não demoro."
Assim, ele parte em direção à mesa dos petiscos, deixando os dois ali sozinhos. Como disse, ele fá-lo pelo bem do seu amigo, é preciso compreender isso. Tudo o que faz, é por carinho aos outros.
Damian e Maria. Um com um prato de plástico na mão e a outra de mãos vazias. Mal Iza saiu ficou logo um clima pesado. Parecia até que alguém tinha morrido, pois era difícil um dos dois se forçar a deixar sair uma palavra que fosse. Simplesmente não dava. O clima era tão forte ao ponto de chegar a controlar as ações de quem está presente.
A rapariga não falava por não ter assunto de conversa, embora sentisse que ele tivesse algo de importante a dizer, e o rapaz por ter medo. Sim, tudo porque tinha medo. Medo. Medo. Medo? Pensava que ele já tinha superado isso. Talvez seja uma daquelas situações em que é mais fácil falar do que fazer. Ainda assim, isso não é desculpa.
Já é tarde demais para desistir agora que chegou tão longe. Quer dizer, ele chegou a um ponto em que até o seu amigo já o está a ajudar. Não será sábio desistir agora. Não será sábio desperdiçar os esforços do seu amigo. Não será sábio deixar este momento passar.
Está motivado para seguir em frente e pronto para se tornar um homem. Tudo o que precisou foi o apoio de um amigo. Agora, só precisa de dizer algo. Algo que desencadeie uma corrente de eventos que leve até ao inevitável "eu gosto de ti". Como disse, é mais fácil falar do que fazer. Porém, é preciso ter em mente que o esforço será bem recompensado no futuro.
Sim, apenas isso. Basta abrir a boca e ter iniciativa. Isso e nada mais. Por isso, de que está à espera? Abre a boca e, sem medo...
Damian: "É estranho pensar que nunca mais nos veremos, não é?"
Maria ergue a cabeça e encara Damian. Finalmente ele disse algo, isso já esperava. Apenas não esperava que ele fosse dizer algo tão sentimental e fosse para um lugar tão sério. Mas talvez não seja hora de julgar e ela deva deixar se levar. Afinal, ela sente que este momento é diferente de todos. É um momento único, um dos últimos em que se verão e, como tal, tem que ser aproveitado. Ela acha que é este o momento em que Damian lhe irá contar algo pelo qual tem esperado. Só precisa de tolerar a conversa mais um pouco para descobrir se está certa.
Maria: "Tens razão, depois de tanto tempo juntos, termos de nos separar pode ser difícil. Ainda por cima, é uma mudança que acontece num estalar de dedos, de um dia para o outro."
Diz, tentando puxar a conversa, esperando que algo de grande venha para compensar tanto tempo de silêncio.
Damian: "Mas não será por isso que deixaremos de ser amigos. Continuaremos a encontrar-nos e a fazermos as nossas saídas. Os amigos que fazemos continuarão a acompanhar-nos onde quer que formos. Pelo menos, eu sinto isso. Espero é não estar a ser lamechas."
Maria: "Não, de todo."
Responde, pretendo puxá-lo mais para a conclusão. Não que esteja a achar este tema secante, mas está mesmo curiosa para ver o que ele tem a dizer e se é o que ela espera.
Damian: "Devo dizer que estes dias são melancólicos. Isso é inegável. Só que muitos nâo se apercebem que estes dias também trazem algumas coisas boas."
Lá está. Sente que Damian está a chegar ao ponto. Por falar nele, a pessoa em questão está super nervosa com o coração a mil, parecendo que vai pular da sua garganta para fora. Tem as palavras decididas e prontas, apenas necessita da sua deixa e isso depende de Maria.
Maria está bastante empolgada para ouvir o que ele tem a dizer. Os seus olhos regalam-se mais só de pensar que falta assim tão pouco. É que apenas precisa de fazer ponte para a revelação. Uma ou duas frases e terá o que quer e tanto tem esperado. O problema é acalmar-se para dizer algo de jeito. Contudo, ela deixa os entusiasmos e fala algo sensato para ouvir o quer:
Maria: "Nunca pensei que estes dias pudessem trazer algo de bom, mas agora que falas estou curiosa."
Fala numa voz mais séria, mas sem conter um sorriso. Damianaté estranha a cara de felicidade maliciosa, como se ela esperasse algo. No fim, ela já deve saber o que ele vai contar. Não que tivesse pensado nisso no momento, mas, se olhasse para trás agora e deixado os nervos de lado, teria visto que esse era o caso. Se bem que, de qualquer das formas, teria prosseguido como fez e teria concluído o seu processo de raciocínio:
Damian: "Estes dias lembram-nos que tudo é finito. Mesmo estes tempo que passamos juntos eventualmente iria chegar a um fim. Só de saber isso, fiquei com vontade de ver-vos mais vezes, de fazer mais convosco, de aproveitar mais o pouco tempo que tenho convosco. Agora, chegamos ao último dia e percebo que não estou satisfeito. Gostava de ter feito muitas coisas convosco e sinto que não te consegui dizer tudo o que queria."
Maria: "Talvez ainda venhas a tempo. Se estivesse aqui uma coluna de música bem que poderíamos aproveitar, ainda por cima eu que, admito, gosto bastante de música, talvez por herança dos meus pais. Mas nem tudo é tão fácil. Acho que temos de aproveitar o tempo ao máximo com o que temos, não é? "
Nesse instante, com esta intervenção, Damian passa a olhá-la nos olhos. A própria Maria surpreende-se, mas acostuma-se ao olhar quente e abrasivo de Damian. Nunca o viu assim. Tinha dito aquilo para lhe tirar as palavras da boca, pois já estava a morrer de curiosidade, mas parece que desta é de vez.
Damian está demasiado sério. É como se estivesse a contemplar se estaria pronto para dizer aquelas poucas e tão fortes palavras. Sabia o que tinha de fazer. Conseguiria? Se o mundo o ajudar, sim. De resto, cabe apenas a ele.
Sem notar, ele expira pesadamente pela boca. Ao mesmo tempo, os lábios de Maria afastam-se ligeiramente um do outro de tanta ansiedade. Ela enm parece real. Aquela figura bela parecia vir de outro mundo, uma espécie de vislumbre do além e trazido ao mundo humano por um milagre.
O que sente por ela ficou ainda mais evidente. O seu coração bate e bate sem parar só de a apreciar. Em poucos minutos, o seu batimento cardíaco atinge níveis comparados aos de um atleta em situação de esforço físico.
Foi nesse momento que se decidiu. É verdade, não dá para esconder. Ele está apaixonado por Maria. Loucamente apaixonado por ela. Apenas não quer admitir, pois todas as noites pensa vezes e vezes sem conta nela e como ela é alguém que precisa, pois, não só é bela, como, acima de tudo, com ela, sente-se completo. A Maria é a pessoa que mais admira pela sua forma descontraída de estar e tranquilidade para com os outros. Maria é o tipo de pessoa que ele sempre aspirou ser.
Caramba, tudo para chegar a este momento. Tudo se resume a estes segundos que virão. Por isso, de que está à espera? Já chega de se preparar e pensar no que fará. Quanto a isso já se decidiu há muito tempo. Neste ponto, só está a adiar o inevitável.
Ok. Inspira e expira mais uma vez pela boca. Fecha os olhos, olha para cima e volta a abri-los. Apenas precisava de olhar para a lua daquela noite. É mesmo bonita e grande. Tratava-se de uma lua cheia. Gora e redonda a brilhar no céu. Havia tanta estrela no céu, contudo, por alguma razão, o que mais captava a atenção de Damian era o astro menos brilhante: a lua. Vá-se lá saber porquê.
Mas aquilo parecia um ato um pouco estranho para fazer naquele instante. Maria é que não estava a compreender.
Maria: "Damian?"
Diz, perguntando-se o que o seu amigo está a fazer.
Damian: "Não te preocupes. Estou só a apreciar o quão bonita está a lua cheia desta noite. Acho que nunca me vou esquecer desta imagem, especialmente sabendo o que te vou contar."
Responde, serenamente antes de voltar a olhar para o rosto da rapariga, decidido. Então, com as palavras na ponta da língua, Damian supera os seus medos e diz. que sente:
Damian: "A verdade é que eu estou apaixonado por ti, Maria."
...
...
...
Foi isto o que se ouviu no momento. Puro silêncio. Ok, talvez silêncio seja exagerar, pois ainda se ouviam os grilos e a multidão ao fundo, mas, de resto, nada.
Damian ergueu o peito de orgulho e voltou a inspirar, desta vez mais normalmente. Sente-se orgulhoso por ter conseguido, ainda por cima tendo em conta que estava mesmo a ver que as palavras não iriam sair. Caramba. Nunca esteve tão feliz por estar errado. Não sabe quanto à rapariga, mas ele sente-se muito feliz.
Já Maria regalou os olhos e, sem se aperceber, abriu a boca. A surpresa foi tanta que se abstraiu da realidade e deixou o seu corpo tomar conta de si. Deixiu que a surpresa toma-se conta do seu corpo e levou a sua cabeça a lugares onde nunca pensaria levar. Ela levou a sua mente ao lugar mais esquisito de si: levou-a ao lugar de pura petrificação, onde, de momentos, pelo choque da revelação, ficará paralisada, pelo menos por alguns breves momentos. Contudo, porque é que está assim tão surpreendida?
Realmente, ela já estava à espera de algo do género. Isso não explica porque é que ainda assim está estupefacta e fora de si, com a mente sem funcionar. Porque é que ela se continua a enganar-se a si própria? Bem, agora que reflete um pouco, aproveitando que já passou a fase de choque e a sua mente pode finalmente voltar a funcionar, ela apenas esteve a fingir. Só que fingiu tão bem que chegou mesmo a acreditar na própria mentira de que não sabia o que esperar. Porém, já não deve ser necessário continuar a agir desta maneira. Sim, não parece má ideia aproveitar o momento para ela própria fazer uma revelação.
Maria: "Ainda bem que dizes isso."
A rapariga sorri como se tivesse uma má intenção. Aquele sorriso é capaz de dar calafrios até à espinha de qualquer um. Mesmo Damian não resistiu e ficou um pouco cético quanto à próxima ação da sua amiga. Naquele momento, a adrenalina toda de ter conseguido confessar os seus sentimentos desapareceu e foi substituída por um certo ceticismo. Mas as suas preocupações tiveram logo resposta com o que Maria disse no instante seguinte:
Maria: "É curioso porque eu sinto o mesmo."
...
...
...
Outra vez. Tanto silêncio. A história repete-se mais uma vez. A diferença é que, desta vez, é Damian quem fica estupefacto. Foi de cético a boquiaberto numa questão de segundos e acho que ninguém o pode culpar.
Acabou de lhe contar uma revelação e ela responde com uma revelação. Trocou na mesma moeda. Assim, ainda lhe dá um ataque do coração. Ultrapassou o stresse de superar os seus medos e, logo no instante seguinte, já levou com outro susto. Disso é que não esperava.
Por outro lado, Maria estava mais vermelha que uma rosa. Não tinha um pingo de maldade no seu rosto avermelhado, apenas um tímido sorriso de pureza. Era impossível não gostar dela ou não sentir-se impelido para a proteger e querer-lhe todo o bem do mundo. Isso apenas o faz gostar ainda mais dela.
Era uma combinação de vários fatores. O sorriso e rosto puro dela. A forma como consegue dizer tudo o que quer, sem parecer forçado. Para ela é tudo tão tranquilo. Pois é, agora lembra-se bem. Acima de tudo, o que mais o cativou em Maria, o motivo pelo qual se apaixonou por ela, foi a sua atitude descontraída e extrovertida de lidar com tudo e toda a gente, até porque, lá no fundo, são essas as características que Damian ansiava possuir. Ele, lá no fundo, desejava ser como Maria.
Maria: "T-Tudo bem, Damian?"
As palavras preocupadas de Maria obrigam-no a deixar o seu susto de parte. Nem tem tempo para se recuperar.
Maria: "Ó não. Não me digas que tiveste um ataque cardíaco?"
Responde, num tom brincalhão, vendo Damian sem resposta. Este, por sua vez, abre a boca para falar, motivado a responder àquelas acusaçôes estapafurdias de que ouvia, até porque, por muito que soubesse que ela não estava a falar a sério, queria fazer a melhor figura possível.
Damian: "N-Não, estás completamente enganada. Deste-me apenas um susto, nada mais."
Diz, num tom desesperador, menosprezando o susto que quase lhe parou o coração. Contudo, estas palavras não enganam ninguém, nem Maria que pode ser muitas coisas, mas, se há coisa que não é, é sonsa.
Maria: "Tu é que sabes."
Fala, não acreditando em nada do que Damian disse. Porém, finge acreditar, nem que seja para dar esperança que todas as palavras foram absorvidas e assimiladas.
Ainda assim, é natural que, com tanta revelação, venham algumas perguntas. Neste caso então, devem ser umas mil. E digo mil para cada um, pois acho que até Maria deve ter as suas perguntas que quer ver respondidas.
De momento, está é muito silêncio. Silêncio demias. A última vez que houve tanto silêncio foi quando Iza os deixou. Caramba, já de volta à estaca zero? Aconteceu rápido demais. Não, já chega disto. Após tantas revalações isto não pode ser permitido por ninguém.
O clima pode ter ficado constrangedor, graças à explicitação de sentimentos íntimos, mas, não será por isso, não será pelo silêncio que isto não irá para a frente. E, desta vez, será Maria a ter a iniciativa.
Maria: "Só gostava de saber uma coisa."
Diz, puxando-lhe conversa para responder a esta pergunta que anseia arranjar resposta.
Damian: "É sobre...bem...sobre o que sinto, não é?"
Responde-lhe, nervoso, só de fazer alusão ao momento que aconteceu há minutos. É mesmo difícil de falar sobre estes momentos constrangedores passado tão pouco tempo. Nem quer imaginar quando estiver mais velho.
Maria acena com a caebeça em resposta e as suas bochechas ficam ligeiramente vermelhas outra vez, não na mesma intensidade de há bocado, mas, ainda assim, vermelho. Damian engole em seco, com medo do que virá. As suas mãos até ficam a suar. Ele ama Maria, mas ela consegue pô-lo mesmo nervoso. Terá que mudar isso com o tempo. Quando se sente preparada, Maria abre a sua boca delicada e pergunta-lhe:
Maria: "Há quanto tempo é que tens esses sentimentos?"
Ai. Até dói no coração. Não podia ter escolhido pior. Pior no sentido de fazê-lo querer arrancar o coração. Isso nem é a maior preocupação. A parte mais difícil vem agora: como é que responderá?
Tem que dizer algo. Se há coisa que não pode fazer é deixar Maria sem resposta. Especialmente agora que chegou tão longe.
Ok, talvez respirar fundo o ajude. Sim, inspira e expira. Muito bem, não surgiu nada. E agora desperdiçou segundos. Segundos que estão a deixar Maria cada vez mais impaciente.
Certo, isso deixa-o com duas opções: ignorar ou ser sincero. Ignorar está fora de questão, pois, novamente, Maria já revelou que gosta dele e não pode deitar isso ao lixo, arriscando. Isso deixa-o com a opção de contar a verdade.
E agora que pensa claramente, percebe que isso não é tão descabido. Afinal, porque é que tem tanto medo? Sim, falará sobre algo pessoal, mas já disse os seus sentimentos em voz alta a duas pessoas em menos de 24 horas. Depois disso, não se deveria sentir constrangido para dizer a verdade. Não deveria e, depois desta reflexão, não irá.
Damian: "B-Bem, sendo sincero, sinto isto há mais tempo do que me orgulho. Se não me engano, tem perdurado desde os meus 10 anos. Agora temos 18, por isso, consegues imaginar o quanto tempo isto demorou."
Fala, puxando o máximo da memória e tentando pôr de parte os nervosismos. Se bem que estes ainda estão presentes no seu discurso. Haverão sempre uns resquícios até estar completamente a falar sobre este tipo de assuntos íntimos.
Mas agora que respondeu, com muita dificuldade, sente que o seu esforço e sacrifício devem ser recompensados. Ou então retribuídos. E, a melhor maneira de o fazer, seria ter uma das suas perguntas respondidas.
Espera não se estar a esticar. Espera também não estar a exagerar da paciência de Maria, pois esta é humana e deve ter um limite como a de qualquer um. Por isso, com um formigueiro de nervosismo na barriga, ele pergunta-lhe, conseguindo, de alguma maneira, estar um pouco mais calmo:
Damian: "E quanto a ti, Maria? Por acaso o sentimento também era comum?"
Ao ouvir a pergunta, que é a mesma que fez a Damian, Maria ficou logo com grande medo. Tinha apenas se antecipado a perguntar, esperando não ter de trazer o tema à tona mais uma vez que fosse. Bem, parece que não teve sorte.
Isso deixa-a sem muitas opções. Quer queira ou não, terá de lhe responder. Afinal, fez-lhe a pergunta sabendo sempre que haveria uma chance de ele lha perguntar de volta. O que ela faz ao responder não se trata de um sacrifício, mas sim a sua forma de arcar com as consequências.
Maria: "E-Eu também não posso dizer que sou muito melhor. Como tu, tenho guardado estes sentimentos. No meu caso, tenho-os guardado há quê? Por volta de 8, 7 anos? Acho que consegues entender o quão incerta estou."
Diz, começando a acostumar-se a estar perto de Damian e, especialmente, a acostumar-se de falar sobre as suas partes mais íntimas ao outro.
Damian: "Não te preocupes, acho que deu para entender muito bem."
Falou num tom brincalhão.
Maria: "Não estás a gozar comigo, pois não?"
Pergunta, mudando para um tom levemente mais sério. Perante uma pergunta do género Damian sente-se bastante intimidado. Algo que é curioso, uma vez que, nem o próprio conseguiria imaginar que Maria, aquela doce pessoa, lhe conseguisse causar uma sensação de medo. Teve mesmo que tenatr nevar tais acusações, com medo que a raiva dela surgisse.
Damian: "Calma, não disse nada do tipo. Foi apenas um comentário solto e nada mais."
Defende-se com argumentos improvisados no momento.
Maria: "Hunf."
Não parece muito convencida. Mas não é de muita importância. Desde que ela não solte a sua raiva demoníaca para cima dele, tudo está bem.
Contudo, depois deste breve momento de habituação mútua, adivinhem...voltaram ao silêncio. Sim, por muito que se amem, ainda não recuperaram da supresa. Muito menos, ainda não sabem como interagir.
Acima de tudo, eles têm medo. Medo de agirem mal e da relação retrocedor. Especialmente agora que a relação avançou tanto, não querem que ela volta ao estado em que se encontrava anteriormente.
Estes sentimentos. Este medo e amor que sentem no presentes. São ambos controladores e fortes condicionadores da ação humana. Chega a ser curioso como somos tão facilmente influenciáveis, no entanto, ao mesmo tempo, temos sempre aquela vontade de nos libertarmos.
Maria e Damian queriam ser livres. Queriam quebrar as correntes que os impedem de seguir em frente e tornarem-se, finalmente, livres. Esses são os passos que precisam de seguir.
Na realidade, basta fazer isso. Se querem progredir e se tornarem um casal, necessitarão de deixar de se controlar pelos sentimentos e tornarem-se indivíduos autónomos. Soa mais fácil do que realmente é. Talvez seja por isso que é tão difícil começar.
Porém, o que muitos se esquecem é que, mais do que tudo, é preciso tentar. Exatamente, tentar. É essa a possível chave para este grande problema. Muito bem, tentar. Tentar. Tentar. Só é preciso tentar. Não, em grande parte das vezes, o que precisamos, é de dar o nosso melhor para mudar o rumo de um destino que parecia já escrito.
Desta vez, quem terá iniciativa, será Damian. Ele só precisa de tentar. Ok, mas antes disso também ajudaria acalmar-se um pouco. Reunir algumas forças. Inspirar e expirar. Toda essa preparação para falar algumas frases de um libertador:
Damian: "Entãooo...o que é que pessoas que se adoram costumam fazer?"
Maria foi apanhada desprevenida. Aquele Damian...ele é realmente uma obra de arte e uma bela caixinha de surpresas. Ainda assim, ela não se consegue impedir de se sentir mais atraído na sua direção.
O seu coração pode muito bem estar a enganá-la, mas isso não explicaria porque é que ele bate tant nas proximidades de Damian. É que nem o melhor ator consegue mentir o dia todo. Não, certamente aqueles são sentimentos genuínos.
Como disse, os sentimentos controlam as nossas ações. No caso de Maria, eles compeliam-na a ficar mais perto dele. Não sabe o porquê, contudo isso não importa. Tentar justificá-los seria o mesmo que tentar justificar grande parte dos nossos instintos primitivos. Simplesmente ficaríamos aqui o dia inteiro à procura de razões.
O que realmente interessa é que, inexplicavelmente, quando o vê, tem vontade de se aproximar. Em casos como esses, vê-lo não basta, o corpo anseia por mais. A mente anseia por mais. Os sentimentos anseiam por mais. Os sentimentos anseiam por contacto e fazem-no, obrigando a atração para com o outro.
Atraída. Atração. Sem pensar muito, descobriu a resposta. É isso o que as pessoas, quando gostam uma da outra, fazem. Sem mais nem menos. O que define o casal é a sua vontade de ficar junto, independentemente das condições, quer na doença quer na felicidade. Essa é a razão que leva muitos a casarem-se, pois, se não tivessem uma atração tão forte, não valeria a pena fazer um juramento de importância tão grande.
Essa é a resposta.
Maria: "Segundo o meu conhecimento, quando duas pessoas gostam muito uma da outra, elas ficam juntas."
Responde ela, timidamente segurando na saia do vestido.
Damian: "Estou a ver. Afinal era essa a resposta que eu procurava: 'atração'."
E ele cala-se. Abriu a boca só para dizer isso e, de seguida, calou-se. Foi muito breve e, de certa forma, estranho. Independentemente do que tenham achado, ele parecia mesmo interessado na resposta dada.
Ele procurava encontrar a resposta. Queria saber o que tinha de fazer a partir deste momento. Experiência como namorado é o que lhe falta. O próprio save bem disso.
Se isto der certo, então esta será a sua primeira relação amorosa. Acontece que passou demasiado tempo da sua vida a viver sozinho. Tanto tempo que não sabia lá muito bem o que fazer quando se está ao lado de alguém que se gosta. Não sabia como agir à frente de desconhecidos. Isto é, até ter conhecido Maria.
Foi por isso que lhe perguntou aquilo. Pois ele esperava que, da mesma forma que ela lhe ensinou como ser alguém normal capaz de estar entre outros, esperava que ela também lhe ensinasse o que fazer quando se está perto de uma pessoa que se adora de coração. Não podia ter feito uma sopusição melhor.
Agora, tem a sua resposta. Agora, sabe que pessoas que se amam devem ficar juntas. A união é o que diferencia um solteiro de um casal. Agora, ele sabe. Tendo esse conhecimento, fica com uma ideia do que fazer.
Já viu outras pessoas a fazerem coisas do género. Não sabe se funcionará, mas vale a pena tentar. Afinal, é um gesto que também condiz com a resposta de Maria. E também não é nada de espetacular, mas parece ser efetivo.
Ai! Porquê tanto medo? Não há mais nada melhor para fazer. Não é um gesto muito complicado. Não é preciso ter medo.
Então, ele solta a mão esquerda para junto da cintura. Maria sente-se já um pouco cansada e vai até ao lado de Damian. Os dois ficam lado a lado, com Maria a ocupar a posição onde estava Iza. Ficam os dois a observar a multidão a divertir-se.
É esta a deixa. A própria Maria parece ter-se chegado ao pé do rapaz após ter notado que a conversa tinha chegado a um beco sem saída. O que aí vem é inevitável. Isso os dois percebem.
Nesta condições, a mão de Damian começa a afastar-se mais da cintura. Vai andando levemente para a esquerda onde se encontra Maria. A própria começa a notar certos avanços. Também se sente compleida à união. Portanto, segue o sinal e também solta a sua mão direita para junto cintura, deixando-o seguir em frente.
Damian quase que nem conseguia conter o seu coração. Parecia que ia saltar a qualquer momento. Não conseguia conter o quão empolgado e feliz estava ao ver que tudo estava a correr bem. O que mais lhe dava felicidade era ver que Maria também estava a ajudar.
Saber disso apenas lhe deu mais motivação e razão para continuar. E Maria, ela estava mais vermelha que um tomate, talvez por ser a primeira vez que faz algo do género. Nunca expressou amor para alguém que não fosse da sua família, mas mesmo ela sabe que há primeira vez para tudo, sendo essa a principal razão de não se opor.
Assim sendo, está decidido. À medida que a mão de Damian se vai afastando cada vez mais da sua cintura e vai se aproximando da mão de Maria, o mundo à volta de ambos parece desparecer. Com cada centímetro, cada milímetro de aproximação, o mundo vai desacelerando.
Já não havia pais, alunos ou amigos. Naquele instante só passou a haver um casal. Duas pessoas apaixonadas e unidas pelos seus sentimentos. Isso foi tudo o que restou. E, no fim, com a união das mãos eminente, a segundos, Maria olha no rosto de Damian. Vê o quão feliz ele está. Tão feliz que não consegue esconder um sorriso. É engraçado, pois ele até está a lidar bem com a situação.
Pelo menos, ele lida melhor do que Maria que está ali toda constrangida e corada. Quem diria que tudo daria uma volta. Neste instante, é Maria que admira Damian. O mundo faz tudo funcionar e quis que os dois necessitassem um fo outro. E é esse o destino que está fora do controle de ambos.
Então, depois de tanta antecipação e tanto tempo, as mãos começam a tocar-se. Não as palmas das mãos, só a parte de trás delas. Mas este contacto leva-as a trocarem de posição e, eventualmente, elas começam a envolverem-se até que, finalmente...elas seguram-se.
Foi ali. Foi naquele instante. Naquele momento que durou minutos que começou algo. O tempo voltou a acelerar. O mundo voltou ao normal. E, mais do que tudo, um casal foi formado.
Damian sentia-se feliz. Maria começava a esboçar um sorriso só de ter progredido tanto como pessoa graças àquele rapaz. Que noite esquisita. Nenhum dos dois esperava que algo do género acontecesse. Ainda assim, os dois mostraram-se mais felizes do que nunca. Tudo graças ao facto que alguém tomou iniciativa.
Sem essa pessoa, nada disto teria acontecido e ambos teriam ficado a viver com os mesmos sentimentos de sempre guardados no coração. Pensando bem nisso, é mesmo necessário agradecer a essa pessoa. Se há alguém que merece respeito e parabéns pela sua mudança é Damian. Ele mereceu este momento. Mereceu estar ao lado da pessoa da sua vida segurar a sua mão, enquanto encaram o resto do mundo.
Que nostalgia. Iza recorda-se disto tudo como se tivesse acontecido ontem. Até porque ele estava lá. Não só deu o seu conselho a Damian como também os ficou a observar de longe. E nem co seguem imaginar o quão feliz ele ficou ao ver que Damian, o seu amigo, tinha conseguido.
Contudo, isso agora é passado. Voltando ao presente, ele dá de tudo e sai da sua divagação de memórias. Fecha e abre os olhos mais uma vez. Quando os volta a abrir, está completamente com a mente no presente, de volta àquele beco. Está com o braço direito apoiado na parede e a sua cabeça nele assentada. Nesse beco onde se encontra o seu colega, Iza fica nessa posição a olhar para o chão.
Ner: "Iza? Está tudo bem?"
A voz preocupada de Ner trá-lo de volta à realidade. Nestes momentos apercebe-se o quão fiel e dedicado ele é não só à causa como também a ele. A isso só lhe tem a agradecer.
Iza: "Ner..."
Diz o nome dele, relembrando-se o que fazia antes de ter se começado a lembrar do passado. Só se pembra que estava com o seu amigo naquele beco. Tinha acabado de dar um discurso aos seus homens e estava a dar-lhes conselhos. Amanhã é o tal dia da invasão e...já se lembrou. Estava precisamente a pensar sobre se seria ou não capaz de matar o seu melhor amigo. Como se isso já não o estivesse a chatear a cabeça o suficiente.
Ner: "Está tudo bem, Iza? Ficaste aí nessa posição a olhar para o chão por 10 minutos."
Informa-o, mostrando clara preocupação pelo bem-estar do seu líder.
Ouvindo isto, Iza até regala os olhos. Pensava que tinha demorado mais tempo, com o quão longo foi o diálogo. Pelos vistos, perdeu mesmo total noção da passagem do tempo.
Com esta informação até se sente obrigado a olhar para o que lhe rodeia. Portanto, levanta a cabeça e finalmente afasta o seu braço daquela molhada e suja parede com sabe-se lá o quê (até acho que vocês ficam melhor sem saber). De volta à sua postura habitual, em pé, ele vê o que o rodeia.
À esquerda, temos Ner, alto como sempre e também altamente musculado. Nada de novo aí. Olha para o céu e também não vê nada de novo. O sol está a pôr-se. Daqui a pouco a lua surgirá. Como disse, Iza esperava que fosse mais tarde.
Iza: "Sim, tem ar que estive só 10 minutos fora da realidade."
Fala, dizendo o que pensa em voz alta para o seu colega não ficar confuso. Apenas falou por essa razão, até porque ele bem dabe que Ner, em termos de inteligência, fica um pouco aquém. Porém, vendo bem a sua próxima intervenção, Iza pode se ter enganado um pouco quanto a ele:
Ner: "Ainda be- o quê? Espera, disseste 'fora da realidade'?"
Ok, por onde começa. Em primeiro lugar, não esperava que Ner estivesse a prestar tanta atenção às suas palavras. Segundo, é capaz de não ter explicado as coisas assim tão bem. Sem problemas, pode explicar um pouco melhor.
Iza: "Posso não ter explicado bem. Simplificando, por alguma razão, quando estava ali a pensar, lembrei-me do dia de graduação."
Ner: "O dia de graduação. Não devias ser o único lá."
Iza: "Sim, lembro-me de lá estarem muitos dos meus colegas, o meu pai e...a Maria e o Damian."
Ner: "Ó, nem me fales nesse gajo."
Que mudança súbita no tom. Mal ouviu o nome de Damian, ficou logo mais irritadiço e indignado. Já sabia que ele não gostava muito de Damian, mas não sabia que era a este nível.
Não, Iza não sabia. Contudo, sste foi o momento em que Ner mudou o assunto para o que queria falar a Iza. Sim, a partir de agora, a relação de ambos nunca mais seria a mesma. Iza é que não sabia ou se apercebia disso.
