Contranatura

12-10-2021

Um cavaleiro é destacado com a tarefa de servir de patrulha numa noite de lua cheia. Mal sabe ele que essa noite por vir e o dia que ainda tem por seguir se provarão como os mais desafiante da sua vida ao ressuscitar ligações quebradas e a formar novas que serão postas à prova.


O jovem Galland não conseguia dormir com os barulhos de lá das cortinas.
Estava deitado na sua cama de madeira revestida de cetim na longa tábua que ia desde os pé da cama até à cabeça da mesma. Vestido com a sua camisa e calças de cetim. Leve e fino cetim para a noite quente que se instalava em Britannia.
Nunca conseguia dormir. Não sabia porquê.
Os seus pais vinham todas as noites aconchegá-lo e guiá-lo ao quarto depois da ceia e da sua reza e veneração aos antepassados. Eram sempre as mesmas pessoas a agradecer: o avô Merrid Arageryan, seguido do bisavô Ingar, o tetravô Sep e, por muito que não fosse da sua família ou sequer uma pessoa, finalizavam sempre a agradecer às fadas e à Natureza por continuarem a manter o Ciclo.
Depois de repetir as palavras, parte por obrigação, parte fascinado, dirigiam-no ao seu quarto. Austero, exceto por um quadrado ornamentado com cortinas a fazer de janela, retangular e totalmente de madeira, incluindo o chão, o teto e as paredes. Eles abençoavam-no e pediam à Mãe Natureza para o proteger, davam-lhe um beijo na testa e iam deitar-se.
Isso sem saber que ele nunca conseguia dormir.
Que ficava acordado, a olhar fixamente para o teto.
Normalmente era sempre devido...bem, ao facto de ser uma criança e, como tal, por ser naturalmente irrequieto.
Contudo, nesta noite, ele tinha uma razão.
Naquela noite em questão, não conseguia dormir pelo calor e pelo ruído extremamente desconcertante que vinha de lá de fora, além da cortina.
Barulho abafado de gritaria desenfreada. Sons que começaram não há muito. Certamente sons de pessoas que tinham chegado ali.
Sons...

De discussões debaixo da luz da lua.

Galland levantou-se da cama acompanhado de um leve ranger da madeira claramemte desgastada da tábua debaixo do manto de cetim sobre o qual estava deitado. Por longos instantes, olhou para a cortina. Estática cortina. Imóvel cortina isenta da força do vento noturno para o auxiliar.
Ele ponderou o que ia fazer, ponderou muito se devia, mas a curiosidade venceu.
A criança desceu da cama e assentou no solo de madeira descalço. Sentindo a madeira a afundar a cada passo que dava na direção da janela ao alto na parede. Felizmente não causavam um ruído que superasse a gritaria lá de fora ou o contínuo ranger da madeira do chão. Apenas seguia a provocar alguns sulcos nas grossas tábuas que constituíam o chão do seu quarto. Como se casa estivesse possuída pelo espírito de um saxão malvado que estava a possuir a sua casa para o amedrontar. E ele suspirava por entre os poros da madeira, por entre os pregos de madeira. A tentar assustar a criança em vão.
Galland parou diante do quadrado na parede. O som mais alto do que nunca agora que tinha chegado ao ponto de sua casa mais próximo da fonte. O cheiro a ervas daninhas e troncos cobertos com teias de aranhas a pairar. Ele meteu-se em bicos dos pés e espreitou, apenas com metade da cabeça em contacto com o ar sufocante de fora.
Deparou-se com o mar de árvores a que se tinha acostumado após tanto tempo a viver na barriga da floresta. O cheiro dos carvalhos era mais do que familiar para ele. As flores de cores distantias e variadas posicionadas mesmo do lado de lá da janela, cuidadosamente regadas com a água do poço. O que não era familiar, contudo, eram as quatro figuras ao longe. Galland pôs as duas mãos nas bordas do quadrado pelo qual espreitava o exterior.
E viu quatro soldados armados em posição defensiva, à espera do ataque do inimigo.
Todos os soldados vestiam uma armadura prateada reluzente. Cobertos na cabeça por helmos cilíndricos com uma curta e fina fresta na região dos seus olhos. Tratavam-se dos cavaleiros da ordem de Urther Pendragon, o Rei de Britannia.
Cada um empunhava uma arma diferente. Um, o mais destacado à frente de todos, empunhava uma longa espada. Outro, atrás dele, contentava-se com um escudo de lata numa mão e um machado na outra. Atrás destes dois estava um homem com uma lança pontiaguda na sua extremidade metálica aguçada. Por fim, o último do conjunto, atrás de qualquer um, era um arqueiro com um pano atado ao pescoço onde residiam inúmeras flechas a usar com o seu arco de madeira polido.
Notava-se que estavam prontos para combate. Armas erguidas e tudo. Talvez estivessem a lutar contra um saxão, um bando de invasores. Só havia um problema com essa hipótese: porque é que estavam a apontar as armas para um conjunto de arbustos.
Cavaleiro de espada: "Não baixeis a vossa guarda! Ele deve ter farejado o nosso trilho!"
Cavaleiro de machado: "Sendo, porventura, essa a ocasião, sugiro que tentemos eliminá-lo agora, Beltrem."
A voz alta e stressada trespassa a fresta deles, saindo, ainda assim, abafada pelo capacete de metal a cobrir-lhes a face. Eram eles certamente a fonte da comoção.
Cavaleiro de arco e flecha: "Deveras. Fá-lo-emos com eficiência."
Cavaleiro da lança: "E prevenindo posteriores escaramuças francamente desnecessárias. Bastou-me uma corrida pelo dia de hoje."
O cavaleiro da espada aproximou-se do arbusto. Trilhou dois passos, dois passos trilhou e proclamou:
Cavaleiro da espada: "Compreendido, cavaleiros e escudeiros. Assim sendo, que as forças da Natureza e o espírito de Urther estejam connosco."
A seguir, o monstro saltou do arbusto diretamente para cima do homem da espada.
Por sua vez, Galland saltou e caiu chocado no chão.
Gritos irromperam pelo quadrado da janela do quarto. Vozes ainda mais altas. No volume mais elevado de sempre. À mistura, juntavam-se novos barulhos. Barulhos de cortes. De metal a perfurar em pele. De sangue a escorrer pelas lâminas e a cair na terra baldia.
Galland tremia. Respirava bastante. O seu peito subia e baixava em rápidas sucessões. Qualquer curiosidade dissipara-se foi substituída por...medo, medo do desconhecido.
Não estava a ver mal. O vulto não enganava. Tinha forma humana, mas era animalesco. Animalesco no seu salto. No forma como tinha os braços estendidos para a frente. Na maneira como as suas unhas eram longas, quase tão longas como a lâmina da espada do cavaleiro à frente.
Definitivamente vira o suficiente. Definitivamente não tinha porque ver mais. Definitivamente...
Galland levantou-se do chão, o choque psicológico a apaziguar uma pequena dor perto na espinha. O rapaz debruçou-se novamente na aresta de madeira da abertura ao exterior.
Rapidamente percebeu que os seus olhos não o enganavam.
Os quatros cavaleiros lutavam com a criatura. Uma criatura peluda. Envolvida em pelos nos braços, pernas, ombros e...cabeça. A cabeça do monstro era...como a de um lobo. Tinha unhas afiadas como lâminas. Dentes afiados. Saliva a escorrer da boca enquanto acompanhava os movimentos dos seus inimigos sem dificuldade alguma.
Faltava apenas ter o sol a pender no céu ao invés da gorda lua atual para ser mais claro.
Era também claro como os soldados temiam o monstro. Dois deles, o da espada e o do escudo, enefrentavam-no em proximidade, é decerto. Todavia, os outros dois picavam-no à distância quer com flechas quer com curtos golpe de lança. Eles não o enfrentavam, estavam a tentar desgastá-lo. Pensando bem, aquele tal medo talvez seja simplesmente um conhecimento do poderio da besta.
E esse poderio era evidente.
Os cavaleiros da espada e do machado cruzavam lâminas com as garras do monstro que continuamente seguia a bloquear os seus golpes, renderizando os esforços da dupla de ataque próximo como inúteis. Os cavaleiros do arco e da lança conseguiam danificá-lo com pequenos furos e flechas espetadas no torso estranhamente desenvolvido e musculado da criatura, mas eram apenas isso: danos pequenos.
Já para não falar que a besta canina só parecia estar a brincar com eles. A entreter-se com os seus fúteis e. na sua perspetiva, lentos golpes. Agora, estava no ponto em que a brincadeira tinha perdido a piada.
Ainda a bloquear golpes e a ser atingido por flechas e lacerações com a lança, o homem com cara de lobo rugiu. A saliva que pendia do seu maxilar definido voou. A próxima coisa a voar foi o cavaleiro da espada que foi pontapeado pela besta e projetado para as profundezas desconhecidas e distantes da floresta.
Galland estremeceu com o golpe, como se também tivesse sido atingido. Àquela altura, soube que aquilo era algo demasiado violento para estar a assistir, que devia ir avisar o seu pai ou mãe. Mas como observar uma carroça a descarrilar pela decapitação do cavalo que a empurrava, Galland não conseguia desviar o olhar independentemente do quão mórbido fosse o espetáculo em cena.
O lobo de forma humanoide dispensou o cavaleiro do machado de seguida com um mero balançar horizontal do seu braço, varrendo o soldado para embate direto com uma árvore nas proximidades. De seguida, ele saltou para cima do soldado da lança. Boca aberta, prestes a abocanhá-lo.
Inesperadamente, o homem conseguiu posicionar a sua lança em forma de uma única linha horizontal à qual as presas caninas do monstro se cravaram ao invés do capacete do cavaleiro. Sem questionar aquele milagre, o cavaleiro do arco aproveitou o ímpasse da besta empatada pela madeira da lança e acertou três flechas praticamente à queima-roupa.
Galland deixou-se levar pelo súbito vislumbre de uma virada de jogo por parte dos defensores do reino. Ele levou os dedos sujos de andarem a cortar madeira e de carregar os baldes com água do poço à boca, mordendo-a em ansiedade perante o confronto decorrente.
Quatro flechas a mais perfuraram nas costas do monstro. O arqueiro preparou outra para disparar enquanto os dentes permaneciam presos ao cabo de madeira. O cavaleiro da lança gritou algo. O cavaleiro do arco levou o que o companheiro disse como sinal e disparou outra flecha, desta vez na cara de lobo da criatura.
Foi então que o monstro se desviou a inclinar-se para trás, levantando o homem que se recusava a largar o cabo da lança no processo. Desesperadamente, o cavaleiro do arco preparava-se para disparar novamente. Contudo, antes que o pudesse fazer, em poucos segundos, a besta canina contraiu os dedos e uniu as suas unhas compridas num único ponto que espetou no estômago arqueiro ao atravessar a armadura metálica sem dificuldade alguma. O monstro ergueu o corpo do homem a grunhir de dor, que no meio tempo tinha largado o arco e entornado mais de metade das flechas nas suas costas, pelas unhas fincadas na sua barriga e distanciou os dedos uns dos outros, dispersando as suas unhas pelas entranhas do homem, rompendo metal, emitindo um som agudo equivalente ao da dobra de uma casca enferrujada.
Galland estremeceu e pregou uma mordida forte na pele circundante da unha, causando um fio de sangue escorrer pelo fino corte provocado por si mesmo. O fio de sangue molhou o chão de madeira no instante em que a criatura humanoide deixou o corpo insento de emoção do até então cavaleiro escorregar por entre os seus dedos ensanguentados para a pequena cama de relva. A esvair-se no próprio sangue e a ter de se contentar com as suas entranhas expostas. Intestinos, fígados e estômago, todos em contacto com a escaldante atmosfera da noite, todos a escorrem-lhe do cadavér para fora.
Nunca a diferença entre o monstro e os humanos alguma vez ficara tão clara. Nunca a violência e imponência da criatura parecera tão vívida. Nunca a criatura esteve tão solta e séria.
Nunca Galland se sentiu tão estúpido por ter sequer ponderado que eles talvez pudessem vencer quando, na verdade, não tinham chance alguma contra a raiva de uma besta da Natureza.
Por breves instantes, o monstro pareceu virar a cabeça, ainda a abocanhar a lança de madeira à qual o último cavaleiro se segurava. Aparentemente interessado por algo, algo distante que nem Galland nem ninguém conseguiria adivinhar ou alcançar com os seus sentidos básicos. No entanto, ele deixou esse interesse de lado e revirou os olhos para o oponente que restava, o cavaleiro pendurado na sua lança, o cavaleiro sem os pés no chão, a pender no ar.
Subitamente, a surgir a correr, o cavaleiro do machado encurtou a distância entre ele e a criatura. E, uma vez próximo da mesma, afundou o seu machado na imunda pata do adversário.
Cavaleiro do machado: "Vathim, largai a lança!"
O adversário que, em contraposição, nem bateu o olho para o seu ato desesperado de tentar distraí-lo para libertar o seu colega a levitar.
Pelo contrário. Fixou ainda mais o olhar no homem. Um olhar que atravessou a fresta do helmo do cavaleiro, alcançou os seus olhos e perfurou fundo a sua alma. Pois o cavaleiro não se mexeu.
Cavaleiro do machado: "Pelas fadas, Vathim! Solte!"
O machado continuava a bater sucessivamente na perna como se fosse uma das árvores que o pai de Galland deita abaixo. Perante os golpes, o ser com cara de lobo não fraquejou. Ele afundou os seus caninos na madeira da lança e reclinou a sua cabeça para cima num gesto rápido e veloz.
Como consequência, o homem até então a flutuar, passou a voar.
Através do ato do monstro, ele perdeu a pega na lança e foi lançado para cima. Projetado para o espaço reservado aos pássaros. Subindo, subindo e subindo até parar. Então, a besta cuspiu o pedaço de madeira enquanto atingido por machadadas na pedra que pouco significavam. A criatura abriu a sua boca canina repleta de presas afiadas. O homem caiu, a proclamar todo o tipo de linguagem profana. Mal chegou no alcance do monstro, encontrou-se mordido na região da cabeça, mastigado, o seu corpo revirado e, por fim, cuspido.
O que restou do cavaleiro foi o que pousou junto a uma árvore nas proximidades. Isto é, um corpo com tronco e membros, mas sem cabeça. Essa ficara na boca da criatura a ser mastigada até que ela finalmente a cuspiu em meado aos golpes imparáveis de machado na sua perna. E a cabeça fincada dele, juntamente com um helmo rasgado, saíram a rebolar no chão até eventualmente assentarem. Capacete aberto e cara cheia de marcas de mordidas profundas e furos nos olhos, testa e ouvidos.
Galland fechou os olhos com a visão grotesca da batalha ao fundo. Ele levou o dedo ensanguentado à boca, chupando o sangue para esconder-se a si, esconder a sua fraqueza. Naquele ponto, queria era voltar a dormir para não ter de ver o massacre, a inevitável derrota da ordem de Urther Pendragon. Portanto deixou os gritos guturais do homem do machado embalá-lo, esperando a morte dele-
Cavaleiro do machado: "Perece!"
Outro som de um machado a chocar com uma estrutura imóvel fez-se ouvir. Só que desta vez, a estrutura parecia ter quebrado.
Galland semicerrou o olho na tentativa de espreitar ou confirmar a sua suspeita.
E acabou por ver...o monstro a espirrar sangue da zona onde a sua perna devia estar...a perna cortada envolta em grãos de terra...o cavaleiro de machado e armadura ensanguentada a inspirar e expirar pesadamente depois do esforço bem recompensado. O monstro rugia, deitado de lado. Não de raiva. De dor. Dor. Pela primeira vez, ele tinha sido ferido e tinha profundamente sentido o ataque.
Mas de nada tinha valido. Podia ter perdido uma perna que, mesmo assim, ainda tinha outras três. Já que a criatura, mantendo um tom de raiva nos seus grunhidos, demorou pouco para se apoiar nas pernas da frente. Ele assentou a única perna dianteira no solo e manteve a postura. A postura de um lobo em quatro. Com a mera diferença de que este tinha uma falta.
O monstro virou-se para o cavaleiro do machado. O cavaleiro do machado expirou de novo, completando outro ciclo. Outro ciclo de vida. Outro ciclo de oportunidade. E apesar de tudo, ele nunca considerava que este fosse o fim do seu Ciclo. Ao invés disso, ele simplesmente ergueu o machado e preparou-se para regressar à luta.
Inexplicavelmente, ele queria lutar. Inexplicavelmente. Sem razão alguma. Galland sabia que era idiótico ele persistir. Os amigos do soldado morreram. O cavaleiro da espada fora arremessado para longe. Da mesma forma, o cavaleiro do machado experienciou algo semelhante. Mais do que qualquer outro ele devia saber da futilidade do seu esforço, de como o melhor seria desistir.
E ainda assim ele continuava.
Ele erguia a arma.
Porquê?
A besta de torso humano e face de lobo expirou, trilhando uma nuvem de sopro aquecido. Contraiu as suas pernas musculadas e saltou por cima do inimigo.
Como?
O monstro pousou perfeitamente com as suas três patas depois de uma queda em arco e foi a correr para longe do soldado.
Na direção de Galland.
Galland: "Pelas barbas de Merlin..."
As palavras ficaram-lhe presas na garganta. A inabilidade disparou pelo corpo como se uma flecha envenenada o tivesse atingido. Ele...ele...não conseguia acreditar.
Não conseguia acreditar que aquele ser tinha-o sentido àquela distância.
Atrás do lobo gigante, o homem do machado pareceu ter notado a súbita mudança de alvo. Pareceu ter notado na casa do pai de Galland. Pareceu ter o quadrado na parede e a criança à janela. O cavaleiro corria e gritava:
Cavaleiro do machado: "Jovem! Fuja!"
A ordem era clara. Era partilhada pelos sentimentos do pobre rapaz. O corpo é que se recusava a abdicar do controlo e da escravatura que o medo tinha sobre ele.
É que aquele monstro. A forma como corria energicamente. De língua de fora. A ansiar vitimizar outra pessoa. A jorrar sangue do lugar onde devia estar uma perna sem se importar. Sedento. Sedento pela morte. Com o seu pelo negro como o ceú da noite. As várias flechas espetadas nas suas costas. Usando a velocidade absurda com que se movia, as suas unhas, as suas garras para juntar mais uma pessoa ao Ciclo da Natureza.
Galland chegava quase a querer aceitar o destino.
Então, a criatura saltou.
Galland arregalou os olhos.
Mas deixou-se cair para trás antes da besta atirar-se contra a parede e da mesma rebentar.
Pedaços de madeira voaram pelo pequeno compartimento do quarto. Tábuas dos mais diversos tamanhos bem como lascas passaram perto da cara de Galland, mas não deixaram mais do que alguns cortes superificiais. Nada que o fosse incomodar ou sequer massacrar. Não, porque mesmo que doesse, ele não se iria importar.
Especialmente agora que a luz da lua entrava pela casa e iluminava o enorme buraco onde estava a janela e grande parte de parede e as diversas secções que resistiram ao imoacto prestes a desabar e...
...o monstro.
O lobo gigante com as três patas assentes no chão de madeira da sua habitação.
Ileso de qualquer ferida.
Intacto após atropelar a parede do seu quarto.
Galland mal conseguia respirar. Como se a atmosfera tivesse ficado demasiado rarefeita para ser respirada por um mísero humano. Todavia o mais provável é que fosse o medo. O medo visível nas suas mãos trémulas e boca aberta que o impedia de se acalmar, de...fugir.
Tudo o que conseguia fazer era ficar parado. Sentado no chão rodeado dos escombros do embate. A observá-lo. A observar a criatura que levaria à sua perdição. A criatura que se fartara de o ter ao longe a observar e que, por isso, decidiu ir ter com ele para providenciar uma experiência mais realista.
Cavaleiro do machado: "Corra!"
Os suplicos do além continuavam. Urgiam-no a agir. Sabiam que não iam chegar a tempo. Estavam a passar-lhe o testemunho. E Galland não conseguia mexer-se.
Não com uma besta à sua frente e a respirar vezes e vezes sem conta, baixando e erguendo o seu enorme peito.
Não com uma besta a aproximar-se de si em patadas lentas.
Não com uma besta a deixar pender saliva do seu maxilar.
Não com uma besta a parar diante de si, a poucos metros de o tocar.
Não com uma besta a estender o seu braço peludo na sua direção num toque aparentemente inofensivo...
Até estender as suas garras para agarrar na sua cabeça e-
Uma espada espetou-se na cabeça do monstro de uma ponta à outra.
A lâmina enfiada na grande orelha da sua cabeça de lobo que saía do outro lado, do outro ouvido, trespassando por completo o seu cérebro e existência.
Tudo erradicado com um único e certeiro golpe.
Galland lentamente olhou, boquiaberto para a direita.
Aos poucos, foi percebendo quem tinha sido o autor do golpe.
Quando viu a sua luva de metal a segurar na pega da espada.
O capacete estourado numa metade, permitindo ver o rosto do dono do conjunto de armadura a ser usado.
Era o cavaleiro da espada.
O mesmo que fora arremessado para longe com um golpe da criatura.
O cavaleiro destemido que há bocado combatia nas linhas da frente com os seus aliados, metade dos quais tinham morrido.
O soldado que, apesar das suas dores, evidentes pelo modo doloroso com que respirava, tinha voltado.
Tinha regressado e espetado a espada na cabeça da besta.
Tanto que, agora, encontrava-se ainda de mão na pega da arma, com a extremidade pontiaguda da lâmina a sair do outro lado da cabeça que golpeou.
Lâmina completamente ensanguentada com bocados de miolos do cérebro do bicho, pelo preso ao líquido vermelho como uma tinta aderente.
O monstro caiu com o peito no chão. Ao mesmo tempo, o homem caiu de joelhos, estafado com o esforço que fizera para chegar até ali no que deve ter sido uma corrida desenfreada para, com toda a força do seu ser, enfiar a espada no crânio da besta.
Mas ele tinha conseguido.
Galland era prova viva.
Testemunha do feito.
O feito impressionante de coragem e determinação como nunca antes ele vira.
Um esforço que chegara ao fim, tal como a energia e vida dos envolvidos.
Uma vez que o lobo gigante finalmente tinha sido reduzido ao sono eterno, comprovado pela sua língua imóvel e espetada nos destroços de madeira e olhos imóveis isentos de qualquer sede animalesca.
Juntamente com ele, o cavaleiro recuperava-se, de mãos coladas à pega da espada, mesmo abaixo da sua guarda. Preso ao trabalho mesmo sem fólego.
O melhor era que tudo iluminado debaixo da luz da lua.
A gorda lua que, querendo ou não, para além de iluminar, parecia abençoar a cena como...

...como um cenário mágico.

Como se fosse um espetáculo e o mundo estivesse a iluminar tudo para a criança ver.

Para que ela pudesse admirar.

E, em resposta, os olhos dela brilharam com admiração.

Cersna: "Galland, que comoção foi esta?"
A voz do pai entrou pelo quarto a dentro somado ao barulho da porta a ser arrombada, por muito qur não fosse necessária.
Galland tem a certeza que ele disse mais umas coisas, mas...simplesmente não comseguia ouvir.
Não se importava com uma cena daquelas à frente dele.
Com vista direta para a obra-prima diante dele.
A besta e o cavaleiro que a matou.
O cavaleiro do machado alcançou o seu colega desnorteado. Reparou em Galland. No seu pai e em como este passou a envolver o filho nos seus braços, tapando-lhe os ouvidos e os olhos da pintura, sangrenta pintura vermelha.
Mas não importava para Galland.
Magicamente nada importava naquela altura.
Nenhuma explicação seria capaz de superar aquilo que sentia.
Nada no mundo poderia tirar-lhe aquela sensação de admiração que crescia e crescia dentro do seu pequeno peito.
No escuro, cego pelos braços do próprio, pai ele sentiu ter visto tudo o que o mundo poderia entregar.
O mau, decerto.
Mas também o bom.
E sentia que o bem superava em muito o mal.
Pois, por muito que fosse verdade que presenciou mortes numa questão de pouco tempo, por muito que tenha sido muito sangue inocente derramado, por muito que tenha achado os esforços dos defensores do rei como inúteis...
...ele percebeu o "porquê".
O porquê de eles terem resistido.

E tudo se resumia à resiliência dele em proteger.

Em querer salvaguardar toda a vida, sem saber quem são, as suas idades ou aspirações, muito menos o que fazem para viver.

Eles protegem a vida sem se importarem com o custo, sem se importarem com a morte.

E, no processo, sempre conseguem o que queriam.

Sempre conseguem salvar vidas.

Proteger os que não se conseguem proteger.


Em meado a essa realização e à escuridão, o facto de ele se encontrar vivo mostrou-se uma dádiva abençoada pelos indivíduos de armadura.
Eles que são ídolos a seguir.
Lendas na sua perspetiva.
Então, mesmo sem ver ou ouvir, ele falou do coração:

Galland: "Pai, eu quero uma espada."