Ner: "Eu sei que já te disse isto para aí umas mil vezes, mas, se não fosse por ti, esse tipo já estaria morto há muito. Até acho que lhe iríamos fazer um favor ao uni-lo com a sua esposa no outro lado."
Vê-se que ele não poupa esforços para insultar Damian. O ódio que sente por ele deve ser mesmo grande. De novo, Iza sabia que Ner o odiava, apenas nunca soube que era tanto e também nunca entendeu o porquê. Pode estar a ser parcial, mas não consegue entender o porquê.
Iza: "Sabes, já desconfiava que não gostasses dele, mas nunca entendi o porquê."
Ner: "É simples. Basta olhar para aquela cara de cromo. Ou se isso não deixou claro o suficiente, presta atenção à forma indefesa com que ele age perante nós."
Responde, com raiva em cada palavra que cospe e a voz a elevar-se cada vez mais.
Iza: "Ok, deixa-me ver se percebi: não gostas dele porque é fraco. É isso?"
Pergunta, apenas para ter a certeza que a sua suposição está certa.
Ner: "Depende. Se queres pôr as coisas de forma mais simples, então sim. Agora, não me venhas com defesas esfarrapadas para defender o teu amiguinho de infância escroto. Esse gajo e o facto de ele ainda estar vivo, tiram-me completamente do sério. E tu, Iza, também devias. És o líder e tens a obrigação de fazer tudo por esta gangue, mesmo que isso signifique matar o teu melhor amigo."
Ena. O tom da conversa muda mesmo rapidamente. Inicialmente estava tudo tranquilo. Depois, mencionou-se o Damian e Ner ficou todo irritadiço. E, de momento, parece ser a vez de Iza.
Sim, ele sabe que é líder de uma gangue. Sim, ele sabe que tem de fazer o melhor para a sua gangue se tornar infame. Sim, sabe que tem de deixar os seus sentimentos fora do trabalho. Contudo, simplesmente não pode deixar que outros falem mal de Damian.
Raios. Isto custa. Custa e ainda assim sente que é a sua obrigação como amigo. O problema vem quando esta obrigação de amizade entra em conflito com a obrigação que tem para a sua gangue. E essa obrigação tem de o levar a matar o seu melhor amigo.
Iza: "Não vale a pena defender-me. Tens razão, esse é o meu dever como líder da gangue. Apenas te esqueces que também tenho um dever como o seu melhor amigo e esse é fazer o melhor para evitar que ele seja ferido."
Diz, numa tentativa de defesa, tentando relembrar o seu colega que ele tem mais do que uma escolha em mente. Quer deixar bem claro que este jogo de matar ou não com duas possíveis escolhas é mais difícil e complexo do que parece.
Estas duas escolhas entram em conflito uma com a outra. É um verdadeiro dilema. Ou escolhe um ou a outra. Não existe espaço intermédio. Haverá sempre uma situação em que alguém ficará a perder. Cabe a Iza decidir quem.
Isso é algo que todos os membros da gangue sabem. Desde os capangas, a associados e, é claro, isso também inclui o vice-capitão. Independentemente de quem sejam, todos sabem deste dilemas do capitão, pois tem estado em anadamento há muito tempo. Há talvez demasiado tempo. É por isso que Ner agora fala sem perdoar o amigo que tanto adora.
Ner: "Sim, não nego nada disso. Porém, esqueces-te que, no dia em que o teu pai morreu, disseste querer fazer jus ao seu nome. Eu estava lá e lembro-me, vi com os meus próprios olhos tu a segurar o teu pai ensaguentado no chão e de lhe dizeres com lágrimas nos olhos que irias manter o negócio estável. Não, retiro o que disse, tu disseste que ias melhorar o negócio. Por isso, peço-te que revejas o estado em que estamos. Nem a cem pessoas chegamos. Até o Quill, um dos nossos membros mais leais, saiu junto com centenas dos nossos. O nosso dinheiro está a diminuir com cada dia. Quer dizer, tu viste que nem as nossas vítimas parecem nos respeitar. O gajo que matei no beco ia sacar do telemóvel e ele nem estava a cinco metros de nós os dois. Isso já para não falar do Reyner que decidiu destruir-nos precisamente hoje. Mas sabes que mais? Sinto que ele não decidiu fazê-lo agora só para aproveitar que temos possíveis preocupações no horizonte que ameaçam a nossa sobrevivência como aquelas criaturas. Eu tenho a CERTEZA que ele quebrou o negócio conosco neste momento, pois viu que é o ponto mais baixo em que alguma vez já estivemos. Se queres que seja sincero, ele não podia estar mais correto. Hoje foi o pior dia em que vi a gangue. Nunca estivemos num ponto tão baixo como agora."
Pois é, ninguém aprova das ações de Iza. Todos estão empolgados para a invasão de amanhã, mas isso deve-se ao facto de esta parecer uma bênção de um homem que já não parecia pensar bem. Até porque todos já ansiavam matar aquele homem e mostrar que não estavam para brincadeira.
Mais do que tudo, ansiavam este momento para mostrar que a gangue era mais intimidadora do que parecia. Nos últimos anos, na verdade, desde que Iza assumiu controlo, a gangue tem perdido respeito na rua e com outra gangues. São uma casca do que foram. Ninguém está feliz com isso. Especialmente porque o principal fator que os fez perder poder foi o facto do Damian ainda se encontrar vivo.
Iza sabe disso. É claro que, nos primeiros tempos, ainda fazia questão de advertir Damian e de jurar que, nas próximas semanas, ele iria morrer. Contudo, quando chegava o suposto dia da morte, Iza ia, acompanhado da gangue, falar com o seu amigo, fazia-lhe uma nova advertência e marcava o seu homicídio para outro dia.
Era sempre assim. Sem falta. Chegava o dia e voltava atrás na sua palavras. Ele adiava, adiava, adiava e continuava a adiar. Dias foram para semanas, para meses e eventualmente para anos. Tudo porque não conseguia matar o seu melhor amigo. Para ele pode ser complicado, tendo em conta que tinha essas duas obrigações. Porém, devem compreender que, no caso dos membros da gangue, eles estavam-se nas tintas para os sentimentos de Iza, pois ele apenas querem ver a gangue a prosperar e veem que Iza não faz nada disso. NADA. Por isso é que, por muito maldoso que seja, ele precisa de ouvir. Resta saber como reagirá.
Iza: "Afinal era disto que querias falar comigo. Há quanto tempo é que pensas isso de mim? Ou melhor, quantas pessoas é que também sentem o mesmo? Quantas pessoas é que têm andado a fingir como tu, porque daqui a pouco vou sentir-me obrigado a dar-vos todos um prémio de melhor atuação."
Responde, derramando uma lágrima, farto de ouvir críticas. Por isso responde, misturando a sua ironia com a raiva que sente de si próprio. Mesmo ele sabe que não existe ninguém a culpar senão ele próprio. Toda a raiva que sente de Ner e dos outros por o odiarem é a raiva que sente por si próprio.
Na própria resposta, vê-se um tom de tristeza no seu discurso. Lá no fundo, por muito que esteja a tentar esconder com comédia e ironia, sente-se traído. Aquela revelação toda apenas o deixou mais perdido do que nunca. É como se já não pudesse confiar nem em alguém como Ner, que considerava amigo. Isso explica a lágrima derramada quando falou o que falou.
Pois este dia também só estava a piorar. Já não bastava Reyner e as suas idiotices e a sua própria cabeça estar perdida entre o presente e o passado, ainda tem de lidar com esta surpresa que o fez ir de pensativo a depressivo. Não que esteja farto, até porque entende a relevância do assunto, apenas considera este o momento menos adequado para lidar com algo do género.
Apenas se pode perguntar porquê? Porquê agora? Quer saber o que fez para merecer um dia tão mau, pois já entendeu porque está a receber tanta facada nas costas. É que a coisa está tão má que apenas tem vontade de se rir, contudo, o seu eu mais humano, nem lhe deixa fazer o que quer e leva-o às lágrimas.
Essa foi a maneira que Iza achou para reagir com tanta traição e críticas. Quer que Ner saiba que ele não é o único a ter um péssimo dia. Penso até ele ter deixado ainda mais claro que, por muito que possa parecer durão, ele é humano. Esse aspeto é algo com que Ner se relaciona e, por isso, o levam a uma reflexão. O vice-capitão começa a perguntar-se se estaria a ser demasiado duro.
Ner dizia aquilo tudo, pois estava farto de ver a gangue de que fazia parte a ser desrespeitada. Contudo, ainda via Iza como amigo. Ele chegou a conhecer o pai dele e viu o quanto ele se importava com Iza. Mais do que tudo, no pouco tempo que passou com ele, deu para perceber que ele é um rapaz com potencial. Apenas tem essa falha a que se vê subordinado.
Caramba. Sente-se mal pelo que disse. É a verdade, mas pode ter sido duro. Ou não. Não, disse-lhe a verdade e não pode deixar os seus sentimentos influenciarem-no. Porém, custa-lhe vê-lo tão comovido como agora. Acho que um esclarecimento num tom mais calmo não lhe estragará a moral.
Ner: "Eu sei que posso estar a ser duro contigo, Iza. Mas tem calma, nós não te queremos trair. Pode parecer esquisito, mas eu vejo-te como um amigo. És um bom rapaz e vejo muito potencial em ti. Não sei quanto aos outros, contudo, digo-te do fundo do meu coração, como amigo, que quero ver-te lá no topo. Para isso, terás é de encarar as tuas falhas e críticas de cabeça erguida. Eu não te quero mal, apenas quero ver-te a ti e, acima de tudo, esta gangue, de volta ao topo. Só isso."
Ele foi compreensivo e enfrentou Iza, desta vez, com maior calma e sinceridade. Mais do que um tupo durão, Ner também é humano e é alguém capaz de formar laços com os outros. Pode ser um assassino e um maníaco com demasiada força nas suas mãos, porém, até ele tem um lado humano capaz de se relacionar com outros.
Ninguém é o que parece ser. Iza conseguiu perceber que isso pode vir tanto para o mal quanto para o bem. Contudo, mais do que isso, percebeu que não estava a fazer um bom papel como líder desta gangue. Percebeu neste dia que ainda tinha um longo caminho a percorrer. O seu grande problema foi ter ficado demasiado tempo concentrado no Damian que se esqueceu de si próprio e, acima de tudo, dos outros membros da sua gangue. Foi demasiado egoísta ao pensar apenas em como ficaria feliz que se esqueceu como é que os outros ficariam felizes. Esqueceu-se de escolher a ação que traria maior felicidade ao maior número de pessoas.
Iza: "Não, t-tens razão. Estaria a mentir-te a ti e a mim mesmo se dissesse que tenho feito um bom papel. Sabia que talvez não estivéssemos nas melhores condições, especialmente depois da reunião com Reyner, mas não sabia que era a este ponto. Nunca teria imaginado que os meus próprios capangas me odiariam por isto. Nunca teria imaginado que chegaria a um nível onde até os meus subordinados estariam revoltados com as minhas escolhas. Nunca teria imaginado que a minha cobardice nos teria levado a este ponto. De novo, já tinha me apercebido que o nosso respeito foi diminuindo, apenas não imaginava que seria ao ponto de...de...de me odiarem."
Diz, num tom melancólico, aproveitando que recuperou das lágrimas. Aproveita para fazer uma espécie de reflexão do que sente, não conseguindo conter tanta coisa para si. Neste ponto, o que diz é simplesmente um monólogo em voz alta, contudo, nada disso importa, desde que consiga aliviar algum do peso e tristeza que tem lá dentro. Afinal, depois de ter ouvido tudo isto e ter limpado as lágrimas, apenas lhe apetece chorar outra vez de tanto arrependimento que sente por ter deixado a gangue do seu pai ter chegado a um ponto tão baixo.
Ner: "É difícil, reconheço. Reconheço também que é importante entendê-lo. Amanhã provavelmente será a última oportunidade que muitos dos nossos homens te darão. Posso assegurar-te que, se amanhã fores a casa do Damian só para lhe dar um aviso, muitos vão deixar esta gangue. Não, mais do que isso, se não o matares, garanto-re que haverá alguém que matará o teu melhor amigo por ti. Por isso, não tens muita escolha. Quero que tenhas isso em mente para quando chegar o momento. E pensa bem, pois só te falta um dia. Um dia, Iza, e o teu reinado pode chegar ao fim."
Alerta-o, como conselho de um amigo, para os perigos que as suas ações podem trazer. Este aviso mostrou também o quanto as escolhas que tem à sua disposição levarão sempre ao mesmo lugar. Não importa o que escolher ou o método que usar, nas duas situações, Damian morre.
O que difere de situação para situação é quem é o seu assassino. Uma vez pode ser Iza e noutra um dos capangas deste. Em ambas, uma vida é tirada e, para Iza, essa vida é a de um amigo que lhe é muito querido. Não importa o que escolhe, nunca ficará contente, pois, mesmo que vá cumprir a dua obrigação como líder de uma gangue, nunca conseguirá cumprir a obrigação que tem para com Damian como seu amigo. Em outras palavras, Iza irá sempre perder, de alguma forma.
Fica apenas com duas opções técnicas. Ou irá deixar o seu amigo morrer para um dos seus capangas, possivelmente de um modo bastante violento, ou ele próprio tratará do assunto, numa das raras situações em que faz tal. Tem que admitir que entre uma e outra prefere a situação em que a morte de Damian seja a mais rápida e sem dor possível. Logo, terá de ir pela segunda.
Mas...calma. Terá de, em primeiro lugar, aceitar que o seu amigo morrerá. Isso é algo que vai sempre acontecer, um evento em comum para todas as versões da situação.
Ninguém disse que ia ser fácil e ninguém disse que ia ser tão difícil. Depois de tanto esforço mental para arranjar uma solução, na véspera, é informado que nunca houve uma opção em que tudo acontecesse como queria. É quase como morrer na praia. Por isso, devem imaginar o quão frustrante e triste deve ser receber essa informação.
Triste e decepcionado ficou, outra vez, sentimentos com os quais já está acostumado neste ponto do dia. Esses sentimentos. Era isso o que sentia. Era só isso o que sentia. Era só isso o que sentia? Acabou de receber a informação de que o seu melhor amigo, aquele que tem feito de tudo para proteger, vai morrer. Depois de tanto esforço e discursos convincentes aos seus subordinados para o pouparem, acabou de receber a informação de que ele morrerá e apenas fica decepcionado e triste ao receber esta notícia?
Deveria estar revoltado. Deveria dar um soco em Ner e gritar-lhe na cara que devia mudar de ideia. Ou não, ainda partiria a mão ao entrar em contacto com o rígido corpo do seu colega, já para não falar que não se sente com direito de ir contra o desejo da maioria, muitos dos quais estão no negócio desde o tempo do seu pai. Raios, por muito que custe, isso deixa-o com uma opção: aceitar o que vem por aí.
Ele não queria. E ainda não quer. Mas que opção tem? A resposta é mais nada. É por essa razão que não se revolta. Fraco e insignificante, o líder apenas pode ficar triste e decepcionado com esta notícia.
Iza: "S-Sim, não te preocupes. Eu irei cuidar disto antes que os outros possam sequer erguer as suas pistolas."
Responde, explicitando bem a sua decisão interna.
Ner: "Gosto dessa atitude. Vês, só umas palavrinhas e já estás a melhorar. É isso o que quero ver amanhã. E espero que desta vez não vás adiar a coisa como fizeste das últimas vezes. Amanhã, quero ver o Iza que vi no dia da morte do Gareth Ingram. Quero ver aquela raiva nos olhos e dedicação que vi naquele miúdo. Lembra-te daquela sala com sangue no chão e do corpo do teu pai, fraco e com uma bala no peito. Confia em mim, essa imagem irá recordar-te da razão porque lutas e, nesses instantes, com esse refresco de memória, é mais provável fazermos escolhas das quais nos orgulharemos no futuro. Este é o meu conselho de amigo para amigo. Também porque os outros capangas, exceto talvez o Wedge, que carrega uma faca para assaltos, não te darão conselhos muito melhores. Até acho que te mandarão para um certo lugar."
Informa-lhe, dando um últmo conselho de amigo para amigo. Usa um pouco de comédia e de recordações que remetem para o passado de Iza, para o dia quando herdou esta gangue do seu pai. Ner quer mesmo convencê-lo e foi por isso que utilizou todas estas estratégias. Sim, ele é muito mais inteligente do que parece.
Iza: "O-Ok. E obrigado, Ner. Sei que pode ter sido duro para ti ter dito tudo isto, especialmente depois do tanto que passamos junto. Agradeço a tua preocupação em contar-me isto, pois estou certo que nenhum outro capanga meu faria o que tu fizeste, exceto, é claro, o Wedge."
Agradece-lhe pela ajuda, tentando manter a tristeza que tem sabendo que vai matar o seu melhor amigo para dentro. É complicado, mas conseguiu dar-lhe um agradecimento credível. Atenção, este agradecimento não veio com segundas intenções, veio porque Iza respeita Ner e sente-se grato pelo seu ato. Só teve problemas em dizer aquilo que queria ao seu amigo e, ao mesmo tempo, conseguir esconder a infleicidade do seu coração.
Ner: "Não te esqueças dele. O miúdo admira-te. Acho que deverias retribuir o favor, tentando ao menos lembrar-te do nome dele."
Iza: "Sim, tentarei."
Com isto, a conversa parece chegar ao seu inevitável fim. O fim que Iza e Ner tanto ansiavam pelos seus diferentes motivos. Iza por querer ver-se livre daquele tema e Ner por constrangimento em falar de algo tão negativo ao seu amigo.
A conversa envolvia ambos, mas é errado dizer que os dois saíram a ganhar. Não, Ner conseguiu o que queria e mudou o ponto de vista de Iza. Já este último apenas ficou mais depressivo da conversa e com mais problemas em que pensar. Que troca completamente justa.
Ner: "Muito bem, já não tenho mais nada a dizer. Daqui a pouco vai ser de noite. Tenho alguns negócios a tratar, se é que me entendes. De qualquer forma, se precisares da minha ajuda, é só chamares que o aqui o amigo Ner vai atender."
Nesse momento, Ner vira as costas para Iza e começa a caminhar na direção da saída daquele beco sujo e imundo. Já se despediu e fez tudo o que tinha a fazer. Como o próprio disse, ainda tem de tratar de uns assuntos (provavelmente venda de drogas ou assaltos). Isso é suficiente para explicar o porquê de ir embora antes do sol se pôr por completo.
Ner: "Tchau. Cuida-te, puto."
É desta forma que ele se despede, à medida que vai caminhando na direção da saída. Vai andando lentamente, no seu ritmo, feliz por saber que conseguiu dier o que queria e, mais do que tudo, por não ter chateado o seu amigo. Este será um dia para lembrar. Pois não só conseguiu arranjar coragem para lhe dizer as críticas feente a frente, como se sente confiante que conseguiu mudá-lo efetivamente.
Não tinha muita escolha quanto ao que fazer. Ou falava hoje ou era nunca. Hoje é a véspera do ataque e é o último dia de preparos. Se é para mudar, é hoje ou nunca.
Passou-se um, dois, cinco, dez segundos e Iza fica completamente sozinho naquele beco. Finalmente tem espaço para refletir. Pode é não ser o local mais acolhedor para o fazer, contudo se o conseguiu fazer antes consegue-o fazer também agora.
Não. Pode fazê-lo, mas não o fará. Não porque não lhe apetece. Simplesmente graças ao facto de ter um maior assunto em mãos. Um maior problema, diria: o que é que fará com Damian.
Ele terá de morrer. Isso é certo. É impossível haver outra opção. Sim, mas esse é o grande problema. O problema é o facto inalterável de ele ter de morrer. Talvez...é uma possibilidade e...CHEGA! Já chega de tentar resistir ao destino. Iza tem que parar de pensar em formas como pode evitar a morte de Damian. A resposta é que isso é impossível.
Com a respiração e coração a acelerar, encara a realidade de uma vez por todas e aceita o facto de que o seu melhor amigo vai morrer. Custa, custa tanto. Esteve tanto tempo a evitar esta situação para os seus esforços se revelarem ser em vão. Isso é injusto. Isso é mesmo injusto. Porque é que não há outra forma? Porque é que não existe uma forma que não fará com que todos fiquem felizes? Sim, pode estar a ser ingénuo, todavia, já suplicou por mais. Será muita coisa para pedir a Deus?! Não pode. Não é. NÃO É!
Não é e, ainda assim, não acontece. Raios partam. Que vida é esta. Caiu assim tão baixo. Bastou aceitar continuar o negócio do seu pai e foi parar a este ponto. Devia estar bêbado ou de cabeça quente, pois, agora que entende a vida de criminosos, não se veria a fazer a mesma opção. O melhor a fazer seria desistir disto, mas...
Sabe-se lá porquê, neste momento, lembrou das palavras que disse ao seu pai, quando o segurava nos ombros: "Vou continuar o teu trabalho, pai. Eu prometo". Foi isso. Lembrou-se da razão pela qual luta. Sentiu-se à beira de desistir, todavia, ao lembrar-se daquele momento marcante, voltou à realidade e percebeu a gravidade do que ia fazer ao desistir. Isso está fora da mesa, pois, ao fazê-lo, quebraria a promessa que fez ao seu pai, no seu leito de morte.
Uh. Respira fundo e tenta voltar a uma respiração mais estável. Tenta pensar com clareza. Lembra-se a si próprio do que faz e do porquê. Relembra-se que Damian terá de morrer. Não há mesmo outra opção. Só está por escolher como é que este indivíduo irá morrer.
As coisas só pioram com cada parte do seu presente e passado que se vem recordando. Nada bom vem de viver. O que nos resta fazer é dar o nosso máximo para fazer as coisas boas surgirem nas nossas míseras vidas. É isso o que precisará de fazer com o seu amigo.
Excusado será dizer que ele não quer matar Damian. A pessoa em questão pode ter de morrer, mas, nem nessas circunstâncias, ele se vê compleido a matar alguém que lhe é tão querido. Para ele, isso seria como se ele se estivesse a tranformar no assassino de seu pai. Se bem que isso é hipócrita da sua parte, pois já se tornou um assassino há muito, nunca matou é alguém tão querido para si.
Seja pelas razões que forem, não o fará. Ou não se vê pronto. Pelo menos, por agora. Tem o resto do dia de hoje e até amanhã à noite para se decidir. É pouco, mas melhor do que nada. Contudo, quando for agir será no momento. Tem que pensar bem, pois, nesta situação, no momento da ação, tem que ter já a sua mente decidida. Isso é uma condição cujo cumprimento é imperativo.
No entanto, tem mais algo em mente. Sim, não precisa de esperar tanto para ver a sua vitória. Um plano começa a formar-se neste desespero de arranjar forma de matar Damian sem precisar de lhe dar uma facada. E, pensando bem, o plano nem é assim tão mau.
Então, julgando ter encontrado uma boa ideia, Iza começa a correr. Sai, rápido como um corredor do beco.
Vai com as suas pernas rapidamente a pousarem no chão e a levantarem-se. Indo no passeio das ruas onde todos se recolhem para as suas casas. As ruas que ficam gradualmente vazias.
Para onde ele vai? Onde o seu plano requer.
Apenas vos posso dizer que é um local que conhecem e que está, agora, habitado por uma pessoa. Devo até dizer, um certo rapaz.
Jeff: "..."
Ele está de volta ao seu quarto, em pé. Com o caderno em cima da mesa de cabeceira. À frente da mesa de cabeceira e ao lado da sua cama, está ele: Jeff. De caneta preta na mão a escrever o seu registo diário.
Quanto ao conteúdo, não é nada de especial. Escreve que, na noite anterior, viu o monstro a mover-se pela primeira vez e que apenas espera que as coisas piorem a partir daí. Não anseia nem um pouco que a noite chegue. Se bem que, olhando bem para a janela, consegue imaginar do outro lado do cortinado o que lhe espera.
Sim, estava a esta altura do dia. O sol já se tinha ido. Já se passou do pôr-do-sol. A esta altura o céu escureceu e as estrelas apareceram. Neste ponto, a lua dominou o céu novamente. E que noite estava por vir. É uma noite que ninguém esperava que fosse tão drástica. Tudo graças à decisão de última hora de um adulto de 34 anos: Iza Ingram.
Iza corria pela noite. Encontrava-se na zona de entrada de um bairro. Ninguém estava no seu caminho. Trata-se de um ponto do dia onde todos se encontram em casa à espera do jantar.
Um ponto do dia que as próprias autoridades consideravam como mais perigoso.
Se tudo estiver certo, Iza prevê que este era o caso em que se encontrava o filho de Damian.
Todo o seu plano assentava nessa hipótese. Como tal, ao correr desespeadamente pelas ruas, só conseguia pensar nisso. Na verdade, a sua mente estava ocupada a pensar nisso e em outra coisa. Era uma memória. Uma que não esqueceu e que carrega todos os dias. Uma memória que define quem ele é atualmente e explica porque é que faz o que faz.
Devem já imaginar o que é. A memória é uma muito íntima. Esta memória, este pedaço do seu passado, é o dia em que tudo mudou. O dia em que Maria e Damian e uniram, mas o que muitos se esquecem é que esse também foi o dia em que o grande Gareth Ingram morreu. Foi o dia em que o seu pai morreu.
Iza: "PAI, JÁ CHEGUEI!"
Grita o jovem Iza, acabado de chegar a casa, pretendendo informar o seu pai.
Não ouve resposta. Mal abriu a porta, não ouviu nada. Não sentiu vida. Não sentiu a presença do seu pai. E, ainda assim, ele prometeu-lhe que estaria lá à sua espera.
Já a festa tinha acabado. Tinha se despedido de Maria e Damian. Foi uma despedida bastante triste, mas, ao mesmo tempo, otimista. Cada um deles partia em direção ao futuro. Iam todos fazer aquilo que sentiam ser o destino. Isto era a parte onde todos se separavam, no entanto, não iam sozinhos, pois sabiam que levavam uns aos outros no coração. Logo, independentemente de onde fossem, seriam sempre amigos.
Mas chega de lamechices. Voltemos ao que se estava a passar. Iza tinha se despedido dos seus amigos. Quando procurou pelo seu pai, viu que este não se encontrava em lado algum. Ligou-lhe por telemóvel, contudo este não atendeu. Então, decidiu vir ao único lugar lógico onde ele estaria: a sua própria casa. Se bem que, à primeira vista, parece que ele também não está aqui.
Iza: "PAI! ESTÁS AÍ?"
Grita outra vez, mas com o mesmo resultado.
A este ponto, sente que se passa algo de muito errado.
Já lhe gritou duas vezes e em nenhuma delas ouviu uma resposta. Isso não é nem um pouco comum do seu pai. Mesmo que ele estivesse no seu escritório, que é o mais provável, certamente ele teria ouvido o seu grito. Afinal, foi alto o suficiente para ser ouvido em todos os cantos da casa.
Neste ponto, tem que ver o que se passa. Ou a casa está vazia ou algo de mal se apssa com o seu pai. Gosta mais da primeira opção, contudo reconhece que a segunda opção, para além de ser mais preocupante, é também a mais provável, infelizmente.
Por isso, envolvendo-se mais naquele ambiente, Iza fecha a porta de madeira cara e fica a sós com a casa. A casa e quem se pode encontrar nela. Não ouve nada. Não sente nada. Não sente também que isto vá correr bem. O que sente é que verá algo que não era suposto ver. Sente que também pode estar errado. Agora, é tudo um grande mistério cheio de suposições e hipóteses.
No entanto, isso são só hipóteses. Se quer ter a certeza do que se passa, só com coragem e adentrando-se no espaço. Sim, chega de pensar e fazer suposições. Mais vel explorar para ter a certeza da situação em que se encontra.
Então, ele finalmente sai de ao pé da porta, com bastante ceticismo e cautela. Quando não se sabe o que esperar, é melhor não se atirar logo de cabeça. É melhor ter sempre cuidado nesse tipo de situações como a de agora.
Iza passa pela zona da entrada e entra no hall. Trata-se de um hall com uma mesinha e um pote com flores. E esse hall leva à sala de estar. Ampla e com dois sofás que permitem ver a grande televisão de alta qualidade que se encontra em cima de uma mesa de vidro bastante bem polida. Como podem perceber, a casa dele é muito acima do comum. Especialmente acima das casas de Damian e de Maria.
Muitos até diriam que ele é rico. Não é milionário, muito menos bilionário. Porém, evidentemente, tinha muito mais dinheiro que o típico cidadão. Como tal, na vista deles, por muitos que os seus dois amigos possam dizê-lo em piada, Iza é considerado "rico".
Só não tem a certeza de onde veio tanto dinheiro. Sabe que vem do emprego do seu pai que, segundo o que sabe, é um arquiteto. Ainda assim, apenas co segue desconfiar dele. Evidentemente, arquiteto é uma profissão muito procurada que dá muito dinheiro, no entanto, dinheiro como esse não deveria ser suficiente para sustentar duas pessoas e para ter uma casa tão boa. É que arquiteto nem é a profissão mais bem paga do mundo. Tudo bateria certo se esse fosse o caso.
Ok, muito misterioso, contudo esse não é o assunto. Está apenas a divagar. Chega disso. Voltando ao objetivo do presente, Iza continua a andar lentamente para a frente. Ele pretende chegar ao escritório do pai e lá chegará se continuar a andar para a frente. É assim tão simples.
À direita está uma parede onde se encontram portas, estando numa delas, a casa de banho e, à esquerda, a tal da sala de estar que tanto falei. Há até uma porta verde onde está a cozinha nessa parede, levemente antes da casa de banho. Iza simplesmente passa por essa porta sem se aperceber. Estava tão preocupado com o que estaria do outro lado da porta do escritório que mais nada importava.
Passa pela casa de banho que não passa de uma divisão que surge atrás de um dos sofás, atrás de uma porta azul que está, de momento, aberta. Passa também pelos dois sofás, como disse. Dois grandes marcos que teve de ultrapassar para chegar ao que está ao fundo do corredor: o escritório de porta preta.
É isso aonde quer chegar. Quer alcançar a porta fechada que vê ao fundo. Só precisa de andar em frente a partir daqui e passar pela lavandaria. Mais uns passos e já lá está. Chega a ser um pouco anticlimático até, pois vocês já deviam estar à espera de mais.
Algo curioso que também devem estar a notar é que cada divisão está por de trás de uma porta colorida. Cada cor tem um significado e serve de meio para identificar qual a divisão que representa. Por essa razão, cada porta tem uma cor. Desta forma, evita-se confusões e Iza e o seu pai sabem sempre onde estão prestes a entrar.
Mas as coisas funcionam assim. A casa também não é lá essas coisas, em termos de tamanho. Um, dois três. Esses passos todos e deixou a sala de estar para trás. Agora é território do corredor. Só precisa de seguir em frente como fez até agora e chegará aonde tanto quer.