Galland acordou a coçar a pouca barba que tinha para se livrar de uma mosca que o retirara do seu raro sono.
O adulto dormira de olhos abertos. Com a idade, reparou que a agitação e dificuldade para adormecer que sentia em criança foi desaparecendo. Substituindo isso, foram aparecendo novas razões que o evitassem adormecer.
A morte dos pais. Os turnos terríveis como cavaleiro. O recém-falecimento de Urther Pendragon na mão de traidores. Contudo, todas essas foram preocupações que já nem lhe cruzavam a cabeça. Ou foram acontecimentos antigos ou eram ânsias resolvidas. No entanto, acima dessas preocupações todas, estava uma que se recusava a ir e era já companheira de Galland com o seu louvável esforço contínua de o afastar do sono: as suas preocupações económicas.
Bem, hoje foi um dia de sorte, pois ao menos dormiu.
Os olhos adormecidos de Galland ganharam vida e deram de cara com o teto. Um teto de madeira como o do seu quarto de infância. A diferença é que esta madeira era polida e de mogno. Em suma, era uma pitada mais cara. Neste ponto, ver o teto já não o incomodava. Havia noites em que apenas o fitava como um criminoso prestes a brandir a sua arma e Galland era o cavaleiro em ação com a sua própria arma à cintura. Hoje só tem a agradecer ao espírito de Urther por tê-lo abençoado com uma noite de sono e por ter ainda vindo com um sonho de prenda adicional. Um feito cem vezes mais raro.
A mosca navegou no ar, deixando por completo o corpo nu e exposto de Galland para pousar no ombro da mulher junto de Galland. Ela que estava virada para o lado, num sono pesado, a apropriar-se por completo dos cobertores de cetim da cama. Impressionante como aquela cama não conseguiu desabar com todo este tempo.
Ela não era a primeira mulher que Galland trazia para ali. Estava longe de ser a primeira a deitar-se naquela simples, mas firme cama para uma pessoa só. Mais impressionante que a cama continuar em pé após anos a fingir de cama de casal só o preço acessível que o estalajadeiro dava pelos quartos no estabelecimento. Teria de agradecer ao velho Cobble num dia destes.
Verdade seja dita, não eram nada de especial os quartos. Tratavam-se de autênticas divisões quadrangulares sem janelas, o que Galland até não inisistia em ter, ou mobília. Tirando a cama.
Galland olhou pelo canto do olho para a porta à direita. A cama encontrava-se perto da parede do fundo da sala, a contar pela entrada, por isso era fácil ver toda a divisão a partir dali. Galland notou na sua espada coberta pela bainha encostada na porta. Gostava de mantê-la ali para, caso alguém entrasse, o som estridente da espada a cair fizesse barulho o suficiente para o acordar do sono. De novo, essas ocasiões eram raras, mas todo o cuidado era pouco. Especificamente agora que o Urther tinha morrido e o Reino de Britannia estava numa crise sucessória.
A Espada estava por ser erguida.
Não era por falta de tentativa.
Muitos foram chamados para tentar erguê-la sem sucesso.
Pior é que em meado a tudo isso, recusam-se a chamar Galland para experimentar.
E ele queria a Espada, queria ser Rei de Britannia provavelmente mais do que qualquer um.
Subitamente, os seus pensamentos foram interrompidos ao sentir uma vibração na madeira da cama.
Galland: "Permite-me saber o que pretende, menina Urh?"
Perguntou, imponente, a sentar-se na cama e a girar a cabeça na direção do corpo virado da mulher.
Apanhou-a mesmo quando esta deslizava uma mão para debaixo da cama, achando que Galland estaria adormecido.
Urh: "Perdão, não queria acordar-te."
Respondeu, tornando a sua cara e corpo para o homem do seu lado, ecomungando a mosca das suas proximidades. Notavelmente, ela premia os lençóis contra os seus seios nus. Queria persuadi-lo através da sedução.
Galland: "Importa-se em dizer-me o que ia fazer?"
Urh: "Peço-te, não me trates por 'você'. Partilhámos uma cama, afinal."
Galland: "Pare de desviar o assunto, por favor."
Urh: "Foste tu quem me abordou primeiro ontem à noite, não foi? Gosto disso. Apenas carece em comparação com a noite que é capaz de proporcionar a uma senhora."
Galland: "Assim sendo, diga-me o que uma senhora vê de tão interessante no que se encontra debaixo de uma cama."
Urh arqueou as sobrancelhas e esboçou um sorriso maroto.
Urh: "Ora, fadas me levem, Galland. És deveras direto para um homem."
Disse, num tom adocicado e provocador.
Galland: "Urh, não volterei a repetir."
Retorquiu, sem vacilar da sua postura e disciplina possivelmente comparável à dos soldados mais disciplinados.
A mulher viu-se obrigada a ter de encarar os problemas diretamente. Como tal, evaporou qualquer traço de troça do seu rosto e proclamou:
Urh: "Galland, juro que ia apenas assentar a palma da mão no solo."
Galland: "De modo a...?"
Urh: "De modo a levantar-me, Galland."
Galland: "E, para tal, será imperativo meteres a tua mão debaixo da cama?"
Urh: "Perdão, contudo juro que não ia fazê-lo."
Disse a levar a mão ao peito.
Galland: "Urh, eu vi. É desnecessário manteres a farça."
Reforçou, solene como tudo.
Urh revirou os olhos.
Urh: "Que a Natureza me atinja se estou disser uma falsidade, uma vez que garanto que nada há debaixo da cama."
Galland: "Surpreende-me a forma como és capaz de falar isso após me veres a meter a armadura aí em baixo quando nos envolvemos."
Urh pausou boquiaberta.
Insultada e a erguer a voz, defendeu-se:
Urh: "Galland, eu não pretendo roubar nada."
Galland: "Se bem me recordo, não mencionei nada relativo a 'roubar'."
Retorquiu com a natureza calma de um espírito a entrar no Ciclo.
Urh resfolgou. A mulher desviou o olhar de Galland, rangendo os dentes uns contra os outros, abanou a cabeça em negação até quebrar o silêncio para dizer.
Urh: "Fique a saber que, ontem à noite, fora mais cavalheiresco que isto. Ontem, veio a meu encontro lá em baixo com os modos que apenas um cavaleiro como o senhor tem. Levou-me acima, até aqui, os seus aposentos, com todo o cuidado e levando-me pela mão. Agora, quem diria que foi tudo apenas para se livrar de mim."
Ela levantou-se e começou a pegar a roupa estendida no chão do seu lado da cama. Galland ficou atento ao modo como os seus dedos agarravam as peças de tecido cinza nos pés da cama para apanhar qualquer sinal de furto.
Urh: "Presumo que isto se resuma a um desejo seu para me humilhar."
Resmungava, a abotoar os botões da sua camisa de camponesa.
Galland: "A senhora é que se está a humilhar com esse comportamento."
Urh: "Fique a saber que eu apenas me interessei por si devido ao charme que exibiu. Que os meus antepassados me levem se eu estiver a ir contra a verdade."
Galland: "Não nego, nada disso, senhora, todavia-"
Urh: "E nem ouse em cogitar que dormi consigo pelos seus bens. É que o senhor sabe melhor do que os espíritos que não tem nada. Nada!"
Respondeu, resignada a levantar a sua voz consideravelmente.
Era mais um insulto, mas, para Galland, era fonte de grande problema seu. Portanto aceitou a derrota só naquela matéria e calou-se.
Calou-se a reconhecer a sua falha.
Urh: "Penso que as suas posses conseguem resumir o seu valor como cavaleiro também: o valor de um burro sem patas."
Urh acabou de atar a saia à volta da cintura.
Urh: "Possuo lugares melhores onde estar. O meu pai necessita de auxílio nas plantações de trigo. Existem cavaleiros muito mais valerosos que você a combater o estrume saxão enquanto a Espada permanece por ser extraída. Mas penso que um cavaleiro rasca como você não vá entender isso, nem o valor de tratar uma senhora educadamente."
Por fim, ela dirigiu-se à outra ponta da sala, para a porta, para sair.
Mas Galland encontrava-se paralisado a processar o que tinha ouvido. A conectar os pontos no local. A somar tudo e a chegar a uma conclusão estupidamente óbvia. Tão estúpida que o enfurecia. Tão estúpida que...era benéfica para ele a um ponto idiótico.
Por muito que ela não tivesse percebido, acabara de se entregar.
Galland energicamente saiu da cama, vestiu as suas calças castanhas de linho, parte do uniforme casual dos cavaleiros da coroa e correu para chegar até Urh. O seu porte físico e a rotina de soldado ajudaram-no no curto percurso ao ponto que conseguiu meter-se entre Urh e a porta barrada com a espada antes da mulher conseguir.
Urh: "Galland. Que veio a ser isto?"
Inquiriu, no seu ponto de esgotamento, a abrandar perto do obstáculo imposto entre ela e a saída.
Galland: "Uma simples medida minha."
Disse, ofegante.
Urh bateu com o pé e suspirou, exausta e enfurecida.
Urh: "Perdoa-me, Galland, mas estou farta disto."
Urh estendeu a mão para alcançar a maçaneta da porta, no entanto Galland intercetou-a e segurou-a pelo braço, ganhando-lhe uma reclamação aguda da mulher enjoada com a sua presença:
Urh: "Galland! O que estás a fazer?"
Galland: "Não posso permitir que saia."
Urh: "Galland, caso permaneças a apertar-me o braço eu juro que irei gritar!"
Galland: "E com que pretexto?"
Urh: "Ora para que outros venham me acudir!"
Galland: "A estalagem tem pouca afluência, Urh. Já de noite, as bebidas raramente saem. Pelo alvorecer, ninguém se encontra a beber lá em baixo. Como pudeste perceber ontem, apenas à noite é que este espaço tem algum mísero indício de freguesia."
Urh: "Ah, no que é que isso é relevante! Solta-me!"
Urh abanou o braço, porém Galland apenas pressionou-o com mais força. Ela esmurrava o seu peito vezes e vezes sem conta com a sua mão livre e o cavaleiro ignorava. Ignorava por reconhecer que os socos eram fracos, faltavam-lhes força. faltavam-lhes um real desespero e intenção de viver.
Ela ainda achava que ia sair.
Urh: "Pelo menos diga-me porque é que faz isto!"
Gritou-lhe entre grunhidos de dor dissimulada.
Galland leu pelas entrelinhas.
Galland: "Não. Não lhe devo explicação alguma."
O olhar dela enegreceu. Os dentes dela rangeram. Urh arqueou os ombros e ganhou uma postura intimidadora, digna de um confronto. Ela aproximou a sua cara da de Galland e ameaçou, quase a sussurrar:
Urh: "Não me provoque, Galland."
Galland: "Caso contrário irá matar-me."
Afirmou com toda a confiança do mundo num sopro.
Galland deixou o braço cair sem cerimónia alguma ao mesmo tempo que Urh caiu em silêncio, franzindo uma sobrancelha.
Galland: "Não aja como se não tivesse proferido demasiado."
Ela arregalou os olhos.
A tropeçar na sua hesitação, viu-se obrigada a defender a sua honra perante uma acusação do género:
Urh: "D-Desconheço do que fala. Eu considero é que o senhor cavaleiro está a pôr o cavalo à frente das éguas-"
Galland: "Duvido que nunca tenha ouvido falar dela ou, no mínimo, ouvir o nome dela a ser proferido nas ruas com conotação difamatória. Estamos a falar de uma camponesa a assassinar os nossos homens. Cavaleiros, homens do campo, não importa. Já que ela mata tudo e todos, sem bater o olho para a classe. Partindo do princípio que tenha bens de valor para roubar. Bens que, segundo tudo indicam, são vendidos aos saxões pela mão de um dos seus associados. O seu pai, como muitos acreditam."
Urh engoliu em seco.
Urh: "Ouça, eu realmente necessito de ir. Eu-"
Galland: "Imploro-lhe que passe a não alternar o assunto, Deguladora do Trigo."
As pupilas de Urh expandiram.
A sua respiração parou por pouco.
O pé esquerdo instintivamente deslizou para trás.

Se os outros indícios não o confirmaram, esta seria a prova cabal.

Galland deixou a máscara amigável, já meio solta, cair por completa. Ele falou, em voz grave:
Galland: "Não necessita de manter a faceta, Urh. Você própria entregou-se."
As suas mãos morderam a saia em pleno nervosismo.
Ela olhou para o chão.
Falou num tom baixo, reprimido:
Urh: "Você sempre soube, estou certa?"
Galland abanou a cabeça negativamente.
Galland: "Abordei-a pela sua beleza. Uma vez que me apetecia. Somente não tinha nas minhas expectativas estar a dormir com uma assassina. E você?"
Urh: "Um monstro também pode amar, sabe."
Urh pareceu ter reduzido os lábios a uma fina linha. Uma linha que ela própria cortou passado uns instantes:
Urh: "O que é que eu disse para fazê-lo perceber?"
Galland olhou-a de cima com um toque de desprezo.
Galland: "Foi a senhora que pôs os cavalos à frente das éguas. Saltou etapas em meado ao processo de me convencer. A meu ver, pareceram respostas memorizadas. Saltaram-lhe da boca muito facilmente. Como se o cofre dos seus segredos se tivesse aberto, farto após estar tanto tempo cerrado."
Urh deixou sair um riso breve.
Urh: "Culpe o meu encarregado. Foi ele o responsável por me encaminhar este destino que, confesso, tenho vindo a desgostar e a desejar encontrar uma saída de si. Mas..."
Urh levantou a cabeça, encarando Galland com um olhar perfurante.
Urh: "Não importa o quanto estiver farta deste fardo, recuso-me a permiti-lo chegar ao meu pai pela minha falta de capricho."
As mãos de Urh afundaram-se em dobras na saia que Galland nunca virá e de lá saíram com duas adagas enferrujadas.
Galland deixou-se recuar com as costas para a parede.
Mas não pode dizer que não esperava tal.
Urh impulsionou o seu corpo para a frente com um pontapé anguloso no chão. O efeito fez parecer como se ela tivesse saltado para cima de Galland a toda a velocidade, a brandir as facas para-
Galland sacou da espada atrás de si a prender a porta e acertou-a, ainda com a bainha inserida, na cabeça de Urh.
A Deguladora do Trigo recuou devido ao golpe que a marcou com uma poça de sangue a escorrer-lhe do cabelo para o olho direito.
Urh encontrou apoio depois do ataque e-
Galland girou sobre si, aproveitando o impulso para golpear a assassina outra vez na cabeça num ataque vertical.
A mulher foi forçada a bater com a cara no chão. As suas facas largadas com a queda forte que deveria ter sido ouvida no andar de baixo. Ela ergeu a sua cabeça ensopada de sangue-
Galland segurou-a pelo pescoço. O cavaleiro a só a vestir umas calças levantou-a com uma mão. Ele procedeu a arrastar a mulher de pé até à cama, arremessando-a no colchão em seguida.
Urh: "Se me matares..."
O discurso dela foi interrompido por uma tosse casada a sangue a sair dos lábios da assassina. Ela continuou:
Urh: "Se me matares, nunca saberás quem é o meu afiliado."
Galland: "Basta saber que é o teu pai, Urh."
Disse, confiante.
Galland tirou a bainha. A lâmina reluzente brandida refletia o rosto determinado do cavaleiro. A sua inexistente relutância pelo ato prestes a cometer.
Urh: "Urther pode ter morrido, podemos estar sem rei mas..."
Ela parou para respirar antes de finalizar:
Urh: "...será que a ordem dos cavaleiros aceitará um ato destes de um homem deles?"
Galland apontou a ponta da espada ao peito de Urh.
Urh: "Não serás olhado de lado como...o Foragido? Não será um ato destes de um homem sedento por sangue menosprezado?"
A mulher cessou para recuperar o fólego que lhe escapava.
Galland encostou a extremidade pontiaguda ao peito dela.
Galland: "Enganas-te. Não é pelo sangue."
Urh pestanejou, as suas pálpebras visivelmente pesadas.

Galland: "É pela recompensa."

O homem puxou a espada atrás por uns momentos.
Urh acenou afirmativamente com a cabeça, fechando os olhos. Não sem antes dizer as suas últimas palavras:
Urh: "Tudo bem. Eu entendo."
Reunidas as forças suficientes, tendo o impulso necessitado para o golpe da perdição, Galland estendeu o braço com a espada adiante.
Fazendo a lâmina perfurar no peito de Urh de uma ponta à outra, desde o coração dela até às tábuas de madeira da cama. Tudo em questão de um piscar de olhos. Com a eficiência e suavidade que apenas um cavaleiro poderia ter.
Pois ninguém mais no mundo teria garantido um final tão rápido e isento de dor.
Galland encarou o rosto de Urh. Ensopado em sangue mesmo antes do golpe da sua perdição. Com novas manchas vermelhas oriundas da perfuração no peito esguichados no pescoço da camponesa. De olhos fechados para passar tranquilamente ao próximo plano. À próxima vida. Ainda bem. Facilitou-lhe o trabalho.
A colchão da cama estava manchado de sangue. Sangue ainda a escorrer do corte estancado pela lâmina da sua espada. Galland sabia que retirada a arma, o fluido vital dela escorreria como um riacho num dia chuvoso, pintando o colchão de carmesim, infiltrando-se nas tábuas de madeira e pingando para o chão. Isso sim seria um grande incómodo.
Voz de fora: "Galland, está tudo bem?"
Galland: "Cobble, é o senhor?"
Tornou na direção da porta, de onde vinha a voz, a responder com prontidão e a tirar a mão da pega da espada.
A voz retornou, familiar, a confirmar a sua suspeita com uma leveza que apenas um conhecido de longa data poderia fazer:
Voz de Cobble: "Precisamente. O estalajadeiro em pessoa."
Galland sorriu.
Galland: "Cobble, o que o traz?"
Voz de Cobble: "Vim avisar o senhor que estão dois cavaleiros no andar de baixo."
Galland: "Dois?"
Questionou a virar a cabeça em tom interrogativo.
A voz de Cobble repetiu com a mesma convicção.
Voz de Cobble: "Um o senhor já deve ter conhecimento ou ao menos imagina quem seja."
Galland: "Correto, ainda assim, um segundo..."
Voz de Cobble: "Sou o mensageiro. Limito-me a informar, senhor."
Galland: "Entendido. E agradecido como sempre, Cobble."
Apesar de se encontrar lá fora, o clarear da garganta do estalajadeiro era audível.
Voz de Cobble: "Permite-me apenas saber qual era a fonte do barulho, senhor?"
Perguntou num tom mais sério.
Galland: "Foi uma discussão inesperada Cobble. Uma discussão com um final inesperado. Sabe tal como eu que uma coincidência destas não surge todos os dias. Felizmente. Até porque são deveras desagradáveis."
Voz de Cobble: "Permaneço sem compreender, senhor."
Galland: "Partilho da sua opinião."
Retorquiu pensativo a voltar-se novamente para o cadavér sepultada na espada.
Voz de Cobble: "Bem, precisa de algum dos meus serviços para tratar de tal imprevisto?"
Galland: "Terei de recusar, Cobble. Receio que isto esteja além das suas capacidade. Enquadra-se bastante é com o perfil de pelo menos um dos homens no seu estabelecimento neste preciso momento."
Galland agarrou a pega da espada.
Galland: "Pode deixar que eu tratarei desta ocasião. Considere-o um pagamento por todo o seu auxílio por todos estes anos, Cob."
Voz de Cobble: "Agradecido, senhor. Aproveitarei bem a oportunidade."
Falou emotivo. Sucederam-se os sons dos seus passos. Cobble seguira as recomendações de Galland. Que bom. Cobble sempre fora um bom homem. Como Galland prometeu a si mesmo: um dia iria recompensá-lo devidamente por tal.
Um dia, quando tivesse os recursos para o fazer...
Por ora, contentava-se com o misto de tristeza por matar alguém que estava a começar a gostar e a satisfação de ter concluído um trabalho que seria bem recompensado.
Fazendo o balanço, os áureos, denários e dupôndios eram capazes de ter valido muito mais que a sua vida ceifada nas mãos de uma assassina.
Chegada à conclusão, Galland puxou a espada.
Retirou a lâmina, proferindo a sua prece, a que Urther Pendragon instituíra no seu reinado agora terminado:
Galland: "Que a Natureza te abrace a alma na próxima rotação do Ciclo."
Extraída a arma, Galland virou as costas ao cadavér e foi vestir a armadura debaixo da cama, pois tinha a certeza que teria tempo para tratar daquilo.
Sem se aperceber que a mosca tinha pousado no nariz da mulher uma vez conhecida como Urh Ula.

Armadura prateada.
Luvas pesadas de metal.
Calças reforçadas a acompanhar.
Bainha com a espada à cintura.
Helmo debaixo do braço.
Foi desta forma que Galland saiu do quarto, fechou a porta, passou pelas portas de madeira que correspondiam a outros quartos completamente vazios, dedilhou o corrimão à esquerda com algumas peças em falta, circundou-o e desceu as escadas a deixar o cheiro a pó e a madeira a ruir entrar-lhe pelo nariz.
Um dos degraus da metade do percurso imprimiu um sulco para dentro de si mesmo. Testemunho de como a estalagem estava a cair aos poucos. Nem conseguiu descer os restantes quatro degraus para denunciar o problema ao velho Cobble que foi recebido pela voz pouco súbtil de Lant no segundo:

Lant: "Galland, cá estás tu!"O homem barbudo gritava enquanto sentado na mesa redonda a uns metros da escadaria. Ele tinha o seu capacete em cima da mesa, mãos a descansar em cima do mesmo. Um pronunciado volume que se fazia ver através da armadura de ferro, dobrando ligeiramente o metal na forma de uma concavidade.
Galland conhecia este homem melhor do que queria.
O machado característico do indivíduo não estava à vista. Tal como a do jovem.
O jovem na segunda de quatro cadeiras dispostas ao redor da mesa, por outro lado, era uma incógnita.
Lant: "Anda cá, meu rapaz!"
Gesticulou com a sua mão que Galland se aproximasse.
Não tinha muita escolha infelizmente.
Galland: "Imploro-te que me confesses se andaste a beber, Lant."
Cuspiu monocórdico a tomar um assento na mesa de Lant e do jovem.
Lant: "Ages como se não me conhecesses, rapaz."
Galland: "E conheço."
Galland pousou o capacete na mesa.
Lant: "Conheces e, apesar de tanto, não reconheces."
O cavaleiro gordo acariciou a sua comprida barba escura e piscou-lhe o olho:
Lant: "Já devias saber que o velhadas aqui é naturalmente embriagado."
Galland passou a mão pela cara a questionar seriamente as suas decisões de vida. Dada a oportunidade, sairia dali. Não sem saber o que queria e...
Jovem: "Perdão, não estou a compreender. O mestre Lant conhece-o?"
O rapaz insurgiu-se. De cara jovial. Corpo magro esguio. Portando musculos subtis debaixo da camisa comum sobre a qual sobressaía uma armadura ligeira. Uma simples placa no peito com dois retângulos a cobrirem-lhe os ombros que desembocavam no pescoço da sua cabeça que, por sua vez, usava um capacete oval com vista direta para o seu rosto.
Rosto de olhos puros e brilhantes como o reflexo dos lagos de Avalon.

Brilho que Galland perdeu há algum tempo.

A risada profunda de Lant extraiu-o de volta à cena.
Lant: "Oh, meu caro escudeiro, nem fazes ideia de há quanto tempo nos conhecemos."
Disse com uma mão no ombro do jovem e outra em cima da sua barba farta.
Gallant suspirou, já a prever o que aí vinha.
Lant: "Este homem diante de ti, Vellend, é o Galland. Eu-"
Galland: "Confirmo. Salvaste-me em criança do ataque de um Lobisomem. Muitos parabéns."
Lant: "E cortei a perna da besta com um único golpe do meu machado!"
Acescentou Lant a acrescentar também uma boa dose de ânimo em falta no relato de Galland.
Lant: "Na verdade, e que a Natureza me perdoe por esta blasfémia, tu Galland é que conseguiste meter-me com vontade de beber. Estalajadeiro, encontra-se à escuta? Mande vir uma caneca!"
Galland fez por evitar contacto visual com o barbudo, tamanha era a vergonha.
Naquela manhã, os raios de sol penetravam fortemente pelas grandes aberturas quadrangulares a fazer de janela na parede da porta. Ainda assim não forte o suficiente para alcançar qualquer uma das três mesas dispostas no salão. A estalagem era um espaço fechado, retirando esses dois buracos que permitiam o cheiro a relva do exterior assaltar os seus sentidos quando o seu olfato não se via dominado pelo odor forte a cerveja, malgas e carnes baratas cozinhadas nas brasas.
A cozinha em si permanecia oculta dos visitantes. Poucos sabiam que, na verdade, a divisão escondia-se debaixo das escadas. A portinhola pequena marcava-o. A maior parte dos poucos em visita é que reparava no facto de Cobble andar à volta das escadas a sair e entrar com pratos que ficavam intrigados, mas nunca intrigados ao ponto de ir investigar. Galland é que estava naquele espaço há tanto tempo para saber os segredos da casa. Segredos providenciados pelo seu único dono e funcionário ao seu único cliente recorrente.
Cobble: "Aqui tem, senhor cavaleiro."
Lant: "Muito grato."
Cobble chegou com a caneca e pousou-a na mesa ao lado do helmo de Lant. O velho estalajadeiro de cabelos e bigode grisalho, levou as mãos ao avental usado à cintura para as limpar.
Cobble: "Necessitam de mais alguma coisa?"
O jovem, de nome Vellend, ergueu a mão em protesto.
Vellend: "Não, obrigado."
Galland: "Também não, obrigado, Cobble."
Cobble: "Caso mudem de ideias, permanecerei à vossa disposição."
O velhote fez uma vénia e saiu para ir tratar de outros assuntos.
Lant ficou a observá-lo ir.
Lant: "O velhadas é simpático. Honesto. Generoso. Entendo o que vês nele."
O cavaleiro deu um gole colossal da caneca.
Lant: "Permite-me dizer que ele também sabe saciar a sede de um soldado. Começo a achar esta uma boa oportunidade de ter abrigo e boa cerveja."
Galland: "Apenas seria benéfico para o estalajadeiro. O pobre homem tem de tratar deste lugar com as suas mãos esqueléticas e o resto de energia que a idade não lhe tirou, tudo para ser recompensado por trocos minúsculos do seu único cliente e dos poucos que aqui vêm de vez em quando para nunca mais voltar."
Lant deu outro gole.
Lant: "Prometes? Nem parece."
Galland tornou a observar os arredores.
Galland: "É. Nem parece que está à beira do encerramento."
O cavaleiro da espada tornou novamente para os dois visitantes depois de uma pausa contemplativa em que admite ter exagerado.
Galland: "Dito isto, ousamos ir diretos ao núcleo da matéria?"
Vellent, o jovem que andava muito quieto no encontro inteiro, manteve a tradição e acenou com a cabeça em afirmativo.
Lant apontou-lhe o dedo ao mesmo tempo que tomava mais um gole da cerveja, um dos últimos.
Lant: "Tens razão, meu caro. Muita razão. É por isso que sempre gostei de ti. Quase ao ponto de te perdoar por teres escolhido usar uma espada ao invés de um machado. Calhou que não tenho aqui a minha arma, nem eu nem aqui o meu jovem escudeiro, mas não te importes, as armas estão em boas mãos."
Galland suspirou, incapaz de aguentar mais aquela conversa fiada.
Lant: "Diz-me lá, Galland. Como é que vais? As tuas dificuldades a adormecer. Continuam. Dormiste hoje ou-"
Galland: "É possível ires direto ao cerne da matéria, Lant?"
Perguntou Galland, numa voz cansada.
Lant finalizou a cerveja em três tempos, arrotou e iniciou a confissão:
Lant: "Certo. Como desejas tanto a verdade, eu entregar-ta-ei, curta e una: Galland, foste recrutado para a patrulha desta noite."
Galland: "Nem pensar."
Vellend piscou estupefacto.
Lant é que já estava familiarizado com a franqueza de Galland, portanto sorriu.
Galland permaneceu assente na cadeira, sem fraquejar ou hesitar perante a sua afirmação. Sabia o que queria. E que não se encaixava de todo com o que ele queria.
Lant: "Já previa que disesses isso, Galland."
Disse, a trocar para um tom severo.
Galland: "Já que sabias, podias ter requisitado uma alteração no plano."
Lant quase se desmanchou a rir.
Em contraposição, Vellend estava boquiaberto com a situação.
Galland: "Tens conhecimento da minha opinião relativamente a essas patrulhas. Muito arriscadas, pouco recompensadoras."
Lant: "Galland, receio que não tenhas escolha desta vez."
Galland: "Qual é a razão para tal?"
Interrogou-o, imponente a deslizar os sobre a guarda da espada.
Lant arregalou os olhos.
Lant: "Eu é que te devia inquirir relativamente à natureza da questão? A razão sempre foi a mesma: hoje será uma noite de lua cheia como corroborado pelos nossos maiores religiosos. Nós precisaremos de proteger o povo e evitar que sangue seja derramado."
O barbudo ergue as duas mãos no ar, como se ele se estivesse a render.
Lant: "Não percebo que mais queres que te explane."
Galland levantou a mão da espada para cima da mesa quase a derrubando com a intensidade com que a pousou.
Galland: "E que tal o porquê de não me destacarem para proteger o povo dos saxões que comprarão a lealdade dos servos mais fiéis do rei para o matarem pelas costas? Os mesmos que continuam a penetrar no nosso território, fazendo uso da nossa falta de um líder. Dessa maneira impedia que mais sangue fosse derramado. Adicionalmente ainda era melhor recompensado. Muito melhor recompensado."
Lant deslizou os seus dedos gordos sobre o seu nariz.
Lant: "Galland, a culpa não é tua. Nem foi do Urther, bendita seja a sua alma. Tu apenas tiveste azar, filho."
Galland: "Azar? O problema surge quando inicio uma retrospetiva e percebo que o azar se encontra a alastrar desde os meus primórdios como escudeiro. É uma companhia demasiado duradoura para ser apenas 'azar', Lant."
Lant: "Tenho de confessar que, como todos devemos saber, o trabalho de patrulha noturna é uma tarefa especialmente...trabalhosa quando comparado com as outras. Mas tens de perceber, Galland, que é uma tarefa tão importante quanto as outras."
Galland: "Tenho dificuldade em vê-la."
Lant: "Nem acredito que pelo cadavér dos meus antepassados vamos ter esta conversa outra vez."
Lant inclinou-se na direção de Galland, puxando a mesa para si. Maquinalmente, numa tom farto, cheio, ele deu-lhe a exata mesma palestra de sempre:
Lant: "Não percebo a tua insistência ao longo destes anos. Deves ser cego para não ver. A sua importância resido no facto de mantermos o nosso dever de protegermos as pessoas, por muito que de uma maneira diferente."
Ele relaxou na cadeira, mantendo o afinco e resignação dele face ao companheiro.
Lant: "Sim, é verdade que não estamos a combater invasores ou a estabelecer a ordem nas vilas mais problemáticas, porém permanecemos a preservar a vida. A vida dos habitantes do nosso reino que, sem a nossa proteção, a nossa coragem de pisar terreno na floresta em todas as noites de lua cheia, se veriam desprotegidos contra um monstro com a força de dez soldados inimigos. Até o Vellend, um escudeiro percebe o seu dever."
Vellend: "Decerto, mestre."
Respondeu apesar de Lant nem ter pedido a sua confirmação.
O cavaleiro gordo esmurrou a mesa abusando de uma força excessiva que Galland não via há muito.
Lant: "E numa época de crise, o melhor a fazer é ajudarmos da maneira que pudermos. Quer seja contra o Lobisomem, quer contra os saxões, quer contra terceiros como o Foragido. E se tu te recusas a perceber isso porque estás ressentido demais por teres andado a fazeres turnos de guarda pouco remunerados, então também terei de proteger o povo de ti."
Galland olhou para o seu colo. Baixara a cabeça, mas, de seguida, erguera-a novamente para olhar para Lant. Cruzar olhar com Lant. Contundente olhar dele.
Galland: "Quem é que irá na patrulha?"
Perguntou calmamente.
Lant retribuiu a reproduzir o tom do seu amigo a despir-se da raiva.
Lant: "As pessoas estão aqui neste momento."
Galland: "Somente três?"
Lant: "Foi como eu proferi: épocas de crise."
Galland: "Estou a ver."
Lant: "Calma, não me diga que o convenci."
Galland: "Nem pelas sombras da fada mais negra."
Galland levantou-se.
Galland: "Quem tratou de alistar-nos?"
Lant suspirou.
Lant: "Começo a perceber onde isto se vai encaminhar."
Galland: "Tu próprio disseste que me conheces bem, Lant."
Disse, a vestir o capacete. As suas palavras a passarem a sair abafadas pelo metal do helmo.
Lant: "Foi Sir Ector. De momento, encontra-se a monitorizar a Caliburn. A garantir que nenhum dos camponeses passa à frente na fila. Ou que nenhum cavaleiro ganacioso quebra as regras para ver se conseguirá retirar a Espada e com ela ganhar o trono vazio de Britannia."
Disse Lant a fitar Galland muito especificamente. Este, por sua vez, ignorou a provocação:
Galland: "Bom saber que fica a uma simples caminhada daqui. Exatamente como a prenda que embrulhei para os cavaleiros no andar de cima: a Deguladora de Trigo, bem dizendo, o que sobrou da mesma."
Galland virou as costas aos dois homens na mesa antes de poder ver as suas reações.
Ele assegurou-se que cada peça da sua armadura estava bem colocada. Verificou e certificou-se com especial cuidado uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete vezes o capacete, as luvas, as botas, o torso e os ombros.
Abriu a porta e saiu.
Não antes de escutar a voz de Lant incitada pela sua óbvia provocação:
Lant: "Recorda o que te disse, Galland. Não permitas que te tornes o problema."
Galland pisou no caminho de terra cortado na relva e virou à direita.

Galland caminhava na estrada.
Uma terreno reto que se estendia em direção ao horizonte. Com ervas e ervinhas a crescer nas bordas da fileira de terra castanha crua a servir de guia para os caminhantes na região.
O sol fazia-se sentir. Em especial debaixo da sua camada de armadura em cima da sua camisa regular. Mesmo assim, Galland passou por pior. O súor nem marcava presença no seu corpo, mesmo com todas as razões para tal, mesmo com todas as componente bem fixas ao seu corpo, sem frestas, sem fendas a deixar a sua pele no interior vulnerável. Pelo menos pensa que sim, ora veja...
A espada à sua cintura pendia. Balançava ligeiramente com cada passo, soltando alguns cliques metálicos sempre que entrava em contacto com as calças de ferro de Galland pelo mais ligeiro momento que fosse. Botas de metal a deixar pegadas no solo moldável húmido.
Sim, estava tudo certo, nada mau. Andar até ao local também não era assim tão mau. Ficava perto, vem vistas as coisas. Mas não podia deixar de pensar no quão tentador era não roubar o cavalo de Lant, que estava com uma mordaça atado a um poste de madeira lá posto para essa específica intenção.

Era em momentos como estes que Galland se via com as maiores vontades de...ser melhor recompensado pelo que é...pelo que faz...
...nem que fosse apenaspara ter um cavalo que o impedisse de colecionar calos nos pés.

Galland dirigia-se para o local onde Caliburn, a Espada, atualmente se encontrava cravada à espera de alguém que a retirasse.
Sendo sincero, Galland adorava ser o tal.
Adorava poder chegar lá, ter a sorte de ser aquele a levantar a Espada, aquele a herdar o trono vazio de Britannia, aquele a ter todo o poder do mundo nas mãos.

Galland adoraria, adoraria poder ter uma propriedade decente em que viver, uma certeza rica na sua vida de pobreza.

Subitamente, Galland travou e deixou-se imobilizar no meio do caminho.
A estrada estava vazia.
Em retrospetiva, ainda não vira ninguém a passar por ali hoje. Nenhuma carroça de comércio. Nenhum outro cavaleiro em registo de trabalho. Até porque não havia motivo para alguém ir na direção de onde Galland vinha. De lá, apenas poderiam encontrar estalagens pobres como a do velho Cobble nos seus últimos dias de portas abertas.
Conseguiria compreender porque é que alguém faria o mesmo trajeto que ele até à pedra da Espada. Isto se as pessoas de onde vinha já não tivessem todas ir tentar levantar a Espada e todas com o mesmo resultado: fracasso total.
E, para ser sincero, a não ser que estivesse a vigiar, nenhum cavaleiro ttambémlá deveria ir.
Afinal, para quê ficar a ver um objeto que nem lhes deixam tocar, embora com ele nunca possam ficar?
Eis a questão que Galland ponderou quando sacou da espada e se virou por completo para trás apenas para apontar a ponta da arma ao pescoço do seu perseguidor e perceber que era o jovem Vellend de quem se tratava.
Galland: "Tu..."
Deu por si a dizer a dar de caras com a face derretida de medo do escudeiro a centímetros de ter uma lâmina em cheio na garganta. O pobre jovem arfava, cansado de certamente ter percorrido uma longa distância num curto espaço de tempo. Ele estava de mãos erguidas no ar a sugerir tréguas silenciosas. Nem se devia sentir no direito de falar ou explicar a situação apesar de estar à beira de ser cortado. Algo na sua recusa em falar dizia que estava lá contra a sua vontade.
Galland lembra-se vividamente de ter passado por esse tipo de choque nos seus primeiros anos no trabalho, portanto assumiu o silêncio de Vellend como um apelo à paz e baixou a arma.
Galland: "Confessai: foi o Lant."
Obrigou-o a ripostar, a sua voz a ser emitida num volume inferior devido ao capacete.
Vellend: "C-Confesso."
Galland: "Não é requerida a minha permissão para baixar as mãos, jovem escudeiro."
Vellend olhou timidamente para os seus braços. Reparou em como estavam erguidos. Como ainda agia como se estivesse à mercê da espada. E deixou as mãos caírem.
Galland cravou os seus olhos no jovem e em como se mexia. Nos modos nervosos com que se levava. Sem dar por isso permaneceu a olhar para ele uns bons momentos depois dele ter seguido o seu conselho.
Nesse local temporal, Galland fez por deixar as suas estranhas fixações de parte e regressou ao caminho.
Galland: "Se prezas as ordens dos teus superiores, prezai a minha também."
Disse, noutro conselho para o escudeiro que deixava para trás.
Barulhos abafados dos passos de Vellend na terra batida ouviram-se em seguida. Depois é que veio a voz do rapaz:
Vellend: "Perdão, contudo apenas posso seguir as ordens do meu amo acima de qualquer outro."
Contestou, um tom apologista a atravessar a sua confissão.
Galland: "Ordem essa que consta que aspetos?"
Vellend: "Que devo ir buscar as nossas armas ao ferreiro, o Basset."
Galland: "E nem te emprestou o seu cavalo para o fazeres? Eu sei que és escudeiro, no entanto, se o que o Lant procurava na execução do dever era rapidez, esse elemento perdeu-se."
Vellend: "O mestre Lant chegou a ponderar emprestar-me o cavalo, o que, de facto, como o senhor consta é deveras irregular. Todavia, feitas as considerações e contas, o meu amo chegou à conclusão de que era capaz de ficar um bom tempo a tratar do caso da Deguladora, da sua autoria. Na verdade, se me permite perguntar, o senhor cavaleiro não tem um cavalo à disposição?"
Galland: "Dispenso comentários. Especificamente se o caro escudeiro fica por revelar a segunda metade das ordens do seu amo. Acredito pela luz das fadas que ele lhe pediu para ir levantar as armas, mas também lhe requisitou outra coisa."
Vellend: "Certo, ele também disse que devo certificar-me que o senhor Galland não faz nada de impulsivo. Nada que o torne uma ameaça à patrulha desta noite. Que essa ordem deve ser seguida até que a lua cheia suba no plano astral e o Lobisomem saía à noite."
Galland: "Mesmo que a ordem venha de um cavaleiro à beira do seu fim?"
Perguntou a acelerar o seu ritmo, o seu húmor a trespassar essa sua natureza pouco virada para o confronto em que se encontrava hoje, especialmente após o incidente que teve ao acordar.
Outro incidente para lhe assombrar o sono.
Vellend: "Como? Disse um 'cavaleiro à beira do seu fim'?"
Galland: "Refiro-me ao Lant."
Vellend: "O Lant?"
Questionou o escudeiro vestido de tecido fino, a dar de tudo para acompanhar Galland.
Galland: "Está para sair do trabalho há muito. A imagem no mosaico pode enganar, porém ele já é velho. Conheço-o desde que entrei na Ordem de Urther. Quando era um escudeiro...como tu."
O cavaleiro cessou, pressentindo o que a área pessoal em que entrava lhe poderia provocar a um nível emocional.
Vellend, ofegante, pareceu abrandar. As palavras de Galland deram-lhe algo em que pensar.
O jovem só interveio nos segundos seguintes:
Vellend: "Para a sua informação, creio que ele nunca me contou isso."
Galland: "O nosso Rei morreu. E com a alma do Urther, foi também a oportunidade dele de ir embora com todos os benefícios. Todas as terras oferecidas pela honra do seu serviço. Todos os cavalos. Todas riquezas que ele acumulou ao pongo da sua carreira como cavaleiro da Ordem."
Vellend: "Penso que, com a morte de Urther, o Reino transformara-se num estado demasiado instável para ser deixado. O próprio Merlin está a tomar medidas provisórias para suavizar esse impacto, mas ele continua a ser sentido. E Lant sabe que toda a ajuda é necessária. Como tal, não irá deixar a Ordem enquanto não sentir que o Reino está estável o suficiente para o deixar de consciência imaculada."
Galland: "Conhecendo-o como o conheço, esse género de motivações péssimas são me vistas como próximas da verdade."
Vellend fez um esforço enigmático e conseguiu ficar lado a lado com Galland quando este voltou a apalpar-se e a inspecionar. Vellend arqueou uma sobrancelha e tomou nota mental de que o cavaleiro tinha um tique estranho. De resto, descartou essa ideia e focou-se noutra muito mais importante. Ofegante, por entre laives de respiração, Vellend tomou coragem para saciar a sua curiosidade:
Vellend: "Galland...importa-se...que eu-"
Galland: "Galland não será um apelido amigável em demasia. Poupa-me deles quando mal nos conhecemos. Prefiro que me trates por 'sir cavaleiro', rapaz."
Vellend: "Entendido...sir cavaleiro..."
Galland: "Agora sim. Prossiga. A não ser que sejam conversas sobre as minhas dificuldades para entrar no sono. Para essas perguntas já me basta o Lant."
Vellend começava a perder o fólego a tentar forçar em si o ritmo do cavaleiro experiente.
Vellend: "Sir cavaleiro...eu apresento-lhe uma questão."
Galland calou-se e travou a revista a si mesmo, a prever a pergunta pelo tom curioso do jovem que indicava que ele quereria saber...
Vellend: "Porque é que...renuncia à proteção da vida...mesmo sendo um cavaleiro?"
Perante uma falta de resposta do cavaleiro encoberto da sua armadura, ele viu-se obrigado a elaborar mais, mesmo com a respiração difícil de manter àquela velocidade.
Vellend: "Não pude deixar de reparar...em como tem consciência limpa ao matar pessoas...e ao deixar as pessoas morrerem. Gostaria de saber o porquê."
E elaborou mais.
Vellend: "O porquê de não se importar...com o dever de um cavaleiro."
E mais.
Vellend: "De agir com base...nos seus próprios deveres."
E mais.
Vellend: "Queria saber um...pouco mais sobre si."
E mais um pouco.
Vellend: "Fiquei...com todas estas perguntas...na única vez em que o vi e...aproveitando a oportunidade oferecida pelo meu cavaleiro mestre..."
Até que os tempos findassem.
Vellend: "Queria perguntar-lhe...qual foi o momento em que deixou de se importar com os seus valores como cavaleiro e...se passou a importar apenas com a-"
Galland: "Deixai essas inquietações para as tuas rezas antes da ceia, escudeiro. Estamos perante o nosso destino."
Galland deixou-se estar inerte diante da vista. Vellend, a seguir os comandos do seu superior, também se imobilizou a mirar o núcleo da cena.
É verdade que era um espaço de terra cortado pela relva. Como a própria estrada era, mas, desta vez, a uma escala maior. Tratava-se de um círculo, um círculo de terra em meado às ervas verdejantes dos arredores. Mais do que um círculo, era um ponto de confluência entre quatro estradas, cada uma a intersetar a circunferência maior num polo diferente.
O trânsito em cada uma das estradas a levar até ao círculo era mais controlado hoje em dia. Especialmente com a nova atração: Caliburn, a Espada na pedra. Com mensageiros e comunicados a encher as vilas e aldeias a indicar o dia em que os habitantes deviam comparecer para tentar a sua sorte a levantar a Lâmina.
Hoje, uma vila do sul vinha tentar a sua ssorte. Homens formavam uma linha na estrada que parecia se estender até ao infinito. Adultos, crianças, velhos. Juntos formavam uma amostra díspare de cidadãos de vestimentas e tecidos rasgados que, ao longe, transformavam-se em borrões indistinguíveis de cores cinzenta e castanha.
Todos alinhavam para tocar Nela.
Todos queriam levantar a Espada.
Todos queriam a Caliburn.
O Tesouro no meio da circunferência.
Cravado num pedestal baixo de pedra.
A apresentar um cabo de metal prateado como apenas as armas do Rei Urther apresentavam.
A esbanjar um pomo dourado e ornamentado com uma pedra azul, uma safira.
Uma guarda dourada com vilosidades em ambos os lados que poderiam servir de lâminas adicionais em tempos desesperados da batalha.
Com um curto padrão de metal azulado que se estendia do chappe até aos inícios do sulco da lâmina, como um mosaico imbuído na arma.
Um mosaico a abrir caminho para a lâmina com metade do forte e toda a região do fraco inserida na rocha.
Rocha, branca rocha como o leite presa ao chão de terra como a Espada está presa a si.
Presa ao pedestal.

O pedestal a impedir a glória de uns de roubar a glória que tem guardada para outros.

Vellend: "Ena. Nunca tinha cá vindo."
Exclamou a recuperar o fólego perdido na corrida enquanto perdia ar com a vista grandiosa e simples diante de si.
Galland já tinha cá vindo antes. Umas quantas vezes, aliás.
Primeiro fora por curiosidade, para ver de que se tratava a tal Espada na pedra de que tanto falava. Nas vezes seguintes, foram em ocasiões em que não conseguia dormir e decidira vir ali para refletir à frente da Espada sozinho, nas noites em que ninguém se encontrava a guardar o artefacto, até porque ninguém a conseguiria roubar se não fosse o Tal. Nessas alturas, a sua mente divagava por momentos sombrios e questionava até mesmo a sua pertença à Ordem.
Prefiria não pensar muito nisso enquanto podia.
Galland: "Bem, meu jovem, fico feliz por te ter concedido essa bênção. Anda."
O cavaleiro prosseguiu e foi de encontro à única pessoa bem vestida num ambiente de pessoas pouco previligiadas. Ele foi ter com o cavaleiro a metros da Espada a observar a fila da multidão, a certificar-se que cada um deles ali tem a sua vez.
Cavaleiro: "Próximo!"
Um camponês adulto de braços consideráveis, a pessoa seguinte na fila, deu um passo à frente e preparou as mãos para levantar a Espada.
Só pela sua voz imponente, Galland conseguiu imaginar quem era aquele cavaleiro.
Galland: "Presumo que seja Sir Ector. Sou o Sir Galland. Da Ordem."
Apresentou-se, a sua voz abafada pelo capacete em cima da sua cabeça, a parar junto do seu alvo.
O cavaleiro virou a sua cabeça para fitar o recém-chegado visitante. O homem estava de helmo posto, tal como Galland. Vestia uma armadura num conjunto como a sua, embora mais enferrujada. A sua postura de braços cruzados, a maneira como ele supervisionava a fila de camponeses eram apenas alguns dos elementos que exalavam a sua aura de experiência. Muito mais exuberante que a que Galland carregava.
Ao notar a armadura que Galland vestia, o cavaleiro virou o seu corpo totalmente para o homem que o inquiria, respondendo diretamente:

Ector:
"Correto. Sir Ector da Ordem dos Cavaleiros."
Galland: "Bom saber que o Lant ainda não recorreu a enganar-me com o ódio permeado que ele guarda."

O homem camponês segurou no cabo da Espada e puxou. A lâmina enfiada na rocha parecia tremer ao mercê da sua força
Galland acompanhava-o pelo canto do olho além do seu capacete.
Ector mantinha o esforço do adulto debaixo de olho apesar da conversa.
Ector: "De momento, encontro-me ocupado. Caso não tenha percebido, tenho uma fila de camponeses para ordenar. Para além de me assegurar que nenhum outro cavaleiro ouse erguer a Espada."
Galland: "Compreendo. Os rumores ditam que o herdeiro de Urther possa ser um plebe, por muito difícil que seja acreditar."
Ector: "Temos pouco tempo e muitos candidatos. Mais vale rentabilizar cada instante ao máximo. Sem candidatos que possam ser uma perda de tempo. Mas diga-me. O que é que o Lant quer?"
Galland: "Oh, nada. Eu não estou aqui por ordens do Lant, ao contrário aqui do meu colega aqui."
Acenou na direção do rapaz a uns passos atrás de si. Vellend ergueu uma mão e acenou para Ector. O soldado ríspido descartou o gesto.
Ector: "Há algo em que posso auxiliá-lo, então?"
O camponês depois de tanto puxar no cabo com uma mão, ambas as mãos e por inclusive levantar a guarda apenas para ser recebido com tremelicos subtis da Espada, cuspiu para o chão em frustração. Ele retirou-se, resignado.
Ector: "Próximo!"
Chamou maquinalmente o cavaleiro experiente de braços cruzados em forma de aparte da conversa entre os dois.
Galland retirou a sua atenção do candidato seguinte ao perceber que se tratava de um velho de coluna bífida.
Galland: "Ouça, quero contestar a vossa decisão."
Ector: "A patrulha noturna, quer dizer?"
Galland: "Precisamente."
Ector: "Nada feito."
O velhote puxou a Espada pela guarda de um modo desleixado. Desta vez a lâmina nem tremeu. E o senhor não insistiu muito mais. Limitou-se a sair da fila.
Ector: "Seguinte!"
Galland sentiu uma tensão acumulada nos ombros a incomodá-lo logo no momento em que começava a sentir-se ele próprio inquietado com a postura daquele cavaleiro.
Galland: "O senhor nem ouviu os meus argumentos."
Disse, num tom de insurreição.
Ector: "Vem mesmo a calhar. Poderia dizer o mesmo de si."
Galland: "Sou todo ouvidos."
Galland ficou hirto. A obediência a demonstrar-se no seu comportamento com um retoque de rebelião.
Ector desatou os braços.
Uma criança seguiu-se na fila.
Ector: "Considero esta discussão desnecessária. As razões estão visíveis até aos cegos, Sir Galland."
Galland: "Poupe-me um sermão. Esses costumam apenas ser reservados a penitenciários e a criminosos. E o conteúdo nunca muda tal como a Natureza: o trono está vazio, saxões não param de nos invadir, ainda temos um cavaleiro Foragido a intervir nos nossos assuntos. O grande problema: nada disso justifica porque é que devo fazer um trabalho que, na melhor das hipóteses, me dá alguns asses e dupôndios que mal me compram uma malga."
Ector: "Mas se tem conhecimento do teor das minhas críticas e mesmo assim se atreve a seguir os seus meios erróneos, é porque merece um sermão numa dose mais forte."
Galland: "Pode tentar. Porventura ainda venha a perceber o meu ponto de vista."
A criança meteu-se em bicos dos pés e meteu as mãos na guarda da Espada com dificuldade.
Ector: "Perdoe-me, Sir Galland, porém creio que não haja nada a entender. É uma questão de dever, de proteger o povo. Contra esta estirpe de razão não devia haver argumentação."
Ector tirou a sua atenção de Galland, calmo, concentrando-a totalmente nos atos desajeitados da criança.
Galland resfolgou debaixo do helmo.
Galland: "Se fosse assim tão simples, Ector..."
Murmurou audivelmente, a intensidade nas suas palavras numa corrida crescente.
Galland: "Tem conhecimento de que andei a minha vida inteira a fazer turnos de guarda. De dia e de noite. Do alvorecer até ao cair do dia, permaneci a proteger o castelo da nossa majestade. Permaneci a receber pouco durante todo este tempo sem ser destacado para combater os saxões onde residiam os verdadeiros troféus, as verdadeiras oportunidades de demonstrar a minha glória e ser recompensado com o prestígio que qualquer um merece. Contudo nunca, nunca, mas nunca fui destacada para o estupor que é ser parte da patrulha noturna. Nunca tive de lutar contra um Lobisomem! E não será agora!"
Ector nem fraquejou com o levantar da voz da parte de Galland. Continuou a observar a criança que começava a puxar a Espada.
Ector: "Isto é tudo uma questão de moedas, é?"
Perguntou, a voltar a cruzar os braços de mira posta nos gestos frágeis da criança.
Galland não respondeu.
Ector: "Sir Galland, não me culpe pelo seu azar. Como deve saber, estes são tempos conturbados. Os sortudos passaram a ser azarados."
Galland: "E os que já eram azarados?"
Debateu, a ripostar veemente.
Ector: "Como você, estão a perceber que sacrifícios têm de ser tomados."
Galland: "Mesmo que isso signifique não ter a certeza de uma próxima refeição? Mesmo que isso signifique não ter denários para tratar de nós? Mesmo que isso signifique viver na miséria?"
Ector acenou afirmativamente com a cabeça.
Galland rangeu os dentes e rematou ressentido:
Galland: "É fácil falar para vocês quando têm herdades onde se esconder."
Ector: "Especialmente quando sabemos que existem casos como o teu onde não há nada que se possa fazer para vos convencer ou para mudar a vossa situação. Consequências de épocas de crise e de nos vermos obrigados a metermo-nos com gente teimosa."
Concluiu, apenas passando a olhar para a criança que continuava a puxar.
Galland acompanhou o foco de Ector e focou-se na criança...a puxar.
A puxar, a puxar.
Até que se cansou e desistiu.
Deixando de estar em bicos dos pés.
Largando a guarda da Espada, ela saiu a arfar.
Galland nem se apercebeu que tinha inclinado ligeiramente a cabeça para o lado com aquelas ações minúsculas de um ser insignificante. Mal tinha tido a noção de que recebera algo daquilo. De que algo no seu pensamento começou a burbulhar, a escapar da lama cinza e a ganhar cor para eventualmente ganhar forma sob o apelido de ideia.
Ector: "Próximo!"
Galland sugeriu, vindo do nada enquanto observava a chegada do adulto de cabelos grisalhos que se seguia:

Galland: "E se eu tentar levantar a Espada?"