Entre duas paredes, cada uma com duas portas devidamente coloridas. Na direita, uma laranja e outra verde. Na esquerda, uma roxa e outra rosa. São por essas que precisa de passar. Faltam precisamente 7 passos.
Iza continua no mesmo ritmo. Um passo. Dois passos. Vai ao lado da porta laranja, à sua direita, que leva até à lavandaria. Ao mesmo tempo, à sua esquerda, passa também ao lado da porta roxa que leva até a uma segunda casa de banho, sendo esta normalmente mais frequentada pelo seu pai. E o trilho continua.
Três passos. Quatro passos. Foi a vez de passar pelas restantes portas. Passa ao lado da porta de cor verde e pela de cor rosa. Sendo que a de cor verde leva ao quarto de Iza e a de cor rosa ao quarto do seu pai, Gareth. São, de longe, as divisões mais usadas. E também as divisões com maior conexão emocional.
Cinco passos. Seis passos. A partir de agora não há mais nada. Só Iza e aquela porta adiante. Só mais um pouco e chega lá. Só mais um passo e vai finalmente saber o que se passa. Aguenta Iza. Aguenta. Estás lá. Estás quase lá.
Nestes instantes, o nervosismo começa a tornar-se mais forte do que nunca. Agora que sente o quão perto está do seu destino. Agora. A sério? Agora que chegou tão longe é que começa a ficar com medo? Agora que está a um passo de ver o que se passa com seu pai é que começa a pensar em desistir? Não. Não. Não. Não, não, não, não. Agora não! Agora que chegou tão longe, vai ver o que se está a passar! Ele vai dar um passo, abrirá aquela porta e irá ver o que se passa com o seu pai que não sai do escritório por nada.
Então, com a mão a tremer de medo pelo que aí vem, Iza dá o último passo. Dá o sétimo passo. É agora. Encontra-se a 1 metro da porta. Falta fazer uma coisa: abri-la. Só é necessário estender a mão, assentá-la na maçaneta, girá-la e abri-la. Um ato tão simples.
Tão simples. Precisa de se relembrar isso. Não seve ter medo do que vai fazer. Deve é temer o que pode ver por detrás daquela porta. Chega a ser esquisito como foi de cético, mas calmo a estressado e medroso numa questão de segundos. Até está com as suas pernas e mãos a tremer. Que coisa...
Que coisa. Que complicações. Que chatices. Tanta preocupação no mundo e ainda tinha de acrescentar esta. Ainda assim, com tanto medo, sente que deve abrir aquela porta. Pensa assim, pois, ao menso ficará aliviado. Pode sair dali algo mau, sim, não nega, mas, pelo menos, saberá oq ue deve sentir. Ao menos, Iza não ficará assim com medo para o resto da vida.
Sim, esse é o esclarecimento que precisa. Agora está com medo, mas não sabe de quê. Vai querer ficara assim para o resto da vida? Temer algo que nem sabe se é verdade? Não. Isso é inaceitável. Mesmo quando faz um teste, vai logo ver as respostas, mesmo temendo que as tenha errado, pois assim terá a certeza que está a sentir o que é suposto sentir e para não estar com medo e ficar a matutar em coisas inúteis. Espera bem que esta seja uma razão inútil. Porém, leva em consideração que é provável que a situação não seja das melhores.
Pois bem. Com essa resolução mental toda, Iza decide-se. Ele abrirá a porta. Aqui e agora verá o porquê de um clima tão estranho. Perceberá porque é que o seu pai não lhe responde. Saberá quem era aquele homem na festa. Descobrirá qual o segredo que ele tem andado a guardar. Iza abrirá aquela porta.
Como tal, ele estende a sua trémula mão para a frente assenta-a na maçaneta. Engoli do em seco, pensa uma última vez no que está a fazer. Faz um julgamento moral da ação e conclui mesmo que é aquilo que quer fazer.
Por isso, hesitantemente gira a maçaneta para a direita e, num empurrão fraco e lento que realça o som do ranger da porta, o escritório é aberto.
*Tahummmm*
O som do ranger da porta soa por toda a casa. É o único som que se ouve. Chega a dar-lhe um clima assustador e pouco humano. Pouco humano, hã? Encaixa-se bem com o conteúdo do escritório naquele instante.
Com a porta aberta, Iza decidiu dar os primeiros passos para dentro da divisão. Deu um, dois, três passos dentro da divisão e depois parou. Não por cansaço ou por medo, mas, desta vez, por puro choque. Ele viu algo. Algo que obrigou a parar. Algo que não esperava e que o apanhou de surpresa. Mais do que tudo, algo pesado e que não queria que tivesse acontecido.
Dentro do escritório, finalmente deu para chegar a uma conclusão. É que nem olhou para toda a divisão. Só tendo as primeiras impressões, já conseguia ter a conclusão e resposta às perguntas que queria. Não, ele não estava sozinho em casa. Não, o seu pai não estava bem.
Fecha e abre os olhos, esperando que o que vê seja, na verdade, um sonho. Contudo, infelizmente, esse não é o caso. Quando os torna a abrir desiste de acreditar nesse tipo de ilusões. Aceita que não há nada a fazer senão aceitar que aquela é a realidade mais pura e crua.
Todo aquele sangue no chão e nas paredes. Aquela pistola no chão. O seu pai ensaguentado no chão. Aqueles dois homens a ajudá-lo. Tudo aquilo é real.
Iza: "Pai..."
O escritório já nem parece o que outrora fora. Antes, era um espaço muito organizado e profissional. Com prateleiras repletas de livros nas três paredes que constituem a divisão. Uma secretária envolta nas prateleiras com canetas, um computador portátil e um copo onde mantém alguns dos seus itens mais raros e colecionáveis. Mas agora, o espaço está irreconhecível.
Sangue mancha tudo. Desde as prateleiras e os livros de que tanto se orgulhava até ao portátil e secretária onde passava os dias, supostamente, a fazer designs 3D de casas e habitações. O líquido vermelho atingia cada espaço e canto do escritório, inclusive a entrada. O chão e as paredes outroras brancas foram pintadas com os conteúdoa de um ser humano. Iza nem se tinha apercebido, mas os seus sapatos já estavam vermelhos há muito, porém a curiosidade que tinha para descobrir o que se passava apenas o compelia para seguir em frente. Bem, agora, aqui tem a resposta que procurava.
Aquele cenário...é...irreal. Não é humano. É inumano e dá-lhe vontade...vontade de vomitar. Sente um líquido no fundo da garganta a querer subir, porém Iza esforça-se e faz de tudo para o manter por ali. O próprio corpo recusa-se a aceitar aquela visão e estava pronto para rejeitar a bebida que consumiu na festa. Mas não. O esforço é grande demais. Colocando a mão na boca, ele faz de tudo e permanece incrédulo, num esforço duplo. No fim, consegue engolir aquela mistura nojenta e tira a mão da boca.
Bem diante dos seus olhos, deitado no chão, está o seu pai. Fraco e repleto do mesmo sangue que banha e molha o resto do escritório. Uma poça com o mesmo fluido envolve-o. Ele...não parece nas melhores das condições. Ainda assim, não parece morto. Ainda não.
De joelhos, a acudi-lo estão dois homens. Um deles grande e musculado. Outro magro e mais baixo, contudo, ele é apenas baixo comparado com o outro, pois, de altura, parece ser bem acima da média. Ambos usam fato e gravata e, agora que olha de perto, apercebe-se que eles se vestem da mesma forma que aquele homem que falava com o seu pai na festa. Não, aquele homem mais magro é certamente a pessoa que estava a puxar conversa ao seu pai na festa.
Quem são eles? O que se está a passar? Como é que o seu pai pôde ficar neste estado? Há uma pistola no chão junto ao seu pai envolta na poça. Ela pertence-lhe ou é de outra pessoa? Alguém o assassinou? Se sim, era da polícia? Foi um assalto? Ou um daqueles homens é que o atacou? O QUE É QUE SE ESTÁ A PASSAR AQUI?
As perguntas afastam-no um pouco da realidade. Toda aquela confusão nem lhe permitem se aperceber que aqueles dois homens já tinham notado a sua presença. É capaz de ter sido graças aos gritos que fez na entrada. Ou com o som que a porta fez ao abrir. Seja pelo que for, eles claramente querem lhe dirigir a palavra e nem o vão deixar processar tudo o que viu.
Quill: "És o Iza, não és?"
Subitamente, Iza é obrigado a deixar de lado toda a confusão que sente. O homem mais magro acabou de lhe dirigir a palavra e de o acordar para a realidade.
Iza: "D-Desculpe?"
Pergunta-lhe, tendo acordado há pouco. Ainda está a processar o que aconteceu e nem conseguiu ouvir o que o tal do homem disse. Precisa de um esclarecimento antes que possa sequer começar a fazer perguntas. Afinal, estes homens têm aspeto de quem sabe o que aconteceu.
Quill: "Eu perguntei se eras o Iza. És tu, ou estou errado?"
A maneira como o homem lhe fez a pergunta foi mais intimidadora do que da outra vez. Nota-se que ele claramente está um pouco farto de ter que aturar aquele miúdo por tanto tempo. Devia ter tudo acabado em duas frases. O facto de isto estar a estender-se não lhe agrada.
Iza, por sua vez, sente-se intimidado. Intimidado e obrigado a responder. Quer dizer, com uma voz e imponência daquelas, qualquer um sentiria o mesmo. Especialmente levando em consideração a situação assustadora em que se encontra. Por isso, tentando não tremer e segurando os seus medos e aquela vontade de vomitar, ele responde-lhe:
Iza: "S-Sim, sou. M-Mas c-como é que sabem o m-meu nome?"
E quando Quill, o mesmo homem de sempre ia para responder com o seu típico tom sério e profissional, alguém lhe rouba a palavra...
Gareth: "P-Porque f-fui e-eu quem lhes informou da tua existência, m-meu filho."
A voz é fraca. Pode estar mais trémula que a sua. Mas não engana ninguém. Quem falou...aquela voz...pertence ao seu pai.
Iza: "Pai?!"
Ner e Quill: "Gareth..."
Surpreendendo Iza e até os outros dois homens, Gareth Ingram fala. Fala como se não fosse nada. Está fraco e parece estar gravemente ferido, no entanto, ainda tem forças para falar. Pode estar velho, mas ainda tem forças. Caramba, o gajo é duro de roer, mesmo com esta idade.
Gareth: "N-Não se surpreendam. E-Eu aqui não morrerei tão facilmente. Podem baixar a g-guarda, este é o meu filho de que tanto vos falei, o Iza."
Diz, orgulhoso e mantendo o seu jeito arrogante e brincalhão de ser. Apresenta o seu filho aos dois capangas que o rodeiam. Tendo a certeza com quem lidavam e apoiando-se nas palavras do seu chefe, Ner e Quill decidem baixar a guarda. Fazem-no por confiança na pessoa de Gareth e por confiança nos seus próprios instintos. Aquele jovem não fará mal nem a uma mosca, quanto mais a eles, especialmente sabendo que ele não aparenta estar armado.
Iza: "P-Pai, eu..."
Nem sabe o que dizer. Tudo aquilo ainda o confunde. A pistola. Aqueles homens. Como é que o seu pai ainda está vivo? A pilha de perguntas e questões fica cada vez maior. Pelo menos, sabe o que sentir.
É verdade, foi uma alívio. Ficou extremamente aliviado ao ver que o seu pai estava bem. Aliviado e ainda com tanta pergunta. Quer dizer-lhe tanto e parece ter tão pouco tempo para tudo. Nem sabe por onde começar. Isso foi a principal razão que o impediu de completar a frase.
Gareth: "D-Diz, filho. O q-que q-queres tanto dizer?"
Pergunta-lhe, apercebendo-se que o seu filho estava com dificuldade em articular alguma frase. Não o culpa por tal, até porque consegue entender a confusão.
Percebe o quão difícil deve ser dizer algo deparando-se com uma situação tão única e traumática. São por essas razões que faz um esforço para falar. Fá-lo para dizer as suas últimas palavras e para, acima de tudo, tranquilizar o seu querido filho.
Com a motivação do pai, Iza fica mais tranquilizado. Ainda confuso e com perguntas, contudo, mais solto e achando que está mais pronto para falar. Não que esteja tranquilo ao ponto de se sentir em casa, pois, embora esteja, está com dois desconhecidos numa divisão irreconhecível, por isso, é como se não estivesse mesmo. Porém, sente que agora consegue dizer ao menos um pouco do que queria.
Iza: "O que é se está a passar aqui, pai?"
Poderia ter pensado em algo melhor. Mesmo que tivesse dado mais tempo a si próprio, acha que não teria conseguido melhor. Acha, porém, sabe que, lá no fundo, não conseguiria. Como tal, sim, esta é a pergunta que faz. Não se orgulha muito dela, mas sente que poderá servir de catalisador para tirar as respostas que tanto quer.
Ner e Quill deixam-se de fora da conversa, por ora. Têm a certeza que Gareth quererá responder a tudo. Não só pois a sua voz é a que assegura maior segurança a Iza, como também é o que quer deixar neste mundo. Ele tem a certeza que não durará muito mais tempo e é por essa razão que quer agora deixar as suas últimas impressões. Só deseja que deixe boas últimas impressões.
Mas, primeiro, tem que lhe dizer a verdade. Iza precisa de saber o que aconteceu. Tem que lhe contar o que aconteceu ali naquele escritório, há uns minutos atrás. Isso entre outras coisas de maior importância.
Gareth: "Ora, resumindo bem, levei um tiro. Uma p-pessoa, não percebi se era h-homem ou mulher, d-de alguma forma entrou aqui em casa, provavelmente para me assaltar. O q-queria não sei. Porquê? Também não sei. A-Apenas sei que apanhei o invasor no meio do ato, aqui, bem no meu escritório. E d-d-depois...AH!"
Precisamente quando ia acabar de recontar os eventos, a ferida volta a doer. Ferida talvez seja um eufemismo. Sangue começa a fluir do seu peito e a manchar a sua camisa como se fosse o fluxo de um rio, um rio de sangue. Aquilo era um buraco causado por uma bala disparada, supondo, pela pistola envolta em sangue que se encontra no chão.
De certa forma, a interrupção permitiu concluir o que aconteceu. Iza até conseguiu conectar os pontos. Facilmente chegou à conclusão que o assaltante o viu, sacou da pistola, houve ali uma pequena luta pelo controlo da arma, mas, infelizmente, no fim, o seu pai foi o alvejado. Perante a situação em que se encontrava, o assaltante acobardou-se, deixou a arma na cena do crime e foi-se sacudindo.
Ner e Quill tentam acudir o chefe, vendo que ele está em sofrimento. O dano da bala ainda não passou. Não, a bala não foi retirada. Vai continuar a causar problemas. O melhor seria retirá-la. Até eles pensam no mesmo e fazem-lhe a tal da sugestão:
Ner: "Senhor, tudo bem?"
Pergunta, preocupado com o bem-estar do seu chefe e companheiro de negócios.
Gareth: "S-Sim. N-Nada de mais. Já estive pior."
Responde, menosprezando aquela dor abismal que está a sentir.
Quill: "Tem mesmo a certeza? Ainda podemos tentar retirar a bala. Assim a dor pararia. O que acha?"
Sugere.
Gareth: "N-Não. Isso não adiantaria. Já sei qual será o meu d-destino."
Fala, deixando, pela primeira vez em toda a cena, transparecer um tom mais melancólico. Iza é que ainda não tinha percebido o que ele queria dizer e ficou com mais uma pergunta. Pois Ner e Quill perceberam e os seus olhos arregalaram-se de uma forma que nem eles sabiam que era sequer possível.
Trocaram olhares por breves momentos antes de voltarem a focar as suas atenções no chefe. Queriam certificar-se que ouviram bem o que foi proferido. E naquele instante conseguiram dizer tudo com os olhos assustados e chocados com que se encararam.
Aquilo que ele disse impactou-os de uma forma monstruosa. Eles tentam manter-se sérios e profissionais, mas simplesmente não conseguem. Sabendo a decisão de Gareth não dá para ficarem sérios. Dá-lhes é vontade de quebrar a máscara e chorar. O que Gareth Ingram deixou a entender é que não se importa em morrer naquele momento, até porque não vê nenhuma salvação.
Já esperavam que a situação estivesse complicada. Apenas não esperavam que ele fosse morrer ali. Eles são uma gangue temida por todos. Têm médicos prontos a servi-lo. O que é que ele quer dizer com "destino"? Se fosse por eles, já teriam chamado um médico ou eles próprios teriam tirado a bala, contudo, aquele velho não os vai deixar. Não, ele decidiu-se há muito tempo. Desde que levou o tiro escolheu como iria morrer e decidiu que seria hoje e ali. Infelizmente, esse será o capítulo final da sua vida...
No entanto, eles dão o melhor que conseguem. Fazem o melhor que sabem para manter a mesma postura neutra de sempre. Só é bastante complicado. É demasiado complicado. Acho que nem o melhor ator do mundo conseguiria fingir de uma forma credível. Porém, nem as tentativas de ocultação daquela dupla conseguia enganar Iza. Ele que ficou logo a estranhar. Se ele ao menos soubesse o que eles soubessem, reconheceria a dor pela qual estão a passar...
Gareth: "Iza. Vem aqui."
Mesmo quando Iza estava a tentar decifrar o porquê da reação daqueles dois estranhos à frase de seu pai, ouviu o último a chamar por ele. Até estranhou ouvir a sua voz fraca e trémula, por muito que esta não fosse a sua primeira intervenção. Simplesmente não consegue aceitar o facto do seu pai ter sido atingido hoje, agora, neste local, num dia que parecia tão normal.
Iza: "Desculpa?"
Pede-lhe indiretamente para repetir o que disse, pois estava demasiado ocupado ainda a processar a situação e a tentar decifrar todos aqueles mistérios. Gareth engole em seco e volta a repetir, mudando ligeiramente as palavras:
Gareth: "F-Filho, vem aqui."
Diz, num tom mais sério.
Iza sente que é o seu dever como filho aceitar o pedido do seu pai. Quer ele estivesse ferido ou não, seguiria as suas indicações. Ainda assim, não consegue impedir-se de ficar a temer que o pior venha desta conversa por vir. Normalmente, quando o seu pai fica mais sério, é porque algo mal vem dali. Só espera que dali não venha uma notícia que já teme desde que viu o sangue no chão. Só espera que ele não vá morrer.
Por isso, em passos lentos, ele vai ter com o seu pai. Vai pisando nas finas camadas de sangue que cobrem o chão de madeira que apodrece em contacto com um fluído daqueles. O vermelho é a cor predominante ali. Quer seja no chão, quer nas paredes e até no teto. Tudo cobre e dá noba entidade mais macabra ao escritório.
Eventualmente, naquele ritmo, fazendo os seus sapatos se encharcarem em sangue. Então, quando tinha os sapatos pretos quase totalmente pintados de vermelho, ele finalmente alcança-o. Tem o seu pai deitado, a menos de 1 metros dos seus pés, envolvido no próprio sangue.
Como é que alguém pôde chegar a este ponto? Como é que tanto sangue pôde ter sido derramado? É impossível todo aquele sangue ser do seu pai. Agora que caminhou um pouco mais sobre o espaço é que teve uma perfeita noção do quanto de sangue envolve o escritório. Não, não pode ter sido derramado tanto sangue com aparentemente um só tiro na barriga. Se não veio do sdu pai, então veio de quem?
Ok, isso é muito interessante, mas não é hora para isso. É hora de ir falar com o seu pai. Ele é o que mais importa para ele, de momento. Então, ele agacha-se, ficando com o joelho esquerdo molhado de sangue. De seguida, ele inclina o seu tronco para a frente e prepara-se para ouvir o que o seu pai tem a dizer. Ouvirá tudo, no entanto, com aquele medo no coração.
Gareth: "Nem sei por onde começar..."
Garteh Ingram abre a boca e prepara-se para falar. Parece ter muito a dizer. Tanto que nem sabe se terá tempo para tudo. Bem, chega de gastar tempo. Já percebeu que cada segundo contará, logo, mais vale começar o mais cedo possível.
Gareth: "Antes d-de mais, estes dois são meus colegas de trabalho. Não te preocupes, eles são boas pessoas."
Iza: "Isso significa que eles são arquitetos, tal como tu, não é? Nunca os tinha visto antes. Se bem que este aqui vi na festa."
Olha claramente para Quill. Este último até lhe ia dar uma palavrinha, mas antes que pudesse dar uma reprimenda àquele jovem arrogante, o seu chefe fala primeiro. Assim até é melhor. Será uma intervenção mais produtiva onde Iza não levará um insulto de bônus.
Gareth: "Na verdade, eles não são arquitetos. Para te dizer a verdade, nem eu sou um."
...que raio. Isto está a ficar fora de controlo. Ouviu bem? Para lhe esclarecer os pensamentos, Gareth repsondeu para deixar mais perguntas ainda. A este ponto, Iza sentia até que a sua cabeça ia explodir de tanta reviravolta a ser atirada na sua direção.
Como assim não é um arquiteto? Achava esquisito um arquiteto conseguir pagar uma casa deste género, mas não sabia se seria mesmo verdade. Ok, este dia está completamente maluco. MAS AFINAL QUE SE ESTÁ A PASSAR HOJE?!
Tudo está a dar uma volta. Não consegue mais acreditar em nada. Nada é o que é. Isso significa que o seu pai lhe mentiu este tempo todo e agora que tem uma bala no peito começa a dizer a verdade? Só podem estar a brincar. Se ele não é arquiteto, isso significa que ele é o quê?
Não, não, não. Ele está a brincar. Sim, só pode. Quer dizer, ele anda sempre bem disposto e com ar brincalhão. Há instantes atrás estava a adotar essa postura. Certo, agora só está a fingir-se de sério para lhe contar uma piada. É isso mesmo. Não passa de uma piada. Uma piada que já está farto de ouvir. Existem coisas mais importantes.
Iza: "Pai, desiste. Essa piada não está a funcionar. Temos assuntos mais importantes em mãos. Tenta ser sério pela primeira vez na vida, ok?"
Gareth: "N-Não. A sério. Isto não é uma piada."
Insiste, reforçando o seu tom sério. Agora ficou difícil de defender a sua teoria. Conhece o seu pai como ninguém e para ele próprio dizer que não está a brincar, é porque está a falar mesmo a sério. Pelos vistos, ele fala a verdade.
Espera estar mesmo em outro mundo. A sua expressão facial apenas lhe dá cara de parvo, porque não sabe como reagir e olhem que ainda não ouviu o que por aí vem. Vai descobrir a verdadeira profissão do seu pai e, pessoalmente, até prefere estar surdo. Qualquer coisa que saia da boca do seu pai, mais qualquer frase irá certamente destroçá-lo. Disso tem a certeza.
Iza: "Diz-me que isto não é verdade."
Estas palavras escorregam-lhe da boca. A este ponto, lágrimas começam a verter dos seus olhos. São uma espécie de mecanismo de defesa. Uma maneira de reagir a situações tristes, desesperadoras e, neste caso, confusas ao ponto de o quebrarem mentalmente.
Quill e Ner notam nas lágrimas a cairem no chão e a diluirem-se no sangue mais denso. Quill acha-o um maricas. Já Ner tem mais empatia e compreende o quão difícil deve estar a ser para ele encarar tantas surpresas ao mesmo tempo. Aquilo deve estar mesmo a destroçá-lo. Ver toda a realidade que conhecia há anos a desabar em segundos é capaz de levar qualquer um às lágrimas. Pelo menos, Ner admite que reagiria da mesma forma.
Gareth até sente oena do seu filho. O que menos quereria na vida é levá-lo às lágrimas. Acontece que ele vê-se sem opções. Ele precisa de lhe dizer a verdade. Tem de ser agora ou nunca. Especialmente porque já se decidiu. É aqui que irá morrer. Será desta forma, com uma bala a perfurar-lhe no peito que irá desta para uma melhor. Por isso é que ele não para.
Com uma voz triste e mais séria do que nunca, é com grande pesar no coração que Gareth se vê obrigado a dizer ao seu filho tudo. As suas mentiras. As coisas que fez para proteger a família. Sabe que poderá ser odiado. Tem perfeita noção que o seu filho é capaz de não aceitar a verdade e que pode deixar uma má última impressão na terra. Acreditem, isso é a última coisa que ele quereria. É só que não tem muito mais opções.
Quer e sempre quis o melhor para o seu filho e família. Desde que a sua mulher morreu, viu-se obrigado a adotar medidas mais drásticas para fazer com que houvesse sempre comida à mesa. Começou como arquiteto, mas o dinheiro não era suficiente. Procurou trabalhos que pagavam melhor, mas sem sucesso. Em pouco tempo, descobriu o mundo do crime e trabalhos que pagavam bem. Uma coisa levou à outra e, quando deu por si, já era um criminoso. Respeitado por outros criminosos, Gareth acabou por formar a sua gangue: "Dishonour".
Não é um passado de que se orgulha muito. Nem são ações que gosta particularmente de fazer. É bom a fazer o que faz. É bom a matar, roubar e negociar. Isso é inegável. Porém, sabe que não haveria outra forma de se manter a si e ao seu filho vivo. O crime veio como salvação para ele. Só não sabe se quer que ele também venha como salvação para o seu filho.
Se contar isto a Iza, certamente não haverá uma boa reação. Contudo, esta é a verdade. Ele tem que saber. Ele tem a obrigação de saber. Este é um assunto que também o envolve. Acima de tudo, quer que ele tenha a noção que, independentemente das coisas horrorosas que fez, foi tudo com um objetivo: cuidar do seu filho. Tudo o que fez foi com ele em mente. Tudo o que fez foi por Iza.
Gareth: "Entendo s-se me odiares p-por isto, mas q-quero que saibas que tudo o que foi por esta família. T-Tudo o que fiz foi por ti, Iza. Peço que tenhas isso em mente. Cada p-palavra que direi, cada ato em que participei, fi-lo por amor. Amor que tenho p-por ti e p-pela tua mãe, que Deus a tenha. Até e-esta m-mentira que t-te estive a contar foi pelo teu bem. Quero que s-saibas isso, Iza."
As suas palavras perfuravam mais do que a bala que está espetada no seu peito. Lágrimas apenas escorrem com maior intensidade. Iza apenas fica mais triste e chega mesmo a baixar a cabeça. Mesmo assim, mesmo olhando para o chão e tendo o rosto molhado, ele continua a manter os seus ouvidos abertos e prontos para receber o que por aí vem. Já Ner e Quill apenas ficam mais apreensivos.
Ele estava apenas a começar. Se Iza já está a chorar, então não aguentará o que está por vir. Agora sim é que sente que pode começar a lançar aquelas revelações bombásticas. O seu filho parece ainda estar a ouvri tudo. Então, mesmo com o filho a chorar, Gareth, com toda a segurança do mundo, seixa de lado todas as dores do tiro e, com uma só cajadada, ele conta-lhe a verdade:
Gareth: "Q-Quando a tua mãe estava viva, a vida era um sonho. Não havia n-nada a temer. Tinha-te a ti e a... e a ela. Era perfeito. Lembro-me de trabalhar como arquiteto e de ir feliz para o trabalho todos os dias, sem falta. Sabia que te tinha a t-ti e a ela e, enquanto isso continuasse, nada poderia ser mau. Porém, é claro que o mundo teve de intervir. Quando as coisas correm muito bem, tem que vir o universo estragar tudo. Desta vez não foi diferente. Acho que não p-preciso d-de explicar em detalhe. Tu sabes o que aconteceu. A tua mãe teve uma paragem cardíaca enquanto fazia o jantar. Sem m-mais nem menos, a família foi de três para dois. Só tu e eu. E nem imaginas q-quantas noites p-passei sem dormir. Q-Quanta dor senti e culpa por não ter lá estado. Pois é, naquele momento ainda estava no t-trabalho. Isso é que foi a pior parte, de longe. Foi com essa experiência que aprendi, da pior maneira, que deveria ter sempre a família em primeiro lugar. Tch. Como se esse já não fosse o caso. Era essa a mensagem que o universo queria me mandar? Nesse caso, já tinha passado esse requerimento há muito. S-Sinceramente, não entendi o porquê daquilo ter acontecido, especialmente comigo. N-Nunca vos mantive fora da minha cabeça. N-Nunca vos trai ou odiei. No trabalho, vocês eram quem estava SEMPRE na minha mente... Foi nessa de esperar que o mundo me dêsse uma resposta que me decidi. O m-mundo não deveria ser quem me responde à pergunta. Essa p-pessoa tem de ser eu próprio. O m-mundo está a lixar-se para mim. Ele quer lá saber de mim. O MUNDO QUER É VER-ME SOFRER! AH!"
Com toda esta exaltação, a ferida volta a doar. Deve ter sido o grito que despertou esta rajada de dor novamente. O sangue voltou a fluir e a manchar a sua branca camisa. Sempre que se exalta, o sangue torna a fluir e a lembrá-lo que tlvez não tenha muito mais tempo. Os outros dois homens mostram-se visivelmente preocupados e até lhe perguntam se está tudo bem e fazem-lhe pedidos para não se exaltar.
Ner: "Gareth, sente-se bem?"
Quill: "Tente não se exaltar. Caso contrário, o sangramento apenas se intensificará."
Mas ele ignora. Não quer ter de parar por um sangramento. Ali irá dizer tudo o que quer dentro do tempo que lhe resta. Vai morrer e isso não importa para Gareth. Tudo o que importa é que Iza fique a saber a verdade.
O sangue já lhe está a chegar à boca. Só isso? O mundo terá de fazer melhor para o parar. Por isso, Gareth cospe esse sangue para o chão, camuflando-se com o resto do sangue derramado. Não irá parar por nada.
Iza não para de chorar. Chora e faz um esforço para continuar a olhar para o seu pai nos olhos. Ele rapidamente tenta limpar a cara e levanta a cabeça. Vê-se também determinado e pronto a saber o que por aí vem, mesmo que o magoe e o faça chorar ainda mais. Agora que as lágrimas abrandam e Iza aceita aquela espécie de pedido de desculpas do pai, é que se sente pronto.
Bastou ouvir aquelas palavras. Pode parecer idiota, mas elas foram suficientes para o apaziguar. Conseguiram abrandar-lhe as lágrimas e lembrá-lo de que, por muito que ele possa vir a cometer erros, eles são, de certa forma, originados no desejo de fazer o bem. Sabendo disso, Iza fica mais calmo. Tem noção de que a próxima parte da história contém provavelmente o conteúdo mais malvado. E ainda assim, aquelas palavras que o relembraram do passado, vieram como um golpe que lhe trouxe memórias e relembrou-o da fragilidade humana. Como todos os humanos, o seu pai também cometeu erros, contudo estes vieram por amor. E será por amor e carinho pela pessoa que é o seu pai que se decidiu que o ouvirá. Nem que este seja o seu desejo de morte.