Ector virou imediatamente a sua cabeça, tronco e membros na direção de Galland.
Estupefacto, ele soltou:
Ector: "Perdão?"
Galland: "E se eu levantar a a Espada, simpes assim."
Repetiu, confiante na sugestão.
Ector baixou a cabeça e levantou-a logo em seguida.
Ector: "Sir Galland, sabe que eu não posso permitir que cavaleiros levantem a Espada sem mais nem menos. Seria um desperdício de tempo."
Galland: "Eu não irei levantar a Espada sem mais nem menos."
Galland afirmou de peito erguido a sacar um ar confuso mais profundo de Ector.
Ector: "Juro em nome da Natureza que não percebo o que pretende."
Galland: "Um acordo, Sir Ector."
Ector: "Acordo?"
Galland: "Farei o trabalho, para o meu desprazer. Em troca, receberei uma oportunidade. Uma oportunidade de levantar a Espada."
Mesmo debaixo do capacete do supervisor, Galland conseguia adivinhar que ele estaria com os lábios reduzidos numa fina linha. Inseguros no que dizer a seguir.
Ector: "Isso implicaria ir contra as regras."
Galland: "Estou disposto a fazê-lo de conta própria. À noite, quando ninguém está de vigia, deste modo não prejudico ninguém."
Ector: "Tirando a si."
Galland: "Nem mais."
Ector: "Isso exporia uma falha no nosso sistema, sabe? Seria um exemplo negativo para todos os outros. Cavaleiros e outras pessoas que não camponeses e por essa razão também excomungados de tocar na Lâmina."
Galland: "Não se eu retirar a Espada da pedra."
Ector: "É improvável. Os rumores profetizam-no."
Galland: "Os rumores são rumores por alguma razão. E é porque são apenas isso: rumores, não verdades ou factos."
Ector pausou. Ele passou a palma da mão pelo capacete como se da cara se tratasse.
Galland sentiu-se a ser examinado. De ponta a ponta. O seu comportamente a ser analisado. A maneira como não vacilava no discurso. Como se recusava a hesitar. Como não gaguejava.
Como estava certo do que dizia, certo do destino que escolhia.
Por fim, Ector quebrou o silêncio:
Ector: "Deves ter percebido que eu não gosto de épocas de crise. Esta já é a segunda, a primeira foi com a polémica da nossa majestade Vortigerno."
Galland: "Não o culpo. Ninguém gosta."
Disse, a levar a sua vontade adiante.
Ector: "Faz ideia de qual é a pior parte de uma época de crise?"
Galland não disse nada, preferindo que Ector completasse:
Ector: "É a de precisarmos de toda a ajuda possível, mesmo daqueles que sabemos que nos podem prejudicar."
O adulto fracassou em puxar a Espada.
Ector necessitava de voltar ao trabalho.
Deste modo, ele virou-se de volta para o pedestal de pedra com a Caliburn espetada.
Ector: "Considere o acordo feito em secrecia, Sir Galland, por muito que com certa relutância."
Galland fez uma vénia.
Galland: "Que os seus antepassados o abençoem, Sir Ector."
O cavaleiro experiente deixou de prestar cuidados a Galland. Mas disse-lhe uma coisa, uma última coisa antes que o cavaleiro de armadura reluzante saísse:
Ector: "Ao menos proteja as pessoas, faça o trabalho como deve ser e esqueça a recompensa no dever. Creio que Merlin tem uma surpresa. O herdeiro está a chegar. Seria benéfico ele ainda ter um povo sobre o qual reinar."
Galland: "Tentarei."
Ector: "Faz também por preservar a pouca dignidade que sobrar. Aquele soldado renegado, o Foragido, segue a fazer justiça pelas próprias mãos e a declarar estar a agir em nome da Ordem. Se ele aparecer hoje como costuma aparecer nas outras noites de lua cheia para combater o Lobisomem, sabes o que deves fazer."
Galland anuiu e deixou o cavaleiro regressar ao trabalho precisamente quando ele dizia...
Ector: "Próximo."
Vellend apressou-se a ir de encontro a Galland assim que viu que a conversa tinha acabado.
Vellend: "Sir cavaleiro. Então?"
Galland: "Parece que tive alguma sorte após tanto azar. E tu estás incluso nela."
Vellend franziu a sobrancelha.
Galland: "Disseste ter as tua arma e a do Lant a um ferreiro chamado Basset. Ele está numa vila aqui ao pé, salvo o erro."
Vellend: "Completamente, no entanto..."
Galland: "Segui-me. Explico tudo no caminho. Mas fica apenas a saber que temos de nos preparar bem para esta noite."
O cavaleiro de armadura separou-se do escudeiro. Meteu o passo numa das biforcações. Uns segundos a seguir, Vellend estava a correr para tentar acompanhá-lo.

Vellend: "Como? Disse que irá ter uma oportunidade de levantar a Caliburn?"
Quase que Vellend gritava de tão parvas que eram as palavras proferidas pelo cavaleiro encoberto em camadas e camadas de armadura.
Os dois caminhavam na estrada pavimentada. No ritmo acelerado de Galland. Um ritmo a que Vellend começava a conseguir acompanhar. Ainda assim, ele ofegava aos montes com cada passo.
Os cenários passavam a passavam sem grande diferença. Eram sempre as mesmas flores turquesas. As mesmas ervas verdes. A mesma brisa intermitente a arejar os olhos de Galland pela fresta do helmo e todo o corpo de Vellend coberto pelo fino tecido da roupa. A mesma terra batida a ser pisada. O mesmo caminho.
Variava era a conversa que tomou um rumo interessante mal Galland falou sobre o acordo entre ele e Ector ao mesmo tempo que aproveitava para fazer outra ronda na vistoria do seu equipamento. Quer dizer, pensando melhor, o acordo era suposto ter ficado apenas entre eles os dois...
Galland: "Que isto fique entre nós, escudeiro. É suposto ser um acordo secreto. Era, na verdade."
Disse, tranquilizado, com a voz a sair abafada pela fresta no capacete. Lá no fundo, poderia não dar a entender, mas sentia-se animado como nunca.
Vellend: "Sir Galland-"
Galland: "Errado. É 'sir cavaleiro', jovem. Não quero ter de tornar a corrigir."
Vellend: "Sir cavaleiro."
Galland: "Digai."
Vellend: "Não quero parecer que o digo em tom prejurativo. Todavia..."
Vellend mordia o lábio em hesitação.
Galland: "Sem escrúpulos, jovem. Quero saber a sua opinião."
Insistiu numa paz intimidadora.
Vellend até desacelerou e Galland perdeu-o de vista.
Vellend: "Sir cavaleiro, considero-o uma aposta dúbia da sua parte."
Galland reduziu a sua velocidade à de Vellend.
Ele já precia que ele fosse responder como respondeu.
Mas é claro, a sua aparência, a curta conversa entre eles há bocado...esta só podia ser a resposta dele perante a resolução de Galland.
Galland nunca fora muito de se prestar muito aos conselhos dos outros. Ainda por cima se vinham de um incómodo como Vellend, então ele simplesmente ignoraria. Desta vez, sem saber exatamente a razão concreta ou se sequer se tenha devido ao facto de ele se estar a encaixar no molde que mentalmente preparou para o rapaz, contudo sabia que queria ouvi-lo.
Desta vez...queria...
Galland: "Importas-te em elaborar?"
Inquiriu-o, atenciosamente.
Vellend conssentiu. Ele permitiu-se arrebatar pela calmaria a emanar de Galland. Foi o que permitiu distingui-lo de outros cavaleiros ou pessoas comuns. Enquanto uns agiam irracionalmente, Galland fazia-se sempre acompanhar da lógica. Tal era evidente na sua familiaridade, amabilidade, profissionalismo.
Vellend: "A Espada. A Caliburn. Sabemos que ela se encontra presa à pedra. À espera de ser retirada pela pessoa certa. A pessoa que dizem ser o herdeiro escondido de Urther Pendragon, a nossa falecida majestade que as fadas devem rodear neste preciso momento de iniciação ao Ciclo."
Galland: "Até aí nenhuma novidade à vista."
Afirmou com uma seriedade que fez Vellend rir, quer essa tenha sido a intenção ou não.
Vellend: "Esse é o problema. Segundo o que eu sei, o Sir Galla-...sir cavaleiro, quero dizer, não tem sangue real."
Galland: "Posso ter muito sangue em mim, das mais diversas pessoas e linhagens, mas digo-te que nenhuma fração dele é azul. E acho que não preciso nem da palavra de Merlin para confirmar isso."
Vellend: "Portanto o seu esforço não servirá de nada. Acho bem que participe nesta iniciativa. Incentivo-o aliás. Mas não será por isso que eu não deixarei de ser franco consigo."
Franco. Sincero. Benevolente.
Fadas levassem Galland, este Vellend era um espelho perfeito. Um espelho de...
Galland: "Agradeço a honestidade, escudeiro."
Disse, uma recém-adquirida seriedade a esfaqueá-lo.
Galland: "Agradeço deveras. Agora, o que tens de perceber é que, para um trabalho pouco recompensador como este, até uma falsa esperança pode ser tudo. Isso especialmente aplica-se a um cavaleiro de bolsos rotos como eu."
Concluído o argumento, Galland recuperou a passada anterior. Vellend imprimiu o mesmo ritmo no seu modo de andar, com uma certa dificuldade e com o cansaço a atrasá-lo.
Vellend: "Espere, mas sabe que apenas uma pessoa poderá levantar a Caliburn."
Galland: "Ficarei por saber se sou eu sem tentar. Também não tenho nada a perder neste ponto. Estou reduzido a fazer trabalhos péssimos como este. Morosos, que pagam pouco. Acresce isso ao facto de estar em risco de ficar sem lar, o único lar que podia sustentar com o pouco que já ganhava em turnos horrendos de guarda no palácio..."
Galland parou por pouco.
Regressou a murmurar debaixo do capacete num volume tão baixo que Vellend teve dificuldade em escutar:
Galland: "Se já pensava que estava em vielas estreitas, então a crise de sucessão está a empurrar-me de encontro a um soldado com o gume de uma lança apontada para mim e o mínimo que posso fazer é pegar num ramo de árvore para me defender."
Ao fundo, já era visível um muro com uma abertura em arco no meio. Estavam a chegar à vila de Tintagel. Onde poderiam encontrar o ferreiro Basset bem como muitos outros inúmeros serviços.
O jovem continuou a conversa apesar de Galland já a ter dado como concluída, evidentemente aliciado por algo:
Vellend: "Sir cavaleiro, ficou de me responder à minha pergunta. Na verdade, creio que ficou por a ouvir."
Galland: "A sério? Penso ter ouvido e respondido inclusive."
Disse numa confusão dissimulada.
Cego à tentativa de ludibriá-lo, Vellend insistiu:
Vellend: "A propósito desta sua importância com o pagamento, lembrei-me de inquiri-lo relativamente à sua própria natureza. Não se preocupe, não o irei inquirir relativamente aos seus problemas de sono. Queria saber quando é que passou a querer saber das moedas em jogo por cada dever atribuído? Eu pelo menos creio que nunca entrou aqui com essa prioridade."
Galland ficou quieto perante a pergunta.
Apenas seguiu o caminho, passando por baixo do arco da entrada de Tintagel.
Vellend: "Digo eu, mas...confesso e admito qualquer erro que cometa nesta minha premissa. Estou aberto às suas correções."
Uma multidão encheu-lhes a vista de imediato à mesma velocidade que o guisado de odores de súor de cada um que se juntou ali naquele dia quente de alta afluência. Montes de indivíduos de todos os géneros, idades, condições sociais. As ruas não distinguiam por classe. As ruas moviam-se e estendiam-se consoante as pessoas a frequentá-la. As pessoas que se contorciam para passar umas ao lado das outras. Galland e Vellend eram apenas os novos integrantes do clube.
Bancas de madeiras estendiam-se de ambos os lados. Vendedores de fruta com moscas a pairar em cima dos alimentos. Vendedores de peixe a exclamar do fundo dos pulmões o quanto os preços da sua pesca eram razoáveis. Gritos voavam pelo ar. Suplicos de vendedores de bolsas de couro para as comprarem, mesmo que as pessoas depois não tivessem dinheiro lá para pôr. Insultos de pais ao ver a multidão a ignorar a sua banca de venda de rochas incomuns, porque sem o altruísmo de um povo sem dinheiro, também eles não teriam dinheiro para alimentar os seus filhos. Mulheres com bebés nos braços a implorarem para comprarem as tâmaras que vendiam, as maçãs podres que se viam obrigados a vender para ganhar alguns trocos.
E uma mulher em particular a cantar com uma toalha de pano estendida no imundo chão de pedra. Uma mulher velha enrugada a cantar para uma multidão e um ambiente tão inundado pelos sons indistinguíveis de confusões, barafustos, reclamações, o calcar de sapatos e dos pés descalços dos transeuntes. Em que ninguém nem nenhum parava para ouvir a melodia por ela cantada que Galland conseguiu apenas escutar porque passou ao lado dela numa fração de segundo...

《...na noite
Não te acanhes se o vires
Faz o que te peço, agarra no pires
Deixa, deixa que venha.

Criança, homem ou mulher
Ela não discrimina
Afeta todos, o que estão em baixo e em cima
Somos o nada e Ela faz o quer.

Vem, vem, Mãe!》

...e não captou mais nada com os seus ouvidos além das respostas de Vellend.

Vellend: "Ficarei a ouvir com toda a atenção permitida."
Subitamente, Galland não se sentia tão sozinho ja sua miséria. Da mesma forma que a recompensa pelo seu trabalho vinha a diminuir, as colheitas também diminuíram a acompanhar a asfixia lente de grande parte do território de Britannia perdido para os saxões.
Vellend: "Estarei disposto a uma elaboração da sua parte com direito a dizer tudo o que quiser."
Não conseguia culpá-los pelo seu desespero, não conseguia falar mal deles pela sua visível indignação em não vender uma maçã ou em não conseguir levantar uma arma, não conseguia julgar os atos dos outros quando as suas ações eram meros produtos de uma longa cadeia de infortúnios que se sucedeu e caiu em cima deles na forma de..."azar".
Vellend: "...está à vontade. Quando quiser."
Galland: "Sou capaz de fazer melhor que isso, Vellend."
Retorquiu, de tom monocórdico, melancólico, reflexivo, incitado pelo ambiente degradado em seu redor.
Vellend até parecia abrir as orelhas perante o exercício mental que Galland lhe propunha enquanto voltou a inspecionar se a sua armadura estava perfeitamente selada.
Galland: "Acompanhai-me neste raciocínio: imagina-te num campo a caçar a ceia com um conhecido teu médico. Estão vocês os dois, cada um com a sua espada, à espera que a presa chegue."
Vellend: "Que presa?"
Galland: "Irrelevante. Conjura qualquer uma que der uma boa refeição. Quem diz isso diz um cervo, um bói, uma raposa."
Disse, os dois a passarem no meio de gritos de ambos os lados das fileiras intermináveis de bancas de vendas e da multidão a centímetros de entrar em conflito com cada um dos vendedores. Em meado a toda a confusão, Vellend teve de se aproximar no cavaleiro de armadura completa para ouvir melhor a sua teoria abafada pelo capacete sobre a sua cabeça.
Galland: "Vocês os dois caçam pacientemente. Aproveitam a companhia um do outro. Não que se conheçam. Pelo contrário, como disse, ele é um conhecido. Alguém que encontraste e perguntas-te se se queria juntar a ti."
Vellend anuiu de olhos semicerrados, incomodado com o ruído explosivo do que o envolvia.
Galland: "Passado esses momentos de paz, dá-se a tragédia. Um lobo surge e ataca o teu conhecido, o médico. Coitado, ele pode ter estudado como as ervas atuam no corpo, contudo não estudou como se livrar do lobo. Então ele desespera e deixa cair a espada enquanto o lobo abocanha o seu ombro. Coincidentemente, oposta à luta entre a besta e o médico, está um veado. A ceia encarnada. E assim sobras tu. Com um homem a precisar de ajuda de um lado, e o jantar do outro. Pergunto-te o que farias?"
Vellend abradou um pouco a ponderar.
Galland: "É uma escolha complicada para ti?"
Vellend: "A Natureza e as fadas sabem que não é. Escolheria sempre salvar o médico."
Galland: "Porquê a hesitação, nesse caso?"
Vellend: "Estava a perguntar-me porque é que incluiu a segunda opção se ninguém a escolheria."
Já chegava a assustar.
Aquele otimismo...
As semelhanças dele com aquela versão sua eram assustadoras.
Galland sorriu nervosamente debaixo do helmo e prosseguiu com a sua descrição a fingir um laive de severidade.
Galland: "Escolhes a primeira opção, certo? Decides salvar o médico e ao fazê-lo decapitas o lobo com um corte eficaz da espada. Mesmo ferido, o conhecido vive e agradece do fundo do seu coração por teres arriscado a tua vida por ele. Em meado ao seu discurso, algumas lágrimas fluem das suas bochechas e tu deixas-te abraçar pelo calor inesperadamente familiar dele. O melhor de tudo é que ainda tens refeição para a ceia. O lobo está morto, afinal de contas."
Galland enfiou-se no espaço intersticial considerável entre duas bancadas de madeira. Vellend espetou-se na abertura onde a afluência da multidão diminuía e escapou do leito do rio de barafustos.
Galland: "Mais tarde, uns dias depois, o teu pai adoece. Pode ter sido uma doença desconhecida. A idade a perfurar o seu coração. De uma forma ou de outra, o veredito é que és impotente para impedir o que virá. Não és um médico. E, acima de tudo, és pobre. Mal tens moedad para uma refeição. E o teu lar está a ruir. Pior, vai passar a ficar sem gerência. Não és médico. Não tens dinheiro para um médico. Mas, por sorte, conheces um. Um médico que, por acaso, te deve muito."
Na recém-chegada bifurcação que percorriam, a gritaria irrompia no ar. Bancas permaneciam a permear a rua juntamente com as toneladas de indivíduos em movimento e em diálogo com os vendedores. Se bem que apenas de um dos lados. No outro, estavam bancadas de madeira assentes no chão com pregos. Por ali podiam ser encontrados bancas fixas de venda de fruta, mobília, carpintaria e armas. Foi naquele lado que Galland e Vellend se chegaram.
Galland levou a teoria adiante monotonamente:
Galland: "É justo o médico ajudar-te, não é? Tu ajudaste-o. Portanto ele que te ajude a ti. Como tu salvaste-lhe a vida, ele que salve a vida do teu pai."
Vellend: "Entendido. Mas não estou a ver o ponto ainda."
Galland: "O ponto é a resposta à tua pergunta. Disseste-me que querias saber quando é que passei a importar-me com a recompensa acima de qualquer outra coisa. E a resposta é que sempre o fiz inerentememte, mesmo sem saber."
Vellend arregalou os olhos. Piscou-os duas vezes recheados de cepticismo.
Vellend: "Está a sugerir que eu e todos os outros escudeiros e cavaleiros da Ordem salvamos o povo para que o povo depois nos possa salvar em troca, é isso?"
Galland acenou a confirmar.
Vellend: "Mas nem sempre foi assim. Nem sempre começou assim consigo, correto?"
Galland: "Confesso que não, Vellend, confesso que não. Ainda assim, olhando em retrospetiva, fica nítido que sempre tive esses resquícios do meu eu de agora. Eles apenas cresceram, foram cultivados pelas circunstâncias e afloraram no que vês neste preciso momento."
Vellend: "Tem noção de que esse não é o caso de todo."
Galland: "Admito que possa estar a generalizar em determinados aspetos. No entanto, o veredito mantém-se, em geral."
Vellend: "Apesar de saber que existem pessoas que fazem isto somente com interesse no propósito do trabalho em si."
Galland: "Que é?"
Vellend: "Salvar pessoas, Sir Galland."
Galland cessou.
Nem o corrigiu.
Provavelmente por ter recebido a prova cabal da natureza de Vellend.
Talvez por reconhecer uma falha no seu raciocínio.
A queda derradeira da sua façada.
Seja pelo motivo que for, seria irrelevante, pois Galland fingiu que foi por terem chegado ao ferreiro.
Galland: "O seu nome é Basset, ferreiro?"
Perguntou a imobilizar-se à frente de um balcão baixo que lhe chegava à cintura.
Do outro lado estavam alforges, lâminas cegas, pegas de madeira por associar a um gume metálico para formar uma arma. A maioria dispostas numa mesa junto de uma parede do fundo a delimitar a extensão da sua lojinha improvisada. Mais próximo do balcão, estava uma forja perigosamente incadescente, uma bigorna e um homem caucasiano de avental a estender-se do pescoço até aos joelhos.
O ferreiro de rosto sujo com manchas escuras do trabalho na forja, limpou uma das mãos na bochecha, pintando-a com mais um rastro negro, e dirigiu-se a Galland numa voz cansada:
Basset: "Basset Phel. Em que posso ajudá-lo?"
Vellend posicionou-se ao lado de Galland. A recuperar da recuperação do ritmo da caminhada, ele proclamou:
Vellend: "Viémos buscar as armas encomendadas por Lant da Ordem dos Cavaleiros."
Basset: "Uma machado e uma espada?"
Vellend: "Precisamente."
Fadas o levasssem, o rapaz também usava uma espada...
As coincidências pareciam fabricadas.
Basset: "Tenho-os prontos para serem levantados."
Vellend: "Excelente. Levá-las-emos agora."
Basset: "À vontade. Desde que tenham o pagamento."
O maxilar de Vellend escancarou-se.
Vellend: "Hã? Pagamento?"
Basset: "Estou confiante no que digo, jovem. Quem fez a encomenda ficou de pagar."
Vellend: "Perdoe-me completamente, todavia eu não tenho qualquer moeda comigo. E precisaremos das armas para esta noite. Será uma patrulha noturna, senhor ferreiro."
Basset: "Estamos no fim da manhã. Têm a restante metade do dia oara o fazer. Felizmente para vocês, estarei aqui o dia todo."
O ferreiro deu as costas para os clientes e regressou à forja-
Galland: "Mencionou o seu nome. Basset Phel."
Interveio, a sua voz ameaçadora e digna de um vendedor calmo a chegar aos ouvidos do dono da banca mesmo com tanto ruído de fundo.
A cabeça do ferreiro inclinou-se ao de leve para trás.
Basset: "Sim. Porquê?"
Questionou, o cansaço a escapar-lhe das palavras, sendo substituído por desconfiança.
Com as palavras a evacuar o capacete pela fresta nos olhos, Galland retorquiu:
Galland: "Recorda-se de uma vez ter ido ao palácio do rei Urther entregar algumas armas a alguns cavaleiros da Ordem que as tinham encomendado?"
Basset tornou todo o seu corpo para o cavaleiro.
Basset: "Recordo-me. Não só porque foi a minha primeira e última vez a visitar o palácio, como por ter sido a minha única vez a ir carregar uma encomenda até a um cliente. Normalmente são eles a vir até mim, não eu a vir até eles. Mas por uns clientes importantes como eram, eu abri uma excepção."
Galland: "E lembra-se que houve um problema em meado à sua inocente tarefa."
Basset: "Lembro-me com a devida vivacidade. Difícil não o fazer."
Galland: "Quase o executaram. Julgaram ter roubado as lanças, arcos e flechas que carregava no seu saco de pano. Um inclusive deu-lhe uma facada na retaguarda do seu estômago, salvo o erro."
Basset imediatamente levou a mão à região indicada. O ferreiro afastou-se do cavaleiro e pousou uma mão discreta no alforge na bancada do fundo, visivelmente amedrontado.
Basset: "Com quem é que me encontro a falar?"
Pôs a pergunta, a pressionar com particular ênfase enfurecida nas palavras.
Galland calmamente respondeu:
Galland: "O guarda que se encontrava a trabalhar naquele momento. Aquele que interveio antes que o meu colega procedesse a espetar a faca no seu crânio."
Foi o suficiente para fazer Basset tirar a mão do alforge. Os músculos do braço dele relaxaram, a boca dele pendeu ligeiramente.
Basset: "Devia ter reconhecido pela voz."
Murmurou para si antes de aumentar o tom.
Basset: "Sir Galland."
Proferiu com incredulidade a marcar a sua voz.
Ao que Galland anuiu acenando com a cabeça coberta pelo capacete.
Galland: "Em carne e osso, segundo comanda a Natureza."
O ferreiro aproximou-se de novo do balcão da fachada.
Basset: "Nunca tive tempo de agradecer-lhe pelo que fez. Eu...pessoalmente também não estava no melhor do estados depois de um infortúnio familiar com a minha mulher alguns dias atrás. Portanto confesso que posso ter picado demasiado os cavaleiros presentes e ter excedido o limiar do aceitável. Sei que a altura para o fazer já pode ter passado, mas fique com as minhas desculpas e o meu agradecimento pelos sucedidos."
Basset inclinou-se para a frente, numa vênia.
Galland balançou o braço no ar.
Galland: "Agradeço, Basset. Contudo, peço-lhe que não cause uma cena."
Ainda de cabeça para baixo, o ferreiro respondeu:
Basset: "É a minha forma de o agradecer pelo que fez."
Galland: "Acredito. E terei de recusar esta sua maneira de agradecer através da subserviência."
O ferreiro recompôs a sua postura, arquendo sobrancelha.
Galland pouco tardou a esclarecer a sua dúvida.
Galland: "Mas poderia mostrar a sua gratidão de outra forma."
Basset olhou para Galland que o olhou de volta. Ambos ficaram a trocar olhares entre si. A terem uma conversa à qual só os dois tinham acesso e que deixavam os de fora, como Vellend, a chuchar no lábio com as suas questões relativamente à cerimónia. A cerimónia que chegou ao fim quando Basset acenou afirmativamente com a cabeça, pegou numa das espadas da bancada do fundo e assentou-a na banca da fachada.
Basset: "Aqui a tem. É toda sua."
Vellend exclamou de surpresa. Ia visivelmente perguntar algo a Galland, mas este antecipou-se a lançar um agradecimento ao ferreiro.
Galland: "Obrigado, Basset."
Basset voltou a acenar com a cabeça a possuir um sentido de retribuição e de dever à mistura. Ele acrescentou:
Basset: "Que quer que faça com o machado?"
Galland: "Faria o favor de o entregar diretamente ao seu proprietário? Um homem de nome Lant. É um cavaleiro barbudo. Ele deve encontrar-se atarefado numa estalagem a sul daqui. Estalagem do senhor proprietário Cobble. Se tiver alguns trocos a dar, agradeceria se os deixasse com ele. O velhote merece algum incentivo mesmo com o estabelecimento prestes a encerrar."
Basset tornou a anuir.
Basset: "É para já. Certificar-me-ei de apenas terminar uns trabalhos em atraso e de comer alguma coisa antes de me pôr ao caminho."
O ferreiro sorriu.
E antes que o cavaleiro e o escudeiro fossem embora, ele deixou-os com uma última palavra, uma última palavra que cortava por entre os barafustos e reclamações gritadas que passavam de fundo:
Basset: "Muito obrigado por tudo, Sir Galland. Nunca lhe poderei agradecer pelo que fez, mas, penso que isto deve bastar."
Galland deixou-o sem resposta. Ele virou-lhe as costas, a ele e a Vellend, e seguiu. Como se a compreensão entre os dois fosse algo que excedesse as palavras. Nesse sentido, um ato devia ser suficiente. Pelo menos foi o que Galland achou ao afastar-se da banca dele, acreditando que um gesto valeria mais do que as mil palavras cordiais que poderia ter dito para o resto do dia.
Galland perfurou na multidão e permitiu-se paralisar no meio da multidão enquanto o público se movimentava de modo a contorná-lo. As fadas sabem o quanto apetecia-lhe ficar sozinho para o resto do dia apenas a refletir no que passara com o ferreiro. O quanto o que ele fizera ia contra a faceta que tenta passar. O calibre do quão errado a sua mentira estava a chegar. Ao invés disso, Vellend meteu-se com ele a uns metros de distância, ao mesmo tempo que pessoas passavam no meio deles, a segurar a espada desembainhada debaixo do braço.
Vellend: "Viu o que ele fez, Sir Galland?"
Perguntou-lhe com dezenas de gente a circundá-lo, em tom sabichão.
Galland fez por escapar do seu estado melancólico. Não a tempo de propriamente responder-lhe. Por isso, Vellend fê-lo por ele, a sorrir de ponta a ponta, a provar um ponto:
Vellend: "Você viu. Ele sorriu. O ferreiro sorriu."
Galland abanou a cabeça. Parcialmente a reverter para a máscara que usava debaixo do helmo, parcialmente em resposta ao que o jovem dizia. No calor do momento, deu por si a remexer nos suspensórios da armadura a verificar se estava tudo preso.
Galland: "Sorriu. Mas fez o que eu disse. Provou o meu ponto. Eu ajudei-o e ele ajudou-me de volta. Até vai fazer entrega ao domicílio para o teu mestre, o que, como ouviste, é algo que ele não faz para todos."
Vellend aproximou-se dele, encurtando a distância ao limite em que ninguém passava mais entre eles.
A tornar a conversa um debate íntimo entre dois seres pensantes.
Onde um saboreava já a vitória na sua cabeça e que estava agora a partilhá-la com o mundo:
Vellend: "É verdade, porém a felicidade dele é também a prova de que existe uma razão válida para fazer o trabalho que fazemos."
Galland caiu em silêncio.
Vellend: "Há quem faça como o Sir Galland, não questiono. Existe sempre quem ajude em troca de outra ajuda. Contudo o modo como o senhor sorriu, a gratidão que ele expressava num sorriso, esse é o motivo pelo qual a maior parte dos cavaleiros faz o que faz, cavaleiros como o Lant, cavaleiros como eu."
O jovem pegou na espada pela pega, apontando-a para baixo.
Vellend: "Uma vez que ver o sorriso de alguém que salvámos por razões meramente altruístas, já é pagamento o bastante para alguns de nós."
Por baixo da máscara, Galland sentia-se a quebrar. A fachada do seu rosto a partir-se. A formar fissuras que revelariam lágrimas em curtos segundos. Que o reverteriam para o ser que via à sua frente.
Quando, subitamente, um cavaleiro passa pelas costas de Vellend sem que o escudeiro se aperceba.

E Galland arregalou imediatamente os olhos.
Parou a sua respiração.
E inadvertidamente fez o seu coração saltar uma pulsação adiante.

As fissuras automaticamente reconstrõem-se.
A demolição adiada para uma melhor altura no futuro.
Pois ele vira uma coisa que o obrigava a ser o Galland que sempre fingiu ser.
Ele vira um cavaleiro de armadura igual à dele.
Enferrujada como a de Ector, mas a um nível muito pior.
Muito majs degradado com o tempo.
A carregar manchas de tons rubros quase por toda a estrutura corroída da armadura, até na bainha da espada que levava à cintura.

Se aquilo não comprovava que o cavaleiro ambulante era o Foragido, então não sabia o que seria.

Galland: "Vellend, porque é que não vais buscar algo para comer. Deves estar com fome."
Sugeriu apressadamente.
Vellend: "Parece-me bem. Deixe-me acrescentar que acho curioso que o senhor tenha conseguido ler além da minha mentira contada ao ferreiro. É que sabe, costumo guardar as minha bolsa com moedas no bolso para não ser assaltado e para momentos de ludibriagem como estes."
Galland nem olhava de frente para o jovem escudeiro, olhando para o lado, observando a silhueta do homem armadurado à beira de ser engolido pela multidão a caminhar e a segurar num pequeno objeto farfalhudo, um dedo, um dedo de Lobisomem.
Galland: "Sim, sim. Estarei deveras interessado em discutir isso contigo. Apenas arranja um local para comeres e eu virei ter contigo, entendido? Tenho de tratar de uma coisa."
Disse, a desatar a correr pela corrente de pessoas que constituíam a multidão.
A circundar camponeses e artesãos debilmente.
A causar alguma inquietação por parte das pessoas com quem batia ombros e ignorava como se não fossem sequer gente.
A mirar, a focar gradualmente nele.

Tudo se tornou um limbo.

As pessoas.
Vellend.
Tudo.
Exceto o cavaleiro enferrujado.
Exceto o Foragido.
Exceto...
...a figura que caminhava de costas para ele.

Uma pessoa que tinha o dever de matar para evitar mais um obstáculo na altura da patrulha.

Um cavaleiro a menos para o atrapalhar e ficar com a morte da criatura.

Alguém a eliminar em nome de uma oportunidade para usurpar o trono pela Espada.

Alguém...

Alguém que negou o luxo que cavaleiros como Galland nunca tiveram para seguir um caminho de heresias, de renunciar à liderança de Urther, de aceitar a justiça feita pelas próprias mãos.

Só isso já bastava para lhe dar uma energia adicional para o perseguir até aonde quer que ele fosse.

Até ao final do Ciclo da Natureza, se fosse preciso.

Depois de minutos intermináveis de perseguição, Galland acabou num beco sem saída.
Confessa que pode ter errado no caminho. Ficou a seguir o Foragido durante tanto tempo que este começou a misturar-se com a multidão. A moldar a sua forma de maneira a encaixar no padrão estabelecido pela corrente.
E mesmo com todos esses fatores de falha, Galland tem confiança em não ter errado.
Ele tem a certeza que viu o cavaleiro enferrujado a enroscar-se no meio de duas bancas como Galland fez para vir parar aqui.
Espaço de alguns palmos de comprimento e de alguns pés de largura. Pouca coisa em ambas as situações. Especialmente porque mais bancas de madeira enchiam ambos os lados e a alta parede de um muro preenchia o fundo.
As bancas em questão estavam...vazias, para variar. Chegava a ser uma paisagem estranha. Um espaço com bancas e sem pessoas a vender, já que não haver pessoas a comprar tornara-se quase a norma. Mesmo assim, pareciam ter pertencido a vendedores falidos que devem ter abandonado o material de comércio e o seu ofício por completo para se dedicarem a outros trabalho. A prova viva disso eram os tecidos espalhados em cima de uma bancada e as rochas variadas espalhadas no chão.
A guerra com os saxões não era generosa para ninguém.
Galland girou no seu próprio eixo a escanear a zona. Vazia zona. Com nenhum sinal de vida.
Quer dizer, pensando melhor o propósito é capaz de ser este. Pense bem: o Foragido foi até a uma zona deserta.
Porquê? Não havia razão para tal.
A não ser que, e sabendo de quem se fala...
...ele soubesse que estava a ser seguido.
Galland desembainhou a espada.
Empunhou-a com as duas mãos.
Os seus olhos oscilavam de um lado para o outro a observar cautelosamente o mundo exterior pela fresta horizontal do helmo.
O cavaleiro instintivamente fixou o olhar numa banca de madeira partida.
Algo na sua experiência dizia que seria ali que se esconderia se estivesse a ser seguido.

Uma suspeita comprovada assim que o cavaleiro enferrujado saltou de trás da bancada para cima de si com a espada poeirenta.

Com o cavaleiro voou uma caixa de madeira arremessada pelo mesmo. A pequena caixa chegou primeiro a Galland que o golpe carregado da espada do Foragido. Ao que Galland cortou o pedaço de madeira em dois pedaços, que caíram separados no chão, para em seguida brandir a espada de encontro à lâmina do cavaleiro enferrujado.
Os dois cavaleiros, novo e antigo, deram por si de lâminas cruzadas. A pressionarem a sua espada uma contra a outra num combate de força crua que se transformou num ímpasse. Não, para o Foragido era um ímpasse, Galland é que encarava tudo como uma parede imóvel encara uma força imparáve que encontra a sua derradeira perdição.
Galland: "Viéste eliminar a competição antes da hora, é?"
Cuspiu debaixo do capacete, debaixo do ranger das lâminas a rasparem uma na outra.
Galland: "Curiosamente, acho que é inédito. Nunca fizeste isto antes com qualquer outro cavaleiro destacado para a patrulha."
Foragido: "..."
Galland: "O retrato que passas, a maneira de atuar como um cavaleiro sem realmente pertencer à Ordem passam uma reputação aversa ao que estás a fazer."
Foragido: "..."
Galland: "Sinceramente, ao tentares matar-me estarás apenas a provar o nosso falecido Urther e os seus cavaleiros preconceituosos como corretos. E tu nunca fizeste isso antes. Tal como nunca infligiste danos em alguém que não fosse ou saxão ou Lobisomem."
Foragido: "Há possibilidades de não querer lutar, sabes? Vim aqui pacificamente, Galland, sem um desejo mórbido de decapitar a tua cabeça, apenas quero."
Galland: "Sim, compreendo, Beltrem. Eu é que quero."
Galland empurrou a sua espada para a frente, desiquilibrando o Foragido e quebrando o ímpasse. Apesar de tudo, logo de seguida, o cavaleiro enferrujado recuperou o piso no solo e não poupou esforços em encher Galland com uma tempestade de ataques.
O homem de armadura limpa desviava e repelia as investidas eficazmente. Ora metendo-se fora do alcance da espada com desvios, ora a rebater a espada parcialmente enferrujada com a sua própria lâmina. A partir de qualquer um dos métodos, ele mantinha a sua armadura isenta de rabiscos e marcas de cortes.
Galland recuava com cada golpe. Apenas para aumentar as suas hipóteses de evitar alguns dos ataques mais diretos. Ataques em que o gume da espada era investido na direção do capacete, para ser mais específico.
O Foragido era lento. As suas investidas desleixadas. Era visível como a idade o maltratou pela aparência do seu equipamento e pelas suas habilidades...francamente decadentes. A revelar como não foi apenas a sociedade a maltratá-lo: o tempo também não perdoou.
Assim sendo, Galland predispunha-se a trazer tudo até ao fim para evitar que o Foragido acabasse por cair num poço ainda mais fundo.
Terminado de desviar de um corte horizontal, Galland fez uso da espada que andava a manter na mão e utilizou-a quando o oponente tentou espetar a lâmina na fina fresta do seu helmo. Ele varreu a espada poeirenta num saque rápido, fazendo-a voar da mão do Foragido para o chão. A isto, sucedeu-se o turno de Galland ripostar.
Galland saltou para cima do cavaleiro desamparado e recompensou-o com um pontapé em cheio na região estomacal da armadura. O Foragido bateu com as costas na parede do fundo. E Galland correu para junto dele a fazer proveito da motivação providenciada pelo vislumbre de erguer a Espada na pedra. Ele carregou a sua espada comum para trás para tentar espetá-la pela fresta do cavaleiro cansado.
Contudo, o Foragido conseguiu escapar do golpe ao rebolar para o lado.
A lâmina acabou por ficar cravada entre dois blocos de pedra que constituíam o muro. Galland tentou puxá-la para fora, mas sem sucesso. Ele olhou para o lado. Viu que o cavaleiro fora do seu tempo se levantava. Que estava à beira de contra-atacar. Então, num esforço hercúleo, Galland extraiu a espada da parede de pedra, virou-a e meteu uma chapada com a barriga cega da lâmina que levou o Foragido a cair de cara no solo, como a sua espada também tinha.
Galland virou-se na direção do Foragido e encurtou a distância entre eles. O cavaleiro derrubado levantava-se, recompunha-se no meio tempo. E mal conseguiu pôr-se nos seus joelhos, Galland espetou-lhe uma joelhada na cara que estilhaçou parte do capacete já velho.
O Foragido caiu de costas. Galland assentou o seu pé metálico em cima do peito dele antes de se sentar por completo na barriga da armadura. Por um segundo, contemplou o capacete completamente partido numa metade e o rosto conhecido que mostrava. A parte da cara enrugada com bigode farfalhudo grisalho, exposta, arfando da boca, fora de fólego.
Dava-lhe pena.
Mas não tanta pena como a que sentiria por não vir a sobreviver a patrulha daquela noite por ter tido uma distração em armadura enferrujada a atrapalhá-lo.
Já para não falar de que trazer a cabeça dele poderia trazer-lhe algum crédito adicional.
Galland: "Os meus pêsames, Beltrem. Falta-te entender que és tu ou eu. O mundo é que não pode parar de nos massacrar aos dois."
Sussurrou-lhe antes de segurar a espada em pega reversa e de erguer a espada ao alto por cima do rosto do Foragido.
Debaixo do helmo ele suspirou.
E fez a lâmina descer como a de uma guilhotina.
Só que o Foragido conseguiu intercetar a lâmina entre as palmas armaduradas das suas mãos.

Galland pasmou com o seu último ato de resistência. Com o facto do velho ter conseguido bater palmas rápido o suficiente para apanhar a espada a momentos de se espetar na sua cara. Pois o gume da arma ressaltava-se a uns centímetros do seu nariz, saía levemente por entre as suas mão.
Logo, Galland reuniu a sua determinação e empurrou a espada.
Puxou a lâmina para baixo.
Para deslizar para metade exposta da cara do Foragido.
Mas ele não cedia.
Premia as palmas uma contra a outra.
A espremer a lâmina.
A lâmina que começava a escapar-lhe da sua pega apertada.
O som agudo e desconcertante de metal a roçar em metal cravava-se na espinha de ambos os lutadores que se viam ignorados a conviver para sobreviver, para vencer.
E Galland ia vencer, queria vencer mais do que o Foragido, mais do que esse seu velho amigo.

Afinal, a sede de um homem por vingança conseguia exceder até mesmo a sua vontade de viver.

No entanto, não era por essa diferença que o Foragido aceitaria a derrota.
Não, por muito que tivesse uma ponta lentamente à beira de contactar com o seu nariz, ele fez por diminuir os estragos.
O cavaleiro da armadura velha redirecionou o gume da espada para o mais longe que conseguia da sua cara.
Em movimentos trémulos, permanecendo a espremer a lâmina, ele conseguiu mover a arma uns centímetros que fosse, gritando, esperneando, flexionando os seus músculos ao máximo para limitar a extremidade da espada a somente contactar com o seu ombro armadurado coberto por manchas avermelhadas de ferrugem.Devido à idade, porém, é que a armadura também cedeu mal Galland esmurrou o pomo da espada e cavou a lâmina diretamente pela armadura até ao ombro de carne e osso do velho.

O Foragido grunhiu de dor.
Gemeu num toque de tortura.
Com estilhaços de metal enferrujado desabados em cima da poça de sangue a formar-se no ponto perfurado pela lâmina.
O homem de bigode grisalho conseguiu proferir, em dentes trémulos, a respirar aos pedaços, e sob um choque de dor:
Foragido: "Eu...não...te quero...magoar...Galland...quero falar!"
Galland: "Agora é que queres falar?"
Irrompeu numa rajada de frustração que trespassava a fresta do helmo a ser exteriorizada vivadamente.
Galland: "Depois de anos a lutar pela Ordem, depois de anos a jurar derramar sangue em nome de Urther, em nome de Britannia, desapareces sem nos avisar, começas a agir apenas segundo a tua jurisdição e egoísmo e tornas-te um inimigo da própria instituição que prometias proteger a todo o custo! E agora, agora é que queres falar!"
Galland pousou as duas mãos no pomo da espada e disse, acalmando-se:
Galland: "Pois...recuso a oferta..."
O cavaleiro novo empurrou a espada ainda mais para baixo, extraindo uns gritos adicionais de agonia por parte do Foragido.
Galland: "O que é que em nome da Natureza te deu na cabeça, Beltrem? Tinhas tudo o que alguém poderia desejar. Tudo o que eu alguma vez desejei. Era bem pago. Fazias um trabalho importante. Quer dizer, fadas me queimem, tu combatias os saxões, às vezes até ao lado da majestade. E mesmo quando fazias trabalhos menos recompensadores como caçar Lobisomens em patrulhas noturnas, ainda eras bem pago."
Foragido: "Há muito mais na vida do que as recompensas, Galland..."
Disse, as palavras a escorregarem-lhe da garganta apertada pela dor constante no ombro.
Galland calou-se por um bom bocado.
A matutar as palavras cuspidas.
Como já não era a primeira vez.
Como não seria a primeira vez hoje em que se sentiria tentado a deixar cair...
Galland: "Quem diria que o homem que me salvou de um Lobisomem em criança, o homem que me inspirou a tornar-me um cavaleiro como ele se tornaria alguém tão fútil."
Disse calmamente a abanar a sua cabeça.
Galland: "Quando começaram os primeiros avistamentos do Foragido, de um cavaleiro desconhecido a ajudar nos combates contra os saxões e nas patrulhas noturnas, quis acreditar que não eras tu, por muito que a coincidência da tua saída frustrada da Ordem e do surgimento de uma figura com a tua exata armadura e arma a lutar de um modo que só tu lutavas fosse visível até para os cegos. Teve de ser o Lant a avistar-te num campo de batalha contra o inimigo, a ver o teu modo de combater com os próprios olhos para se convencer a si mesmo que eras tu. E eu confiei na palavra dele. Confiei tal como ele confiou no que viu. Mesmo sem tu teres ido falar com ele, mesmo sem teres te aproximado dele, mesmo sem teres contactado qualquer um de nós da tua escolha, mesmo contigo a agir como se nós não existíssemos! Como se não tivéssemos sido companheiros, amigos, próximos como o Ciclo da Natureza está da alma de cada um de nós!"
Foragido: "Porque eu não vos queria meter nos problemas em que escolhi me enfiar!"
Galland: "Cala-te!"
Galland puxou a espada ensanguentada perto dos gumes do ombro do Foragido, ergueu-a no alto novamente, mirada à superfície exposta do rosto do seu velho amigo. Com lágrimas a escorrer-lhe do rosto debaixo do capacete, Galland gritou em baixou a espada.
Ao último segundo, o cavaleiro enferrujado conseguiu desviar a sua cabeça para o lado por alguns centímetros que fossem, o suficiente para a lâminas fincar no solo rochoso ao invés da sua cara. Galland levantou a espada outra vez a preparar outro ataque, mas o Foragido espetou-lhe um soco no capacete, que o fez perder os sentidos, e outro no braço, induzindo um choque que o fez largar a arma. Sons e sentimentos de choques metálicos fizeram-se sentir em ambos os combatentes.
A isto seguiram-se um terceiro e quarto socos que acertaram em cheio na frente do helmo e na região lateral equivalente ao ouvido. Apesar da dor inadvertida causada na zona perfurada e exposta do ombro, o velho conseguiu tirar o cavaleiro reluzente de cima de si.
Galland caiu lateralmente com o ombro em cima do chão. Diante de si, imobilizado no solo tal como ele estava a espada. A arma. Ele estendeu o braço para a apanhar e inesperadamente a mão do oponente chegou primeiro. O Foragido, de barriga no chão, olhos azúis cravados nele, espada recém-adquirida na mão.
O velho varreu a espada junto ao chão, compelindo Galland a puxar-se com a mão para trás e tornar a cair, agora com as costas no chão. Ainda de olho no adversário, Galland aproveitou que o golpe tinha sido efetuado e falhado e pisou na lâmina vermelha para impedir posteriores ataques inusitados.
Perante essa situação, o Foragido largou a espada de Galland e rastejou em direção...da outra espada, aquela que tinha lhe sido retirada da mão quando foi desarmado.
Urgentemente, Galland levantou-se.
Entretanto, o Foragido completara o mesmo ato.
Galland pegou na sua espada.
O Foragido pegou na sua espada.
Eles viraram-se.
Pegaram nas espadas com as duas mãos.

E fizeram as lâminas chocar violentamente.

Das quais uma sobreviveu.

Uma vez que a lâmina enferrujada foi cortada pela lâmina reluzente.


A espada do Foragido partira-se.

A de Galland permaneceu intacta.

Por isso, Galland carregou a espada e atacou.

Espetando o forte da lâmina na costela esquerda do inimigo ao partir a secção da armadura que a encobrira.
O Foragido dobrou o joelho de imediato.
Quase a render-se.
A anunciar o vencedor.

Isto se não tivesse espetado os fincos da lâmina partida na fenda intersticial entre a luva de ferro de Galand e a armadura a cobrir todo o seu braço.

O Foragido tirou a mão da pega da espada partida que mordia a fenda imperceptível na armadura do cavaleiro novo e pô-la nas costelas atingidas pela arma que Galland retirava do local impactado para prestar atenção à...
O seu braço.
O seu braço.
O seu braço.

Sangra.

Galland perdeu o toque na arma e esta foi a deslizar dos seus dedos para baixo.
Os seus olhos arregalaram-se debaixo do capacete.
A sua língua presa ao céu da boca.
Lábios separados um do outro.

Tudo porque a sua pele fora atingida.

A sua armadura negligenciada através...de uma brecha.
Uma brecha minúscula.

Uma brecha que foi o suficiente para estar agora a verter sangue do braço...para o chão.
Desde onde a espada continuava espetada até...ao mundo.
À luz do mundo.

Galland: "Não..."

Galland: "Não."

Galland: "Não, não, não, não, não, não, não."

Galland foi a correr até uma bancada abandonada.
Uma bancada repleta dos mais variados tecidos.
O cavaleiro a sangrar pegou num tecido em forma de quadrado aleatoriamente.
Ele começou a rezar e sopros.
Galland: "Oh, meus antepassados, senhores do Ciclo da Natureza..."
Isento de hesitação, Galland tirou a arma partida ao meio sem qualquer grunhido de dor a acompanhar da sua pele.
Galland: "...meu pai, Cersna Arageryan, meu avô Merrid Arageryan, meu bisavô Ingar..."
A tremer das mãos, súor a cair para a fresta do capacefe, ele cortou um pedaço do tecido branco propositadamente com a parte da lâmina partida encoberta pelo sangue, manchando de uma pintura escarlate o linho puro.
Galland: "...protejam-me de qualquer força malévola, material e imaterial..."
Ele deixou a luva escorregar levemente para ter uma vista clara do corte no braço na sombra que a longa fila de bancas providenciavam.
Galland: "...apelai às fadas, apelai à Mãe delas e de todos nós, a Mãe Natureza e protejai-nos das tentações..."
Ele enrolou o tecido sujo à volta da ferida, atou com um nó.
Galland: "...em troca, dar-lhe-emos tudo..."
Recobriu o braço com dupla verificação e uma vez confirmando que estava coberto até ao mínimo e exímio detalhe, concluiu a reza:
Galland: "...abençoada seja."
Finalmente, Galland pôde relaxar e...respirar.
Foragido: "Vim conversar, porém começo a achar que não me vais dar oportunidade de o fazer."
Galland girou a cabeça na direção do cavaleiro a sangrar do ombro e das costelas que se encontrava em pé com a sua espada inteira e ensanguentada na mão. O Foragido encontrava-se torto em postura, com a mão livre a pressionar as costelas numa tentativa de estancar o sangramento. O cavaleiro da armadura reluzente apoiou-se na bancada, meio zonzo do evento antecedido a ouvir.
Foragido: "Como queiras. Escuta se quiseres. Acredita se quiseres. Segue o meu pedido apenas se quiseres."
O cavaleiro uma vez conhecido como Beltrem pescou na bainha de couro atada à sua cintura com a luva metálica ensanguentada e tirou um dedo. Um dedo peludo e de unha extensa, o dedo de um Lobisomem como o que Galland vira ao segui-lo.
O Foragido atirou o dedo na direção de Galland.
Este conseguiu apanhar o objeto, por muito que desleixadamente. Ele pôs-se a olhar para o objeto nas luvas da armadura enquanto o velho falava:
Foragido: "Vê se quiseres. Antes da patrulha desta noite há algo que te quero mostrar, como poderás ver. É algo-"
Vellend: "Herege! Saía daqui!"
Da entrada do beco sem saída, irrompeu Vellend carregado com a sua espada ao alto a bradar. Os seus barafustos atraíam o olhar de todos naquele local. Tanto de Galland, o aliado, como do Foragido, o alvo do seu ataque.
Vellend: "Pereça em nome de Merlin!"
Foragido: "Folgo em ver tanto ânimo, mas tenho coisas melhores a fazer."
O Foragido cruzou a espada que empunhava, a mesma que tinha roubado de Galland, com a limpa espada por estrear do jovem escudeiro. O velho aplicou força no embate, trancando-as num ímpasse semelhante ao que Galland o tinha metido há minutos. Ainda assim, este era um entrave mais fraco.
A lâmina roçava para cima e para baixo inconstantemente na lâmina empunhada pelo Foragido.

O jovem tremia.Tinha medo.
Mais do que isso: pouca experiência com uma arma.
Foragido: "Reconheço aqui o potencial, rapaz. Reconheço também que te falta treino."
Assim sem mais nem menos, o cavaleiro velho ensanguentado, pisou no pé de Vellend com as botas na armadura e fê-lo quebrar a postura que o trancava a um ímpasse. Foi o suficiente para o Foragido passar pelo escudeiro a correr para fora daquele beco sem alguma palavra a mais.
Ele apenas saiu a correr para fora do beco, de volta à rua principal onde se misturaria com a população comum para nunca mais ser encontrado.
Apenas deixou a espada de Galland cair no chão.
Como um último gesto de despedida.
Um gesto de decência.
Ao menos não lhe levou a espada.
Não, não o roubou.

Pelo contrário, até lhe deixou com algo, algo que Galland tinha na sua mão, o restante ficava na sua cabeça.

O Foragido sabia melhor do que qualquer outro que acabara de deixar Galland com um dedo de Lobisomem, algumas perguntas e muitos sentimentos contraditórios.

Vellend carregava Galland pelo ombro na estrada a fora. Era difícil para ele. Já levava um nódoa negra insuportável no pé e uma espada novinha em folha à cintura, ou novinha em folha a uma troca de espadas atrás. Acrescido a isso o peso completo de um cavaleiro armadurado em toda a sua plenitude, com a sua espada restituída à bainha onde sempre pertencia.
Bem dito, Galland não ia ferido.
Nem sentia mais dor.
Sente dó de Vellend por estar a forçá-lo a carregá-lo mesmo com o jovem a reter uma injúria no pé, por estar a ter de submetê-lo a isto tudo, por esta sua encenação de aleijadinho.

Tudo feito em prol das suas agendas egoístas.

Para variar, estava a ser egoísta.

Vellend: "Ei, Galland, estás acordado?"
Galland: "É sir cavaleiro para ti. E sim, estou consciente. Acordado? Sinto que não seria uma resposta credível."
Respondeu, a forçar a sua voz a sair com uma entoação dolorosa.
Vellend: "Grato em sabê-lo. É que o trajeto pela multidão não é de todo o mais interessante."
Uma hipérbole de Vellend. Pondo à parte a encenação, Galland viu com perfeita lucidez a sua saída de Tintagel e tem a dizer que o povo comportou-se bem. Para uma rua recheada de pessoas, o facto de elas se terem conseguido organizar de modo a abrir caminho para a passagem de um cavaleiro ferido e do escudeiro que o carregava era louvável. E a unir todos estava uma vontade de ajudar um soldado a chegar à ajuda mais próxima.
Por falar nisso, isso relembra Galland de uma coisa: não faz a mínima ideia de para onde Vellend vai, nem se lembrou de lhe perguntar.
Apenas se limitou a fazer-lhe um pedido:
"Poupa-me de uma visita ao médico, jovem. Será uma perda de energia e de tempo, confia em mim. Um cortezinho não é nada. Já passei por muito pior. Não será por isso que negarei uma ajuda na locomoção, contudo."
Vellend disponibilizou-se com grande prontidão, fazendo Galland ponderar se sequer teria sido necessário pedir ajuda para a ter.
Decerto essa terá sido a última coisa que disse antes de ter perdido o comando da sua cabeça assaltada por pensamentos dormente até então.
Afinal, a sua mente encontra-se atualmente ocupada por...falas de Vellend...questionamentos de si...da sua faceta...do que Beltrem quereria...do dedo de Lobisomem que ele deixou consigo e que Galland ainda tem para examinar.

Já que, devido à sua preocupação em manter o retrato de si próprio como um homem ferido, apenas conseguiu manter o dedo na palma da sua mão fechada.

Vellend ainda está para saber da prenda do Foragido, detalhes do duelo que Galland resolveu melhor ocultar para fazer da sua relação com o famoso e conhecido por toda a Britannia Beltrem Pelt um segredo.

Galland: "Escudeiro, para onde é que vamos?"
Vellend: "A floresta."
Respondeu em suma.
Galland relevou a informação.
Galland: "Sabes, nem é má ideia, jovem."
Vellend: "Obrigado. A ideia é encontrarmo-nos lá com o Lant. Por volta desta altura ele deve ter tratado daquela...cena sangrenta. Ele mesmo deu-me indicações para me encontrar com ele lá chegado o pôr do sol."