Gareth: "Depois da t-tua mãe morrer, vi-me obrigado a dar mais dinheiro a esta família. É claro que o meu trabalho como arquiteto não era suficiente. P-Por isso, procurei arranjar um novo emprego. Um emprego que pagasse melhor. Que pagasse o suficiente p-para me sustentar a mim e, especialmente, a ti, o meu filho. E adivinha? Não consegui. Havia m-muita opção, porém nenhuma se encaixava com as minhas capacidades. Essas opções de emprego podiam até pagar bem, mas eu nunca p-poderia ser c-contratado, pois as minhas capacidades, os cursos que tirei em artes não me deixavam entrar. Q-Que azar. Só por ter escolhido o caminho que escolhi, não poderia ser alguém. Não poderia proteger ninguém. Não poderia proteger-te. Então, r-revoltei-me. Fiquei determinado a encontrar uma forma de ganhar dinheiro e comecei a procurar até por métodos moralmente questionáveis. Esta p-pesquisa e procura levou-me a encontrar num mundo que nunca pensaria entrar. Fui levado a entrar no mundo do crime."
Neste instante, a conversa dá uma grande reviravolta. A vida de Iza fica de cabeça para o ar com uma simples frase proferida pelo seu pai. "Fui levado a entrar no mundo do crime", disse ele. Mundo do crime...
Nunca em dez mil anos teria imaginado algo do género. Nunca em dez mil anos teria querido algo do género. Nunca em diz mil anos se veria numa situação destas.
Bem, teve que vir o dia de hoje para quebrar as suas expectativas. As lágrimas conseguiram parar há bocado, mas mais parece que elas voltarão daqui a pouco. Já esperava que fosse algo mau e inesperado. Esperava que o seu pai se revelasse como um criminoso? Nem pensar.
É claro que não está contente. É claro que não se sente aliviado com a revelação. Pelo contrário, tem um grande nó na garganta de tanto nervosismoe e...medo. Sendo o seu pai criminoso, isso significa que a sua vida estará em risco? E quanto ao seu pai? O assaltante poderia ser um conhecido do trabalho? E aqueles homens sãos seus subordinados? E isso explicaria como é que eles têm uma casa tão boa? E...e...e...e...alguém o ajude, por favor.
Já estava com súor na testa. Com lágrimas a acumularem-se no seu glóbulo ocular. Gareth notou nisso. Deitado como está não conseguirá ter a emoção que precisa para dizer o que quer. Como tal, ele pede a Ner e a Quill, apreensivos e a servirem o papel de espectadores:
Gareth: "Rapazes, podem me levantar?"
Ner: "É claro."
Diz Ner sem hesitação.
Srm mais nem menos, Ner e Quill seguram no chefe. Colocam as suas mãos por baixo do corpo dele e entre o chão molhado de sangue. Então, Ner e Quill exerceram a maior força muscular possível para levantar Gareth. Bem, na verdade, Quill nem precisou de se esforçar muito, pois Ner, com grande facilidade, ergueu o tronco do chefe e ficou a tentar manter a sua posição de tronco erguido, mantendo a sua mão nas costas de Gareth. Quill até se afastou a certo ponto e deixou Ner fazer o trabalho, já que ele é certamente o mais apto para a tarefa em mãos.
Gareth: "Obrigado, Ner e Quill."
Ner: "Sempre."
Quill: "S-Sim, não é preciso agradecer."
Fala, fingindo que cumpriu um papel ao levantar Gareth. Bem sabe ele que o crédito devia todo ir para Ner. Ainda assim, levando em conta que Gareth não viu nada e que Ner apenas se importa com o bem-estar do chefe, ele aproveita para tomar um pouco do crédito para si.
Gareth olha para Iza nos olhos. Agora sim consegue ver bem o seu filho de perto. É aquele rosto que quer ter em mente quando chegar a sua hora. Ele está tão triste. O seu rosto tão molhado e os seus olhos tão vermelhos de tanta secreção de fluídos. Que rosto cansado e nervoso com súor na testa e a escorrer-lhe do rosto. As lágrimas também parecem estar a voltar.
Coitado. Dá-lhe pena ver o seu filho assim. No entanto, ele relembra-se a si próprio da situação em que se encontra. Irá morrer daqui a pouco e quer deixar as suas últimas palavras. Precisa de continuar, mesmo que isso custe o sofrimento do seu filho. Então, tendo olhado bem para Iza, ele volta a abrir a boca:
Gareth: "S-Sabes, eu quando entrei no mundo do crime comecei com coisas pequenas. Uns roubos aqui e ali de comida a algumas lojas e mercearias. Depois, comecei a fazer assaltos. Assaltos l-levaram a ganhar dinheiro e vendo o dinheiro a aumentar e tu feliz com comida na mesa, eu senti que valia a pena continuar. P-Podes insultar-me quanto quiseres, mas era assim que me sentia naquele momento. E, p-por isso continuei. Fiz cada vez mais assaltos e, sem sequer me aperceber, comecei a ganhar reputação na rua e os meus atos começaram a ser noticiados. Quando dei por mim, estava rodeado de outros criminosos que me viam como inspiração. Pessoas como estes dois que aqui vês vieram até mim e pediram a minha ajuda para os ajudar a ganhar dinheiro. A verdade é que eu era melhor a fazer o que fazia do que sequer imaginava. P-Pelos vistos, muitos tentavam e falhavam a fazer o que eu fazia. Devia dever-se ao facto de, como fui arquiteto, sabia sempre os melhores lugares por onde entrar e tinha sempre uma ideia g-geral das infraestruturas. Não, era por causa disso. Nem sei porque questiono esse f-facto. Eles queriam saber os meus métodos. N-Nunca estive diante de tantas pessoas que me admiravam. Imagina a surpresa que foi na altura. Mas, para além da surpresa, vi aquele momento como uma oportunidade. Então, d-disse-lhe algo que até eles se devem lembrar até hoje."
Quill: "Tu disseste: 'Venham comigo se querem ganhar dinheiro. Não, isto será mais do que uma relação transacional, seremos uma equipa, ouviram? Vamos ganhar juntos. Venham se querem fazer parte da Dishonour'."
Respondeu Quill, como se tivesse vivido o momento ontem, numa voz ternurenta e nostálgica. Gareth sorri de nostalgia e rapidamente retoma o discurso.
Gareth: "Exatamente, Quill. Nenhum de nós fazia ideia do que aí vinha. N-Nenhum de nós imaginava que chegaríamos a este ponto. Olha agora para a Dishonour. Tornamo-nos numa organização temida que assaltava lojas. Os nossos s-soldados também tinham habilidades extraordinárias. Aqui o Ner e o Quill d-destacavam-se mais, mas os outros também eram incríveis. M-Mal posso esperar para ver os nossos próximos recrutas. Devem ser tão incríveis senão mais."
Por uns breves momentos os seus olhos ficam vazios. Como se a mente tivesse voltado para dentro e estivesse a contemplar como tem pouco tempo. Morrerá sem fazer muito do que queria e isso deixa-o bastante inquietado. Enfim, não há muito que possa fazer. Talvez seja por isso que não passa muito tempo com esses pensamentos delressivos e volta logo a ganhar vida para acabar o que tem para dizer.
Gareth: "O que interessa é que nos fomos evoluindo e subindo no mundo do crime. D-De uma simples gangue, fomos a uma organização especializada em assaltos. Nós entrávamos em b-bancos, lojas e até em edifícios de dezenas de andares só para roubar. Conseguíamos sempre, graças aos meus truques e segredos específicos que sabia quanto à estrutura de cada edifício. Porém, mesmo c-conseguindo sempre, tínhamos perfeita noção de que o que fazíamos não era completamente moralmente correto. Por isso, fazíamos de tudo para não roubar tudo. T-Tirávamos apenas o que precisávamos para pagar a todos. E mais do que tudo, fazíamos questão de não matar ninguém. Agora, nem sempre essa estratégia funcionou. Algumas g-gotas de sangue foram derramadas no meio disto tudo. Infelizmente, houveram instâncias em que éramos apanhados e viam-nos no meio do ato. Essas f-foram as nossas únicas vítimas, as nossas únicas m-mortes pelas nossas ações egoístas. Mas acho que não importa o que façamos, onde existe dinheiro, há sempre sacanas. Conhecemos t-tanta gente, tantos criminosos com histórias semelhantes. Aqui o Ner e o Quill são testemunhas. Muitos desses outros criminosos eram porreiros e conseguimos até formar boas relações com os líderes das suas g-gangues como o Reyner, por muito que ele tenha uma personalidade meio explosiva, porém, os restantes são apenas idiotas que se importam com o dinheiro. Este assaltante da vez era capaz de nem ser um c-criminoso pertencente a outra gangue, contudo ele veio por algo. Mais te digo: garanto-te que ele é apenas um idiota. Um idiota que não vale a pena receber a n-nossa atenção. Digo-te isto como uma espécie de pedido, ouviste? Aconteça o que acontecer, não vás atrás dele à procura de vingança. T-Tens algo mais importante em mãos, filho."
Iza olha-o com estranheza. A que é que ele se refere? As coisas ficam mais esquisitas do que aprentam. Quando teve uma das suas dúvidas respondidas e, consequentemente, a sua cabeça explodida, vem outra questão para ocupar as outras cinco que tinha. Já é bom sinal. A pilha está a diminuir cada vez mais.
Ouvia aquilo tudo com grande dificuldade em engolir tudo, não por ser complicado, pois o seu pai explicou tudo muito bem e pausadamente, mas porque não quer aceitar a realidade. Sim, sabe que o seu pai afinal não é a boa pessoa que imaginava e que ele lhe esteve a mentir e, ainda assim, recusa-se a aceitar tudo isto. Por muito que saiba que tudo o que lhe entra no ouvido é verdade, simplesmente não quer admitir que aquilo é a realidade porque gostava como as coisas estavam anteriormente e não queria que mudassem. No entanto, após ouvir o que vai ouvir, a sua posição rapidamente muda:
Gareth: "Iza, eu sei que não durarei muito mais tempo. Por isso, quero aqui deixar o meu desejo de morte: por favor, lidera os meus homens por mim. Imploro-te que continues o que comecei e que dês aos meus homens uma razão para continuar neste estilo de vida. Por favor, é a única coisa que te peço."
...
...nem ele acreditava.
...foi um pedido tão inesperado que viu-se obrigado a acritar a realidade em que se encontrava, quer gostasse ou não.
...como é que isto é possível?
...como é que o mundo consegue dar tantas voltas em tão pouco tempo?
...mais importante, o que é que lhe responde?
Há pouco ainda nem aceitava que tudo o que ouvia era a realidade. Agora, tem que aceitar isso. Não, é mais. Tem de aceitar isto e de fazer a sua decisão. O seu pai precisa de uma resposta.
O problema é que ficou sem palavras. Nem sabe o que dizer. Neste instante, aceitando que vive numa realidade em que o seu pai é um criminoso, ele entrou em estado de choque. O súor desapareceu. As lágrimas evaporaram. O momento foi o que restou. Tudo se resume ao presente. Ao presente e à sua decisão.
Ner e Quill são apanhados de surpresa. Já sabiam que, com a morte de Gareth, necessitariam de outro líder. O que nunca imaginaram é que ele fosse escolher Iza como seu sucessor. Eles sabem que Iza é o seu filho, mas será mesmo a pessoa certa para este trabalho? Quer dizer, estamos a falar de alguém aparentemente sem experiência neste mundo do crime. O rapaz nem deve ter maturidade para cumprir um papel de tamanha importância naquela organização.
Independentemente dos desejos de Gareth, Ner e Quill, quem teria que decidir era Iza. Ele é que tinha todo o poder em suas mãos. A questão ficou para ele responder: irá seguir os desejos do seu pai ou irá negá-lo, mesmo no leito de morte?
O tempo conta. Segundos passam como se não fosse nada. É tudo às pressas. E esta escolha não será diferente. Também terá que ser às pressas. O tempo é algo precioso e que está em falta em todos os momentos, inclusive neste.
A escolha que tem em mão não poderia ser mais complicada. Como se já não bastasse, ainda a teria de fazer nesta circunstância tão confusa e num intervalo de tempo tão curto. Não poderia estar pior. Não poderia haver pior momento e situação para fazer uma decisão que irá decidir o rumo da sua vida. E só de pensar que tudo isso seria decidido com uma frase em pouco tempo...
Tem duas opções. Ou recusa e tenta viver uma vida normal como a que tem feito agora, mas sabendo que, com o conhecimento que tem, nunca mais encarará o mundo da mesma forma. Ou aceita e torna-se num criminoso para o resto da vida, destinado a roubar, magoar e até matar para sobreviver. Sinceramente, nenhum dos dois é ideal. Afinal, se for criminoso terá de viver sabendo que pessoas foram sacrificadas para que ele e os seus subordinados conseguissem sobreviver. Porém, se recusar, sente que viverá de mente pesada, sabendo que existem pessoas por aí a fazerem atos terríveis em nome do seu pai. Já para não falar que deve se sentir culpado de qualquer forma, pois até neste caso ele ficará com um peso na consciência por saber que as coisas poderiam ter sido diferentes se tivesse aceite a proposta, talvez aí, ninguém se tivesse magoado, talvez também não tivesse decepcionado o seu pai no seu próprio leito de morte.
Tem duas opções e pouco tempo. Nenhuma das opções presta e sente-se pressionado pelo seu pai e capangas a decidir. Qual das duas? Qual delas deve decidir? Que rumo deve dar à sua vida? Prefere uma vida de crime com sangue e morte ou uma vida secante onde sentirá culpa por não ter ajudado o seu pai no seu leito de morte e por estar a deixar tantas pessoas a morrer nas mãos dos capangas do seu pai?
Vamos. Respira fundo. Conta até três. Isso ajuda a clarear a mente e a decidir em situações de pressão como esta. Cumpre exatamente cada passo e continua sem nada. Ok, calma. Vamos pensar nisto com a calma que é preciso. Só é uma decisão que vai decidir o seu futuro. Ai! Porque é que tem de ser tudo tão complicado? O dia de hoje subitamente tornou-se no dia mais importante da sua vida. Ora aí está algo mais inesperado do que até mesmo a situação em que se encontra.
Os olhares de Ner e Quill ficam mais acerrados quase que ameaçando Iza e apressando-o a tomar a decisão. Parecia um olhar que dizia: "tens 10 segundos". Pelo menos, foi o que Iza interpretou. E decidiu seguir este ultimato inventado à risca. Preferiu dar um limite a si próprio. Acredita que, assim, não deve irritar ninguém e deve ser o suficiente para dizer a sua escolha antes que o seu pai piore. Ok, 10 segundos será.
O tempo está a contar e a dua mente a fazer de tudo para encontrar a melhor resposta. Ele procura no fundo da sua mente algo que o possa ajudar a determinar qual a melhor opção. Iza procura arranjar um argumento absoluto que vença os dois e o ajude a escolher com certeza a melhor opção dentre as duas.
Um segundo.
Dois segundos.
Raios. O tempo está a passar mais rapidamente do que esperava. Terá de se apressar. A sua cabeça, porém parece começar a chegar a algum lugar. Pode não ser o nelhor destino, mas parece estar a decidir-se. Isso já é melhor do que nada. Tem mais oito segundos para se decidir.
Três segundos.
Quatro segundos.
Cinco segundos.
Mais três segundos se foram. Está a ficar apertado. Ainda menos tempo tem. Sente que está cada vez mais próximo. Cada vez mais próximo de chegar à resposta. Acha que já a encontrou. Basta alcançá-la, mas é bom que não se demore. Sabendo disso, Iza vai a toda a velocidade para chegar à resposta. não está muito longe e talvez dê para lá chegar. Só mais outros cinco segundos e terá de ter uma resposta.
Seis segundos.
Sete segundos.
Dois segundos foram-se. A resposta está ao seu alcance. Iza só está a nadar na sua direção como tem feito. Vai na correria a tentar alcançá-la dentro do tempo limite. Pode vir um pouco apertado e não sabe se sairá a tempo. Já está perto e só precisa de mais um pouco. Não, enquanto o tempo não chegar ao fim ele também não desistirá. Faltam três segundos.
Oito segundos.
Nove segundos.
Está ali. Mesmo diante dos seus olhos. A resposta que tanto procura. Nem tem tempo para a contemplar. Ele simplesmente estende a sua mão para a frente tentando apanhá-la. É aquilo que quer. É a única coisa boa em que conseguiu pensar. Sem muita opção, pois as duas opções são terríveis, Iza escolheu a que achou menos terrível. Essa é a sua resposta. Será ela que escolherá. Será agora que alcançará, com um segundo restante.
...
...
...
De tanto tempo a estender a mão...
A resposta adiante fica cada vez mais perto. A um metro dos seus dedos. A meio-metro dos seus dedos. A centímetros dos seus dedos. Tudo diminui até que é feito o primeiro contacto. Então, com as pontas dos dedos na resposta, ele alcança-a e, voltando à realidade, diz, com determinação e seriedade, a sua decisão:
Iza: "Sim. Eu continuarei o teu negócio. Vou tornar-me o líder desta gangue. Assim, poderás ver-me a continuar o que começaste e poderás descansar feliz, sabendo que o teu legado, por muito que seja moralmente duvidoso, continuou e estará maior do que nunca. Confia em mim pai, prometo que te orgulharei."
...
...
...
Outra vez em silêncio. Outra vez sem palavras. Gareth sentia orgulho de ver o seu rapaz ali a tomar a decisão. Ficou ainda mais feliz de vê-lo a tomar a decisão que mais queria. Não lhe levem a mal, ficaria satisfeito só pelo seu filho tomar uma decisão, afinal era uma escolha bastante complicada que ele tinha de tomar com tanta pressão em cima dos seus ombros. Porém, saber que ele tomou uma decisão e ela ainda coincidiu com os seus interesses, apenas o deixou muito mais feliz.
Ner nem sabia o que pensar. Por um lado achava muito prematuro um jovem liderar aquela gangue, especialmente Iza que nem tem experiência com o mundo do crime. No entanto, sente que também pode ser prematuro julgá-lo agora, quando nem viu nada dele. Quem sabe, ele pode ter jeito para a coisa e, para Gareth o escolher, é porque sente que, para além dele ser seu filho, é um rapaz com potencial e que pode levar a organização a lugares onde nunca foi.
Quill é que se deixou levar pelos preconceitos que já tinha. Já não tinha ficado com uma boa impressão de Iza, por se mostrar lento a entender a situação em que se encontra e por mostrar dificuldade para se manter calmo em situações de estresse. Se ele já é assim, então nem quer imaginar como é que ele será em situações onde se vê obrigado a matar alguém. Nem quer imaginar como é que ele reagirá a isso. Deve começar a adiar tudo e a criar desculpas para não cumprir o dever que tem como líder. Para Quill, não poderia ter havido pior escolha e mostra-se preocupado com o futuro da "Dishonour". Confiem em mim quando vos digo que, se este não fosse o pedido de morte de Gareth, já tinha saído da organização quando ouviu que Iza ia ser o seu sucessor.
Como podem ver, existem mesmo reações diferentes a cada situação. Gareth sorri e permanece orgulhoso. Ner cético, mas aberto às possíveis novidades que Iza possa trazer e Quill nega completamente a decisão e julga tudo ser uma parvoíce. Gareth apercebe-se disso, mas não fica lá muito triste. Primeiro porque a felicidade vence e porque também já previa algo do genero. Bem, ainda tem algum tempo e, por isso, sente que ainda pode dizer algumas coisas.
Gareth: "F-Fico feliz por teres tomado a decisão que tomaste, filho. Tenho a certeza que irás ser um bom líder. Tu és um b-bom rapaz, mas mais do que tudo, és meu filho. Tu és astuto como eu. Tu és bom a memorizar coisas como eu. M-Mais do que tudo, tu és capaz de agir bem sob pressão e acho que conseguiste p-provar isso agora. Mas quero dizer-te que esta vida não é fácil. Verás pessoas a morrer, m-muitas delas são pessoas que te são queridas. Espero que esse momento não chegue, mas t-tu também podes ser levado a matar pessoas que te importas só p-porque elas te trairam ou não te r-respeitam. Por isso, peço-te que te dispas de qualquer sentimentos e interesses pessoais. Isto é um negócio onde t-tudo o que importa é fazer dinheiro e, para isso, t-terás de fazer sacrifícios. Não importa o preço, apenas tens de fazer o que tens de fazer, de modo a cumprir o teu objetivo. Isso é tudo o q-que importa, no final do dia. Essa é a vida que terás de viver a partir de agora. Espero que leves isso em consideração, Iza."
O seu filho, com o rosto ainda um pouco molhado, ouviu tudo seriamente. Ficou com uma ideia maior do quão complicada é a vida que está a entrar. Esta foi a sua decisão e agora entende as implicações dela. Percebe, acima de tudo, que este mundo em que está a entrar é muito mais perigoso que imagina. Contudo, já é tarde demais para mudar. Já se tinha decidido há muito. Por isso é que ele simplesmente acena com a cabeça e responde:
Iza: "Sim, pai. Ficarei com isso em mente."
Gareth: "Ah. Ainda bem."
Diz, expirando antes de algo dentro de si mudar. Pois, subitamente...
Gareth: *Cough* *Cough*
Gareth começa a tossir. E não é uma tosse normal. É mais intensa e parece vir como consequência de algo: a bala no seu peito. Trata-se de uma tosse que vem com algo a mais: sangue. Fluído esse que salta para fora do seu corpo com cada impulso dado pela contração dos seus pulmões. Esse foi o sinal que levou todos ao choque e que deu início à sua morte.
Ner: "Gareth!"
Quill: "Vá lá, aguente! Ajuda está a chegar."
Os seus dois subordinados preocupam-se ao ver o sangue a sair do seu peito com uma quantidade nunca antes vista. Parecia um vazamento que não podia ser tapado e que continuava a verter. Mesmo se a ajuda chegasse, acho que seria tarde demais. Gareth já tinha aceite esse facto. Os seus subordinados parcialmente. Mas Iza...só agora é que teve de se deparar com esse facto.
Iza: "Pai?"
Pergunta, não acreditando no que via. Nesse momento, começou a imaginar o que aí vinha, mas queria ter a certeza que estava a presenciar precisamente o que imaginava.
Gareth: "N-Não te p-preocupes. A m-minha hora está a c-chegar."
A sua voz nunca esteve tão trémula. A sua boca estav cheia de sangue que veio com a tosse. O seu peito tão cheio de sangue que a sua camisa banca estava quase toda vermelha. Ele dizia que estava tudo bem só para acalmar o seu filho. Não queria que ele o visse assim tão vulnerável.
Claramente a estratégia não funcionava, pois Iza estava mais estressado do que nunca. E dizer isso relativamente ao dia de hoje é uma grande conquista. O miúdo simplesmente não consegue ter uma pausa. A este ponto, o seu coração não aguenta e irá explodir.
Foi neste momento que percebeu que o seu pai iria morrer. Foi por isso que as lágrimas voltaram a toda a força e começaram a escorrer pelo seu rosto com um percurso semelhante ao de antes. Foi por isso que não aguentou e chegou-de ainda mais perto do seu pai e chegou mesmo a pôr a sua mão em cima do peito ensaguentado do seu pai. Foi por isso que não se conteve e, sem hesitar, foi manchar a sua mão no sangue de Gareth.
Precisava de lhe tocar uma última vez. Queria sentir o seu calor uma última vez. Queria que o sangue dele os unisse uma última vez. Queria ouvir a sua voz de perto uma última vez. Queria olhar para aquele rosto velho e cansado do seu pai...uma...última...vez.
Gareth: "N-Ner, p-podes l-largar-me. Q-Quero que o I-Iza m-me s-segure, u-uma ú-última v-vez."
O subordinado nem questiona. É a hora da sua morte. Uns dos seus últimos desejos. Seria insensato sequer questioná-lo. Por isso, ele deixa de manter o seu tronco erguido e passa essa tarefa para Iza que rapidamente se põe na mesma posição e, exercendo toda a força no seu corpo, com dificuldade, consegue continuar o trabalho. Já Ner e Quill levantam-se, dando espaço para uma conversa entre pai e filho.
Iza: "Não, pai. Aguenta. O homem disse que a ajuda está a chegar. Só mais um pouco."
Diz-lhe, desesperadamente, enquanto chora, com a mão coberta do sangue do seu próprio pai ainda sobre o seu peito.
Gareth: "N-Não. Ainda d-devem demorar. J-Já se p-passaram 10 m-minutos e n-nada. S-Só me r-resta a-aceitar o m-meu d-destino."
Responde, com sangue a gaguejar-lhe as falas, não o permitindo sequer formar uma frase completa normalmente. Nem no seu leito de morte consegue falar.
Iza: "Não, não, não, não, não. Por favor, aguenta. Faz-me esse favor. Só mais uma vez."
...não sabe porquê. Gareth gostava de saber porquê. Mas estas palavras vindas do seu filho mexem consigo de uma forma...
De que é que está a pensar? É capaz de ser por estar a morrer que não pensa nada com nada e que a sua visão fica mais pesada. No entanto, aquelas palavras fizeram-no chorar. Mexeram consigo de uma forma que nem achava ser possível.
Que...que...que estranho. Talvez seja porque se lembrou que, por muito velho que estivesse, ainda queria fazer muito. Ou talvez porque se lembrou que queria passar mais tempo com o seu filho. Ou então...talvez...talvez tenha sido...não, foi porque...porque se lembrou que não consegue deixar o seu filho feliz nestes seus últimos momentos. Fez tudo para o agradar durante toda a sua vida, tudo para agora o decepcionar.
Iza: "Por favor. Anda! Vamos passar por isto juntos e...e...no fim...tu vais sobreviver. Sim, vai tudo ficar bem, pai."
Neste ponto já está desesperado. Sabe o que aí vem. De novo, não quer aceitar esse facto. Até está a chocalhar o corpo do seu pai, a balançá-lo numa tentativa de o manter neste mundo por mais um pouco. Só por mais um segundo. Por mais um milisegundo. Por mais um-
Gareth: "P-Podes p-parar."
A fraca vos dos eu pai para-o. Ela parece fazer-lhe um último pedido. Como se estivesse a usar a última força que lhe resta para lhe dizer só mais uma coisa. Sabendo que o seu pai vai falar por uma última vez, Iza para e abre bem os ouvidos. Por isso, quando a sua boca repleta de sangue é aberta, Iza cala-se para ouvir as últimas frase de Gareth:
Gareth: "É a-assim q-que t-tudo acaba. Q-Quero q-que s-sigas em f-frente. V-Vai e t-torna-te um l-líder m-melhor do que eu. S-Sai p-para a r-rua e v-vive a v-vida c-com os t-teus amigos. D-Dá-lhes v-valor e f-fala com eles o q-quanto c-conseguires, p-pois n-nada n-neste m-mundo d-dura p-para s-sempre. N-Não l-leves i-isto c-como um d-desejo d-de m-morte, m-mas m-mais como um c-conselho, ok?"
Iza acena com a cabeça uma última vez. Não falaz opta por dizer tudo sem abrir a boca. Fez bem assim. Olhando para trás, essa foi a melhor opção que podia ter feito. Não dizer nada.
Então, neste clima de puro silêncio, Gareth finalmente tem um clima perfeito para descansar. Nos silêncio. Puro silêncio. Ner, Quill e Iza não falam. É isto o que Gareth quer ouvir: nada. Só o silêncio. Sem ouvir os carros de fora a passar. Quer dormir pela primeira vez em calma.
Chega a dar-lhe vontade de dormir. Os seus olhos ficam mais pesados do que nunca. Sente o seu coração a desacelerar e a cabeça tonta. Tonta? Deve ser de ter perdido tanto sangue. Mas não importa. Desde que consiga dormir, as tonturas desaparecerão. Certamente não voltarão quando tornar a acordar.
Gareth: "Ah. F-Finalmente. Paz."
Então, neste clima hipnotizante, ele fecha os olhos. Deixa-se levar pelo som do nada. O som do vazio. O som do outro lado. Está a chamá-lo. É hipnotizante. Sim, é para aí que vai. É aí que encontrará a paz.
Sim. Vai descobrir agora mesmo. Vai ter com a sua mulher. Finalmente deixará de estar triste, pois sabe que deixiu um bom sucessor seu no mundo real. Mal pode esperar para informar a sua mulher que o seu filho tornou-se num homem.
Finalmente, morrerá satisfeito por saber que o seu filho tem um futuro brilhante em frente. Gareth Ingram morre sabendo que sempre conseguiu deixar comida na mesa para o seu filho.
Com um sorriso no rosto ele ascende. Com um sorriso no rosto que diz: "Obrigado por me ajudarem a passar por tudo. Uma última vez, muito obrigado pela vossa ajuda e amor. Obrigado, por me mostrarem que não se deve esperar para que as coisas boas aconteçam. Obrigado por me ajudarem a enfrentar todos estes problemas. Por isto e por todas as coisas que não tive tempo de vos agradecer, digo-vos: muito obrigado."
...
...
...
Iza: "..."
Ner: "..."
Quill: "..."
O silêncio permanece mesmo após as últimas palavras de Gareth. Até porque todos estão a chorar. Ner, Iza e mesmo Quill que usa os óculos para esconder os seus olhos. Lágrimas é que reinam o clima.
Com as últimas palavras de Gareth qualquer um se sentiria movido. Principlamente as pessoas que lhe são próximos como aqueles três sentir-se-iam compelidos a chorar. E foi exatamente isso que aconteceu.
Todos, sem excepção estavam tristes e com lágrimas no rosto. Alguns até com um nó na garganta, como Iza e outros com apenas uma dor no coração, como Ner. Já outros tinham...raiva no coração?
Quill misturava tristeza e raiva. Triste por ver o seu chefe que tanto adorava a morrer e com raiva por ver que seria o seu filho idiota a tomar o seu posto. Raios. Desta vez, aquele puto tem sorte. Não se sente com vontade para lhe pregar um sermão. Mas é bom que ele tente ser alguém bom.
É bom que o miúdo se deixe de sentimentos e interesses e, no geral, siga os conselhos do seu pai. Pois este mundo, este papel que irá cumprir é um muito importante. Ele liderará centenas de homens com as suas famílias, desejos e sonhos. Se ele hesitar em tomar a melhor decisão, por muito que ela seja moralmente incorreta, então não o perdoará. Deixará logo esta gangue. Por enquanto só resta ver.
*Wiiu*
*Wiiu*
São as sirenes da ambulância. Agora é que chegam? Já se passou 1 minuto desde que Gareth morreu. Morreu mesmo na praia. Se ele tivesse aguentado mais um pouco, talvez ainda estivesse vivo. No entanto, ele não parecia ter intenção de permanecer vivo. Que seja.
Enfim, com o som das sirenes, todos os três são tirados do estado depressivo, pensativo e melancólico em que se encontravam. Ainda assim nenhum queria se mexer. Nenhum deles queria ir tratar de falar com os médicos. Alguém tinha de se voluntariar. E calhou que foi Quill a voluntariar-se.
Quill: "Eu vou falar com os médicos."
Informa-os em voz alta, limpando as lágrimas do rosto.
Ele começa a mover-se na direção da porta do escritório. Para aí por um pouco. Como disse, não poderá dar-lhe hoje um sermão, mas não o vai deixar impune. Não, quer deixar claro o que acha dele e quer dele. Iza vai aprender se ouvir esta palavrinha que ele tem para lhe dar.
Quill: "É bom que sigas as palavras do teu pai, Iza. Juro que se eu te vir a hesitar em escolher e a agir nervosamente como hoje, sairei desta gangue. Terás que te tornar um monstro para fazer parte da 'Dishonour'. Caso contrário, não sobreviverás neste mundo em nenhuma realidade."
Tendo dado o seu conselho com uma fina película de ódio a cobrir, ele então decide sair do escritório, encostando a porta. Vai com raiva daquele miúdo ter com os profissionais de saúde que o aguardam. Raiva. Mal sabia ele que essa raiva seria bem justificada no futuro. Mal sabia que, dentre todos, ele foi o mais visionário.
Restou Iza e Ner. Iza ainda segura o corpo do seu pai. É como se ele se recusasse a deixá-lo ir. Não, ele ouvia tudo. Estava apenas a contemplá-lo uma última vez antes de o levarem. Sim, ele ouviu Quill. Ner achava que não, mas, então, quando Quill já tinha saído do escritório, ouviu a voz do rapaz.
Iza: "Aí é que te enganas. Esta não é a 'Dishonour'."
Como? Ner ficou intrigado e saiu um pouco da tristeza. Ficou com curiosidade para saber o que ele queria dizer com aquilo. Nem se conseguiu impedir, pois, quando deu por si, já lhe tinham saído as palavras da cabeça.
Ner: "Como assim?"
Iza lentamente vira a sua cabeça para encarar Ner. Ele olha-lhe nos olhos e diz com toda a seriedade as suas intenções:
Iza: "Não conseguirei seguir os mesmos passos que o meu pai. Seguirei os seus conselhos, mas não o conseguirei copiar. Até porque nem ele me disse como o fazer. Por isso, vou fazer as coisas à minha própria maneira. Isto já não será a 'Dishonour', será algo diferente."
Enquanto fala, ele vai deixando o seu pai no chão. Lentamente vai o pousando até o deixar deitado no chão a descansar. Quando chega a esse ponto, acaba de falar e levanta-se para falar ao mesmo nível de Ner.
Se bem que, quando se levanta, percebe que a diferença de altura entre os dois não poderia ser maior. Ner é um gigante. Contudo, isso não importa para nenhum dos dois. Ner, então, fica ainda mais intrigado e percebe que Iza está mesmo determinado a levar a sua avante. Como tal, ele pergunta-lhe com toda a curiosidade e intriga do mundo:
Ner: "E que nome é que estás a pensar dar à organização."
Iza olha Ner rapidamente nos olhos e responde-lhe:
Iza: "Ainda não sei, mas tenho de me decidir. O que não falta é tempo."
Tendo respondido à pergunta e decidido o rumo que ia tomar, Iza não gasta nem mais um segundo dentro daquela sala. Ele decide que já fez tudo e simplesmente anda para fora dali.
Iza passa por Ner e vai para fora do escritório. Sem olhar para trás. Sem olhar para Ner. Apenas a olhar para a frente com os olhos a mirar no futuro, mas...com mente no passado.
O seu exterior não coincide nem um pouco com o exterior. Embora estivesse a fazer-se de duro, lá no fundo, estava a chorar. Poderia esconder, mas isso era a realidade. O seu corpo fingia superar o passado, mas, na mente...a mente nunca esquece.
Ner olhava-o pelas costas, a sair dali com o seu andar lento. Olhava-o como se soubesse de algo. Ele não é muito inteligente, mas aprece ter percebido algo. Algo que nem Quill teria percebido talvez. Ner conseguiu perceber que Iza mentia a si próprio. Percebeu que ele, por muito que fingisse, não tinha superado a morte do seu pai. Não, ele talvez nunca o conseguisse fazer. E não podia estar mais certo.
No fundo, o Iza que andava na direção da saída de casa tinha algo a esconder. Parecia durão e sério, mas, se alguém o visse pela frente e não pelas costas, perceberia que ele não se encontrava bem. Não, ele estava a chorar.
A escorrer-lhe da bochecha via-se uma lágrima que mostrava que o seu interior verdadeiro, por muito que tentasse supri-lo, acabava sempre por vencer. Tanto que não conseguiu vencer a si próprio. Não conseguiu impedir a lágrima. Não importa o quão grandiosos sejam os seus esforços, isso é algo com que sempre terá dificuldade.
O passado. Nem ele sabe o adversário que se mostrará. Por enquanto, ele tenta enganar-se a si próprio, sem sucesso. E quando vai ter com Quill no lugar das ambulâncias, apenas faz questão de limpar a lágrima.
Só para manter a imagem por mais um pouco. Agora não pode ser só normal. Tem de ser um homem que não teme. Tem de ser alguém capaz de tomar sempre a melhor decisão sem hesitar. Tem de ser o líder desta organização que será sua. Para orgulhar o seu pai, terá de se tornar anormal, terá de se tornar um monstro.
*Pant*
*Pant*
*Pant*
Felizmente, o cansaço veio trazê-lo de volta ao presente. Ainda bem. Já não aguentava mais um segundo a lembrar-se do passado. Espera que por hoje não fique com mais nenhuma onda de nostalgia.
Pede isso para o seu bem. Pede isso, pois ele sabe que sentimentos este tipo de memórias lhe trazem. Sabe que o passado não lhe traz nada bom. Tem a certeza que é lá que toda a tristeza está e, relembrar-se do que já aconteceu, apenas o fará mais triste do que já está.
*Pant*
*Pant*
*Pant*
Ofegante, Iza encontra-se parado. Com o tronco levemente inclinado para a frente e mãos nos joelhos a tentar recuperar fólego. Respira e expira pesadamente pela boca. Sim, esse é o nível de cansaço em que se encontra.
Esteve a correr pelos últimos 7 minutos. Passou por blocos, quarteirões e bairros inteiros só para chegar ao local que queria antes da noite chegar por completo. Tudo isso enquanto as memórias do dia da morte do seu pai reproduziam no fundo da sua mente.
*Pant*
*Pant*
Já não bastava o esforço físico que fazia, ainda teve de fazer um esforço psicológico para não chorar. Só de estar a correr que nem um maluco levantava suspeitas, mas se em cima disso ainda estivesse a chorar, então alguém com certeza lhe perguntaria se ele estava bem e isso causaria atrasos. Iza fez de tudo para chegar o mais rápido possível ao destino com o mínimo de interferências possíveis.
*Pant*
*Pant*
Foi difícil e custou muito, mas conseguiu. Conseguiu passar por toda a memória sem chorar. Conseguiu chegar onde queria e a horas. Hum. Talvez ter se lembrado daquele momento nem foi assim tão mau. Fez com que se lembrasse do porque é que faz o que faz. Relembrou-o também do porquê de ele fazer o que está prestes a fazer. Faz sentir-se menos culpado pelo que vai fazer agora.
*Pant*
É tudo pelo seu pai. Sim, tudo em sua memória. Enquanto usar isso como desculpa está tudo bem. Tudo bem. Tudo por ele. Tudo é em nome do seu pai. Tudo o que faz é por amor, tal como Gareth fazia na época.
Iza: "..."
Parece já ter recuperado o suficiente. O homem ergue o tronco e endireita-se. De volta a uma posição normal, ele encara o que se encontra à sua frente: a casa de Damian.
É aí que vai. Está mesmo à frente da pequena escadaria que leva à porta. Iluminado pela lua da noite que começa a ascender, Iza prepara-se mentalmente para o seu próximo ato. Basta fazer o que tem a fazer. À medida que ele tira a pequena faca do bolso, vai ficando mais nervoso. Mas não. Nada de nervosismos. Quill já o criticava por isso. Afinal, lá dentro, só tem um obstáculo e esse obstáculo é um miúdo.
Jeff: "..."
O rapaz acabava de escrever os seus apontamentos de hoje. Não foram informações novas. Apenas desabafos sobre como simplesmente não consegue se esquecer da dor daquele dia e sobre como o dia de amanhã pode vir a ser o seu último.
Não. Mais do que ser pessimista tem de acreditar. Ele relembra-se a si próprio que precisa de esperar pelo melhor e de descansar bem hoje, pois, amanhã é que precisará de força para enfrentar isto sozinho. Para enfrentar aquela criatura, a doença que continua a atormentá-lo. Aquele vírus...
O seu pai é bondoso demais, trabalhador demais para saber disto. O seu pai não merece enfrentar este tipo de problemas. Já para não falar que...não quer perder mais ninguém.
Quando escreve a última palavra, ele pousa a caneta em cima da mesa de cabeceira. Hoje a sua mão nem está lá muito cansada. Deve ser porque não tinha muito para escrever. Foi um dia sem novidades e cujos apontamentos consistiam em desabafos. Era isso o seu caderno a este ponto, puro pensamento e desabafos.
Jeff: "Ah."
Satisfeito por hoje, Jeff deita-se na cama e deixa-se envolver no silêncio que estava a casa. Vai ficar lá um pouco. Ainda por cima ninguém o inquieta e não consegue ouvir nada. Está mesmo bom para se deitar. Gosta sempre de fazer isso depois do seus apontamentos diários e hoje não será diferente. Só um pouco.
Quer ficar lá só um pouco para se ouvir a si mesmo. Quer ficar lá só um pouco para ponderar na estratégia para amanhã. Tem de ficar de luz acesa a noite toda e nem ele sabe se a luz o conseguirá parar amanhã. Ele deverá ficar com imunidade à luz de tão forte que se tornará.
É assustador só de pensar e nem lhe vai permitir dormir. Ok, é melhor esquecer. Nunca vêm coisas boas deste tipo de pensamentos. Por isso, tranquilize-se e fique tranquilo, nem que seja pelo dia de hoj-
*Prash*
Um barulho de algo a partir pode ser ouvido e com o susto súbito Jeff levanta-se no stresse e instintivamente pergunta assustado:
Jeff: "Quem está aí?"
Porém...
...
Nada. Só o silêncio de antes.
...
O que foi aquilo? Jeff quer acreditar que foi só um barulho de lá de fora, embora não tenha parecido. Não, o som era demasiado perto de casa para vir de longe. Percebendo isso, o sentimento de medo fica ainda maior.
...
Pensando melhor, aquele som parecia...talvez esteja a imaginar mas...aquele som...parecia um vidro a partir-se. Vidro. Onde é que há vidro na casa? Há na janela do seu quarto, mas o som não estava assim tão perto. Isso deixa-o com duas opções. Ou é a janela da cozinha nas traseiras ou é a janela da frente da sua casa.
O quarto de Jeff tem visão para a entrada e o som do vidro não vinha debaixo de onde se encontrava. Com todas estas suposições e trabalho investigativo feito por puro terror, no momento, ele pensa ter chegado a uma conclusão. Sim, não há dúvida. O som veio da zona da cozinha.
Com mais medo do que possa ter sido, Jeff vai até à entrada do quarto e fecha a porta. Naturalmente, aquele rapaz esta assustado. Porque parece que tem de viver a vida inteira com medo. Porra. Já está a respirar rapidamente com tanto medl. Da mesma forma quando vê o monstro, mas é isso que o lembra que está a agir mal.
Jeff já encarou pior. Todos estes dias, por um ano. teve de enfrentar um monstro que o vinha visitar e ainda fica com medo de um barulho vindo da cozinha. Por favor, pensava que conseguia melhor. Considerava-se capaz de melhor e de encarar até as criaturas mais temidas. Mas talvez tenha sido demasiado ambicioso. Talvez tenha sido demasiado arrogante da sua parte.
Hunf. Arrogante. Não. Isto não é nada. Se comparado ao que tem vindo a apssar neste último ano, aquele barulho deve ser apenas uma mera brincadeira para crianças. Pois é. Não precisa de ter medo de nada depois do que passou. Especialmente de um barulhinho.
Por isso, Jeff despe-se do medo que tem e relutantemente abre a porta. Ainda se mostra hesitante, mas isso é apenas por precaução, deixou de ser por medo. Com a porta aberta, Jeff tem ali a escolha. Ou sai e vai ver o que se passa ou fica acobardado no quarto.
Depois daquele discurso que deu a si mesmo acho que a resposta está óbvia. Vai tomar a decisão digna de um rapaz sem medo. Tendo a certeza quanto ao que fazer, em passos lentos e leves, Jeff põe-se para fora do quarto, daquele casulo e vai até às escadas.
*Pirrrrrrrrr*
Os degraus das escadas começam a ranger. Desde que se lembra eles nunca fizeram tanto barulho. É capaz de este ter surgido devido ao silêncio instaurado no ambiente. Afinal, o silêncio torna tudo, até mesmo o imperceptível, em audível. Logo, o som do ranger sempre esteve presenta, o silêncio apenas o realçou e tornou-o audível.
*Pir*
*Pir*
E o som apenas continua. Com cada passo que dá, os degraus continuam a ranger. Ainda por cima agora que acelerou o passo a descer as escadas o som vem desaparece.
*Pir*
Vem e...
...
*Pir*
*Pir*
Jeff continua a descer os degraus. Neste ponto, encontra-se a meio ponto das escadas. A cada passo que dá, o piso de cima deixa de lhe tapar a visão do piso de baixo e consegue ver cada vez mais da sala de estar junto à entrada. Por exemplo, agora, consegue ver a mesa com a televisão que está mesmo junto à parede da escadaria. Vê também, mais ao fundo, a porta.
*Pir*
*Pir*
Desceu mais um pouco. Já consegue ver o tapete que passa por cima do sofá. Por falar no sofá, não consegue ver muito dele. Apenas um pouco do lado direito do sofá que está virado para a televisão. Do lado esquerdo não consegue ver nada. A parede do piso de cima ainda lhe tapa a visão. Não faz mal. Só mais dois passos e estará a mais de metade. Ou pelo menos assim acredita.
*Pir*
*Pir*
Então, ele dá os fatídicos dois passos e finalmente fica a ver a outra metade do sofá. Não, na verdade, ele fica a ver praticamente toda a sala. Era isso que queria. Porém, agora arrepende-se de ter desejado algo do género.
Jeff ansiava ver a sala de estar e a zona da entrada por completo só para se aliviar a si próprio que, pelo menos, ali, não havia nada de estranho. Contudo, o que lhe devia tranquilizar, na verdade, tornou-o mais estressado. O que ele viu não foi sinal para relaxar. Foi sinal para se preocupar.
Vendo o que viu ele para mesmo naquele degrau. A 3 degraus de chegar ao andar da entrada. E ele decide parar mesmo perto do fim. Tudo graças àquilo que viu. Não, a quem viu sentado no sofá da sua sala de estar.
Lá estava um homem. Parecia ter a idade do seu pai. Cabelo loiro e barba existente, mas pouco farfalhuda ou crescida. Vestia um casaco de couro negro que tapava a camisa branca que tinha debaixo. Seja quem ele fosse, ele parecia demasiado tranquilo. Tranquilo demais para quem invadiu a casa de alguém. Será que ele estava bem da cabeça?
E isso nem era a parte mais estranha e aterradora. O que lhe deu mais calafrios foi ver o invasor a olhar para si, parado nas escadas. Certamente o barulho do ranger dos degraus deve tê-lo alertado para a sua presença. Quem quer que seja a pessoa e o que ele queira, tem qualquer coisa a haver com Jeff. Resta esperar que não seja nada de mal, se bem que isso é improvável.
Ali ficou Jeff. Por uns bons segundos a observar a figura estranha e ainda nova para ele que era aquela estranha e intrigante pessoa. Sentia-se assustado? Pensando bem, sim, contudo este mistura-se com uma curiosidade e intriga que o faziam querer descobrir mais. É capaz de também se dever ao facto do homem estar sentado no sofá como se sentisse em casa. O olhar dele é assustador, de facto, mas transparece uma certa ânsia e falta de paciência.
Sim. Deve ser isso. Essa tem de ser a razão de estar à sua espera. Principalmente depois do pequeno discurso motivacional que deu a si mesmo, não quer voltar atrás. Ainda por cima agora que chegou tão longe. Já para não falar que fugir apenas iria alertar aquele homem e causar confusão. Não, nada de voltar atrás. Não agora.
Por isso, Jeff deixa-se de contemplar o invasor e continua a descer, mantendo o olhar no chão apenas para não parecer que está assustado. Naquele clima constrangedor onde um desconhecido fica à espera de outro estranho, apenas se ouve o som do ranger novamente. Só com o movimento nas escadas é que o espaço ganha um pouco de vida com cada...
*Pir*
*Pir*
Finalmente chega ao piso de baixo. Ao mesmo nível daquele homem. Dá uma breve olhada em redor e não vê nada de anormal, exceto...o vidro da cozinha. Como esperado. Esta partido. Com cacos de vidro no chão e deixando o ar frio de fora entrar, ar frio esse que não faz barulho algum de tão fraco que está. Quer fazer-lhe tantas perguntas, mas o clima é tão forte para resistir. Para resistir ao silêncio...
...
Quem fala? Jeff é que não será. Está demasiado hesitante para falar com um estranho que acabaou de entrar na sua casa. Falando nisso, por onde é que ele entrou? Talvez pela cozinha. Isso explica o som do vidro partido. No entanto, qualquer pensamento é lhe cortado, pois o presente capta-lhe toda atenção.
...
Então, depois de uns quantos segundos sem o som das escadas, Iza, já farto do silêncio e pronto para despachar o que veio fazer diz:
Iza: "Não te acanhes, miúdo. Eu não te faço mal. Quero apenas conversar."
...
Depois disto o silêncio volta. O homem tranquilo como sempre. Jeff pensativo como nunca. Ponderava se devia acreditar naquele homem. Ele tem uma postura e forma de falar que parece dizer "eu é que mando aqui". Como é que ele consegue fazer isso? Ainda agora invadiu a casa de alguém.
...
A escolha certa será confiar nele? Ou não? E se não o que é que vai fazer? Nem sabe como mas o invasor conseguiu deixá-lo com menos poder em sua casa, no seu próprio território. Porque é que sequer tenta. Não seguir o que aquele homem diz pode levar ao inesperado. Inesperado. Sim, esse é o maior medo que tem com toda esta interação. Não sabe do que o outro é capaz e aquele tipo sabe que Jeff não lhe pode fazer nada. Saber o que esperar é uma grande vantagem aqui e foi o que fez Jeff seguir as ordens do homem.
...
Jeff: "Sobre o que é que queres conversar?"
Pergunta para esclarecer as suas dúvidas.
Iza: "Nada de muito catastrófico. Só te quero contar umas coisas que talvez aches interessantes."
Responde-lhe com a mesma tranquilidade e boa disposição que tem demosntrado durante estes tempos todos.
...
Regresso ao silêncio. Mas só por um pouco. O miúdo fá-lo só para reavaliar a situação em que se encontra e se deve realmente confiar nele. Bem, não é como se aquela pessoa tivesse alguma razão para mentir. Tudo desde a sua voz aos seus maneirisnos transpareciam que qualquer coisa que saísse da sua boca era verdade.
...
Que bela decisão tem diante de si. Acreditar em alguém que acabou de conhecer e que nem sabe se ele lhe quer bem ou mal ou, então, pôr-se dali para fora. Não sabe o que escolher e o homem também não lhe dá espaço para escolha.
...
Iza: "Fica à vontade. Afinal, esta é a tua casa, não é? Age como tal. Vamos, podes sentar-te aqui ao meu lado ou podes ficar mesmo aí parado. Não importa. Apenas importa que tenhas a disposição para me ouvires."
...
Ele claramente está a tentá-lo com as suas palavras suaves e convincente. Mas está a funcionar. Jeff ficiu curioso com o que ele tinha para dizer. Seria algo importante? O homem não parecia querer fazer-lhe mal, pois talvez quisesse mesmo dizer esta informação que tem e, para isso, partiria até o vidro da janela.
...
Tem que ser algo muito importante. Para um homem passar por tudo isto é porque a informação é importante. Isto, é claro, se não é uma mentira inventada com o propósito de lhe baixar a guarda e depois lhe fazer mal.
...
Ok. Tendo pensado em todas as opções ele pensa ter chegado a um conclusão. Acha que já se decidiu. Jeff não se mexe. Fica no mesmo lugar junto às escadas e encara o homem sentado no sofá, que apoia a a sua perna direita em cima da sua perna esquerda para se tornar mais confortável do que antes. Então, ainda pouco recetivo e hesitante quanto ao que fazer, ele diz a sua decisão:
Jeff: "Ok, mas só te ouvirei se me deixares ficar aqui perto de ti e me disseres quem és."
Era mesmo isto que Iza queria ouvir. Por isso, ele sorri levemente, sabendo que está tudo a clrrer bem e diz ao rapaz o que ele quer ouvir.
Iza: "Sim, tudo bem. Já disse que não importa onde fiques, desde que me ouças está tudo bem. Quanto ao meu nome, sou o Iza Ingram, mas podes tratar-me só por Iza. E tu?"
Jeff: "Prefiro não dizer o meu nome a um estranho."
Iza: "Entendo, mas já que eu estou a correr risco ao dizer o meu, sinto que devias retribuir o favor ao dizer o teu. Lá na escola devem dar isso a cidadania, pois não?"
Diz, aproveitando-se do facto que está a lidar com uma criança. E não é que ele seja muito bom com as palavras. Quer dizer, é melhor que Ner (até porque ele serve apenas para lutar), no entanto, não se considera no nível de pessoas como Reyner, Eran ou de Hirq. Porém, frente a frente com uma criança, numa luta de palavras, qualquer um ganha e aqui não foi diferente. Jeff cedeu à força daquelas palavras persuasivas e disse o seu nome.
Jeff: "Jeff Mindler."
Responde rapidamente, sentindo vergonha por estar a falhar aos conselhos que sempre recebeu dos seus pais, amigos e professores. Já é tarde para sentir vergonha. A conversa acabou de começar.
Iza: "Jeff. Certo. Agora que estamos apresentados, posso contar-te o que tenho a dizer. Sem antes de mais me desculpar por ter partido a janela da cozinha. Acredita em mim. Foi a única maneira que arranjei para entrar."
Desculpa-se com algum remorso do que fez. Sim, sente algum remorso por ter partido o vidro de uma janela. E isto vem da pessoa que já bateu e esfaqueou outros só para ganhar dinheiro. Disso é que devia sentir remorso e não disso, mas enfim...
Agora que Jeff volta a olhar para o vidro da cozinha, nota que ele etilhaçou mesmo tudo. Entrou à força com o único objetivo de vir falar com ele. Que indivíduo esquisito. A única coisa que pode esperar é que a informação valha a pena partir um janela. Não, mesmo assim o seu pai vai ralhar com ele. De qualquer forma, acho que entenderam. É bom que estes problemas valham a pena.
Jeff: "Estaria a mentir se te dissesse que não faz mal. Com a condiçãofinaceira em que estamos, se o meu pai chegar a casa e vir um vidro partido ele vai se passar. Ainda por cima ele que tem tanto trabalho a fazer e tem chegado cansado a casa. Dá-me pena."
Por muito que Jeff tenha sido sincero e explicitado como será a situação familiar com um vidro partido Iza não estava nem aí. Fingia, mas não se importava. Importava era dizer o que tinha a dizer e o rapaz acabou de lhe dar uma deixa com o que ele acabou de falar.
Iza: "O teu pai. O Damian tem passado bem?"
Faz-lhe a pergunta, aproveitando para mudar para o assunto que quer. Deixou Jeff perpelexo. Sabia que esta comversa iria trazer muitas surpresas. Contudo, não esperava que aquele invasor tivesse algum tipo de ligação consigo. E não esperava que o seu pai, de toda a gente no mundo, fosse o ponto em comum dos dois.
Jeff: "Damian...tu...conheces o meu pai?"
Responde com outra pergunta ainda a tentar compreender qual a conexão daquele homem com o seu pai. As coisas acabaram de ficar mais interessantes e, de certa forma, mais pessoais. Com toda aquela confusão Jeff ainda está recetivo a mais novidades e espera receber mais esclarecimentos, por muito que eles possam apenas dar-lhe mais perguntas.
Já para Iza tudo estava a ir de acordo com o plano. Agora era apenas o momento para aproveitar a deixa do miúdo e ir a todo o vapor na direção do que interessa. Finalmente vai lhe falar sobre a relação que tem com a sua família.
Iza: "Sabes, eu e o teu pai conhecemo-nos. Na verdade, até somos bastante próximos. Atrevo-me a dizer que somos amigos. Bons amigos. Se bem que recentemente esse nosso estado de amizade seja altamente questionável."
Jeff: "Como assim? Aconteceu algo entre vocês os dois?"
Iza: "Bem, já nos conhecemos há muito. Desde a época da escola, para ser mais preciso. Até o dia da graduação davamos-nos muito bem. Com 'nos' refiro-me a mim, ao teu pai e-"
Jeff: "À minha mãe?"
O rapaz começou a perceber o que se passa. Em pura dedução conseguiu entender o passado dos três amigos. Pela natureza como previu o andamento da historia até dava a entender que tinha conhecimento de tais acontecimentos. Mas não, o seu pai fez questão de esconder Iza e o que aconteceu realmente com a sua mãe no dia da sua morte. Por isso, ele previu o rumo da história com sorte, instinto e inteligência.
Iza até se surpreende com o rapaz. Não esperava nada dele. Quando aqui veio apenas sabia que Damian tinha um filho e nada mais. Quem diria que o seu amigo de aparência sonsa e ingénua conseguiria ser bastante sério e profissional quando as coisas ficassem séria. Nesse aspeto sai mesmo ao seu pai.
Mesmo assim, não vê a intervenção de Jeff, que o interrompeu a meio do discurso como algo mau. Pelo contrário, considera um imprevisto agradável por saber que está a lidar com alguém que tem mais do que dois dedos de testa. Então, ele orgulhosamente continua, estando a gostar mais do miúdo:
Iza: "Não podias estar mais certo, rapaz. Nós os três éramos inseparáveis. Mesmo melhores amigos que pareciam capazes só de passar tempo uns com os outros. Foi assim desde que nos conhecemos e continuou até ao fim da escola. Precisamente até ao nosso último dia de aulas que prefiro não falar muito sobre. Não que para o teu pai seja um dia mau, na verdade, ele até se deve lembrar desse dia com um sorriso na cara. Já eu não tive tanta sorte..."
Jeff: "..."
Deu para entender que aquele é certamente um dia que marcou aquele homem. A sua expressão facial até fica mais cerrada e melancólica, como se ele se estivesse a lembrar mais uma vez do que aconteceu. Até parece que já não reviveu aquele momento suficiente. Mesmo o invasor parece triste e farto por ter sido marcado por tais imagens e acontecimentos de tal maneira que faz o ambiente voltar ao silêncio.
...
Jeff apercebe-se disso e, de uma estranha maneira, ele sente empatia por ele. É...um pouco estranho. Acabou de conhecer aquele tipo. No que é que está a pensar? Foi há menos de 5 minutos que acabou de conhecer o seu nome. Porque é que sente agora uma ligação com aquele desconhecido que entrou na sua casa?
Está um pouco atordoado de levar com tanta surpresa e mistérios na cara, porém, não. Não, ele está bem da cabeça desta vez. Nada o engana. Nem ele próprio se está a enganer. Estes sentimentos são genuínos a si mesmo e às suas convicções.
...
Isto que sente é apenas uma reação verdadeira e que coincide com o seu passado e modo de ser. Aquela empatia que sente vem de um local de ternura. Um local que todos têm, mas que raramente usam. Pois aquele homem e Jeff...não são lá muito diferentes.
Ambos passaram por tragédia. É claro que a tragédia é diferente, nos dois casos, contudo, a dor não poderia ser mais igual. O que os dois sentem, a dor pela qual passam todos os dias é infernal. Tanto Jeff como Iza presenciaram a morte de um familiar, uma figura parental que lhes era muito próxima e importante na sua formação como pessoa. E mesmo antes de se puderem tornar adultos, mesmo antes de se transformarem na pessoa que o tal falecido queria ter visto, essas pessoas morreram.
...
Pior do que tudo, eles ainda tiveram a má sorte de ter estado lá, no momento da morte, a ver tudo com os seus olhos de mortais fracos incapazes de mudar o rumo dos acontecimentos. Inevitavelmente isso marcou-os. Ficou gravado na mente deles para sempre. Lá ficou a ser reproduzido infinitamente com uma quantidade de detalhes demasiado impressionante. Chegava a parecer que...que...ainda estavam no passado a experienciar tudo pela primeira vez.
Não importava o quanto o tempo passasse, não importava o quão feliz ou tristes estavam, aqueles acontecimentos, aquelas memórias estranhamente realistas voltavam sempre depois de algum tempo. Sempre sem excepção. Podiam demorar, mas acabavam sempre por chegar. No caso de Jeff, as memórias do dia da morte da sua mãe. No caso de Iza, daquele dia da graduação. Dois acontecimentos diferentes distanciados a um nível temporal, mas bastante próximos nas consequências que trouxeram aos seus afetados.
...
É capaz de ser por isso. Não, é por isso. Por isso é que sente tanta empatia por ele. Claramente ele não sabe os detalhes dos acontecimentos que marcaram Iza, mas, sendo o miúdo inteligente que é, Jeff percebe que devem ter sido tão marcantes para ele estar a ser atormentados por ele até hoje. E não é preciso ser o Daniel para perceber isso. Já compreenderam porque é que ele sente empatia pelo desconhecido, mas algo que não conpreenderam é porque é que ele decidiu dizer o que disse:
Jeff: "Sabes, também não posso dizer que eu e o meu pai tivemos a maior sorte do mundo. Não sei pelo que passaste, mas sei que não deve ter sido lgo feliz e deve certamente ter te marcado. Pela maneira como falas, fazes com que eu acredite que também sentiste a mesma dor."