Com que então, tudo levava a Lant...claro, quase se esquecia porque é que Vellend o andava a seguir.
Mas não seria por isso que o mérito do rapaz seria nulificado.
Galland: "Até te tenho a agradecer pelo teu esforço. Compreendo que deva estar a ser um fardo, especialmente para ti que tens de me levar com um pé em estado de dor e com um almoço na barriga."

Vellend: "Oh, isso é apenas uma leve comichão neste ponto. A fase da dor passou há muito. E nãk se preocupe com o almoço. Comi um naco de pão antes do meu lado racional me alertar para i facto de que provavelmente estaria algures a afazer alho estúpido. Passando a matérias mais importantes, a sua mão está bem? Noto que a manteve fechada deste o incidente no beco."
Galland arregalou os olhos tapados pelo capacete. Ele chegou a mão fechada em si para ao pé da sua cintura a tentar escondê-la.
Galland: "Oh, não é nada. É apenas um costume meu para aliviar a dor. Compreendo se achares que é um tique estranho."
Vellend: "Um 'tique estranho', disse? Bem, é capaz de não ser assim tão estranho."
Disse num comentário um tanto quanto confuso.

Foi tudo o que Galland precisou para saber que ele tinha notado no seu hábito de revistar-se a si próprio, mas que estava com vergonha a mais para o apontar.
É provável que o facto de Lant não ter comentado nada relativamente a este costume do seu amigo de longa data o tenha levado a considerar que é algo comum para este homem incomum.

Galland: "Ainda assim, insisto em agradecer-te. Pelo favor que me fizeste e pela escolha do trilho a tomar."
Galland começou a cooperar um pouco com Vellend no seu esforço, apoiando os seus pés no solo e caminhando suavemente.
Vellend: "Grato, sir cavaleiro. Até achava que ia me insultar ou ser grosseiro com a escolha, porque, bem, o tempo fala por si."
Disse a erguer a cabeça o quanto podia para o sol brilhante no seu ponto mais alto do dia, a pouco mais do meio-dia, segundo os ensinamentos que tiveram relativamente à posição do astro ensinavam.
De cabeça baixa, Galland ignorou as indicações do escudeiro a responder:
Galland: "Não é para tanto, rapaz. A minha única exigência foi não me arrastares até a um médico. Desde que não vá até lá tudo bem. Tenho é uma dúvida: como é que pensas lá chegar? Seguramente não a pé, correto?"
Vellend parou no trilho.
Galland viu-se obrigado a travar a fundo também da pouca velocidade em que ia.
Vellend questionou, de rosto desfeito:
Vellend: "Espere, aonde fica a floresta?"
Galland: "É longe, jovem escudeiro. Isso garanto."
Vellend: "Quão longe?"
Galland: "Longe ao ponto só lá chegarmos ao cair da noite. Isso contando que estivéssemos a andar de modo comum, sem um aleijado a atrapalhar-te."
Vellend levou a mão à cara. A palma a cobrir a sua face inteira, a trespassar a sua vergonha visualmente.
Vellend: "Barbas de Merlin, perdoe-me. Pelas fadas, perdoe a minha estupidez."
Suspirou, a voz abafada pela mão, tal como a voz de Galland sai sempre abafada pelo capacete:
Galland: "Se levarmos em consideração abalos emocionais só lá chegaremos quando o Lobisomem começar a atacar. Portanto deixa-te disso e continuemos. Arranjaremos algo no caminho para suavizar esse erro."
Vellend destapou a cara.
Vellend: "Não está zangado? Mesmo eu estando a possivelmente arruinar as suas chances de...bem, erguer a Espada?"
Galland: "Para ser sincero, sim. Parcialmente zangado."
Vellend: "E a outra parte?"
Galland: "Tem juízo para perceber que não havia nada para fazermos para melhorar a situação. Existem poucos estabelecimentos a vender cavalos em Tintagel. Mesmo se abordássemos os vendedores, não teríamos dinheiro para comprar os cavalos. Eu não tenho, com certeza, caso contrário estaria a esbanjar um por todos os cantos. E creio que deves ter algum, pelo menos o suficiente para comprar um bom almoço. Ainda sinto o cheiro a pão e vinho nos teus lábios. Agora, comprar um cavalo? Não me parece. É tal como disse: o melhor a fazer quando nada nem ninguém te ajuda é andar."
Galland desprendeu-se dos apoios corporais de Vellend e deu um passo em frente. Inicialmente, fez por caminhar adiante com um subtil cambalear, mas logo começou a andar naturalmente, como todos caminham.
Galland: "Em suma, rapaz, fizeste a melhor escolha. Adiantar caminho até à floresta enquanto a luz da Natureza nos guia é a melhor opção, sem dúvida."
Vellend olhou para trás. Viu o quão distante estava de Tintagel agora.
Depois olhou para a frente. Viu Galland a caminhar no seu conjunto completo de armadura, de mão cerrada por razões que lhe passavam despercebidas, a deixar pegadas no caminho de terra pavimentada por entre a relva verde que permeava tudo o que os rodeava e que estava iluminado pela luz replandescente do sol da metade do dia.
Mesmo se quisesse, seria muito tarde para voltar, então meteu-se a acompanhar Galland na sua caminhada apressada. Só que agora conseguia acompanhá-lo realmente, a custo de um dispêndio energético grande.
Vellend: "Antes de dizer mais, torno a desculpar-me pela inconveniência-"
Galland: "Escusado, escudeiro. Julgo já ter explicado que não tenho razão para guardar desprazer pela tua escolha."
Vellend: "Certo, era por isso que me desculpava e também pela questão que estava prestes a fazer."
Galland: "Começo a notar um padrão nos nossos diálogos hoje. Ainda assim, insisto: prossiga."
Apontou num tom suave e isento de emoção.
Vellend ergueu e baixou as sobrancelhas a tomar nota dos seus tiques e prosseguiu como pedido:
Vellend: "Compreendido, er, é que eu não tive tempo de falar consigo sobre o incidente no beco. Já que o senhor não falou desde o combate, o que respeito, isso sem mencionar as preocupações e esforço que tive a escoltá-lo para fora de Tintagel por um mar de pessoas."
Galland: "Se queres falar sobre a luta, não te preocupes. Foi uma luta comum."
Vellend: "Bem, 'comum' pode ser um eufemismo, sir cavaleiro. Afinal de contas, conseguiu ferir efetivamente o Foragido. E, segundo o que o sir Lant diz, conseguiu fazê-lo com uma camada de sono em cima."
Galland: "Aceito o elogio rapaz, mas é escusado trazer a minha dificuldade para dormir para aqui."
Vellend: "Claro, e peço desculpa. É que eu vi no aspeto dele. O cavaleiro renegado sangrava e tinha a armadura estilhaça nas costelas, no ombro e na cabeça. E até esfreguei os olhos duas vezes para me certificar que estava mesmo a ver a espada suja do Foragido partida ao meio."
Galland: "Para ser sincero, não posso dizer que fiquei surpreendido pela fraqueza do Foragido. Se todos o tivessem visto com os próprios olhos e tivessem noção do quão rudimentar o seu equipamento realmente é, ninguém o temeria. A verdade é que a Ordem e o Urther tratam-no e trataram-no como uma ameaça mais pelo que ele representa do que pelo que ele é. E a realidade é que ele não passa de um cavaleiro que renunciou a Ordem e toda a sua vida lá pela razão que for e que começou a combater nas mesmas guerras que combatia, contra os mesmos humanos e monstros que combatia, com a mesma arma e armadura que combatia, mas desta vez com os seus princípios num pedestal ao invés dos princípios da Ordem. Por isso, ao invés de entrar a matar nos campos de batalha contra os saxões, ele primeiro tenta chegar lá a apelar pelo fim do combate, pelo fim da guerra, por um diálogo. Naturalmente, atacam-no e os apelos dele não funcionam. Acabam sempre da forma que acabavam quando ele estava na Ordem: com um banho de sangue saxão. Mas ele é teimoso e tenta. Tenta até contra os Lobisomens. Vem interferir com os nossos planos de eliminar a criatura e tenta salvá-la. Se queres que eu te diga o que acho dessa suposta ameaça de que tanto nos falam, eu digo-te que ele é um pacifista mais do que um guerreiro. O problema é que ele vem brandir uma bandeira branca da cor do leite para um terreno banhado do fluído carmesim da vida. Nunca iria resultar. E garanto-te que com um equipamento daqueles, ele nunca iria longe para começar."
Vellend: "Então teremos de impedir que ele peva a sua vontade adiante nesta noite. Teremos de matar o Lobisomem e impedi-lo de o manter vivo, seja lá pela razão que for."
Galland: "Ele lá terá as suas motivações a compeli-lo. Segundo relatos de alguns incidentes em que ele se deparou com a luta da patrulha noturna contra a criatura, ele tentava atrair a besta para longe. Queria levá-la para longe dos cavaleiros. Alguns dizem que pode estar a fazê-lo para guardá-lo só para si."
Vellend: "Para depois matá-lo."
Galland encolheu os ombros.
Galland: "Nem ele deve saber o que faz, neste ponto. Olha bem para ele. É um cavaleiro numa armadura velha a tentar trazer a paz na sua forma a toda a Britannia. Ele não derrama sangue saxão, ele não mata Lobisomens. Com estes dois exemplos consegues perceber porque é que ele não vai longe. Claro, e depois ainda tens o problema do equipamento rudimentar dele."

Rudimentar...estava a suavizar ligeiramente a realidade.

Vellend: "Realmente, todos o descrevem sempre como um cavaleiro com equipamento velho. Nunca pensei é que fosse tão velho assim."
Galland: "Tenho quase a certeza que ele ainda usa o mesmo equipamento que usava quando saiu da Ordem, há mil luas atrás."
Vellend: "Acha?"
Galland: "Surpreendia-me se não o fosse."
Vellend: "Nunca ouvi ninguém a sugerir. E isso inclui cavaleiros que se depararam com o renegado mais do que uma vez. Se bem que...bate certo e...o senhor Galland parece-me bastante sapiente no tema. Já se cruzara com ele antes?"
Galland começou a verificar se a fresta que o Foragido usou ainda estava aberta, segurou firmemente no dedo peludo e respondeu, no improviso:
Galland: "Ah, bendito Merlin, não, de todo. Esta foi a primeira vez que me cruzei com ele diretamente. Apenas o tinha visto à distância ou ouvido falar dele. E não leves o que eu digo a sério. A hipótese nem é da minha autoria."
Vellend anuiu.
Vellend: "Oh, estou a ver."
Tem que ter cuidado com as suas palavras na próxima. Galland acabou por revelar demasiada informação. Demasiado até de si mesmo. Mais um pouco e ele ficaria a saber que conhecia o criminoso e...que pouco fez para o capturar. Seria um mau retrato a passar de si e arruinaria as suas oportunidades, mesmo que conseguisse tirar a Espada.

Galland deixou o assunto morrer enquanto tomava uma anotação psicológica para tomar cuidado com as suas palavras sempre que o tema do Foragido voltava à tona.
Pena que o assunto voltou logo a seguir.

Vellend: "Sabe, com tudo isto agora levou-me a questionar porque é que não trataram do Foragido antes."
Galland: "Estou exatamente contigo, escudeiro."
Vellend: "Pois ele não me parece ser tão forte. E posso estar a ser rude ao fazer este salto lógico, contudo o sir cavaleiro não é de todo um guerreiro de elite."
Galland acenou afirmativamente com a cabeça, acrescentando:
Galland: "Tu ouviste-me a falar com o ferreiro. Era guarda no palácio. Posso ser bom, mas...há sempre pessoas melhores."
Galland silenciou-se antes de Vellend progredir com a sua curiosidade aguçada, ânimo e ingenuidade a tamborilarem no ar.
Vellend: "Precisamente. E com tanto tempo a avisarem da ameaça que ele é, a exporem quem ele é, que equipamento usa, a informarem-nos do nome deles vezes e vezes sem conta sempre a dizer para 'camponeses, aristocratas e nobres denunciarem o cavaleiro enferrujado conhecido como Beltrem Pelt'. E depois há os tantos esforços empreendidos nas batalhas em que o Foragido também participa e as incontáveis oportunidades a isso atreladas que me fazem ponderar e, certo, eis a questão: como é que ninguém nunca o conseguiu matar antes?"
Galland: "Sendo franco, e sendo justo, agora que penso, tudo se deve ao facto de ninguém o ter apanhado sozinho e sem nenhuma distração a afastá-los do herege."
Vellend rebateu de imediato:
Vellend: "Soa-me deveras incoerente. Ora, eles têm muito mais do que dez homens à disposição. Poderiam facilmente mandar alguém tratar dele que, como o senhor Galland provou, despachariam a ameaça."
Galland pausou e regressou numa voz mais séria, sisuda, melancólica trazida pela nostalgia de nunca voltar a experienciar o que experienciou.
Galland: "Nunca é assim tão simples, jovem. Raramente pisei num campo de batalha, porém consigo dizer que nas poucas vezes em que me deparei com um cenário de guerra como aqueles, ninguém pensa bem. Uma coisa é ver das linhas de retaguarda, a planear e a criticar os soldados. Outra coisa é ser o soldado. Muitos conseguem fazer a primeira. Poucos passam à segunda e fazem jus ao que dizem."
Vellend fechou os lábios numa linha.
Galland engoliu em seco, recompondo-se para chegar ao ponto:
Galland: "Em retrospetiva, acho que fiz bem em ficar como guarda. Não só era péssimo no campo de batalha, como também não estava lá a fazer nada. Nesse quesito, o Foragido faz mais do que muitos de nós. Está lá sob as suas próprias agendas, é verdade, pode estar a atrapalhar ao ser mais uma preocupação, é verdade, mas ele lá tem experiência. E faz muito mais do que alguns dos nossos melhores soldados."
Galland abrandou o passo e aumentou a pressão na palma da sua mão que carregava o dedo, de modo inconsciente. Vellend parou. O cavaleiro virou a sua cabeça e disse ao escudeiro, com lágrimas acumuladas nos olhos escondidos debaixo do capacete:
Galland: "Podem chamar o que quiserem àquele homem. De fraco, traidor, mentiroso ou egoísta. Mas cobarde...cobarde nunca."
Galland virou-se para a frente, fixo na estrada e seguiu o passo mais rápido do que antes.
Vellend deixou-se ficar por um pouco no seu ritmo ultrapassado. O rapaz deixou-se ficar consigo e com as ideias. As suas opiniões suscitadas pelo discurso pessoal do cavaleiro. A expandir-lhe o mundo de uma maneira que ele nunca conhecera.
De uma forma que Galland conhece ser igual à que uma vez o trespassou.
A mesma sensação que o rapaz adquiria tinha passado primeiro pelo cavaleiro reluzente, a sensação de impotência, de fraqueza, de que...
...o mundo é muito mais complicado do que pensávamos.
Galland: "Mas não deixes que o que eu te disse te acanhe. Por muito que esteja paciente agora, há uma parte minha em crescimento que está a apoderar-se de mim."
Disse o homem adiante.
Galland: "Não deixes que os sentimentos te apoderem, a não ser que eles sirvam de meio de intensificar a tua vontade. Por isso, deixa apenas que a raiva te leve, que te tornes um com a sede de melhoria. Porque nem eu me atreverei a perder a oportunidade de levantar a Espada. Nem tu poderás faltar à patrulha desta noite."
Vellend cravou os olhos na silhueta do homem a metros de distância de si.
Ele engoliu em seco.
Processou o que tinha acabado de entender.
Consumiu a informação no seu estômago e ao invés de se deixar controlar por essa emoção...
...matutou-a...
...digeriu-a...
...sintetizou-a em fome de vencer.
Galland: "Temos um longo caminho pela frente. Se te serve de abstração, estou disponível para ouvir tudo o que tu quiseres."
Vellend deu duas chapadas nas suas próprias bochechas.
Pousou a mão na guarda da dua nova espada.
E correu atrás de Galland.

Galland: "Bem, gostei mais desta história do que a anterior. Mas decerto que terás uma melhor."
Vellend: "É capaz de ter razão. Na verdade, agora que fala lembrei-me de outra..."
O sol já se tinha escorregado ligeiramente da sua posição ao alto a começar a sua descida. Galland e Vellend estavam a conversar há um bom tempo. Há tanto tempo que o jovem escudeiro já ia na sétima história.
Nenhum dos dois se lembra o que é que aconteceu para recuperarem do clima pesado em que ficaram após a conversa sobre o Foragido. Mas facto é que conseguiram voltar a meter conversa e a aliviar esse clima entre os dois da melhor maneira possível: com histórias pessoais da vida de cada um. Pelo menos, histórias de Vellend. Na teimosia, Galland persiste em não se deixar abrir.
Tal como não deixará abrir a palma da mão em que segura o dedo de Lobisomem com a sua vida. Um grotesco dedo, pensando melhor, mas que deve conter algo interessante. Fica para inspecionar mais tarde. Com Vellend por perto não seria ideal. Por acaso, o escudeiro perguntou-lhe sobre o porquê de ele levar a mão cerradas em algumas ocasiões à parte da ocasião inicial. Galland disse-lhe sempre a mesma desculpa. Que era uma tensão necessária a exercer na sua mão, algo que o ajudava a aliviar a dor. Vellend negligenciou o problema como um hábito estranho do cavaleiro, provavelmemte um de muitos. O que lhe valeu foi que os nervos do duelo e o choque do combate demoraram a passar, senão ele teria sido mais atentivo e teria reparado no problema e chateado mais cedo.
Eles caminhavam num ritmo intenso, apesar de tudo. O facto de estarem a aproveitar a companhia um do outro não era desculpa para aliviarem o esforço. Não, era apenas um distração momentânea do cansaço que sentiam. Bem, o cansaço que Vellend sentia, já que era ele o mais novato nestas andanças e quem mais puxava assunto dos dois. Mesmo assim, Galland tinha de louvar o seu sentido de sacrifício. Sem mencionar a sua melhoria visível num curto espaço de tempo. Só hoje ele foi de reclamar do ritmo dele, a acostumar-se até conseguir seguir ao lado de Galland sem uma única gota de súor na testa ou a manchar as suas roupas.

O rapaz aprendia rápido, chegava a lembrá-lo de...de...de épocas melhores...épocas aúreas.

Sim, surpreendentemente, quando não tinham nada para fazer e um longo caminho para percorrer, Galland não se importava tanto com um jovem metediço como Vellend a contar-lhe histórias, até porque ele precisa apenas de as aproveitar e de revelar nada de si.
Vellend: "...e quando o Lant perguntou onde é que tinha posto o machado, disse-o na maior tranquilidade, como se a arma nem estivesse a ser empunhada por ele."
Galland riu-se audivelmente pela fresta do helmo.
Sim, este tipo de entretenimento era bem-vindo.
Galland: "Completamente, soa-me mesmo ao Lant."
Vellend: "Antes não tinha esta perspetiva, mas, olhando para trás, percebo porque é que acha que ele se devia reformar."
Galland: "Ele é um grande homem, Vellend. Não te deixes enganar. E acredito que deve continuar a ser um grande lutador, tal como eu vi em criança. O tempo é que nos apanha a todos."
Vellend levantou um dedo no ar morto do início da tarde por instinto. Levantou-a a morder o lábio, a pensar. Acabado o raciocínio, ele estalou a língua.
Vellend: "Por falar em tempo...lembrei-me de outra. Esta é a melhor de todas, juro."
Galland: "Tenho as expectativas elevadas para essa, rapaz."
Vellend, animado, começou a gesticular com os braços e mãos.
Vellend: "Muito bem. É uma história sobre a minha saída da formação de cavaleiro."
Galland: "Força."
Vellend: "Estava nos campos de treino a bater interminavelmente num espeto de madeira com uma espada, bem, também de madeira. Sozinho. Sem mais ninguém a rodear-me. Só eu e o meu desejo de ficar mais forte oara poder proteger tudo e todos. Em épocas estáveis. Períodos prósperos em que Urther e Merlin ainda podiam partilhar uma conversa sob o mesmo teto. Em que ninguém estava alertado quanto à existência de traidores. Estava tudo bem. Perfeitamente bem. Quando um homem barbudo entrou no meu campo de visão. E ele nem parecia ser alguém do acampamento de treino. Vestia uma camisola quase transparente. Nem levava uma arma consigo. Era excessivamente pouco profissional para ser alguém de importância."
Galland sorriu de imediato e aliviou a tensão na mão ocupada pelo transporte do dedo, a antecipar o rumo cómico da história.
Vellend: "Lembro-me de o ter abordado com modos rudes. A perguntar-lhe o nome em tom confrontativo. A interpelá-lo sempre que falava. A ser, no geral, alguém mal educado. Então, farto que eu seja um endiabrado, ele limita-se a dizer-me: 'O jovem sabe que eu sou um cavaleiro da Ordem, certo? Pode chamar-me de Lant'."
Vellend riu-se.
Vellend: "As fadas deveriam estar contra mim. Pode dizer-se que comecei a nossa relação com o pé esquerdo."
Galland: "Não te posso culpar pelo modo como o trataste. Segundo a tua descrição, ele aparenta ser um vagabundo."
Galland e Vellend partilharam uma risada.
Vellend: "Sim, sim, tem razão. Agora, confesso que estou sem histórias. E ainda temos um tortuoso caminho pela frente."
Galland: "És mesmo muito intrometido, sabias?"
Disse o cavaleiro numa voz metediça.
Vellend emitiu uma réplica da sua risada anterior e insistiu:
Vellend: "Claro, mas, sir cavaleiro, tem de ter alguma história para contar."
Vellend abanou os braços no ar, como se a exorcizar algum mal entendido, como veio a esclarecer:
Vellend: "E não precisamos de falar sobre rotinas de sono. Isso está fora da mesa."
Galland ponderou por um longo segundo.
A agarrar no pedaço decepado de Lobisomem com um cuidado que nunca se lembrava de ter.
Os seus passos a parecerem tiros de besta no silêncio.
Ele impou internamente.
Até que finalmente decidiu entregar-se ao momento:
Galland: "Confesso, tenho uma que devas gostar."
Falou a deixar para lá a sua relutância inicial.
Vellend celebrou a bater palmas.
Vellend: "Claro, claro. É justo. Esta foi a minha oitava história. Já estava mais do que na vez do sir cavaleiro."
Galland: "Aí está, Vellend. Apenas cedo por estares a tratar-me pelo apelido correto."
Ele clareou a garganta e começou a narração:
Galland: "Creio que nem devo ousar chamar este relato de cómico, todavia é uma situação caricata. Claro, 'caricata' é a palavra certa."
Ele mirou para o alto, o alto céu azul e começou a divagar:
Galland: "Os meus pais tinham acabado de morrer. Ainda não era sequer um cavaleiro formado. Eu era...a passos de me tornar um escudeiro...como tu és agora, Vellend."
Galland olhou-o pela fresta do capacete.
O jovem sorria, a sentir a ternura e carinho no discurso.

Uma entoação pessoal, mas que abrangia Vellend num abraço de semelhanças do tempo passado naquele olhar.

Galland: "Encontrava-me numa posição na minha carreira em que ainda tinha os olhos a brilhar de empolgação. Uma paixão a segurar na espada perdida com o tempo. Um desejo de proteger os outros tão, mas tão...puro."
Galland tornou a observar o plano superior do céu, de mão a cuidar do dedo com ternura.

Apercebera-se que estava a revelar muitas das suas opinião ao escudeiro.

Galland: "O ponto é que era demasiado novo para começar a fazer dinheiro como um membro da Ordem e demasiado velho oara esperar que os outros me alimentassem com o dinheiro deles. Os meus pais tinham morrido há coisa de algumas luas. Eles regressaram ao Ciclo da Natureza, como todos nós um dia regressaremos. Foi tão simples quanto isso, portanto não precisei se ficar muito tempo a matutar os eventos. Não quando tinham morrido de causas naturais com meros alvoreceres de distâncias entre os óbitos. Digo de mente limpa que emocionalmente não me causaram grandes perturbações. Gostava era de dizer o mesmo do seu impacto na minha filosofia e no homem que sou hoje..."
A trilhar fora do rumo direto, Galland abanou a cabeça num momento de autoconscienlização e colocou-se de volta aos eixos, de olhos postos nos mistérios serenos do sol e do dia:
Galland: "Nisto, fiz uma vida dupla. Desde o amanhecer até precisamente passado da metade do dia, até que o sol se pusesse nesta exata posição, ficava nos campos de treino. O resto do dia era passado na casa dos meus pais. Gasto na manutenção das plantações da casa do meu pai."
Vellend: "Parece-me..."
Galland: "Cansativo?"
Vellend: "Não, eu ia-"
Galland: "Fútil?"
Vellend: "Nobre."
Galland virou a cabeça na direção de Vellend.
Vellend: "O sir cavaleiro tinha um claro desejo nobre de proteger a vida humana acima de tudo. E, para tal, estava disposto a dispender tempo que poderia ser gasto a cultivar plantações de valor, a cultivar um valor certamente mais próspero. E, ao invés de ceder a essa tentação, o senhor seguiu as suas convicções. Tornou-se um cavaleiro."
Vellend e Galland ficaram a entreolharem-se enquanto andavam naquele ritmo lento.
Vellend convicto dos seus princípios.

Galland cada vez menos.