Iza é apanhado de surpresa, pois estava a tentar esquecer-se da tristeza para voltar àquela atitude tranquila de antes. Parecia estar a chegar a um bom resultado até que interrompe o processo ao ouvir a voz de uma criança.
É ele que está a falar? Estará a ouvir bem? Jeff é quem fala? Ora disto é que não estava à espera. A última coisa que esperava era ouvir um discurso genuíno do rapaz que aproximam a realidade dele à sua. Iza até sente que deve aproveitar a oportunidade, afinal, novamente, o que Jeff disse servirá de conexão para chegar onde quer.
Contudo, mais do que um meio para alcançar os seus objetivos, o invasor reconhece que existe algo a mais ali. Há um tom de emoção e dor com a qual ele se consegue relacionar. Estará...também a sentir empatia pelo rapaz?
Por que é que quer tanto falar com ele? Hoje que passou por tanta decepçãoe revelação desagaradável é que se sente com vontade de falar com um rapaz. Não precisa de fazer isto, contudo quer fazê-lo. Está com vontade de falar um pouco sobre as suas mágoas. Vê ali uma oportunidade de ouro para o fazer e para, ao mesmo tempo, fazer ponte para fazer a sua revelação.
...
Iza: "Essa dor de que tu falas. Aquela pela qual tu passaste...corrige-me se estiver errado, mas referes-te à-"
Jeff: "Sim, a morte da minha mãe. O meu pai contou-te?"
Interrompe-o, pondo-lhe outra questão.
Iza: "Não me contou propriamente. Depois de ter visto o que viu, o Damian deve ter ficado em choque. Por isso, não teve a capacidade para ligar a alguém. Recebi a notícia quando um conhecido da escola me mandou mensagem a avisar-me de que iria haver um funeral. Perguntei-lhe quem é que tinha morrido e fiquei a saber que era a Maria."
Custou-lhe a dizer cada palavra. Cada parte do que dizia trazia-lhe memórias. Memórias tristes como sempre. Afinal, nada de bom parece vir do passado. Nada de bom vem das memórias que carregam consigo.
Iza e Jeff. Duas pessoas que criam uma relação entre eles graças às tragédias que os marcaram. Claramente Iza passou por mais. Está vivo há mais tempo e é natural que já tenha sofrido mais. Quer dizer, só enquanto esteve vivo presenciou a morte da sua mãe, do seu pai e a de...de Maria.
Já sentia as lágrimas a aproximarem-se no canto do olho. Ainda assim, dava o seu máximo para as conter. A culpa é sua. Ele é que decidiu abrir-se para o rapaz. Não precisava de o fazer. Digo isto para reforçar que o fez porque realmente quis. Caso contrário poderia simplesmente ter incutido um novo tema ao rapaz e, a partir daí, teria seguido em frente.
E ainda assim decidiu seguir o caminho mais difícil. Fê-lo não porque era a escolha com maior probabilidade de sucesso. Fê-lo porque era a escolha que lhe traria melhores consequências. Fê-lo porque sabia que conseguiria deitar para fora alguns dos sentimentos que tem acumulado ao longo deste dia inteiro. O mais curioso é que ainda estava a começar quando Jeff lhe veio com outra intervenção.
Jeff: "A minha mãe. Como é que ela era?"
Iza até esboça um raro sorriso de felicidade, tendo mudado para o lado mais positivo destes eventos. Sente falta daqueles momentos. Não queria levar a conversa para esse lado. Mas é muito tentador. Por muito que saiba que o passado é a origem das suas tristezas, também é de lá que vieram os seus maiores momentos de felicidade. Momentos inesquecíveis que o chamam mais uma vez e, com toda à vontade, Iza faz este desvio temporário em honra aos bons tempos.
Iza: "A Maria era alguém espetacular. Sempre vem disposta. Não importava o que acontecia eu nunca a vi triste, nunca. Ela também tinha um jeito de ser muito infantil que manteve mesmo nos momentos mais sérios. Quer dizer, ela era como uma criança eterna. Lembro-me de ela se manter fiel a este seu jeito de ser até ao dia da graduação, mas já estou a entrar em território deprimente. O que importa é que ela nem parecia real. E olha que era amigo de infância dela. Sim, conhecia-a há mais tempo do que o Damian, surpreendentemente. Hum. Nem me lembro muito bem como é que a conheci. Sei que estava no jardim de infância, é claro. Rodeado de crianças que desconhecia. Os meus pais simplesmente me tinham largado ali, um puto de 4 anos com dificuldades em formar amizade. Neste tipo de condições perguntei-me como é que poderia encontrar lá a infelicidade. A felicidade. Felicidade que acreditava estar em viver sozinho. Os outros é que eram o problema. Até agora tina vivido bem sem amigos. Tinha os meus pais, mas eles não contavam como amigos. Esses é que são inúteis, acreditava...não podia estar mais errado. E fiquei ali sozinho a observar os outros a brincar num vasto recreio com solo de pedra, escorregas, árvores a sair dos pequenos pedaços de terra que lá conseguiam escapar ao reinado das rochas e tínhamos...a caixa de brinquedos. Procurando refúgio nos brinquedos que ofereciam eu encontrei lá alguém que parecia ter tido a mesma ideia. Foi aí que a conheci. Maria. Estava a brincar com uns bonecos fajutos que já tinham sido estragados. Estava sozinha e sem um sorriso no rosto com um olhar vazio. Aquilo foi muito esquisito. Como é que alguém tão sozinho poderia sentir-se infeliz. Não triste, mas neutra. Foi aí que comecei a entender. Entendi que algo de mal se passava comigo. Mas também foi aí que ela notou a minha presença. Vi finalmente o rosto infantil dela pela primeira vez. Olhou para mim com um brilho nos olhos como nunca tinha visto antes. Encarou-me e mal me viu a sua cara esboçou um sorriso, pois sabia que tinha ali um potencial amigo. Isso é algo que nunca me vou esquecer. Juro a mim mesmo e em nome dela. Juro que nunca me vou esquecer do momento em que nos conhecemos e nos tornamos amigos ali mesmo. É que eu nem tive oportunidade de recusar ou aceitar. A Maria simplesmente largou os brinquedos, agarrou nas minhas mãos e perguntou-me: 'Como é que te chamas? Sou a Maria. Queres ser meu amigo? Anda, não tenho mais ninguém. Pega num brinquedo e fazemos o jogo como tu quiseres.' e nem mais nem menos. Ela passou logo umas dez etapas da formação de uma amizade à frente."
Jeff: "Aha."
Até Jeff começa a achar piada. Raramente Damian lhe contava sobre a sua mãe. E quando contava optava sempre por escolher os momentos menos embaraçosos. Isto é, contava sempre os mesmos. Era sempre a história do dia da graduação, onde fez a sua confissão de amor, ou o dia em que a conheceu. E a história de como a conheceu chega a ser bastante parecida com a que Iza contou. Curioso...
Com toda esta informação a ser lançada, Jeff começa a ganhar mais confiança naquele homem. Decide que não pode permanecer em pé para sempre. As suas pernas coemaçam a fartar-se de estar na mesma posição. Por isso, não se vendo ameaçado, de guarda baixa, Jeff senta-se no chão, ouvindo atensiosamente cada palavra que pode sair da boca do invasor.
O plano está a funcionar. E ainda assim Iza nem se apercebe disso ao ver Jeff a sentar-se no chão. Ficou tão absorvido na conversa que se chegou a esquecer do que veio ali fazer. Não faz mal. Pode continuar a falar, mas daqui a pouco vai se lembrar.
Iza: "Cenas malucas pelas quais passei com aquela gente igualmente maluca. Estou a falar mal da Maria, mas olha que o teu pai também era fora do normal. Era muito introvertido, mas mostrava-se extrovertido em situações onde se tinha de esforçar mais ou onde estava em desvantagem. Ui! Se o visses nas aulas de educação física. O gajo ficava sempre em último nas corridas e depois ainda ficava indignado a inventar desculpas para ter perdido. E se as corridas fossem contra mim ele também perdia. Eu nem era tão veloz mas o tipo perdia na mesma. Sim, ele era mesmo um zero à esquerda, pelo menos nos quesitos físicos. No quesito de inteligência ele era muito superior a mim e até à Maria. Tinha especial jeito e gosto para a escrita. Foi esse seu talento que o fez entrar no jornal do 'The Right', que é um jornal realtivamente amador ainda, mas tem muito potencial. Hoje não falamos muito, eu diria. Mas talvez seja por estar muito ocupado com o trabalho e por ter outros rponlemas e desejos que quer realizar."
Jeff: "Sim, um dia ele vai tornar aquele jornal famoso. Ele diz-me que isso são parvoíces e que já se contenta em ter dinheiro para se sustentar a si e a mim, mas eu quero acreditar. Ah! Já agora...Iza, a propósito, qual é o teu emprego?"
Iza: "..."
Prestes a encontrar algo que não devia. Jeff é bastante astuto e se não fosse Iza a retribuir com a sua perspicácia ele já teria começado a duvidar. Ainda assim tem de admitir que o rapaz é rápido a tocar nos pontos mais íntimos de uma pessoa. Deve ser, no entanto, uma capacidade que nem ele próprio deve saber que tem. Enfim, seja pela razão que for, terá de responder com uma mentira:
Iza: "Não é nada. E quando digo nada é porque é nada. Chega a ser vergonhoso, mas sim, admito, sou desempregado."
Fala com uma voz vinda de alguém que tenta esconder algo e que, à última da hora, arranjou um tom de voz mais cabisbaixo. A parte mais surpreendente de tudo é que parece ter funcionado.
Jeff: "Ah...entendo."
Reage num tom melancólico, de modo a condizer com o tom mais triste que este assunto trouxe à tona. As coisas começam a ficar mais depressivas. Cada vez mais tristes. Iza até estava a recontar momentos felizes e coisas de que se orgulha. O que lhe dá esta infelicidade é notar que as coisas não podiam estar mais diferentes. Deixa-o decepcionado em si mesmo por saber que agora ele e Damian são mais inimigos do que amigos. O pior disso é que ele é o culpado.
O rumo que a conversa está a tomar irá, sem Iza se aperceber, levar aonde ele tanto queria. Só ainda não se lembrou do que veio ali fazer. Perdeu-se na conversa e esqueceu-sebdo que veio ali fazer em primeiro lugar. Mas como disse, ele já vai recordar-se do que quer.
Contudo, as coisas não vêm só porque sim. Recordou-se do seu objetivo, pois alguém disse algo que levou a outra coisa e depois o trouxe de volta ao mesmo ponto. Que se saiba só há mais uma pessoa ali para além de Iza e essa pessoa é o rapaz, Jeff.
Jeff: "É como dizes. O passado traz-nos as nossas maiores dores e os nossos maiores momentos de felicidade."
Diz melancólico, começando o seu turno de despejar tudo para fora.
Jeff: "A minha mãe. Morreu há quase um ano. Amanhã é o aniversário da morte dela. Passou já tanto tempo, mas ainda assim não consigo deixar de me lembrar do que vi. Esses pensamentos estão sempre presentes na minha mente, mesmo que não sempre como o centro das atenções. Está lá sempre quer no fundo da minha mente ou no primeiro assento. Acho que é isso o que levou a que aquilo aparecesse...não importa agora. O que quero dizer é que, por muito que a tristeza seja o que marcou a minha mãe, ainda me consigo lembrar dos momentos bons que ela me trouxe. Da sua voz. Da canção que ela me cantava para eu adormecer e me acalmar. A música...fez de mim quem sou e ajudou-me a superar a tristeza várias vezes. Mesmo nestes momentos canto-a para apaziguar os sentimengos dolorosos que tenho. Repito, não os consegue extinguir, só apaziguar. Especialmente nestes dias extinguir é que é impossível. Tenho a ansiedade no máximo, com medo do dia de amanhã, com medo que o dia de aniversário da sua morte chegue. Afinal, eu sei que nesse dia é que a dor chegará a um máximo. Amanhã é que me lembrarei com força de memórias que deviam ter sido esquecidas há muito."
Iza: "Isso é um inferno. Acredita, digo-o por experiência. Também conheço esses sentimentos e sensações. Apenas a um nível muito superior. Pois não tenho só uma tragédia com que me preocupar. Tenho no mínimo umas três para me levar ao meu estado mais quebrado."
...
Jeff: "Sim, é injusto comparar-me contigo. Tens muita mais experiência de vida como adulto que passou por muitas mais experiências. Já eu sou só uma criança atormentada com...a morte da sua própria mãe. Uma criança que...só quer descobrir o que aconteceu naquele dia."
...
...
...
Algo clica na sua cabeça. Iza é relembrado de algo. Sim, é isso mesmo. Foi neste instante que se lembrou do que veio ali fazer. Percebeu que se tinha absorvido demais na conversa e que já tinha deviado do seu objetivo principal. Nesta conversa que se tornou num desabafo entre duas pessoas de diferentes idades que partilhavam algo: a dor de perder alguém que amam.
...
Para ser sincero, até se estava a divertir e a sentir-se mais aliviado. Diria até que...estava a gostar da experiência. Por muito estranho que pareça ele sentia-se confortável e mais calmo ao deitar para fora as frustrações que tem acumulado ao longo destes dias, destas semanas, destes anos. Tudo o que tem dito, todas estas experiências boas e más têm sido acumuladas com o tempo.
E agora...cometeu um erro. O maior erro que poderia ter cometido. Trata-se do erro mais básico que qualquer bom criminoso, assassino, até mesmo assaltante deveria ter em mente e Iza acabou de o cometer.
Baixou a guarda. Julgando aquela criança frágil ele baixou a sua guarda e deixou-se levar pelas palavras dela. Pela sua expressão inocente. Pelos seus sentimentos genuínos. Pelas suas preocupações e quando deu por si já era tarde demais. Já tinha entrado na teia de problemas em que Jeff se encontrava e descoberto que não era muito diferente da sua. Não, a teia de Jeff é apenas uma versão prematura da de Iza. Deem-lhe mais uns aninhos e tornar-se-á idêntica.
E agora dá por si estranhamente interessado naquele rapaz. Com uma estranha afeção por ele. Porque ele se vê nele. É culpa sua por ter cometido aquele erro. Neste ponto, apenas quer que o seu erro não o impeça de ir adiante. Apenas quer que o erro que cometeu não o impeça de fazer o que tem a fazer. Apenas quer que o erro que cometeu não seja mais forte do que a sua vontade de falar. Apenas quer que o seu erro não impeça de contar àquele miúdo o que realmente aconteceu no dia da morte da sua mãe.
...
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De súbito, a sua postura muda ao ouvir aquelas palavras de Jeff. Lembrando-se do seu objetivo principal fica mais apreensivo e muda a sua postura, inclinando o tronco para a frente como se a contemplar o que ouviu e o que teria de dizer à criança. O tempo também não ajuda. Daqui a pouco Damian vai chegar, por isso terá de ser rápido com o que disser.
Iza mostra-se inquieto. Com as mãos unidas para tentar suprir o receio que tem. Boca seca e garganta em nó de tanto ponderar como é que ia dizer tal coisa a um miúdo que aprendeu a gostar nos últimos minutos. A perna direita a bater inquietamente no chão com medo de voltar a tocar no assunto que o marcou.
...
No que é que está a pensar? Porque é que vai dizer isto ao miúdo? Ele não lhe fez nada de mal. Pelo contrário, com o seu erro ainda ficou a conhecê-lo mais e a importar-se com ele, sendo que só o conhece há minutos. Até Jeff deve sentir-se seguro ao seu pé. O que mostra o quanto eles são parecidos.
...
Jeff sentado no chão. Observa a sua mudança na postura. Foi de tranquilo e feliz a estressado e com receio em questão de segundos. Ele conseguiu perceber. A mudança veio como resultado do que disse. Disse algo de mal? Não sabe, mas certamente foi algo que disse que possa ter inquietado Iza.
...
Jeff: "Desculpa, disse algo de mal?"
Pergunta, preocupado que algo do que disse o tenha posto mais triste.
Iza: "Nada disso. É só que tenho assuntos a tratar e preciso de ir direto ao assunto. Penso já me ter desviado demasiado do que vim aqui fazer."
Responde em voz perturbada e ainda a reunir coragem para lhe dizer a verdade.
Jeff: "Ok, à vontade."
Diz a estranhar o ar tão estressado de Iza. Se ele soubesse o que aí vinha até teria compreendido a reação que Iza teve. Tudo teria sido mais claro.
...
Iza: "É só que agora falaste na morte da Maria e lembrei-me de uma coisa."
...
Jeff fica perplexo. No que é que ele está a falar? Como assim lembrou-se de algo sobre a morte da sua mãe? Isso com certeza era algo que ele tinha já guardado para contar, mas só agora decidiu fazê-lo.
Mas isso não é suficiente para deixá-lo menos curioso. Não, só de falarem sobre a sua mãe a sua atenção já fica no máximo. Então imaginem agora onde o assunto é a morte da sua mãe. O momento que não o deixa dormir há quase um ano e o principla causador deste pesadelo de vida que tem. É claro que teria interesse no assunto.
Jeff: "Coisa? Que tipo de coisa?"
Pergunta com a curiosidade no máximo e ouvidos mais abertos do que nunca, preparados para ouvir qualquer palavra de informação que possa contribuir para a resolução daquele mistério.
Iza: "Vejo que o teu pai não te contou bem o que aconteceu. Deixou-me a parte mais difícil."
...
O silêncio apenas o deixa mais curioso. Neste ponto está a morrer internamente com o silêncio. Começa a querer uma resposta e rápido. Sem mais nenhum atraso ou suspense. Quer que ele vá logo direto ao ponto.
...
Aquele homem...fica a esfregar uma mão na outra. Sem se aperceber fica a causar mais nervosismo e tensão no ambiente. Tensão que se acumula e acumula, deixa Jeff cada vez mais nervoso até ter de rebentar.
...
Iza: "O que aconteceu naquele dia com a tua mãe não foi por acaso. Veio como consequência das ações dela e do teu pai."
...
...
...
Iza: "Eles estavam em dívida para com um tipo. Essa pessoa era um criminoso. Não vou mascarar nada nem suavizar a situação. Ele era uma pessoa com a mesma idade que o teu pai e a tua mãe. Parecia conhecê-los de algum lado. Seja ele quem fosse, apenas parecia fazer os atos terríveis que fazia como criminoso para orgulhar alguém que já tinha morrido. Até agora fez coisas muito más. Roubou, magoou e fez coisas de que não se orgulha, mas que acrediatava ele que orgulhavam essa pessoa que estava lá no céu a observá-lo. No entanto, nada do que ele fez se comparou ao que ele monstruosamente fez naquele dia."
...
Iza: "..."
...
Ainda nem chegou na parte mais importante e já está a querer desistir do seu plano. Plano? De que é que está a falar? Já se desviou do plano há muito ao cometer aquele erro. Por isso nem sabe porque é que se preocupa com isso. Neste ponto só está a criar desculpas.
...
O rapaz é que está farto de tanto esperar. Encontra-se sentado no chão com os pés cruzados com os olhos fixados naquela figura de Iza e ouvidos atentos a qualquer coisa que ele possa dizer. Por enquanto não houve nada de essencial. Apenas presságios do que está por vir. Apenas presságios do que ele vai dizer agora.
...
Credo. Agora vem a parte mais desafiadora para Iza. Vai entrar na parte mais pesada e da qual não se orgulha nem um bocado. Mas não há nada que possa fazer. Terá de falar. Pelo seu bem. Pelo bem de Damian, por muito estranho que pareça. Até pelo bem de...de Jeff. Ok, está decidido. Por muito difícil que seja é o mais certo a fazer. Iza acredita que este é o melhor caminho que conseguiu trilhar. Tudo vai correr bem. E para isso só precisa que o rapaz saiba o que lhe vai contar. Continuando a referir-se a si mesmo como um criminoso qualquer ele abre a boca com o mesmo nervosismo e sentimento de culpa e então, começam as revelações:
Iza: "Por motivos que nem eu sei, o Damian e a Maria estavam com falta de dinheiro. Foi por volta da altura quando te tiveram e, por isso, viram-se desesperados para ter dinheiro suficiente para se sustentarem e para, acima de tudo, te sustentarem. Tu, o filho deles, eras e és o tesouro deles. O maior orgulho deles precisava de viver. Eles não importavam. Só tu. Tudo o que faziam, fizeram e fazem foi por ti. Quero que fiques com isso em mente antes de te dizer o que mais importa nisto tudo."
...
Inspira e expira uma última vez até decidir que chegou o momento. Chegou a hora de dizer o que tanto quer. E o rapaz está a ouvir tudo. Ouviu o que ele disse agora e já aprendeu algo novo. Há mais por vir e parece ser informação mais importante. Então, com ambos no ponto mais climático da interação, Iza fala a tal da informação nunca dantes proferida:
...
Iza: "Como eu disse, eles estavam em falta de dinheiro. Não tinham nem o suficiente para se sustentarem, quanto mais para sustentar o seu filho. E foi aí, neste momento de aperto financeiro do casal, que entra o tal do criminoso. Conhecendo os dois ele fez uma proposta e ofereceu-lhes dinheiro. Muito dinheiro. Por volta de 100 mil dólares entravam em consideração na proposta. Quanto à proposta. Ela era bastante simples. Eles só precisavam de pegar no dinheiro e de pagarem o que tiraram no futuro. Funcionava muito similarmente a um empréstimo do banco. Para eles, parecia uma boa oportunidade para se ajudarem a si e a ti. Essa foi a principal razão que os levou a aceitar o dinheiro."
...
Jeff: "O quê? O meu pai nunca me contou nada do género."
Diz, questionando um pouco as suas palavras. Quer dizer, se aquilo é verdade, o seu pai já lhe teria contado há muito...certo? Fica difícil defender. O seu pai tem desviado as suas perguntas e sempre que Jeff trazia o assunto à tona, Damian retribuia com a introdução de outro assunto.
Lembrando-se disso começa a formar uma hipótese. Cada vez mais começa a achar possível o que aquele homem dizs. Talvez, só talvez Iza possa mesmo estar a dizer a verdade. Talvez seja isto o que o seu pai esteve a tentar esconder ao mudar o assunto. E Iza confirma essa suspeita.
Iza: "Não sei o que o teu pai te disse, se é que te contou alguma coisa, mas eu compreendo. E tu também compreenderás quando ouvires o que vem a seguir."
Bem, ele confirmou as suas suspeitas. Porém, não parece ser o suficiente. Necessita de mais para ter a certeza. Afinal, o que está a julgar como a verdade é bastante deprimente. Ele está basicamente a considerar o seu pai um mentiroso. Isso sim é uam acusação grave. Por isso é que ainda se encontra meio cético, já para não falar que simplesmente não compreende porque é que ele faria algo do género.
Jeff: "Hummm. Olha que não sei. Porque é que ele haveria de me esconder tudo isso por anos? O que é que ele ganha com isso?"
Mas este sentimento pode ter vindo apenas de não ter ouvido o que Iza disse anteriormente. De tantas perguntas, de tanto pensar nas consequências que as suas suposições trariam, de tanto questionar se o seu pai era ou não mentiroso, ele esqueceu-se de estar atento ao que foi dito depois da informação mais crucial, de tão ocupado que estava nesta teorização.
Iza: "Tem calma. Acredita, estás prestes a descobrir."
Diz-lhe, sabendo que a parte mais morosa vem mesmo a seguir.
...
É agora. A parte que tanto temia. A parte em que terá de tocar na morte de Maria. Jeff esforça-se para não questionar mais nada. Deixa-se levar pelas palavras de Iza e acredita que agora vai ter as respostas que tanto quer. Se bem que, lá no fundo, ele queira que tudo não passe de uma mentira, uma vez que isso implicaria ver Damian de uma forma diferente.
...
A perceção que Jeff tinha da situação já está a mudar. Para o bem ou para o mal ainda vai descobrir e tudo virá agora. Com Iza a sentir o súor a escorrer-lhe pela testa de tanto nervosismo. Tem que ter calma. Está a falar como uma criança. No entanto, Iza vê aquilo como uma prova de fogo para testar a sua coragem. Pois, não é preciso temer. Se nem conseguir passar por isto, nem vai conseguir fazer a invasão amanhã. Isto não é só para cumprir o plano. Serve para se mostrar a si mesmo que já não é o mesmo criminoso e é precisamente isso o que ele faz.
...
Iza: "Já te disse o que aconteceu, eles aceitaram o dinheiro, sabendo que teriam de pagar a mesma quantia num prazo de seis meses. Seis meses para arranjar 100 mil dólares. Complicado, não vou mentir. Naquela altura, o Damian já trabalhava no 'The Right' e a Maria não teve a mesma sorte. Por isso, pode-se dizer que estavam lixados. Ficou a pergunta: como é que iriam arranjar 100 mil dólares só com seis meses a trabalhar num jornal amador? Vê-se que não pensaram bem antes de tomarem a decisão. Os dois nem devem ter hesitado a pegar no dinheiro, pensando bem. E sabes porquê? Porque viram ali uma chance para te ajudar. Desde que conseguissem isso nada mais importava. Quando puseram os olhos no dinheiro, devem ter ficado logo a mirar no que fazer com ele. E não o digo num senido ganancioso. Pelo contrário, tudo foi com intenções altruístas. Sabiam que não viviam nas melhores condições. Esta casa aqui onde vives é a mesma casa da altura. Agora está um pouco mais gasta e apodrecida, mas permanece em pé. Digo isto não para criticar a casa, mas para entender como a situação financeira nunca foi muito boa. Mesmo agora deves saber que não mudou muito. Até deve ter piorado. Porém, aposto que, se perguntasse ao teu pai e à tua mãe se eles se arrependem do que fizeram, tenho a certeza que, pelo menos um dele, dirá que valeu a pena. Dirão isso, pois, graças ao dinheiro conseguiram comprar-te brinquedos, dar-te um quarto de jeito, manter-te entretido e, acima de tudo, ver-te feliz. O teu sorriso. Era isso o que eles tanto procuravam e finalmente conseguiram ver com o dinheiro. Tudo foi para te manter seguro e dar-te a felicidade que tanto merecias em criança. Tudo foi por ti."
...
Jeff: "..."
...
Iza: "Porém, a felicidade não dura para sempre. O dinheiro sempre foi gasto. E depois, ainda precisavam de pagar de volta o que foi investido. Lá no fundo, isso é o que o criminoso queria. Estava-se nas tintas para as suas intenções ou a quanto pediam. O que ele queria era o seu dinheiro de volta. E o tempo passou. Cumpriu a sua tarefa e deixou a gangue e o homem cada vez mais impacientes. Simplesmente não viam o dinheiro a voltar. Parecia cada vez mais que o empréstimo teve o seu acordo quebrado. Sem ofensa ao Damian e à Maria, no entanto. Juntos faziam o máximo para conseguir o máximo de dinheiro possível. Sabiam que não iam conseguir os 100 mil de forma alguma, por isso apenas se focaram em obter o máximo de dinheiro possível. Haveriam consequências por não entregarem o dinheiro na sua totalidade, contudo se conseguissem entregar um pouco ao invés de nada, talvez aquele seu conhecido fosse vencido pelos seus instintos mais humanos e amigáveis e ele fosse reconsiderar as consequências. Até parecia que ia resultar. Ambos estavam empenhados acreditando que tudo ia ficar bem, até porque, de fingirem que tudo estava bem em conversas contigo, começaram a acreditar nessa mentira. O Damian continuou a esforçar-se e a Maria surpreendentemente também ajudou e foi às ruas angariar dinheiro a tocar na guitarra que tinha comprado em criança. Sim, tudo ia ficar bem. Agora percebo que esse foi o maior erro deles."
...
Jeff: "..."
...
...
...
É agora que chegou. Já é tarde demais para voltar atrás. Dirá tudo agora. Será a mais nua e crua verdade. Pode doer. Vai doer. Mas valerá a pena. Pelo seu plano. Pela sua sanidade mental. Em memória dos que se foram. Ele deve-lhes isto.
...
...
...
Então, de boca seca e tensa, ele finalmente sente coragem para recordar-se dos momentos daquele dia e reconta-os com a maior quantidade de detalhes que consegue:
Iza: "É claro que, após tanto tempo sem receber o dinheiro, todos os membros da gangue começaram a estranhar. Passaram-se um, dois, três, quatro, cinco e, quando todos deram por si, o prazo de seis meses tinha chegado a um fim. Damian e Maria não conseguiram os 100 mil, apenas conseguiram angariar.......17 mil dólares. Não te vou mentir. Por muito que se tenham esforçado e dado tudo de si, nem a metade do montante conseguiram chegar. Retiro o que disse, foi pior, nem a um terço do valor chegaram. O mundo é mesmo cruel. Ele não se importa com o teu esforço, trabalho, sangue, súor e lágrimas que apliques em algo. Para ele, se algo tem de acontecer, não importa o que faças ou o quanto tentes impedi-lo, irá sempre acontecer. Nem acredito que existe destino, mas depois de vir a conhecer esta história, comecei a considerar a sua existência por uns breves momentos depois de descobrir a sua conclusão..."
...
...
...
Iza: "Por onde começo..."
...
...
...
Respira fundo uma última vez e arranja as forças que precisa para continuar. Vá lá. Só precisará de força para mais isto e depois acabou. Vamos lá acabar com isto.
Iza encara Jeff com pura tristeza nos olhos, ainda inclinado para a frente e, dolorosamente recordando-se do passado, do evento que ocorreu na porta da casa de Damian, ele fala sobre o momento que o marcou para o resto da vida:
Iza: "Os membros da gangue sem nome ainda deram algum tempo de tolerância. Até porque o seu líder sempre sentia alguma compaixão por ambos. Talvez eles não estivessem assim tão errados. Mesmo assim, ainda o estavam. Foram ingénuos demais ao pensar que um criminoso não hesitaria em retaliar. Que isto fique de aprendizagem para ti, no caso improvável de lidares com este tipo de pessoas: nunca duvides do que eles são capazes. O que eles fazem é capaz de levar o próprio demónio a desviar o olhar. Isso diz-te o suficiente. E sim. Tendo dito o que disse, quando este tempo de tolerância chegou a um fim houve retaliação. A gangue toda deslocou-se e foi cobrar as pessoas que lhes tinham tirado o dinheiro sem dar nada de volta. Cada um daqueles bandidos, assaltantes e assassinos vieram até aqui. Precisamente até esta casa. E tudo por causa de dinheiro. Por causa de dinheiro decidiram causar uma grande confusão. Foi por causa do dinheiro q-que a M-Maria...a Maria...a Maria morreu."
...
As palavras iam ficando mais reais e próximas de si. As memórias mais vividas e realistas. Tudo ia ficando mais difícil e doloroso de se relembrar. E as lágrimas. As lágrimas. Cada vez mais próximas até que, quando mencionou o nome dela, da sua amiga, da pessoa que tanto se arrepende de matar, que não aguenta mais e cede à tristeza.
...
Jeff também se sentia à beira das lágrimas. Ouvir aquilo tudo deixou-o petrificado. Não imaginava que a morte da sua mãe, aquele evento que experienciou tantas vezes na sua cabeça, tivesse um contexto tão trágico por detrás. Um contexto tão pesado para um contexto igualmente pesado. Nada ali era bom. Nada do que ouviu era bom ou implicava boas coisas.
O que ouviu...tudo aquilo...cada palavra...parecia verdadeira. Iza ainda é um desconhecido, mas um com aparentemente muita credibilidade. Se aquilo era uma mentira, então era uma mentira muito bem criada e fundamentada com base nos factos. Caso contrário...Ah! O que é que está a dizer? É uma criança à beira do choro. Como é que ainda pode sentir que tem a capacidade para dizer o que é verdade e o que é mentira?
Sim, é apenas uma criança quase a chorar. De momento está mais perdido do que nunca. Está emocionalmente falando, uma confusão. Uma mistura de sentimentos e questões que formam uma solução que culmina na...estranheza. Era uma montanha-russa de emoções, não desminto. Por isso é que conseguiu quebrar a criança. E quebrou-a ao ponto...em que já não sabia o que dizer...julgar ou...pensar.
...
Iza é que estava a quebrar-se com as próprias palavras. A chorar só de se relembrar do passado. Ainda assim, com tanta tristeza e depressão a correr-lhe pela cabeça, Iza ainda sente que não disse tudo. Há mais dor para deitar para fora. Ainda não se sente aliviado.
...
Iza: "A p-pior parte foi o que eles fizeram."
Continua, dominado pela tristeza e com as lágrimas a reinar.
...
Iza: "Só de imaginar dá-me vontade de chorar. O que eles lhe fizeram não se faz a ninguém. E-Eles...eles vieram até aqui. Sabiam que Maria era a que estava acordada mais cedo. O líder deles, o tal do criminoso que os conhecia, devia ser quem tinha essa informação toda. E ele deixou-se ser usado, sem problemas alguns. Deixou que os outros o usassem para magoar outro ser que ele ainda por cima conhecia. Não poderia ter sido mais malvado do que aquilo. Nunca vi alguém tão detestável na minha vida. Se pudesse, matava-o com as minhas próprias mãos, mas...o passado é o passado, é inalterável. Apenas posso ficar aqui a lembrar-me da atrocidade que ele cometeu naquele dia. Só me vou conseguir lembrar do que aconteceu e...de chorar. Sei que ele e o resto do grupo vieram até ao teu bairro, escondendo as armas na roupa. O líder não foi diferente, ele trazia uma pistola no bolso. Pronto para disparar. Decidiu que quem morreria seria Maria. Porém, inicialmente nunca lhe importou quem morria. Poderias ter sido tu ou Damian. Ele apenas queria ganhar mais respeito na rua, pois a gangue estava num ponto muito baixo onde nenhum dos outros criminosos se mostrava interessado nele. Por isso, viu-se obrigado pelo mundo e pelos membros da sua própria gangue a matar alguém para ganhar um pouco de respeito. Um pedacito de respeito. Claro. Sim, agora posso concluir com exatidão. O dinheiro não era a única coisa que importava. O respeito também foi um fator importante. Respeito e dinheiro. Que dupla mais nojenta. Condiz mesmo bem com a pessoa que era esse tipo. Que humano é capaz de sacrificar o seu amigo por dinheiro e respeito? Sinceramente...aquilo que ele fez...é imperdoável. A tua mãe teve é má sorte. Má sorte por ser a única pessoa acordada a essas horas da manhã. Má sorte por estar acordada a um horário tão cedo onde todos ainda dormem. Má sorte por acordar num horário tão bom para um homicídio. E foi isso o que fizeram. Criaram uma distração para a atrair ali para fora, para junto da porta. Quando saiu, quando abriu a porta, ele não desperdiçou a oportunidade. Monstruosamente, sem lhe dizer uma palavra...disparou. Premiu o gatilho sem hesitação e correu. Tirou-se dali o mais rápido que pôde. Não por vergonha, mas para não ser apanhado. Os seus colegas fizeram o mesmo. São todos um bando de cobardes que nem conseguiram dizer-lhe uma palavra. Mataram-na e fugiram. Sem mais nem menos. Isso...isso não é algo que um amigo faz. Um amigo não mata outro amigo e foge. Um amigo não é alguém que se recusa a abrir a boca ou a olhar o outro amigo nos olhos, ainda por cima quando vai fazer algo tão errado. Isto já não se trata só de ser amigo ou não. Não é preciso ser um amigo para perceber que isso é uma obrigação. Todo o humano sabe o que deve ser feito. Todo o humano sabe que aquilo não foi certo. Todo o humano sabe que o que ele fez, ele, aquele assassino, deve ser punido..."
...
Jeff: "..."
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...
...
Depois de tudo isto, ficou ainda mais perturbado. Não só recebeu uma nova visão dos acontecimentos que já conhecia, como também foi relembrado deles. Realmente. Parece que, por muito que tente esquecer-se, o universo arranja sempre forma de o relembrar.
Só dor. Foi relembrado da dor que já tinha e ainda teve essa dor intensificada e complementada por uma confuaão descomunal. Argh! Até lhe dói a cabeça de ter absorvido tanta informação sem tempo para processar. Limitou-se a absorver tudo. Também porque Iza não lhe dava tempo para respirar ou repensar o que aconteceu. Era tanta coisa nova, tanta emoção a ser atirada para uma criança que se esqueceu de pensar. A cabeça parou de ter vida e tornou-se um mero espectador que apenas ouve e não questiona.
Agora que a explicação parece ter acabado, teve finalmente tempo para repensar tudo. Organizar a informação que estava tão solta e dispersa. Finalmente pôde clarear um pouco a cabeça. Finalmente a cabeça pôde ressuscitar. Finalmente pôde pensar um pouco no que acabou de ouvir e formar a sua opinião.
Que coisa complicada. A situação foi de simples e misteriosa a muito mais complexa num piscar de olhos. Exercendo um grande esforço, ele leva as mãos à cabeça, que lhe dói tanto. Nem imaginava que tudo fosse assim. Nem imaginava que criminosos estivessem por detrás disto tudo. Nem imaginava que...os seus pais...o seu pai...Damian...nem imaginava que ele estivesse a lidar com pessoas do género este tempo todo. Nem lhe veio à cabeça a ideia que eles estariam a lidar com criminosos. Porém, isso não os faz odiar. Sim, erraram, mas, que saiba, foi só desta vez. Não será um erro que os tornará má pessoas, pois Jeff tem a certeza que eles são bons.
O que o está a inquietar é outra coisa. Há duas coisas que o inquietam, mas uma está a chateá-lo e a deixá-lo ainda mais confuso do que já está, está a deixá-lo mais devastado do que já está. Após levar bala de informação, atrás de bala, atrás de bala, atrás de explosões de revelações, simplesmente não entende o porquê de o seu pai lhe ter mentido durante todo este tempo.
Foi para o proteger? Para lhe esconder o quê? Não seria melhor ficar a saber da verdade? Uma coisa garanto, Jeff teria uma maior probabilidade de se esquecer disto tudo. Deixaria de matutar a causa da morte da mãe durante os meses seguintes. Se p seu pai não lhe tivesse mentido, talvez Jeff...quem sabe...mas é uma hipótese muito provável...talvez Jeff...talvez a criança nem estivesse a ter estes pesadelos que está a ter agora.
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Mas isto é levando em conta que o que Iza diz é a pura verdade. Ainda não tem a certeza. Por enquanto são suposições e especulações que o estão a chatear mais a cabeça e que não terá resposta para elas até Damian chegar. No entanto, há uma questão sua que podd ver respondida agora.
Com uma infernal dor de cabeça e ainda a processar tudo o que aconteceu e, ao mesmo tempo, fazendo um esforço para conter as lágrimas que guarda ao ouvir mais uma vez os acontecimentos que levaram à morte de sua mãe, Jeff consegue abrir a boca. Está a suar que nem um porco de tanto esforço mental que faz para proessar tudo e não se manter perdido. Tanto esforço e vai fazer outro só para abrir a boca. Sente que daqui a pouco vai explodir. Mesmo assim, quer ver esta sua pergunta respondida. Quer que esta dor diminua, nem que seja por um pouco, ainda será um grande alívio.
...
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Então, tremulamente, com toda aquela dor, emoção e confusão toda a agir ao mesmo tempo ele faz mais um esforço e pergunta:
Jeff: "P-Porquê...p-porque é...porque é q-que me estás a c-contar isto?"
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Limpando as lágrimas dos olhos, Iza ouve a pergunta inocente da criança. Ouve já sabendo a resposta. E porque é que haveria de não saber? É literalmente a razão de lá ter vindo em primeiro lugar. Calaramente terá já a resposta na ponta da língua.
O que Jeff lhe sinalizou é que precisa de dizer o que deve agora. Sem adiar mais. Já se mentalizou há muito do que tinha de fazer. Ao contar a verdade acabou por perder parte do medo que tinha. Ainda o sente, mas com menor intensidade. Para ele, o que vai fazer é uma obrigação para consigo, com Jeff, Damian, Maria e com o trabalho que fez até agora.
Isto é apenas a conclusão merecida. Deixará Jeff e Damian de coração partido, mas este é o seu dever. Custa fazer, porém, neste mundo, o que é que não custa? Isto é o que Iza sente que merece depois de ter feito o que fez como criminoso. Por isso é que não hesita para dizer o seguinte. Por isso é que diz tudo com seriedade e sem fazer sacrifício algum. É isto o que ele quer...
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Iza: "Digo-te isto, pois quero justiça. Quero que o sacana que matou a Maria e que ainda anda por aí a arruinar a vida de outros cidadãos normais com as suas vidas normais. Quero que essa pessoa que anda há solta faz amanhã uma ano desde que fez o que fez. Quero esse criminoso na prisão. Não, isso não é suficiente. Quero-o ver morto e ainda acho que a morte não é o suficiente para eu ficar satisfeito. Quero-o ver sofrer à minha frente. Quero que justiça seja feita para que esse criminoso não volte mais a ver a luz do dia. E quero tudo isso o mais cedo possível. Afinal...esse criminoso é alguém que eu conheço muito bem. Pode-se dizer que vivo a minha vida inteira colada a ele."
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Iza: "Esse cretino que matou a tua mãe está mesmo à tua frente, sentado no teu sofá, Jeff. Fui eu quem matou a tua mãe."
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Neste ponto, no que é que acredita?
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Jeff chegou ao seu limite.
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Já não aguenta mais nada.
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O dia de hoje levou-o a pontos da sua paciência e resistência mental que nem sabia possuir. Nunca se sentiu tão perdido e mal.
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Tudo é tão difícil. Tudo está a ir para um caminho que não esperava. Tudo é tão...estranho.
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P-Porquê...porquê. Porquê. Porquê. Porquê? Porquê? Porquê? Porquê? Porquê? Porquê? Porquê? Porquê? Porquê? Porquê? PORQUÊ?
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Fez mal a alguém? Foi isso o que fez para merecer isto? Q-Quem é que irritou? Era alguém importante? O que é que fez? Respondam. Respondam. RESPONDAM. RESPONDAM. RESPONDAM!!!
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Deve estar a enlouquecer. Como é que o mundo pode estar a atirar-lhe tanta MERDA para cima? Nada lhe resta senão perguntas. Perguntas e uma dor de cabeça de outro mundo que não desaparece por nada. É este o ponto a que chegou. Com a cabeça a automutilar-se de tanto esforço e o seu coração e confiança nos outros mais destroçada do que nunca.
...
As mãos que tem na cabeça começam a agarrar os cabelos oleosos e despenteados com força, para tentar suprir um pouco a combinação de dor mental e emocional que ali sente. Iza. O homem sentado no sofá. Aquele homem em que estava a começar a confiar. Mostrou que não era quem pensava. Ele é o assassino da sua mãe. O sacana que andou a detestar durante todo este tempo. Isso se o que ele disse é verdade e-
Ah! Tudo tão complicado. Tudo tão complexo. Tudo necessita de um elevado esforço mental para perceber. Tudo parece ser mentira. Tudo pode também ser verdade. E NADA PODE AJUDAR A POBRE CRIANÇA NEM QUE SEJA POR UMA ÚNICA VEZ!
Jeff: "Como assim?"
???
???
???
???
Perguntas, perguntas. Mistérios, mistérios. Traições, traições. Em quem é que pode confiar? Naquele tipo que supostamente lhe mentiu e é, na verdade, o assassino da sua mãe? Ou no seu pai que lhe esteve a esconder isto tudo por um ano? Se querem que ele seja honesto, vai dar tudo ao mesmo!
???
???
???
Pai. Assassino. Estranho. Desconhecido. Traidores. Damian. Iza. Os dois são traidores. O seu pai mais do que qualquer outro, pois, embora ambos o tenham enganado, Jeff conhece o seu pai há mais tempo. Esperava mais dele do que um tipo que conheceu há minutos.
Sim. Pensando bem, é isso mesmo. Tomando em consideração que tudo é verdade, então.............nesse caso........Jeff......está......sozinho.......
???
???
???
Não terá mais ninguém em quem possa confiar. Ficará......sozinho. Sem alguém com quem possa rir. Ficará sozinho. Sem alguém que o possa relembrar dos bons momentos e fazer esquecer da criatura e do passado. Ficará sozinho............
...
...
...
As suas perguntas sâo substituídas por silêncio. Vendo as coisas deste modo percebe que nada mais importa. Se não tem alguém para lutar contra o mundo ao seu lado, ficará sozinho. Em outras palavras, essas perguntas ficarão consigo para sempre.
...
...
...
É neste ponto que desiste. As suas mãos perdem a força, largam os fios de cabelo e caem no chão, sem vida alguma. O seu olhar fica vazio e cabeça...vazia. Em.........silêncio.....................................
...
...
...
Bem, parece que o seu trabalho tinha acabado ali. De coração frio e com enorme tristeza no coração, Iza levanta-se do sofá e, em pé, observa a criança mentalmente quebrada e fisicamente paralisada. Ele só está assim graças a Iza e às suas palavras capazes de furarem como balas.
Olha para ele durante um pouco. Não por prazer ou gosto, mas para se recordar do rosto da criança cuja vida estragou com os seus atos. Que se lembre bem disso. Isto são s consequências dos seus atos, isto são as consequências de ser um líder de uma gangue. Cabe a ele saber se as consequências são um sacrifício necessário.
Damian estava na zona do seu bairro. Caminhava na direção da sua casa, indo em passos lentos e ansiosos em direção a casa, vendo já a lua no céu.
A lua e a tão impossível de ignorar rua morta em que caminhava.
Rua que nunca esteve tão silenciosa.
Tinha acabado de vir do supermercado e vinha com um saco de compras da mão. Por isso é que demorou tanto para chegar a casa, isso e os encontros inesperados que teve ao longo do caminho. Devem esperar que ele leve consigo muita coisa, porém, surpreenderiam-se ao saber que ele só traz um bolo e uma garrafa de refrigerantes lá dentro.
Acham mesmo que ele tem dinheiro para mais? Hoje pode ser o aniversário do seu filho e, por isso, ainda faz uns sacrifícios monetários especiais. No entanto, são sacrifícios que faz quase com lágrimas nos olhos por saber que está a gastar dinheiro que fará falta em uns meses. Enfim. Isso pode ser verdade, contudo, só de ver a felicidade que o seu filho terá com estes presentes, já pensará que valeu tudo a pena.
Isto é um momento especial. Depois de um grande e árduo dia preso nos seus pensamentos e longe do trabalho, Damian finalmente verá o seu filho. Mal pode esperar para o ver. Jeff tem andado um pouco triste ultimamente. Espera dar-lhe um pouco de felicidade. Pelo menos, felicidade suficiente para o fazer esquecer dos pesadelos
Iza esteve a olhar para Jeff durante uns bons segundos. Dava-lhe pena da criança e dor interna por saber que ele é o culpado pelo sofrimento dele. Mas ele é apenas uma pessoa que teve a sua vida arruinada por Iza. Jeff é apenas mais uma.
Não queria ter de chegar a este ponto. Não queria ser um criminoso. Não esperava ter se tornado alguém que causa dor aos outros e, nomeadamente, a crianças.
Já começa a sentir-se demasiado mal e com pensamentos demasiado crueis. Por isso, com medo que Damian chegasse no meio tempo, sem aguentar aquele ambiente e a culpa que carrega, Iza caminha em direção à entrada. Escondendo o seu lado mais humano, ele passa por Jeff sem lhe prestar a menor atenção para não sentir culpa e chega ao pé da porta.
Damian passa por algumas casas. Uma, duas, três e...aqui. Ele chega a parar mal lá chega. Reconhece logo o espaço e vai entrando sem mais nem menos. Finalmente chegou. Finalmente chegou o momento que mais aguardava do dia. Finalmente vai poder ver o seu filho.
Ele sobe a pequena escadaria numa enorme pressa e antecipação com o saco das compras na mão. Rapidamente vai do passeio do bairro à porta de casa. Se isso não mostra o quanto quer ver o filho, então não sei o que mostra. Nunca quis tanto ver alguém. Damian põe a mão esquerda livre em cima da maçaneta e está prestes a abrir a porta.
Já perto da porta. Iza assenta a mão na maçaneta. Tem de sair dali o mais rápido possível antes que Damian chegue. Pode ficar um pouco em cima da hora, mas deve dar. Então, ele gira a maçaneta para a esquerda e empurra-a para si.
Damian ia girar a maçaneta quando sente uma força a ser exercida na porta. Estranhando tudo, ele tira a mão direita e deixa a porta ser misteriosamente aberta. Só tinha um pensamento a pairar na sua mente: quem é que está a abrir a porta? Será Jeff?
Agora mesmo descobrirá. Não terá nem tempo para pensar muito.
Então, a porta é puxada e é aberta por completo...
*Proum*
Começa a ranger num volume elevado, quando a força que a puxa fica cada vez mais fraca até parar. Nesse momento, o som cessa por completo. Foi também esse o momento em que os dois se encontraram. Foi esse o momento em que Damian descobriu quem é que lhe estava a abrir a porta.
...
Foi nesse momento que ele viu Iza a sair de dentro da sua própria casa.Foi nesse momento que ele viu Damian à porta de casa.
...
Os seus olhos arregalaram-se em surpresa. Bocas abrem-se levemente. Corações comam a bater rapidamente só de pensar em todas as coisas más que um criminoso como ele poderia ter feito ao seu filho, no caso de Damian. Olha para ele com um olhar de surpresa e de terror. Observa aquela cara que está tão surpreendida como a sua. Com a diferença que Iza não sente medo.
...
Já a tremer com algumas das coisas terríveis que imaginava que poderiam ter acontecido ao seu filho (coisas tão terríveis que nem me atrevo a descrever) e sente uma urgência para descobrir. Não atropela Iza e corre para frente da sua casa. Não, o seu corpo ainda está petrificado, pois todos os esforços foram para a cabeça. Apenas lhe resta desviar um pouco a cabeça e olhar de relance para o que está atrás de Iza.
...
Damian fez exatamente isso. Inclinando lentamente a cabeça para a direita vê o que Iza esconde nas suas costas. E que erro cometeu ao ter visto o que viu...
...
Nem queria acreditar no que via. Olhou p-para o chão e viu...o seu filho...Jeff. Perdido em lágrimas e de joelhos no chão como se tivesse sido derrotado. Como se ele tivesse acabado de encarar uma verdade tão cruel que o destroçou por completo. Viu a criança, no chão devastada...
...
Imediatamente ligou os pontos todos e não aguenta. Força escapa-lhe da mão com o choque desta realização. O saco escorrega-lhe por entre as suas garras sem se aperceber e cai no chão. Em segundos ele percebe que Iza claramente não veio lá para fazer o bem. Seja pelo que for, tem a certeza que ele contou algo a Jeff. Tem a certeza que o que lhe contou deixou-o quebrado e traumatizado. Neste ponto, começa a pensar que ele lhe contou sobre algo...sobre o que aconteceu há quase um ano...sobre a morte de Maria.
...
Porquê? O que é que ele ganha com isto? Quer ganhar prazer com isto? Não, ele não é esse tipo de pessoa. Logo, ele quer ganhar algo com as consequências da sua ação. Mas o quê? O que é que ganha ao ver os outros tristes? O que é que el ganha agora com a sua raiva?
...
Tem de se acalmar. Quer acalmar-se. Se ao menos fosse tão fácil. O sangue está a ferver. O seu punho começa a cerrar. Ao invés de pensar em resolver aquilo tudo de outra forma ele escolhe logo a violência. Damian não quer ouvir mais nada de outra pessoa ou da sua cabeça. Já está farto disto.
...
Está farto de ter de aturar com atos de desrespeito para consigo e para com a sua família, o seu filho. Hoje nem teve um dia mau, mas não queria ter de aturar alguém como Iza. Sabe que ele é seu amigo, contudo...não se sente capaz de perdoá-lo. Perdoá-lo pelo que ele fez. Quer lhe tenha contado a verdade ou não, ele merece o que vem na sua direção, pois escolheu o pior dia para o fazer. Escolheu o dia de aniversário de Jeff.
Por ter cometido esse erro. Por ter mexido com uma pessoa que lhe é querida. Por ter agido como um inimigo, Damian vê-se ameaçado e enraivecido pelas ações de uma pessoa que outrora fora seu amigo. Neste momento, nada lhe importa. Só quer saber do presente e de Iza. Iza. Iza. Iza. Iza. Iza. Iza. Iza. Iza Ingram. Iza Ingram mexeu com o seu filho. E por estes seus atos...terá de pagar.
...
Iza: "..."
...
Iza percebe que Damian está visivelmente chatado, paercebendo-se que ele já fechou o punho direito para lhe dar um soco. Já se sente mal o suficiente por ter feito o que fez e nãos e sente com vontade para lutar. Guardará isso para amanhã. Mas, agora, vai ter de recorrer às palavras. Tem noção de que pode não funcionar, todavia, nunca saberá se nunca tentar.
Então, numa voz melancólica que ainda não superou os próprios atos, Iza diz:
Iza: "Damian, não sabia que vin-"
*Poun*
Sem deixar Iza completar uma frase, Damian mete-lhe um soco na bochecha direita, desiquilibrando-o para o lado. Mas ele nem o deixa cair, pois rapidamente o agarra pelo colarinho do casaco e, usando toda a pouca força que contém no corpo, ele puxa-o para trás num empurrão que aproveitou a queda das escadas para o pavimento.
Deixa o pobre amigo a voar a menos de um metro do solo durante menos de um segundo até ele cair de costas no chão de concreto que leva à escadaria da entrada. Fica com uma dor imensa nas costas como se a superfície em que caiu fosse inquebrável e deslocado a sua coluna por centímetros. Mas Damian também ficou ferido. Talvez não tenha sentido dor por toda a adrenalina, mas certamente sentiu uma distensão nos músculos do braço por puxar Iza tanto que ele solta um leve grunhido e passa rapidamente a mão no ombro direito de onde vem a dor.
Damian: "Grunh."
Iza: "Que gajo mais imprevisível."
Diz a si próprio, esforçando-se para se levantar do chão.
Quer recompôr-se o mais rápido possível. Não que tenha medo dele, pois sabe que, numa luta, seria Iza quem sairia vencedor. Amanhã mostrará isso. Porém, agora quer se levantar. Só para não levar mais porrada.
Com o Reyner já tinha levado uma patada e com Damian levou um soco e um empurrão até que bem executado. Não quer admitir que Damian é mais forte do que ele. A razão para se levantar é para prevenir quaisquer outras surpresas que o homem tenha preparado para ele. Afinal, se há coisa que sabe que Damian é capaz do inesperado e precisa de estar preparado para tu-
Damian: "Iza."
O seu nome é chamado. Encontrando-se já praticamente de joelhos, por uns breves momentos, Iza olha para a frente e vê Damian, num andar agressivo, lento e quase robótico a descer a pequena escadaria que levava até à porta.
Damian: "O que é que tu fizeste ao Jeff?"
Pergunta-lhe em voz raivosa ao ter descido todos os degraus e continuando a violenta caminhada no chão.
Iza: "Acho que deves ter uma ideia do que disse para nem hesitares em me bateres. Mas precisas de confirmação, não é?"
Responde, numa voz agressiva que mistura ironia com raiva.
Damian: "Para de brincar. Responde-me, Iza!"
A distância entre os dois vai sendo cada vez mais encurtada por Damian. A cada fala desde ter descido os degraus Iza apenas ficou mais perto. Com cada passo forte que dava o perigo para Iza ia ficando mais eminente.
Iza: "Se queres confirmação é isso o que vais ter."
Os últimos passos são furiosamente dados. Mesmo antes que Iza possa dizer a conclusão que Damian tanto esperava, o último para e olha para o seu amigo de joelhos no chão que diz o que ele mais temia:
Iza: "Eu apenas me limitei a dizer o que já devias ter dito há quase um ano. Simplesmente lhe disse a verdade por detrás da morte da mãe."
...
...
...
As palavras de Iza destacam-se no meio daquilo tudo. Quando ele as profere e confirma o maldito destino que revelou a Jeff, Damian cala-se. Recusa-se a responder.
...
...
...
Mesmo esperando a resposta ficou devastado. Não, essa não é a melhor resposta. Talvez a escolha mais certa de palavras seja...irritado.
Damian: "É claro. Só poderia ter vindo de ti, Iza."
...
Tem os dois punhos mais cerrados do que nunca. Nunca estiveram tão trémulos também, pois a força que era contida era demasiada. As unhas da mão, que se fechava na posição para um soco, roçavam com tanta força na palma da mão que chegavam a a arranhar bem a mão e a fazer sangue escorrer dali até ao chão. O modo como respirava também mudou. Tornou-se mais rápido, carregado de força e de...raiva. Assim ficou Damian após ouvir as palavras nojentas de Iza.
...
...
...
Um soco não basta. Pontapés não bastam. Não só se magoará mais como também não ficará satisfeito. Tem perfeita noção de que amanhã ainda terá de lidar com outros bandidos, mas pode adiantar agora trabalho e tratar do mais fácil de odiar de todos. Ele precisa de ser punido e agora. Já está farto de esperar.
...
...
...
A sua cabeça nem funciona. Damian guia-se pelos instintos naturais dos sentimentos. Guia-se pela raiva. A cabeça está a mil a pensar em mil maneiras de o fazerem pagar. A adrenalina ainda em efeito não o deixa julgar o juízo moral ético dos atos que quer tanto cometer de coração.
...
...
...
Sem resposta. Absorvido na cabeça. Deixou Iza a contrair a sobrancelha e a fazer cara estranha enquanto tentava imaginar qual seria o seu próximo passo. Hum, o seu próximo passo. Mal sabia o que lhe esperava.
...
...
...
O silêncio deu-lhe inspiração e deixou-o pensar mais concretamente em formas plausíveis de o fazer sofrer. Foi graças ao silêncio que a sua mente conseguiu reavaliar o passado e chegar a uma boa escolha para o futuro. Foi graças ao silêncio que se lembrou de algo. Foi graças ao silêncio que se lembrou do que levava consigo no bolso do casaco. No bolso grande localizado na barriga. Ainda bem que se lembrou da pistola.
...
...
...
Damian: "Até ia dar-te um pontapé, mas lembrei-me que tenho algo melhor para ti. Sim, um pontapé não seria o suficiente para te punir."
...
...
...
A antecipação e ceticismo de Iza chega a um pico. E foi nesse momento que Damian lhe mostrou o que guardava.
...
...
...
Damian: "Tu mereces algo muito pior. Alguém que magoa o meu filho merece um destino pior do que a morte. Um inimigo meu merece sofrer..."
...
A espera...acabou...
...
Colocando a mão no bolso do casaco, Damian rapidamente saca de lá uma pistola e não gasta tempo em apontá-la para baixo, para a cabeça de Iza. Ora aqui está algo que o criminoso não esperava.
Iza: "..."
Tirou-lhe as palavras da boca e destruiu qualquer expectativa que teria. Só não ficou boquiaberto, pois se conteve. De resto, sentiu-se levemente intimidado. Quem diria que aquele escritor lingrinhas que mal se consegue impôr ficaria tão sério quando se tocava em algo que lhe era muito importante e querido?
Se não conhecesse bem o seu amigo estaria mais surpreendido. Ainda assim estaria a mentir ao dizer que não tem uma ideia de como sair dali. Vê-se encurralado. Com uma pistola apontada à cabeça. O dedo direito de Damian com a sua vida ao alcance. Uma bala mesmo à espera de perfurar no seu crânio carnudo.
Tem uma enorme pressão nos seus ombros e em breve terá uma enorme pressão na sua cabeça. Fisicamente é melhor não arriscar. É como se fosse obrigado a usar as palavras para se safar disto. Precisamente algo com que não é muito bom. Só funciona com crianças, mas com adultos é complicado.
Vê-se obrigado a tentar, mas não sabe se funcionará. A incerteza está mais forte do que a força que a bala terá. Começa a sentir alguma pressão. Caraças, nem sabia que uma pistola é capaz de tanto.
Pensando bem, esta é a primeira vez que tem uma pistola apontada à cabeça, porém, também já passou por várias situaçôes de perigo. Isso, não é preciso ter tanto nervosismo. Finge que isto é só mais um dia. Sim, só mais um dia a correr perigo. E com o perigo Iza está bem acostumado. Já para não falar que...
...
...
...
É isto o que ele quer.
Iza: "Nem sabia que tinhas uma pistola guardada, Damian. O sentimento de perigo que deves ter de mim, do Ner e dos meus colegas deve ser tão grande que sentiste-te obrigado a comprar uma arma. Fizeste bem, pois caso não tenha ficado claro, desta vez, não volto atrás com a minha palavra como fiz neste último ano."
Tudo o que ele disse deu mais medo a Damian. O seu braço treme levemente e a sua postura raivosa e séria é quebrada por um choque na sua espinha que lhe dá calafrios por todo o corpo e o fazem estremecer até ao seu núcleo.
A sua abordagem parece funcionar. Se continuar a fazer esta batalha de ego, no fim, quem ficará no controlo da arma não será Damian, mas sim Iza. Tudo com a influência das palavras e do medo que elas incitam.