Com pouca disposição para levar as suas dúvidas a um patamar ainda mais elevado, ele transitou de assunto:
Galland: "Como eu dizia, estava atarefado. Dividido entre a minha verdadeira paixão e a necessidade de sobreviver, de fazer dinheiro. Misturando ainda a tudo isto a minha incapacidade de adormecer que, por si só, é um tópico à patte. E nisto estava eu numa certa manhã a plantar trigo com a enxada que os meus pais me deixaram, junto da casa que eles também me deixaram, com baldes de água do poço mais próximo preparados para serem usados, quando ouço um som."
Ele passou os dedos da mão livre pela armadura perfeitamente selada a analisá-la mais uma vez, sem se aperceber que se estava a entregar ao momento.
Galland: "Era um barulho estranho. Relembrava-me os ruídos que imaginava nas noites em que não conseguia dormir em criança. Noites que ainda não consigo aproveitar devido à minha mente que se recusa a apagar. Devido a memórias negativas da morte dos meus pais, ou de lembranças pouco memoráveis das poucas vezes em que estive num sangrento campo de batalha ou de...frustração pelo estado financeiro em que me encontro e...estou a divagar."
Galland parou os dedos a meio da inspeção, desistindo dela para se concentrar no que viria a sair da sua boca:
Galland: "Estava a dizer que algo no ar me tinha distraído de cultivar o trigo. Um som. Som de algo a bater na terra. De uma enxada tal como a minha a abrir caminho no chão. Recordo-me de ter virado a cabeça e me ter deparado com..."
O nome dele...
...era Beltrem.
Galland: "Um cavaleiro, um instrutor da minha formação. O nome dele não é relevante. O que interessa é que ele tinha me seguido, descobriu o que fazia nos tempos livres e estava a ajudar-me. Pode parecer assustador, perturbador. Porque o é. Ele era alguém que conhecia superficialmente como tutor. E ele estava ali, a fazer o mesmo trabalho que eu, perto da minha casa. Seria bonito se eu não lhe tivesse quase gritado aos altos berros e de ter derramado a água dos baldes com água do poço no processo, a reclamar do susto que ele me pregou com um gesto daqueles."
Disse, a rir-se.
Galland: "O tutor desculpou-se no final. E isso é que importava. A intenção estava lá e demorei pouco para perceber isso. Tanto que depois da rabessaca que lhe dei, fiquei disposto a ouvi-lo. Até porque, segundo ele disse, já não vinha àquela zona há algum tempo. Ele..."
Galland mastigou as palavras por um bom tempo a determinar se as devia proferir, mas concluiu que que não entregava a sua relação com o Foragido nas suas épocas antes da sua vida atual.
Galland: "Ele...aquele homem...ele já me tinha visitado antes. Quer dizer, não foi muito bem uma visita. Foi mais um infortúnio que se tornou num encontro inesperado debaixo da luz da lua cheia. E aquele homem estava lá a tratar de uma típica ameaça e, podemos dizer que me salvou a vida e me inspirou a tornar-me num cavaleiro. E lá estava ele a ouvir-me a explicar tudo o que te expliquei. A escutar os meus desejos de proteger tudo e todos independentemente do preço, da minha vontade de preservar a vida. Ideiais que conseguia perceber pelo olhar dele que eram comuns, que partilhávamos. Por esse mesmo olhar também conseguia perceber como ele sentia pena por eu não poder dedicar-me de corpo e mente ao trabalho. Como estava sozinho e não tinha ninguém para sustentar esta minha entrega ao dever...nobre...de ser um cavaleiro da Ordem. Ele devia saber como o destino que o Ciclo guardou para mim era infeliz. Credo, ele via-o bem diante dos seus olhos. Com cada palavra e explicação que fazia questão de dar e...em meado a tudo isso, ele calou-me, obrigou-me a estender a mão e deu-me um punhado de moedas."
Perceptivelmente, Galland quase que deixava o dedo na mão escapar-lhe com a leveza de consciência que o atingia. Enquanto imperceptivelmente, debaixo do capacete, Galland sorriu.
Galland: "E ele disse-ne para ter coragem. Para não deixar que o mundo me desmotivasse, que mantivesse estes ideiais e que...que...que eu não me preocupasse com o dinheiro. Que ele trataria de tudo para que me pudesse focar totalmente na minha formação para me tornar um escudeiro, subir de título e combater em nome da Ordem."
Vellend sorriu ternuramente.
Galland deixou as lágrimas fluir nas suas bochechas. Ninguém ia ver. Ninguém via nada com o seu helmo. Mas, mesmo assim, nunca conseguia parar de sentir vergonha sempre que o fazia.
Mesmo com uma mera fresta no capacete a servir de portal para o mundo real onde tudo acontecia.
Vellend quebrou o seu sorriso no rosto para falar:
Vellend: "Obrigado pela história, Galland. Gostei muito."
Confessou a deixar passar um laive de emoção na sua tonalidade.
Galland acenou com a cabeça, como quem diz "não tens de quê".
Ao que o jovem respondeu numa ligeira mudança de tom:
Vellend: "Folgaria em elogiar-te mais, mas sinto que algo vem aí."
Foi escusado Vellend elaborar mais desta vez que Galland captou logo o ranger de rodas na estradas.
Quase ao mesmo tempo que o escudeiro, ele virou-se para trás e encontrou a matéria da interrupção da troca de histórias que decorria.
Algo tão inesperado que o fez esquecer das lágrimas e dos seus pensamentos contraditórios e agarrar no dedo com a firmeza recuperada.
Galland: "Tivemos sorte, rapaz."
Comentou com surpresa a ver a carroça que se mexia na direção dos dois.
Vellend: "Nos tempos que correm, é raro encontrar mercadores, comerciantes, latoeiros ou sequer alguém com uma carroça nas estradas. Pensava que estavam todos demasiado tementes desta crise que corremos para arriscar meter pé na estrada com tantos rumores de saqueadores à solta e o risco de saxões infiltrados começarem uma escaramuça em plano aberto."
Disse a tentar racionalizar o que presenciava.
Galland anuiu.
Galland: "Que as fadas testemunhem a minha concordância. Porém, rapaz, acho que te esqueces que não importa a era, não importa o Ciclo em que se encontrem, existirá sempre gente louca o suficiente para tentar. Quer isso sirva para bem, quer isso sirva para mal."
Galland meteu pé no caminho e dirigiu-se à carroça em movimento com determinação no olhar e a promessa de Ector a ressoar-lhe ao ouvido.
Vellend preparava-se para imitá-lo, quando a voz de Galland vinda da frente o impediu:
Galland: "Permite-me tratar disto. Penso que conseguiremos sacar daqui um cavalo com sorte."
Um cavalo era realmente o mais provável, pois dois seria puxar a sorte para uma carroça com dois deles a empurrá-la.
Claro que era uma carroça velha. Com a madeira nas rodas dianteiras a apodrecer aos poucos. A tenda de pano a cobrir o compartimento da carga rasgado. Por falar na carga, segundo o que conseguia deduzir pelos pedaços grossos a sair das aberturas de trás e da frente da carroça, tal como dos buracos irregulares no pano a cobri-los, Galland percebeu que eram transportados troncos de madeira. Em pesos. Aos montes.

E um dos pedaços em questão ressaltava da carrinha, como se estivesse a ser puxado pelos outros por ser diferente, por ter...uma flecha espetada.

Uma flecha intacta a adicionar um peso desnecessário e inignificante à já pesadíssima carga.

Pois os cavalos relinchavam do cansaço e do calor a levarem-nos à exaustão extrema. E o dono bradava no assento do condutor, posicionado na frente da carroça, para todos os cantos:
Dono: "Adelanté! Décartém êssess vóces sons pegulliares, equínnos hedionos!"
Isto enquanto chicoteava os pobres animais com o vigor que lhes faltava.
Que isto seria divertido, lá seria...
Vellend: "Não se esqueça de mim, Sir Galland."
Galland: "A quem o dizes, Vel-"
Atónito, olhou para o homem que caminhava do seu lado.
Galland: "Primeiro, é sir cavaleiro para ti. E eu disse para me deixares tratar disto."
Vellend: "Não o podia deixar tratar disto sozinho. É egoísta, especialmente porque o Sir Galland não é o único a querer chegar até à floresta. Foi divertido partilhar histórias, mas acho que o choque do combate já nos passou. Estamos prontos para regressar ao trabalho. E vamos fazê-lo juntos, por isso justo que sejamos nós os dois a arranjar um cavalo."
Galland abriu a boca para ripostar, no entanto...
Não.
Não, ele tinha razão.
O rapaz está com ele. Irá com ele até à floresta. Por muito que esteja ali para o monitorizar pela parte de Lant, ele...é um jovem ainda. Um jovem que o está a acompanhar neste caminho há muito. É mais do que justo que ele o continue a fazer, e sem o atrapalhar como tem feito.
Já para não falar que Galland sabe por experiência que é má ideia dissuadir um jovem escudeiro determinado a fazer o bem.
Perante este tipo de teimosia, o melhor é...aceitar.
Galland: "Tudo bem, rapaz. Espero que mostres essas tuas habilidades de persuasão ao dono da carroça. Cheira-me no ar e no sol que bate na minha armadura que este será persistente."
Cuspiu, com as lágrimas no rosto a secar e a armadura a tornar a analisar.
O cavaleiro e o escudeiro deixaram-se imobilizar diante dos cavalos. Seguiram-se os gritos do dono que chicoteou os pobres animais com dois estrondos, um para cada, tão tamanhos que os fizeram abrandar até pararem por completo.
O dono cuspiu para o lado, disparando os conteúdos podres da sua boca para a relva limpa que ficou um centímetro mais imunda com a humidade do homem. O homem pegou na extremidade do chicote que usava para bater nos cavalos. Repleto de repulsa na sua postura inclinada para a frente, ele falou:
Dono: "Qu'é q cês quueré?"
Vellend olhou para Galland em busca de auxílio na situação. E que bem que o fez. Contra um homem destes é melhor deixar o experiente liderar.
Galland: "O senhor é o dono da carroça?"
Perguntou, autoritário e humilde ao mesmo tempo.
O dono cuspiu para o lado outra vez antes de retorquir com grande indiferença.
Dono: "Síim sou, pá. Ahlgum preblema co isso?"
O vocabulário rudimentar do velho ressaltava especificamente em contraste com o vocabulário cuidado de Galland ou de qualquer outro cavaleiro, escudeiro e membro da Ordem dos Cavaleiros. A culpa não era dele. A culpa era da estratificação social que impedia camponeses a ter acesso à educação e ao ensino.
Apesar de tudo, muitos camponeses não acabavam por reter um sotaque e vocabulário tão drástico como o do dono da carroça. A julgar pela boina de pano dele, das suas barbas fartas com migalhas de pão e manchas e sopa a marcá-las, unhas negras rondadas por moscas, manto preto de cetim a cobri-lo a ele e às suas vestes de linho branco que pode ser encontradas em muitos nómadas, seria seguro apurar que o homem é próximo com a sociedade do comércio. Explicaria este vocabulário paupérrimo e infelizmente muito comum nesta classe social que desenvolveu praticamente uma jova língua apenas para persuadir os clientes.
Pessoalmente, Galland achava a linguagem irritante. Não por ser incompreensível. Com um pouco de ginástica mental todos conseguem deduzir o significado até das palavras mais chacinadas. Ele é que não conseguia suportar um mau uso da língua tão grande quanto aquele sacrilégio.
Mesmo assim, Galland engoliu esta sua aversão de modo a poder falar com o homem.
Galland: "O senhor importa-se de nos dizer o seu nome?"
Interrogou-o, gentilmente.
Dono: "N'é de importãncia."
Galland: "Senhor, eu e o meu colega somos membros da Ordem dos Cavaleiros."
A acompanhar a sua explicação, apontou para si e para Vellend.
Galland: "Somos cavaleiro e escudeiro, respetivamente. Se bem que ele não é propriamente o 'meu' escudeiro."
Vellend: "Sou apenas por agora. Mas estaria disponível a continuar por mais tempo, caso aqui o meu superior insista."
Acrescentou a troçar o cavaleiro, a acenar com a cabeça, num gesto sem um fim em vista.
Galland suspirou pela...escusada intervenção cómica...e continuou a sua conversa.
Galland: "Estamos a caminhar na estradas há um quarto de dia sem nenhuma companhia a acrescentar-se ao cenário no meio do caminho. Julgávamos que esta viagem duraria até ao anoitecer. Para a nossa sorte, o senhor surgiu. E não conseguimos deixar de reparar em como o senhor leva dois cavalos que nos seriam de muito interesse. O que lhe pedimos não é que nos dê os seus dois animais, mas que nos possa dar talvez um."
Dono: "Oh, quérem os mewes cabablos, é?"
Galland: "Realisticamente, um seria suficiente. Um ficaria a guiar o animal equestre. O outro atrás como passageiro."
Dono: "Pa qu'é que o quérem?"
Galland: "É um segredo exclusivo da Ordem, podemos pô-lo dessa forma."
Dono: "Secredo? Dexesse dêsse paleio de cabalheiro. Urthar tá mortu. Naha n'eguém pra vos puunir."
Galland: "Na verdade, não é bem assim, senhor. Vossa majestade está morto, correto. Ainda assim, a sua estrutura para a Ordem permanece, como ditado pelas leis impostas mesmo antes do seu predecessor, Vortigerno. Os combates em seu nome contra os saxões e contra os Lobisomens durante a noite continuam. A sua autoridade continua a ser sentida após a sua passagem para o Ciclo. E assim continuará até que a Caliburn seja retirada da pedra."
Dono: "Éss' Urthar pde é m'ir-"
Galland: "Grosserias não, senhor. A não ser que Merlin o puna com um raio dos céus. E acredito como o senhor que isso é dispensável."
Dono: "Éeu qu'os dipensso a cês."
O dono chicoteou os cavalos e a carroça voltou a andar.
Galland: "Já? O senhor ficou de ouvir as nossas ofertas."
Dono: "D'pwnnde d'oférttah."
Galland seguiu a carroça no seu ritmo habitual, Vellend a acompanhá-lo uns instantes atrás.
Galland: "Não tenho muito, mas, por motivos de escala, posso saber onde é que vai tão carregado?"
Dono: "Gales."
Ripostou numa pronúncia bastante correta, quebrando a errónea tradição.
Galland: "Gales? É lá que pretende vender a madeira, correto?"
O dono da carroça limitou-se a cuspir. Galland considerava aquilo um sim.
Galland: "Nesse caso, precisarei de lhe propor algo que possa condizer com o lucro inegável que encontrará nessas terras distantes."
O dono cuspiu...outra vez.
Dono: "Té parce qu tem cousas pra dá. N'eguém tê náda. N'eguém tê muedas. Proqué'qu'ach qu'é voou pra loonge dahquí."
Ele chicoteou os cavalos novamente.
Galland: "Se é moedas que quer, não terei muitas."
Dono: "Jaa dise qu'eu nã quéru naade dests térras. Nade dáquí m'uinteresse. Quuere dizzer...gustave de sápuer porqu'é qu'ande semmpre d'ahrmadura poste. Ví muites solldados come tuu nah minhah vide e ellez faziam senpré quéstan de a mens mostraar a carha."
Vellend: "Ah, estava ver que era só eu."
Galland tirou os olhos do dono por um segundo para encarar a pessoa a caminhar atrás de si.
Mesmo com os olhos cobertos pelo capacete, a maneira como olhou para Vellend dizia tudo. Soletrava um raspanete para mais tarde. Ou melhor, podia ficar para agora.
Galland: "Sabes que mais, rapaz? Agora é que ficarás sem uma explicação deste meu costume."
Vellend ficou cabisbaixo e baixou o seu queixo. Deixou que Galland tratasse deste problema dos cavalos sozinho.
Galland: "Perdoe-me. Onde é que nós íamos?"
Voltou, lembrando-se ao mesmo tempo de certificar-se da ausência de brechas e frestas na sua armadura com uma rápida vistoria dos seus únicos cinco dedos da única mão disponível para uma tarefa deste género.
Dono: "Dezia euu que nã quéría nádaa de cês."
Galland: "Pois, no entanto, nós estamos interessadíssimos no cavalo."
Terminada a sua revista autoimposta ao equipamento, Galland tirou a espada da bainha pela sua mão livre, através de uma pega invertida.
Vellend exclamou de trás.
O dono da carroça arregalou os olhos.
A seguir é que ele entrou em pânico.
Dono: "Eh, eh, eh, ehe, eiiii!!!!!! Cálmah aí, pá!!!!!!!"
Galland tirou as atenções da espada e olhou para o dono da carroça em movimento e para o escudeiro que o seguia. Reparou nas posturas tensas deles, dignas de um combate eminente. É verdade, Galland esquecera-se de como isto pode parecer estranho para quem não o conhece...
Galland: "Ah, não se preocupem com isto. Eu é que estou a ver quantas moedas tenho."
O dono piscou três vezes, estupefacto.
Vellend pousou a sua mão no ombro do cavaleiro.
Vellend: "Galland, acho melhor não forçarmos este mercador a entregar-nos um cavalo. Arranjar problemas agora-"
Galland: "Não, estou a falar a sério. Estou a ver as moedas."
Galland colocou a espada debaixo do seu braço, com a mão que segurava a lâmina desatou a bainha da cintura, chacoalhou-a, reproduzindo um som metálico lá de dentro.
Galland: "É aqui que as guardo."
O escudeiro franziu a sobrancelha.
Vellend: "Aguardai um momento, o Sir Galland guarda as moedas dentro da bainha da espada?"
Galland: "Bolsas de couro são pouco acessíveis."
Respondeu, curto e grosso.
Vellend: "É do seu conhecimento que existem outras bolsas que não são caras ou feitas de couro, certo?"
Galland: "A questão é porquê gastar um denário num saco que me custa mais do que o dinheiro que lá posso colocar, quando pelo mesmo preço posso comprar mais uma noite na estalagem do velho Cobble."
Dono: "Éeu jur, nã pôsso co'isto."
O homem barbudo bateu com a ponta do chicote nos pobres animais e acelerou a velocidade da carroça.
Galland viu-se obrigado a aumentar a passada, fazendo-o com algum certo esforço à mistura. Vellend praticamente corria e dificilmente acompanhava. O dono da carroça queria ir embora dali. Daqui a pouco ninguém conseguiria alcançá-lo a ele e à carroça. A oportunidade de saírem dali estava quase a escapar-lhe por entre os dedos.
E Galland começava a ver a Espada na pedra a ir embora também, o que o fazia desesperar.
Galland: "Certo, certo. Entendo que nenhuma moeda o vá persuadir. Posso oferecer-lhe outra coisa."
Dono: "Nã quéru naade de sí. Ficahré bêm sezinh."
Galland: "Uma propriedade seria do seu interesse? Sendo membro da Ordem, poderia deixar umas boas palavras com o próximo rei, se é que não estará a olhar para ele."
Dono: "Ô seninhor jáa nêm fal nade co nade. A você majestad tá morte. E quien nah voos dis qu'o próxim ré nã vá sêr saxãon."
Galland: "Senhor, bem vistas as coisas, até o senhor tem uma hipótese de ser rei. Poderia convencer alguém a deixá-lo tentar a sorte."
Dono: "Ésse é o probleme. Ée un jog de sort."
Galland: "E a minha vida inteira mostrou-me que o azar de facto existe. Então explique-me uma razão para a mesma norma não se aplicar à sorte?"
Dono: "Proque'eu jaa tentê. E nã consguíh."
O dono chicoteou os animais. Galland não soube como, mas a clarroça atingiu uma velocidade estonteante.
Uma que Vellend deixou de conseguir acompanhar.
Uma que até ele tinha dificuldade de acompanhar.
Uma que se afastava dele com uma rapidez com que fazia a espada debaixo do braço escorregar, por muito que o mórbido dedo permanecesse na sua palma.
Escorregar.
Escorregar como as suas aspirações.
Escorregar como a sua oportunidade ser alguém, alguém rico, alguém com posses.Alguém que possa viver...bem.

Galland: "E se eu lhe oferecesse a minha proteção?"
Sugeriu aos gritos para o homem sentado no assento do barraco com rodas que...
...parou.
Ofegante, Galland persistiu correndo até à frente do veículo. Ele imobilizou-se perante os cavalos e o dono a acariciar as suas barbas numa postura pensativa.
Dono: "Óra aaíi t'álgo qu'haguça o méhu intresse."
Disse, a considerar.
Dono: "Díga mahs."
Galland: "Estou disposto a entregar-lhe a minha lâmina e as minhas aptidões, senhor."
Cuspiu rapidamente a arfar, vendo a chance dele e recusando-se a largá-la.
Galland: "Protegê-lo-ei de tudo. Saqueadores, saxões invasores, dissidentes de Britannia, tudo. Peço é que me dê a devida recompensa em troca."
Vellend alcançou Galland, derrotado, mas com lucidez suficiente para ouvir o negócio a ser travado:
Galland: "Reparei na flecha cravada no seu tronco da secção anterior da carroça. Os panos dilacerados. O senhor foi vítima de um ataque de saqueadores. Precisa de ajuda. Eu tenho noção disso. Consigo lê-lo na sua expressão."
O dono semicerrou os olhos.
Galland: "Resta-lhe a si determinar se pretende o meu auxílio, pois eu..."
Galland pegou na espada debaixo do braço com a mão livre e cravou-a no chão de terra até metade da lâmina, jurando:
Galland: "...eu ponho a minha dignidade na linha para o fazer. Requisitarei somenge um cavalo seu e a sua paciência para aguardar até à manhã de amanhã. É que eu e o meu colega temos um trabalho a fazer nesta noite de lua cheia."
O velho cuspiu para o lado mais uma vez, mais uma vez cuspiu e escutou:
Galland: "O veredito repousa nos seus lábios e no que eles determinam."
O dono passou os dedos pelo nariz.
A seguir passou-os pelo chicote que manteve em sua posse.
E só depois é que os passou pelas cordas a seus pés que ligavam a carroça aos cavalos e desatou uma.
Um dos cavalos desatou-se do veículo de carga com um relinchar de contentamento.
Dono: "Tá ceert. Acceito a vósse ajud. Amanhãa d manhan voou teer convsc."
Galland arqueou os lábios num sorriso e anuiu.
Galland: "Feito. Assim sendo, encontre-nos no próximo alvorecer. Na estalagem de um homem mais idoso que o senhor. Um velho Cobble que agradece qualquer compra no seu estabelecimento, diga-se de passagem. Ele bem merece."
Dono: "Log vej ísse. Agoura tênho é d encontrar um luhgah pra dromir."
Galland: "Repito a recomendação nesse caso, senhor. Tome a minha palavra como facto. Os preços são acessíveis. Caso contrário, confie que estaria a viver nas vielas mais sombrias das ruas menos recomendáveis."
Dono: "Pôsse tentar."
Galland: "Ficaria agradecido."
Disse, a aproximar-se da sua espada espetada com a ponta na terra.
Vellend, por sua vez, aproximou-se do cavalo livre.
Galland retirou a espada do chão e foi ter com o escudeiro, de arma na mão que não levava um objeto hediondo.
Galland: "Monto eu ou montas tu?"
Perguntou ao escudeiro.
Este que simplesmente antecipou-se e pousou a mão na cela antes do próprio Galland para responder com um sorriso agradável no rosto:
Vellend: "O sir cavaleiro disse-me que nunca conseguiu comprar um cavalo próprio. Nesse caso, acho que não teremos debates quanto a quem tem mais experiência na matéria e, como tal, quem é mais fiável quando o assunto é montar um equino."
Vellend colocou as duas mão em cima da cela e subi-
Dono: "Eh, eh, é! Tir a maao de cela!"
O cavaleiro e o escudeiro miraram no homem em cima da carroça com o chicote na mão.
Vellend: "Como?"
Deu por si a perguntar, parando o salto para cima do cavalo para interrogar o epicentro da comoção.
Dono: "Euu díss quu cês nã poden ficáhr ca celaa do caballo!"
Galland meteu-se entre Vellend e o dono com a espada por voltar a encaixar na bainha.
Galland: "Acalme-se, senhor. Poderia explicar-nos o problema?"
Disse, numa proposta razoável, voz empática.
O dono, por outro lado, replicou numa voz grosseira que soltava pedaços de cuspo para todas as direções.
Dono: "Cês nã percében o qué? Eu diss q poden fcar con o caballo, mahs a céla ficá conigo!"
Galland: "Há alguma razão em particular para tal?"
Dono: "Entã, cês levaam-mo caballo! Pro iss, voou précisar d'algo pra vender co' qu poss aranjar moeds pra una refeiçõo e una camma!"
Galland: "Pensei que lhe tinha mencionado a estalagem do velho Cobble. Quanto às indicações, basta seguir até à Caliburn e, de seguida-"
Dono: "N'importe! Perciso da celá!"
Galland: "Senhor-"
Dono: "Nã tornoo a repeti! A celá! Jaa!"
Galland: "O senhor tem de compreender que essa será uma componente necessária para a nossa travessia. Eu, para exemplificar, admito que nunca andei de cavalo e-"
Dono: "Êu diss! A celá ou nad!"
Galland: "Perdão, mas se me torna a cortar o discurso, não poderei explicar-"
Dono: "Cês nã tem nad a explicá!"
O velho ergueu o chicote em prontidão.
Dono: "Útimo avisoo!"
Galland respirou fundo. Quebrou a sua tonalidade empática e apelou também uma última vez, uma última vez a ser simpático:
Galland: "Senhor, peço-lhe que se acalme."
Dono: "Cheggaaa!!!"
O dono da carroça deixou o braço cair, chicoteando na direção de Gal-
Galland cortou a extremidade do chicote dirigido a si com a espada que empunhava numa das mãos.
O dono largou o resto do chicote e, num saltou de susto, deu com as costas em cima dos troncos no compartimento de trás e ainda grunhiu de dor no fim.
Galland virou as costas para o dono da carroça sem lhe deixar uma palavra de despedida.
O cavaleiro apenas enfiou a espada na bainha e deixou uma palavra a Vellend:
Galland: "Anda. Já perdemos tempo suficiente. Não podemos perder mais."
Galland subiu na secção traseira da cela.
Vellend ficou a olhar para ele e para o velho na carroça por alguns segundo. Por fim, com uma certa relutância e a recuperar do que tinha acabado de presenciar, o escudeiro subiu no cavalo.
Galland: "Continuai pela estrada."
Disse, Galland, a apontar-lhe do assento de trás para o fundo da estrada onde seguiam a pé há uns instantes iluminados pelo sol da tarde.
Vellend ainda olhou para o homem deitado na cama de troncos de madeira antes de anuir e comandar o cavalo a avançar na direção pretendida.
Galland: "Éramos nós ou ele. Os nossos objetivos ou os dele."
Falou de um modo seco a explicar-se.
Vellend ficou em silêncio.
Galland: "Existem pessoas que se recusam a recuar sem retaliação, Vellend. A chave está em saber identificar essas circunstâncias. E uma vez identificadas, garanto: não se pode hesitar em lutar, por muito errado que pareça."
Vellend acenou afirmativamente com a cabeça aos soluços.
Galland: "Irão surgir muitas pessoas entre tu e o teu objetivo ao longo do teu trilho no Ciclo da Natureza. Algumas quererão o teu bem. Algumas rezarão pelo tua queda à ceia. Cabe-te a ti discernir o amigo do inimigo e, ainda mais diícil, discernir o momento em que um se torna no outro."
Vellend não disse nada, preferindo processar a sequência de eventos e informação.
Galland também não o pressionou mais.
Deixou o silêncio reinar.
Só por um pouco.
Pois após um longo percurso de conversas e histórias, sabia sempre bem equilibrar com um percurso isento de ruído.