Iza: "Não te preocupes. Desde que tenhas esta arma terás uma maior probabilidade de vencer. Não vencerás, mas conseguirás matar alguns bandidos. O teu filho sempre morrerá tal como tu amanhã, no aniversário de morte da tua mulher. Ao menos mataste alguns sacanas nesse dia tão especial, não é?"
A mão de Damian fica mais trémula e a sua postura mais hesitante. Mesmo agora que pode acabar tudo começa a perceber que pode não vir a ganhar nada com isto, tal como Iza diz à sua maneira. Raios, o pior é que ele parece ter razão.
Por sua vez, Iza começa a ficar mais confiante. Surpreendentemente as suas palavras enfraquecem Damian e lembram-no de que a morte de Iza não valerá de nada. Haverão outros mais que completarão o trabalho por si com todo o gosto. Por isso, com o plano a provar-se efetivo, Iza sente-se mais livre para fazer o que quiser, mas mantém a tristeza dos seus atos e de estar a enfrentar o seu amigo sempre presente. Com a pressão da pistola menor, ele aproveita para se recompôr por completo, indo de joelhos para em pé parcialmente até estar completamente em pé e continuar o seu plano.
Iza: "De novo, quero reforçar que tu é que decides o que fazes com essa arma. Estou aqui apenas para dar a minha opinião e para deixar claro o que eu quereria que acontecesse. Na verdade, se queres que eu te dê a minha recomendação, até acho que não deves hesitar."
Damian: "..."
Com o discurso a chegar a um clímax, Iza fica no ponto mais livre. Aliás, livre e aliviado por saber que vai ser libertado deste inferno. Sim, não há palavra melhor. Depois do dia de hoje a sua vida tornou-se num inferno. Mais do que nunca precisa de um descanso. Espera finalmente conseguir o descanso que tanto necessita.
Então, num gesto rápido e agressivo ele segura no cano da pistola firmemente e encosta-o à dua testa com uma enorme força. Nem deixa Damian reagir ou fazer nada de tão súbito e surpreendente que foi o movimento. Agora é definitivo. É oficial. Quem tem o controlo da arma não é Damian, mas sim Iza.
Damian: "..."
Iza: "Que foi, Damian? Não estavas tão determinado em matar-me e em fazer-me pagar pelo que fiz ao teu filho? Porquê parar agora que chegaste tão longe? Tens a pistola a mirar na minha cabeça. Eu até te estou a ajudar e a dar a minha opinião. Quer dizer, tenho literalmente a minha mão no cano da arma para te ajudar a acertar bem na minha testa. Anda! O que é que te impede, Damian?"
A rajada de palavras não parava de vir. Era pergunta atrás de pergunta e convite atrás de convite. Iza não hesitava em dizer nada nem tremia perante a pistola apontada à sua cabeça. Ele não tinha medo da morte. Pelo contrário, ele sorria na frente da morte, pois era esse o destino que tanto desejava.
Damian entende isso agora que vê a pessoa que tinha como amigo à distância de um gatilho da morte. Entende que Iza quer a morte e percebe que está numa situação extrema e isso...isso compele-o a desistir do que ia fazer. Não sabe, contudo, se isso é a principal razão que o faz querer desistir. Sentindo a adrenalina a passar um pouco volta a pensar claramente e a ter uma visão diferente da situação em que se encontra.
Iza já se estava a irritar. Há bocado até estava relativamente feliz. Sentia-se levemente irritado por ver Damian a hesitar à última da hora, mas, isso não importava, pois agora tinha controlo da arma. Era isso o que queria com o uso daquelas palavras e daquele tipo de discurso. Porém, o controlo da arma veio a custo da vontade de Damian.
Bem, se ele não o quer fazer, terá de o obrigar. E para isso terá de usar a força. Por isso ele tira com a suão mão esquerda do seu bolso esquerdo das calças um canivete e com um *tchik* deixa sair a lâmina que chega à barriga de Damian com muita força.
Iza: "De que estás à espera? Segue com o que queres. Neste ponto, não és só tu quem quer. Eu também quero que tu o faças e a melhor parte é que isso vai acontecer quer queiras ou não, pois não és só tu quem tem domínio sob a pistola. Vamos. Mata-me! Mata-me, Damian! MATA-ME! É ISTO O QUE EU QUERO! DÁ-ME A MORTE! CONCEDE-ME ESTE DESEJO E DEIXA-ME LIVRE DESTE MUNDO CRIMINOSO DE MERDA! NÃO ESTÁ NINGUÉM A VER!!! NINGUÉM QUE TE JULGUE! POR ISSO NÃOPRECISAS NEM DE PENSAR!!! APENAS LIBERTA-ME!!!!!!!!!!!!!!!!"
A lâmina quase perfurava o casaco de Damian e picava a sua barriga. Toda aquela demonstração que era para o levar a premir o gatilho apenas o levou a querer largar a arma. Depois dos gritos e suplicos de Iza é que tem a certeza que não quer mais fazer isto.
Talvez porque os gritos o fizeram entender a gravidade da situação. Com a cabeça mais clara, funcional e livre de qualquer influência percebe que tinha a pistola apontada à cabeça do seu amigo. O cano da pistola encostado à sua testa.
A que ponto é que chegou? Tornou-se num assassino? Vai querer ser lembrado como o assassino do seu amigo? Quer mesmo assassinar Iza? Se o fizer estará a perder, pois, por muito que o tenha matado, estará a tornar-se em alguém tão mau quanto ele, não pior do que ele. Ainda por cima, nesta situação, Iza não ameaça a vida de ninguém. Não é como amanhã onde cada um luta pelo que ama e têm todo o direito de fazer o que precisam para se proteger. Mas agora não será preciso tanto esforço mental. Está claro que matar Iza aqui seria errado.
Damian não queria. Isso Iza percebeu, mas não queria deixá-lo tão facilmente. Ele queria morrer. Hoje teve um dia infernal. Teve de ver-se a ser humilhado por Reyner. Teve de dar uma facada em alguém. Teve de ouvir que todos os membros da sua gangue que considerava colegas estavam, na verdade, contra si. Viu-se traído e empurrado a cometer atos que não queria e isso foi a gota de água para si.
Por isso, quer morrer agora. Por não aguentar mais sofrer nas mãos deste estilo de vida violento de que não se orgulha, por muito que saiba que pode orgulhar o seu pai. Não quer ter de matar o seu melhor amigo. Não quer ser traído por outros. Não quer mais magoar alguém. Não quer decepcionar o seu pai. Fugir e desistir certamente o decepcionaria. Seria incapaz de o encarar nos olhos lá no céu. Porém, se morresse antes de ter de decidir a morte de alguém, se morresse no meio da sua jornada para orgulhar Gareth Ingram, então teria uma explicação plausível. Seria certamente uma explicação e um final com o qual poderia viver para o resto da vida e carregar lá para cima com orgulho. Seria um final que o seu pai certamente entenderia.
Isto é a única salvação. Tem a pistola na sua cabeça. Mãos a controlar a arma. Como ele próprio disse, se Damian não quer, ele quer. Os dois têm controle sob a arma. Porém, a vontade de Iza era tão grande que era capaz de tirar o controlo de Damian para si. Logo, não importava o que Damian queria. Quem ficava sempre a ganhar era um deles. Quem ficava sempre a ganhar era Iza.
Não valia a pena resistir. O vencedor tinha sido desistido. Canivete na mão esquerda. Cano da pistola na mão direita. Era ele o vencedor. Era Iza. E estava pronto para libertar a sua alma quando...
...
...
...
*Toam*
Passos.
*Toam* *Toam* *Toam* *Toam*
Passo que vêm na direção dos dois.
*Toam* *Toam* *Toam* *Toam*
E não parecrm parar tão cedo.
*Toam* *Toam* *Toam* *Toam*
Antes que algum dos dois pudesse fazer alguma coisa, a senhora que tem caminhado com os seus sapatos de sola grossa aparece. Tem a aparência de uma senhora já idosa. Cabelo grisalho encaracolado. Mala envolta no braço esquerdo e no braço direito traz consigo um saco com comida do restaurante local de frango assado.
Damian conhecia-a. Aquela era a sua vizinha, Irene. Mas para Iza aquela velha tinha acabado de estragar o seu esquema tudo. Nem a conseguia ver, pois, de momento, ela estava a passar atrás de si, indo pelo pavimento junto à estrada. E, ainda assim, já tinha grande ódio para com ela.
*Toam* *Toam* *Toam* *Toam*
Ela continuou a caminha no seu ritmo lento que mais assemelha ao de uma tartaruga. Damian via-a passar atrás de Iza. Via-a seguindo pelo passeio. Os seus olhos quase reviraram de tanto alívio que sentiu ao vê-la. Era como se um peso tivesse sido retirado dos seus ombros.
*Toam* *Toam* *Toam* *Toam*
Com os próximos passos a senhora passou pela casa de Damian e virou à esquerda na casa ao lado. Essa era a sua habitação. A senhora segue pelo caminho em direção à sua casa, sem se aperceber que tinha, na casa ao lado, dois homens armados a ponderar tirar uma vida.
Iza: "Tchk. Tens sorte, Damian. Muita sorte."
Com medo que a senhora os venha a notar, ele antecipa-se e volta a pôr a faca no bolso. Damian sente o mesmo medo e volta a pôr a pistola no bolso do casaco.
*Toam* *Toam* *Toam* *Toam*
Irene continua a caminhar e chega à pequena escadaria na entrada. Um, dois, três e quatro passos. Já chegou à entrada de casa. Prepara-se para entrar.
Nervosamente, os dois fingem que nada aconte eu ali. Olha para os lados como se estivessem a tentar mudar de assunto. Iza até poderia matar a velhota, contudo, depois das críticas de Ner, não se atreve a levantar o dedo contra um cidadão comum. Por isso, não pode fazer mais nada. Não pode se comprometer a ter uma testemunha.
Iza: "Acho que as coisas ficam para amanhã."
Diz, olhando para o chão ao disfarçar a raiva e tristeza interna.
Damian: "..."
Iza: "Não te preocupes. Já não te chateio mais. Só quero que saibas que, amanhã, eu vou entrar para matar. É bom que faças o mesmo, senão, não terás hipótese de sobreviver à noite. Fica com isso na cabeça, Damian. A tua vida e a do teu filho estão nas tuas mãos."
Farto de olhar para os arredores numa tentativa estúpida de não atrair atenções para o conflito que os dois tinham na rua onde só estavam os dois amigos e a vizinha. Assim, ele vira as costas para Damian e segue em frente até virar para seguir pelo passeio para longe dali. Para um lugar onde possa descontrair depois de tudo aquilo. Para um lugar onde possa refletir. Para o seu apartamento.
Ele deixa ali o seu amigo. Com ar de idiota a olhar para o chão e a estrada, fingindo não ter relação alguma com aquele homem. Aquele homem que é seu amigo. Ou agora é seu inimigo?
...
Estes são tempos diferentes. Coisas mais esquisitas acontecem. A situação em que Damian se encontra está mais complicada do que nunca. Desta vez Iza não parece estar a blefar. Ontem não estava assim. Algo deve ter acontecido. Não consegue imaginar o quê, mas certamente não foi algo bom. Foi algo triste que o mudou.
...
A pistola. No que é que estava a pensar? O que é que ia fazer? Onde é que tinha a cabeça? Agora que as coisas acalmaram e a sua cabeça pode respirar e refletir um pouco, ele percebe que ia matar Iza. Ia matar alguém ali, no meio da rua, com uma bala na testa.
...
A sua respiração fica mais pesada e lenta. Só de pensar no que ia fazer. Só de pensar no tipo de pessoa que se ia tornar. Só de pensar com o que teria de viver para o resto da vida. Nem ele sabia que tinha esse tipo de instintos e de pessoa dentro de si.
...
Se não fosse por Irene. Se não fosse pela chegada da sua vizinha que ainda não se apercebeu da sua presença, Damian...Damian teria presenciado uma morte. A morte de um humano. A morte de uma pessoa que lhe é próxima. A morte do seu amigo. A morte de Iza.
...
Tem que se acalmar um pouco. O seu coração está a andar muito...muito...lentamente. Será isto um ataque de pânico? Leva a mão ao peito para sentir o seu corpo a funcionar. Está como eu descrevi. A tensão passou, mas as memórias fazem-no relembrar do momento e do quão fora de si ele estava. Do quão assustador se tornou.
...
Perto do fim, Damian ainda conseguiu acordar. Com a pistola na mão tinha compreendido que as coisas estavam a ir longe demais. Porém, Iza estava mais determinado doque nunca. Tinha até a mão sob a sua arma. Mesmo que Damian não quisesse, Iza queria a morte e já tinha um certo controlo sob a arma.
...
O que é que aconteceu hoje? Como é que aquele seu amigo sorridente se tornou em alguém tão deprimido e triste a um ponto em que só acha que encontrará a felicidade na morte? Sim, porque ele queria morrer ali. Porquê? E porque é que teve de contar a verdade ao seu filho para morrer? Tlavez porque...não, certamente é isso...ele...Iza...aquele seu amigo contou a verdade a Jefff para enfurecer Damian ao ponto de o querer matar.
...
Se a sua cabeça estiver correta, então ele ia suceder. Iza ia arranjar o que queria. Ia conseguir morrer. E isso não facilita nada. Apenas faz a sua respiração engrossar mais ao ponto em que não conseguirá respirar pelo nariz. Damian começa a abrir a boca e a tomar golfadas de ar difíceis de engolir. Mesmo assim, nada está a funcionar. Talvez até estejam a piorar.
...
Que...Q-Que coisa complicada. Um a-ataque de p-pânico. Nunca t-tinha t-tido isto. É o s-seu primeiro e não p-parece estar a a-aguentar-se. Está a...a...c-ceder e r-rapidamente irá...irá...irá...vai d-desmaiar..........................
...
...
...
A consciência vai se afundando cada vez mais.
...
...
...
As suas pernas vão tremendo, preparando-se para deixar o corpo todo cair.
...
...
...
Tudo indicava a efetividade deste ataque quando...
...
...
...
A pessoa que parecia ausente marca a sua presença.
Irene: "Senhor Damian? Está aí! Tudo bem?"
Diz entusiasticamente a única pessoa na rua, só agora se apercebendo da sua presença.
...
Damian: "Ha!"
Sente como se tivesse sido acordado com pesadelo sobre a lua cheia que brilha sobre ele. Como se tivesse levado um choque, as suas pernas ganham uma força de origem estranha. O seu coração volta a acelerar e ganha um ritmo mais normal e não tão lento.
Volta à vida. Tudo graças à pessoa mais inesperada. Irene. Agora que ganha controlo sobre o seu corpo, a sua visão regressa. Ele tira a mão do peito e faz um esforço para parecer que não tem nada de mal. Coloca o olhar para a frente e vira-se para a esquerda, onde está a senhora a olhar para ele com um brilho nos olhos.
Irene: "Parece cansado, senhor Damian."
Damian: "..."
Ainda está a gnhar domínio sobre a voz de volta. Mas enquanto espera um pouco, faz um sorriso muito falso, pretendendo evitar ali um diálogo e ter de inventar explicações. Especialmente, porque ele até estava com urgência para ir ver o seu filho. Queria ver se ele estava bem. Se Iza não lhe fez algo de mal a um nível físico.
Irene: "Está a ouvir-me? Perguntei se está tudo bem consigo?"
Insiste com a pergunta que não quer calar. Felizmente, calhou mesmo no momento em que Damian volta a conseguir falar.
Damian: "N-Não, se preocupe. Está tudo bem. Só um pouco cansado. Sabe como é. O trabalho nunca acaba."
Irene: "Pois é. Lembro-me bem dessa época."
Damian: "E é por isso que não posso ficar aqui muito tempo. Espero que não se importe, mas as coisas estão mesmo apertadas, ok?"
Responde, com uma voz apressada e demonstrando uma enorme pressa.
Irene: "Ah, tudo bem."
Damian: "Ainda bem. Adeus, tenho de ir. Tchau."
E sem dar espaço para mais intervenções, a correr ele vai para dentro de casa. Num piscar de olhos, ele segura no saco das compras que deixou cair e atira-o para dentro de casa. Não se importa em como aterrou ou ficou. Só com o facto de ter a compra num lugar seguro. Com a correria toda ele fecha a porta com uma enorme força.
*PARAM*
Que estrondo. A própria senhora sentiu-se incomodada com tanto barulho. E notem que ela já é velha e supostamente ouve pior. Mais do que tudo, achou uma interação estranha.
Não é especialmente próxima do seu vizinho. Contudo, sentia ali algo fora do normal. Era possível ele lá ter estado há mais tempo. Mas só quando estava à porta de casa se apercebeu da sua presença. Mal sabe ela que era dó preciso ter notado em Damian mais cedo e teria resposta a todas as suas perguntas.
Mas como isso não aconteceu, ela ficou como está. À porta de casa com um ar estranho a tentar decifrar o que o seu vizinho esconde. Enqunato este último já está dentro da sua própria casa a tratar de assuntos mais importantes que Irene nem imagina. Assuntos que envolvem o seu filho, Jeff Mindler.
Entrado em casa, Damian não gasta mais tempo e vai ter com Je-
Damian: "Jeff."
Tinha a certeza que o tinha visto ali no chão. Raios. Já deve ter saído de lá. Com o tempo que esteve com Iza fartou-se de estar a chorar de joelhos no chão virado para o sofá. Esquisito. Damian não achou que tivesse passado tanto tempo, mas deve ser o seu coração a pregar-lhe partidas.
Não. Isso agora não interessa. Procura o seu filho e não o encontra na sala de estar. Olha um pouco em redor. No sofá não está. Na cozinha apenas vê cacos de vidros no chão e a janela partida e...espera um pouco...janela partida? Ai! Tanta surpresa ao mesmo tempo. Quer dizer, deve ter sido Iza quem quebrou a janela para entrar em casa, mas isso não agrega em nada.
Depois de olhar em redor ficou na mesma. Logo, no piso de baixo não. Se não está na cozinha ou na sala de estar, então está no piso de cima. Por isso, na maior das pressas, quase tropeçando nos próprios passos acelerados em direção às escadas, Damian segue a toda a velocidade para as escadas.
Lá chegado ele assenta um pé no degrau, rapidamente seguido do outro que assenta no degrau acima. Pé seguido de outro pé. Passo seguido de passo. Degaru seguido de degaru. Pouco a pouco no mesmo ritmo corrido Damian não perde tempo e chega em alguns segundos ao piso de cima.
Agora que chegou não gasta mais tempo. Poderia assegurar-se que o seu filho não se encontrava em nenhum dos quartos, porém ele sabia precisamente onde Jeff estava. Se estiver errado é porque não cumpriu bem o seu papel como pai. Então, com base na experiência e instintos paternos, Damian vira-se para a direita e encara a porta do quarto do seu filho. É ali onde Jeff está.
O escritor vai tocar na maçaneta, mas...nada. Gira e puxa vezes e vezes sem conta sempre com o mesmo resultado. Ele trancou a porta do quarto. Ontem não tinha feito isto. É como se ele se tivesse cansado dos esforços do seu pai de um dia para o outro.
Damian: "Filho, abre a porta!"
Pede num tom imperativo e apressado.
...
Damian: *Hunf* *Hunf*
Está a respirar pesado da corrida. Enquanto o seu filho não responde pode aproveitar para recuperar o fólego. Pensando pelo lado positivo, ao menos não está a suar de uma corridinha. Ao menos não está assim tão velho.
...
Caramba. Por falara na espera, Jeff está a demorar. Dá para lhe dar um desconto. Afinal, ele deve ter recebido informações traumáticas. É bem provável que ele ainda esteja a recuperar. Até consegue entender que ele pode não ter ouvido. Não faz mal. Sempre pode repetir.
...
Damian: "Jeff! Estou aqui! Abre a porta, por favor!"
...
...
...
Agora sim as coisas ficaram esquisitas. Já não é a primeira vez. É a segunda que ele não responde. Começa a achar que algo de esquisito se passa. Porém, continua a dar-lhe o benefício da dúvida. Talvez não tenha feito barulho suficiente. Ok, vamos ver se responde se Damian bater na porta com força suficiente.
...
*Dam* *Dam* *Dam* *Dam* *Dam* *Dam*
Damian: "Jeff! Não sei se percebeste, mas tens o teu pai à espera!"
...
Bate na porta com parte de baixo da sua mão direita fechada para nada. Já é a terceira vez. E o resultado: o mesmo de sempre. Isto é, continua sem resposta. Agora é definitivo. Foi bem audível no seu tom de voz. Não que estivesse a gritar, mas, mesmo que a sua voz não tivesse alcançado Jeff, o som do bater na porta certamente tê-lo-ia feito.
...
Não, definitivamente ele está a abusar. Está a fazer de propósito. Quer ficar sozinho e não ser inquietado pelo seu pai. Parece que a verdade deixou-o a desconfiar de tudo. Deixou-o a sentir-se sozinho, sem ninguém em quem confiar. Nem mesmo o seu pai. A pessoa a quem esteve a mentir durante quase um ano.
...
Mas Damian quer vê-lo. Precisa de lhe esclarecer umas coisas e de saber o que se passou ao certo.
...
...
...
Não vai recuar tão facilmente.
...
*Dam* *Dam* *Dam* *Dam* *Dam* *Dam*
Damian: "JEFF! ABRE A PORTA!"
Opta por gritar, no maior truque que tem na manga.
Jeff farta-se de ouvir o seu pai. Encontra-se no seu quarto deitado na cama com a cabeça afundada na almofada enquanto chora sem parar. Com lágrimas atrás de lágrimas segura com força aquela almofada numa mistura de tristeza e raiva.
Encontra-se de luz acesa. Fartou-se de tudo e isso inclui aquele monstro. Não quer mais ver e ouvir nada. Está farto! Farto dos outros. Das vozes de quem o tenta ajudar e quem julgava amigo. Farto de ser magoado. Quer ficar sozinho...
Essa é a única forma de garantir que não sofre. Sozinho de luz ligada protegido das garras da criatura. Sozinho mergulhado nos seus pensamentos.
É isso o que deseja. É isso o que o seu pai não quer e saber disso apenss o faz querer apertar a almofada com ainda mais força. Faz exatamente isso e não se sente satisfeito. As vozes continuam.
Damian: "JEFF! ABRE O RAIO DA PORTA!"
Jeff: "..."
A raiva vai se acumulando e não pode deixar só para si.
Damian: "Eu não sei o que ele te disse, mas deixa-me explicar. QUERO QUE SAIBAS O PORQUÊ DE EU TER FEITO TUDO ISTO!"
Jeff: "..."
O seu pai insiste e insiste. Não desiste por nada mesmo vendo que os resultados são os mesmos. Ele quer lá saber do quanto tempo demora. Quer é ver o seu filho.
Damian: "TUDO O QUE EU FIZ, MESMO ESTA MENTIRA...FOI POR TI! POR TI FILHO! POR TI QUE EU DAVA A MINHA VIDA! POR TI QUE EU MENTI!"
Jeff: "..."
Apercebe-se que ele está em lágrimas. Se já não estava aquelas últimas palavras certamente o deixaram. E isso deixa-o tão irritado.
Damian: "DÁ-ME UMA CHANCE! ABRE A PORTA E DEIXA-ME EXPLICA-"
Jeff: "SAI DAQUI! É O MEU ANIVERSÁRIO, POR ISSO FAZ-ME ESSE FAVOR! Não quero falar com um mentiroso. TU SABIAS DE TUDO! SEMPRE SOUBESTE E NUNCA ME DISSESTE NADA! És a culpa...ÉS O CULPADO DE EU ESTAR A VER ESTES PESADELOS E AQUELE MONSTRO! SAI DAQUI! ODEIO-TE!"
...
...
...
Estas palavras...não as esperava vindo do seu filho. Não as queria ter ouvido. Ignorou as partes estranhas que não compreendeu e focou-se no que menos queria ter focado. De tudo o que podia ter levado a última coisa que quereria eram aquelas palavras. Pois elas até o mudaram. Lá no fundo, Damian ficou...triste.
...
...
...
O seu ânimo e pressa desvanece-se. Damian baixa a cabeça em vergonha, olhando para o tapete azul que cobre o chão de madeira velho da casa. Já esperava que isto fosse o resultado. Já estava à espera e ainda assim as palavras bateram forte como um soco no estômago. Não, no seu coração.
...
Foi relembrado do que tem feito até agora. Lembrou-se que lhe esteve a mentir durante todo este tempo. Gostava de não recordar-se disto. Não é algo de que propriamente se orgulha, mas foi algo que fez para proteger o seu filho. Digo isto de uma maneira mais resumida, pois Damian prefere não elaborar muito. Até porque não quer ficar muito absorvido na tristeza. Ainda tem um objetivo em mãos.
...
Por isso, ele levanta a cabeça, mergulhando no presente e temporariamente esquecendo-se do passado e dos seus erros. Está determinado a falar com o seu filho e isso é tudo o que importa.
*Dam* *Dam* *Dam* *Dam* *Dam* *Dam*
Damian: "NÃO SAIO DAQUI ENQUANTO NÃO ABRIRES A PORTA, JEFF!!!"
...
Mesmo sem resposta, ele continua com a mesma intensidade.
Jeff tira a cabeça da almofada com a raiva estrondosa que tem. Ia aproveitar para gritar toda a raiva. Cada sentimento negativo que tem lá guardado, quer tivesse a haver com o seu pai ou não, ele ia dizer tudo da forma mais alta possível.
Por isso ele senta-se na cama. E quando ia começar o seu discurso, olha para a porta, a porta que do outro lado guarda o seu pai. Não vai hesitar nem se conter. Pisca os seus olhos molhados por um segundo e-
...
...
...
Viu algo estranho.
*Dam* *Dam* *Dam* *Dam* *Dam* *Dam*
Por um segundo...
...o mesmo segundo em que tinha piscados os olhos...
...jurou ter visto uma imagem fraca antes de piscar...
...uma imagem e...
...um som.
...
...um som familiar e...
...no mínimo marcante...
...ou devo dizer...
...
...traumatizante.
*Clank*
...
...
...
*Dam* *Dam* *Dam* *Dam* *Dam* *Dam*
Damian: "VAMOS! AINDA ESTOU AQUI!"
...
Não pode estar a enlouquecer. Permanecendo sentado na cama ele petrifica tentando resolver e fazer sentido daquele vislumbre. Daquele segundo.
...
O segundo que foi capaz de pará-lo no meio do ato.
...
De o paralisar no momento para susbtituir a raiva que tinha por outro sentimento.
...
Um do tipo que faz as pupilas de alguém dilatar.
...
Que faz os olhos arregalarem-se.
...
Sobrancelhas levantarem-se.
...
A criança contrair-se como se sentisse intimidada.
...
Pois o que ele viu foi algo que andava o tempo todo a tremer.
...
O dia todo a fazer figas para que não acontecesse.
...
Ele tinha visto o tipo de coisa que consegie mudar a postura de alguém de um segundo para o outro.
...
...
...
O tipo de coisa capaz de substituir a raiva por puro e genuíno medo em um mero segundo.
...
...
...
O que ele viu não era um homem.
...
Era uma figura que o fez abstrair do seu pai e do que tinha ouvido há minutos atrás.
...
Uma figura cujo único dever é...amendrontar alguém até à sua morte.
...
*Clank*
...
O som volta a ouvir-se, confirmando a sua presença no meio da luz e a teoria da criança infelizmente certa.
...
O som que mais ninguém senão Jeff consegue ouvir no meio daquela gritaria.
*Dam* *Dam* *Dam* *Dam* *Dam* *Dam*
Damian: "ABRE-ME A PORTA!"
...
O som da morte.
...
O som do medo.
...
O som da entidade que nada quer senão essas duas coisas.
...
O som...
*Clank*
...mecânico...
*Clank*
...da criatura.
*Dam* *Dam* *Dam* *Dam* *Dam* *Dam*
Damian: "ABRE-ME O RAIO DA PORTA!!!"
...
*Dam* *Dam* *Dam* *Dam* *Dam* *Dam*
...
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*Dam* *Dam* *Dam* *Dam* *Dam* *Dam*
*Dam* *Dam* *Dam* *Dam* *Dam* *Dam*
*DAAAAAMMMMMMMM*
...
...
...
...
...
...
...
Após tanto tempo ele para e deixa os silêncio envolvê-lo.
...
...
...
Acabando com um estrondo ele para de bater na porta.
...
...
Tem a parte de baixo da mão direita cerrada toda vermelha de tanto bater na porta com uma força tão grande (para ele).
...
Já chega. Viu que não conseguirá nada dali. Sabe qur por muito que tente não irá a lado nenhum. Aquela insistência...fazia-a só por fazer a este ponto.
Tudo o que queria. Tudo o que quer é ver o seu filho. Quer entender o que se passou e quer que ele entenda que o seu pai não é alguém mau. O seu pai não é um mentiroso que se recusa a dizer a verdade aos outros só para os magoar.
E, sim, pode tê-lo magoado. Pode ter magoado o seu filho, mas não foi de propósito. O que fez. Tudo o que faz. Tudo o que fez. Cada passo que deu. Cada gota de súor. Cada palavra que saiu da sua boca. Foi tudo por Jeff. E isso também vale para Maria. Damian apenas continua a sua filososfia e tenta honrar o seu legado.
...
Aceita a derrota. Por hoje, não tem mais forças para continuar. Lá deixará o seu filho no quarto se é o que o faz contente. Amanhã, no fim do dia, auando voltar do trabalho, falará com ele. E amanhã...
Amanhã é a invasão. Iza não lhe deixa escolha. Quer morrer e o que ele disse lá fora era verdade. Era matar ou morrer. Quer queira ou não terá de erguer a arma para sequer ter uma chance de sobreviver. A pistola no seu bolso terá de ser usada.
Por isso, fica a questão que tem estado na sua cabeça nestes últimos dois dias: será capaz de matar Iza? Será capaz de matar o seu melhor amigo? Com tanta coisa para pensar, isso deve ser o que mais lhe tem inquietado. Quanto à resposta, depois de hoje, continua no meio. Sim, ele fez algo imperdoável, contudo, os seus instintos, modo de ser, personalidade e filosofia de vida não o deixam puni-lo. Não sente que matar é errada.
Mas não importa o que pense agora, a resposta será no momento. É aí que verá quem realmente é e se reagirá da mesma foram. Se esse for o caso, acabará o dia como um assassino. Isso é algo que não quer.
...
Estes pensamentos ocupavam-no no momento e não o deixavam fazer nada. Simplesmente faziam-no olhar para a porta do quarto de Jeff com olhar vazio enquanto pensava nas suas escolhas futuras. Pensamentos que ele considerava temporários, mas, mal ele sabia, que viriam a conquistá-lo durante o resto da noite até o momento em que ele eventualmente...