O dedo decepado do Lobisomem era grotesco, agora que Galland finalmente se atrevia a inspecioná-lo ao invés de inspecionar a sua armadura pela milésima vez. Era repleto de pelo em todas as sinuosas curvas das suas falanges, falanginhas e falangetas. Essa camada farfalhuda de pelos erguiam-se na pele como a relva se ergue na terra e esconde o sangue castanho que ela esconde no chão. E tal como com o solo, se empurrarmos a relva só por um pouco, teremos uma visão direta para a terra que o mundo parece esconder. Puxados os pelos, é possível observar a pele negra como a noite em que a origem da criatura se dá lugar.
Uma observação fora do comum, pelo que o habitual era que o Lobisomem nem apresentasse pelo nos dedos e a pele escura que debaixo deles surge.
Galland tirou os olhos do dedo na palma da mão e levantou-os sobre as costas de Vellend, o escudeiro diante de si, na posição frontal da cela, a guiar o cavalo em que os dois montavam.
Fazia um bom tempo desde que eles tinham se afastado da carroça e do velho. O sol tinha descido levemente da posição em que se encontrava naquela altura. Levemente, mas uma nuance perceptível o suficiente para ser sentida no calor que se dissipava aos poucos à medida que o pôr do sol se tornava eminente. Restava era que a luz decrescesse para poder marcar a ocasião. Por enquanto, este evento ficava no horizonte, por acontecer, por assinalar.
O jovem rapaz galopava sem um piu. Já assim andava por alguns longos momentos. Desde que tinham partido da carroça, para ser preciso. Desde então, ficou contido em si, sem falar, sem prestar a mínima atenção para Galland, apenas calaramente e visivelmente a mastigar os seus pensamentos.
A confrontá-los com a realidade.
Por essa razão, é que Galland considerou este o momento ideal para inspecionar o dedo de Lobisomem de vez. Vellend não olhava para si. Vellend anadava demasiado ocupado consigo mesmo. Vellend não iria bater o olho apenas se Galland o picasse.
Ainda bem que analisar um objeto grotesco não causa incómodo algum.
Galland revirou o dedo na própria palma da mão direita já cansada de estar encarregue de suportar este objeto nojento. Porém, este era um objeto peludo que não devia ter pelo algum. Isso por si só era o melhor motivo para o forçar a continuar a investigar. O cavaleiro meteu-se a analisar o local da incisão, o coto no dedo que estava...surpreendentemente sarado.
Tratava-se de um buraco rodeado da pele e do pelo que acompanham a camada exterior do dedo. Um osso pequeno protuberava do buraco, um indício do que sobrou da estrutura óssea do membro. Mesmo assim, era um ossinho que apresentava uma cor escura como toda a pele. Para além disso, não havia sangue à vista ou a escorrer de dentro do dedo ou além do osso.
O coto foi queimado.
Queimado e posto a secar para ficar o mais "limpo" e "apresentável" possível.
No fim, apenas confirma o que o Foragido lhe disse, que ele tem algo ali que quer que Galland descubra.
O quê ao certo?
Permanece em aberto.
O cavalo relinchou.
É normal que estivesse cansado. O velho da carroça deve ter andado a abusar dos limites do cansaço dos pobres animais com aquelas chicotadas excessivas que somente serviam para diminuir os resultados. Nem conseguia culpar o cavalo por estar cansado depois de tudo aquilo pelo qual passou.
Ainda assim, é impressionante como ele conseguiu andar tanto com tão pouca energia nas reservas. Como ele conseguia manter uma cadência acelerada no seu passo, levando o vento a atingir na sua armadura inteira como se de uma brisa de outono se tratasse embora estivessem num dia seco e isento de corrente no ar.
Só não é tão impressionante como o cenário imutável, mesmo com uma distância considerável percorrida. Mesmo com tantas pegadas do cavalo visíveis no trilho que deixam para trás, a relva verdejante permanece, as flores roxas e púpuras permanecem, a estrada de terra batida mole como solo húmido permanece. Talveza a única nuance diferente é o facto de a relva aparentar estar cada vez mais grande com cada nova camada de paisagem que se desenrola perante Galland e Vellend com cada passo do animal que os carrega.
Por falar em Vellend, ele permanece...em silêncio.
Galland sabe que ele não o ressente pelo que fez, por ter praticamente atacado um civil, uma pessoa do tipo que a Ordem jura proteger.
Não, Galland sabe que é pelo que ele disse.
Uma mistura entre os acontecimentos e os concelho que lhe deu.
Ele sabe-o.
Sabe-o porque passou pelo mesmo.

Por isso mesmo, respeitará o seu voto de silêncio que ele ficou por explicar.

Mal sabe ele que explicações nem serão necessárias.

Galland tornou para o dedo peculiar, de novo.
Revirou-o na sua mão, de novo.
Assinalou os pelos que não deviam lá estar, de novo.
Reparou no coto chamuscado, de novo.
O coto cicatrizado e seco como concluía, de novo.
Nessa longa lista de revisões que fazia ao objeto, ocorreu-lhe que deveria revistar a zona da unha. Essa ficou por ver e, sendo sincero, nem sabe como demorou tanto para se lembrar de a verificar.
A unha em si era comprida. Longa. Cinza. Unha nem seria a palavra certa para descrever. Estava mais para uma garra. Uma garra que se estendia bem passado da pele a encobrir a sua raiz e se afunilava até formar um espinho onde os contornos da unha se encontravam num gume afiado.
Pontiagudo como o de uma lâmina de uma espada.
De tal forma que Galland aproximou o dedo indicador encoberto pela luva metálica do pico da unha e retrocedeu de imediato com o agudo som resultante do subtil arranhão pregado pela aproximação dos dois dedos.
Galland virou o dedo ao contrário. Contemplou as costas da arquitetura que tem estado a examinar há tanto tempo. Tudo para dar de caras com mais um mar de pelos sobre pele escura e a casca interna da unha comprida.
Nada de novo aí.
É claro, excluindo o facto de o dedo ter pelos, para começar.

Seria esse o caso se ele não tivesse reparado, um minúsculo filamento branco nitidamente enfiado fundo na unha, metido entre a casca interna da unha e a pele negra do dedo.

Vellend: "O sir cavaleiro encontra-se bem?"
Galland cerrou logo a palma da mão com o dedo.
Galland: "A questão é se está tudo bem contigo, Vellend?"
Disse, a divertir a atenção para longe de si.
Vellend ripostou, sem um pingo da típica emoção que carrega:
Vellend: "Ah, certo. Eu estou, er, bem. Limitei-me a questioná-lo para perceber porque é que estava tão...tenso."
Galland: "Tenso, dizes tu?"
Inquiriu, a retomar a postura hirta, dando a entender que nunca esteve debruçado sobre um pedaço de carne, ossos e unhas.
Vellend: "Sim, senti-o inexplicavelmente. Como quando por vezes sentimos que estamos a ser observados sem sabermos como."
Galland: "Percebo. Mas foi isso o que te fez quebrar o silêncio?"
Vellend pausou.
Galland confessa que é capaz de ter passado por grosseiro com esta intervenção, portanto ele próprio tomou a iniciativa de elaborar.
Galland: "A última coisa que pretendo é fazer-te falar quando não queres, jovem. A escolha é tua. Também não me deves nada."
Vellend: "Não é nada demais, senhor, prometo."
Galland calou-se e deixou-o elaborar desta vez.
Vellend: "Eu é que...er, bem, quero dizer, a culpa não é do senhor. Nada do que fez estava errado. O Sir Galland estava em todo o seu direito de se defender. De me defender a mim, inclusive. É só que...é só que não consigo desenrolar a minha mente de que esta é a realidade em que vivo."
O escudeiro deixou-se inclinar para a frente a segurar nas rédeas do cavalo.
Vellend: "Eu sempre soube que existia mal neste mundo. Afinal, foi essa realização que me compeliu a juntar-me à Ordem, a fazer-me querer tornar um cavaleiro. Foi sempre com a intenção de livrar Britannia do mal. Com a intenção de proteger os outros e não mais. Mas...sabe...esta não é a primeira vez em que me deparo com um tipo de mal fora do comum."
Disse, a acariciar o pescoço e o cabelo do cavalo com uma mão enquanto a outra segurava na rédea e mantinha o controlo do animal.
Vellend: "Já em outras ocasiões tinha dado de caras com saxões emigrantes que vêm para Britannia com boas intençõs, intenções de sobreviver e sustentar a sua família, com nobres maldosos que pouco dão aos seus mordomos e trabalhadores das herdades que governam e...eu tenho noção que o mundo não é só dia e noite. Tenho a plena noção disso. Compreendo que esses são valores e estatutos inerentemente transmutáveis. Já vi e ouvi acontecimentos desses com tamanha frequência para saber que são a realidade. Que tudo o que ouvimos, que os saxões são os malvados, que nós somos os que estão no lado correto da História e da soberania da Natureza e que, no fim de tudo, seremos devidamente recompensados por um lugar digno no Ciclo, isso...isso é algo em que evito pensar. Reconheço ser um tema complexo, mas evito pensar."
Vellend virou-lhe uma metade da cara e observou Galland pelo canto de um dos olhos.
Vellend: "Barbas de Merlin, diga-me que não sou só eu a considerar isto."
Galland relutantemente respondeu:
Galland: "Para ser franco, houve uma altura em que me importei mais com essas crenças de um Ciclo recompensador, de um lugar brilhante transcendente até mesmo relativamente a este plano em que nos encontramos. E ainda creio. Creio, contudo com menor fé. Sigo esses ideais mais por cortesia do que por realmente acreditar neles."
Vellend: "Diz que é 'por cortesia'?"
Galland lambeu os lábios e não hesitou:

Galland: "Com isto, quero dizer que sigo estas crenças na esperança de que um dia me venham a calhar. Que um dia me venham a recompensar por segui-las."

Vellend sorriu e colocou os seus olhos na estrada.
Vellend: "Portanto não acredita neles. É isso o que está a dizer."
Perante uma acusão tão grave, dita de um temperamento tão leve, o cavaleiro viu-se compelido a ripostar.
Galland: "Não. Compreendo que possas achar contraditório, porém é possível."
Vellend: "Não sei, sir cavaleiro. Soa-me apenas contraditório."
Galland: "Basta pensares e notarás que não o é."
Vellend: "Pensar em quê?"
Galland: "Que todos o fazemos por esse motivo, com essa justificação. A diferença é que eu o faço de total consciência. Vocês mascaram-no como inconsciência."
Vellend cessou as suas objeções. Ao invés disso, ele espetou o canto do olho atento ao homem atrás de si e pediu:
Vellend: "Importa-se em elaborar."
Ao que Galland se manteve hirto e cedeu a uma explicação.
Galland: "Todos acreditamos no que queremos, não é? Todosacreditamos no que nos convém, no que achamos que nos representa a nós, os nossos valores e objetivos. Só que nem todos queremos mostrar isso ao mundo. Acontece que, por muito que todos partilhemos essa noção, nem todos queremos que isso nos defina. A verdade é que acreditar significa representar. E existem, existiram e existirão sempre pessoas que não querem que sejam reduzidas a uma pilha de ideias. Muitas das quais eles sabem que as podem definir, que as podem entregar como verdadeiramente são. Como tal, optam por não ser o que são. E escondem-se atrás de ideais que não acreditam sempre que se encontram diante de outros, de outras pessoas a quem não querem revelar a sua verdadeira natureza. Pois não querem ser desmascarados como as pessoas egoístas que são. As pessoas egoístas que todos são. Portanto mascaram esse egoísmo, bem como todas as suas características negativas em público. Fingem ser quem não são para que ninguém perceba que são seres humanos terríveis. O resultado é que, em público, esses verídicos, malvados pensamentos continuam a ser parte deles, mas inconscientemente. Já os fabricados, as crenças boas, passam a primeiro plano substituindo o lugar das verdadeiras, que apenas voltam ao seu devido lugar em privado, ou quando acreditam que estão com alguém que não se importará com o que eles pensam."
Vellend rematou com uma piada:
Vellend: "Isso explica porque é que procuramos tanto alguém com quem ficar o resto da vida. Apenas precisamos de alguém a quem nos revelar, correto?"
Galland: "Sim. Podemos dizer isso. Mas, se queres que te diga, ninguém que eu conheço teve muita sorte nessa área, à parte dos meus pais."
Vellend: "Os nossos pais são sempre os modelos do correto. Contudo, recuso-me a acreditar que o Sir Galland tenha tido pouca sorte com as mulheres. É verdade que a sua aversão para adormecer pode ser um fator negativo, mas não um impedimento. Deve ter tido pelo menos alguém."

Galland petrificou.

Tanto que nem deu na cabeça de Vellend por ter falado na sua insónia e...

Estava concentrafo noutro aspeto.

A menção ao assunto...

A menção a Urh...

Lembrou-o a ele mesmo da sua faceta a manter.

Daquilo em que devia acreditar no momento e, por isso, evitar.

Galland: "Não é da tua conta, jovem. Especialmente quando te recusas a tratar-me pelo único apelido que considero aceitável."
O escudeiro deixou-se intimidar pela voz autoritária do cavaleiro e focou-se completamente em manter o cavalo nos eixos da estrada. Anuindo com um aceno da cabeça. Quieto. Sem contestar.
Galland, por sua vez, também fez algo voltar aos eixos: a conversa.
Galland: "Para quem pediu que eu elaborasse, pareces ter muito pouco a dizer sobre o que falei."
Disse, a picar Vellend no ombro.
Com eficiência, por sinal.
Vellend: "Isso é porque não fiquei satisfeito com a sua tese."
Respondeu, resumindo.
Galland: "Agora peço-te eu que elabores."
Vellend encolheu os ombros.
Vellend: "Que posso dizer? Estava incompleta."
Galland: "Elaborai."
Vellend: "Incompleta e incorreta."
Galland: "Elaborai fundo."
Vellend: "Tudo bem, já que insiste..."
O escudeiro pregou o cavalo com as rédeas, fazendo-o aumentar ainda mais a velocidade já elevada em que iam. Suscitando o vento a acariciar as roupas deles com maior intensidade, e, no caso de Vellend, a acariciar-lhe as bochechas.
Vellend: "A meu ver, para começar, faltou-lhe incluir uma exceção à regra. E, portanto, uma objeção, um furo à sua teoria."
Galland pousou as duas mão, a com o dedo de Lobisomem e a sem o dedo, em cima do colo e ouviu atentamente.
Vellend: "Podem existir pessoas que fingem acreditar no bem para esconder a maldade que verdadeiramente são, mas, quem diz que não pode existir o contrário?"

Pela Natureza e pelo Ciclo, por muito que tenha sido não intencional, ele conseguiu prever o molde em que Galland se encaixava.

Este rapaz...

Consegue soltar uns palpites impressionantes, mesmo sem tentar.

Todavia, Galland não deu indicação alguma da correlação entre a objeção e ele próprio.

Preferiu ouvir, como qualquer um ouviria:

Vellend: "Partindo do princípio de que todos fingem ser quem não são, substituindo o mal interior por um bem dissimulada, então haverá sempre também pessoas que substituem o bem interior por um mal falso. Sinceramente, eu não entendo porque é que alguém faria isso. Porque é que alguém bom e que, por essa razão, seria naturalmente bem visto, preferiria ser mau e ser mal visto. Custa-me a crer que alguém faria essa escolha, no entanto, não posso fingir que não haverão pessoas que pensem assim, que escolham esta opção. Tal como o senhor também não se pode cegar para pretender que também não vê. Não vê que existe um reflexo no espelho. Parecido, mas diferente o suficiente para ser a sua própria pessoa. O que me leva também a estender essa sua ignorância à generalização que cria nesta sua teoria. Afinal, nem todos fingem ser quem não são. Algumas pessoas simplesmente querem ser quem são. E isso aplica-se tanto a quem é bom, como a quem é mau. A si, bem como a todas as pessoas no mundo que eu sei que o sir cavaleiro quer ignorar em prol de levar a sua versão avante, mas essas pessoas existem. Ignorante é quem as ignora."
Galland cerrou a sua boca. Alinhou os lábios, mas...há algo a questionar...ele desalinhou-os:
Galland: "Creio que não te possa dizer em que categoria me encaixo, mas, e tu? Que pessoa é que és?"
Vellend ponderou por um longo segundo, todavia respondeu num piscar de olhos, mal a resposta lhe veio:
Vellend: "Penso que sou como todas as pessoas. Penso que sou bom."
Galland: "E dizes isso mesmo que existam pessoas más?"
Vellend anuiu.
Vellend: "Até porque elas nasceram boas."
Galland: "Mesmo que existam pessoas que são o mal encarnado?"
Vellend: "Sim. A Natureza é que os corrompeu."
Galland: "Mesmo que existam pessoas que pareçam inicialmente boas e pacíficas que, no fim de tudo, se revelam ressentidas e confrontacionais, como aconteceu connosco na estrada?"
Vellend: "Ouça, eu sei onde está a tentar chegar. E eu reconheço a hiprocrisia no meu dever. Em como, ao querer proteger todos e preservar o bem, ppr vezes, tenho de proteger gente maldosa, contudo..."
Vellend engoliu em seco e libertou-se das rédeas que o prendiam a si:
Vellend: "Sei que sou ignorante por isto, sei que sou teimoso por isto, mas é que gosto tanto de pensar no altroísmo dos nossos atos, gosto tanto de acreditar que fazemos sempre o bem, acho estes ideiais tão bonitos que...não sei, nunca lido bem com estas situações em que as provas cabais me são reveladas e escancaradas na cara. Pois sei que terei de fazer por me convencer que as minhas ilusões ainda são as certas."

Era isto que queria.

Galland conseguiu o que queria: a verdade na dua forma mais pura.

Somente a verdade.

E ele conseguira.

Conseguira.

E era o que esperava, o que previra, o que adivinhara, então, deixá-lo-á em paz por isso.

E não o importunará mais: porque também ele concordou com aqueles ideiais.

Logo, aliviará o clima de uma forma que só ele sabe: brincando.

Galland: "Mesmo que isso signifique convencer-te que alguns integrantes do povo que proteges não são uns energúmenos autênticos?"
Vellend riu-se, porém anuiu:
Vellend: "Sim, mesmo que isso convencer-me que alguns dos integrantes do povo que protejo não são uns energúmenos autênticos e que não merecem ficar sem um chicote."
Vellend voltou a meter os olhos na estrada.E Galland, por muito que lhe tenha custado resistir...esboçou um sorriso debaixo do helmo.

Vellend: "Bem, aproveitando que estamos os dois a interagir após um hiato comprido, penso que deveríamos aproveitar para discutir assuntos importantes. Como o próprio sir cavaleiro disse relativamente a si próprio, também eu me começo a ver mais apoderado pela sede suceder nesta tarefa. E creio que o nosso período de recuperação do choque já passou. E isso vale para tanto o choque no beco como o com o chicote."
Galland: "Perfeito, nesse caso poderemos falar do nosso ddever. É crucial certificarmo-nos que não desperdiçaremos esta oportunidade, que não perdemos a oferta única em cima da mesa. Que me dizes?"
Vellend: "Considero até já um malefício não termos discutido isso antes."
Galland clareou a garganta.
Galland: "Antes de mais, preciso de saber mais sobre ti. Diz-me: esta é a tua primeira vez a ser designado a uma patrulha noturna?"
Vellend: "É a primeira vez que o Sir Lant é designado a uma desde que me juntei a ele, por isso, sim, é a minha primeira vez."
Galland: "Em que é que tens experiência?"
Vellend: "Na maioria das vezes, fiquei encarregue de fazer de guarda em algumas das plantações de milho nos terrenos do Sir Lant. A certificar-me que ninguém roubava as colheitas do dia, que todos trabalhavam em ordem e com coordenação. Um trabalho monótono, mas que infelizmente aqueceu com estes últimos tempos. Tive o desprazer de me deparar com mais saqueadores do que devia. E, tendo em consideração que saí da minha formação há cerca de mais de cem luas atrás, posso dizer que é só isso o que fiz, para além de ter testemunhado alguns dos campos de batalha contra os saxões em que o Lant me levou. Se bem que não entrei em nenhuma dessas batalhas. Segundo o Sir Lant, era apenas para me dar uma percepção da escala do trabalho que terei de fazer quando subir para o patamar de cavaleiro, como ele."
Pôr o escudeiro a fazer de empregado nas suas próprias herdades é mesmo coisa de Lant. Fadas, aquele homem não ia mudar mesmo. O cavaleiro enfiou a vontade de dar uma palavrinha a Lant para mais tard. Suspirou e prosseguiu com o interrogatório:
Galland: "E o que é que sabes sobre Lobisomens, Vellend?"
Vellend respondeu, inseguro nas suas conceções:
Vellend: "Vejamos. Ora, sei que são uma criatura noturna. Que são uma mescla horrenda entre homem e lobo. Que são trazidos somente pelas noites de lua cheia. Invocados, aleatoriamente e ao acaso, nessas circunstâncias. Podem ser homem ou mulher. E que independentemente do género, são chamados pela gorda lua e transformados num monstro cujo único propósito é cumprir os apetites nefastos desse astro. Não sei, creio que seja isso. Mas não leve nada do que digo como definitivo. Aprendi tudo isso de palavra de populares. conversas embriagadas nos estabelecimentos de comes e bebes a horas tardias e de maníacos nas ruas a tentar chamar atenção na chance de obterem uma esmola de volta."
Galland: "Não te preocupes, rapaz, não levarei nada disso a sério. É apenas para poder perceber a tua familiaridade com o conceito, já que averiguamos que, na prática, tens experiência nula."
Vellend: "E que tal?"
Galland: "A assessoria que realizaste a ti próprio está acertada e calibrada: nada do que dizes é definitivo."
O escudeiro não esmoreceu nem amoou, solto um...
Vellend: "Oh..."
...e disponibilizou-se a escutar a versão factual.
Galland: "Não te culpo por essas conceções dos factos. Como explicaste, essas são as conceções partilhadas por muitas outras pessoas que espalham essa informação como se fosse a verdadeira para seu belo prazer. São versões deturpadas do real, à vezes até completamente fabricadas, mas são o pouco a que têm acesso. Portanto não há nada que culpar os camponeses e habitantes comuns que acreditam nessas mentiras. Porque a não ser que se seja um cavaleiro, ninguém terá direito a uma palestra que corrija as lacunas e preencha as fendas abertas pelas barbaridades que cantam nas ruas."
Vellend: "Pois, eu conseguia prever que o que eles cuspiam por aí seria pouco verídico a partir do ponto em que começaram a dizer que eles só comiam os genitais das vítimas como alimento."
Galland: "O medo do desconhecido faz as pessoas agir irracionalmente. Começa sob a forma de desespero. A longo prazo, leva à estupidez."
Vellend: "Acontece é que ninguém tem acesso à verdade, exceto os cavaleiros."
Galland: "A propósito, surpreende-me que o Lant não te tenha dado uma lição sobre o assunto."
Vellend: "O Lant? Não. Ele nunca foi destacado para uma tarefa deste género. Querendo ou não, é um dever normalmente reservado a cavaleiros de baixo estatuto. Mas acho que as épocas de crise têm sempre essa capacidade de agitar os regimes. Conseguindo fazer até os cavaleiros mais prestigiados fazer as tarefas menos prestigiadas."
Galland: "E não estava nos planos dele dar-te uma lição dos perigos que iam enfrentar?"
Vellend: "Ia. Só que recebemos a informação de que tínhamos sido destacados nesta manhã. E depois percebemos quem ia ser o nosso companheiro na caçada e os planos mudaram. O Lant teve de me destacar para outra tarefa, para ficar de olho em si. Então..."
Galland: "Estou a ver que a aula iria ser adiada para quando conseguissem se encontrar novamente. O que, a julgar pelo modo como as coisas estão a correr, será com a lua no alto."
O cavaleiro ajeitou-se na cela e assegurou-se manter a pega firme no dedo.
Galland: "Nessa altura será tarde demais para poderes fazer algo útil com a informação que ainda deves andar a mastigar. Se queres que eu te diga a minha recomendação, é melhor ficares a saber agora pelas minhas palavras do que com um Lobisomem a respirar para cima do teu pescoço. Parece-te bem?"
De costas para Galland, Vellend traçou uma linha nos seus lábios com os dedos e proclamou:
Vellend: "Prometo fingir estar a ouvir tudo pela primeira vez assim que o Lant começar a fazer a sua explicação."
O cavaleiro resfolgou.
Galland: "Entendido. Para começar, preciso de desmascarar alguns conceitos fundamentais."
Vellend: "Estou a ouvir atentamente."
Galland ergeu um dedo da sua mão livre no ar e estendeu-o para a frente por cima do ombro do escudeir de forma a que este visse desde o assento da frente.
Galland: "Em primeiro lugar, é preciso saber que tudo o que eu vou dizer apenas se aplica aos homens e aos homens só. Nenhuma mulher foi ou será um Lobisomem tão cedo, embora estejamos por descobrir uma razão concreta que explique o fenómeno. O próprio apelido da besta foi dado com a intenção de assinalar este evento estranho como exclusivamente masculina, todavia, de acordo com o que disseste, não pareceu ter sido uma dica evidente para o povo."
Galland levantou um segundo dedo da mão disposta à frente de Vellend.
Galland: "Em segundo lugar, tudo o que vou falar sobre os Lobisomens apenas se aplica a noites de lua cheia. Uma vez que a própria existência de um Lobisomem só é permitida devido à lua no céu. E essa lua tem que ser especificamente cheia. Basta ser um quarto de lua ou um meio de lua e nenhuma besta surgirá. Entendido? Com Lobisomens referimo-nos sempre a uma lua cheia."
Antes que Vellend pudesse anuir, Galland levantou o terceiro dedo.
Galland: "E o último dos princípios a tirar do caminho, um que está intimamente relacionado com o segundo, é o de que nenhum Lobisomem sobrevive à luz do dia. O alvorecer é um símbolo de morte para eles. Assim sendo, mesmo que as condições todas se reúnam numa noite de lua cheia e o Lobisomem consiga proliferar, o seu espaço de ação livre é curto. É limitado pela duração da noite. Limitado por uma contagem decrescente até ao alvorecer."
Vellend abriu os lábios a testar se Galland o iria interromper. Ao verificar que desta não iria cortá-lo, o jovem atreveu-se a perguntar:
Vellend: "E o que é que ocorre de tão maligno para eles com o nascer do sol?"
Galland segurou com força no dedo na outra mão.
A seguir a uma pausa dramática não intencional, ele revelou:
Galland: "O Lobisomem começa a derreter."
Vellend arregalou os olhos.
Galland: "Eles derretem como mel a deslizar de um favo."
O escudeiro engoliu em seco.
Então, Galland tirou-lhe a mão de dedos eretos da cara e deu-lhe duas palmadinhas no ombro, a rir-se.
Galland: "Desculpa se te assustei, jovem. Não era a minha intenção de todo. Principalmente agora que acabámos de começar."
Disse o cavaleiro, propositadamente a picar o rapaz para o amedrontar ainda mais. Pelos vistos, conseguiu o que queria, pois o miúdo estremeceu. Se não fosse pela urgência de informá-lo, Galland teria dado tempo a si mesmo a fim de rir.
Galland: "Baseado nestes fatores fundamentais, posso começar por descrever a criatura. Sei que pode parecer inútil para ti, sendo que já vais ver uma esta noite, contudo nem imaginas o quanto a descrição pode salvar-te no calor do momento. Não me atrevo a dizer que pode delinear a diferença entre a vida e a morte. Ainda assim, teres uma expectativa da aparência assustadora que te espera, fará o instante em que vires a silhueta e o corpo completo do monstro muito menos aterrador. Pelo menos, deixarás de paralisar como ocorre com a maioria que vai para estas patrulhas de peito erguido e a confiança em cima apenas para ser trazida de volta ao chão com um vislumbre da verdadeira aparência da criatura a enfrentar."
Vellend com certeza estava ainda a processar os princípios fundamentais, contudo acenou afirmativamente com a cabeça e pediu para prosseguir.
Galland: "Lobisomens são, como o nome sugere, uma amálgama macabra entre um homem e um lobo. Sendo sincero, eles nem são uma mistura homogénea. Pois de características caninas, têm apenas as suas garras compridas e afiadas no lugar das unhas, o pelo a cobrir os cantos e recantos do corpo, a pele escura por debaixo dos pelos e a cara enorme idêntica à de um lobo que lhe confere todos os sentidos apurados dignos do animal de referência. De resto, quanto à forma em si, é praticamente igual à de um homem. Com um meio de locomoção em duas patas, com um peitoral e abdominais definidos ecom cinco dedos na mão e nos pés, esses todos as únicas partes do seu corpo isentas de pelos e com uma tonalidade normal na pele. Pelo que sabemos, as regiões do corpo do Lobisomem que apresentem pele escura são locais de crescimento de pelos. A princípio, as zonas que te falei são as únicas onde deverá aparecer penugem. Se bem que...começo a duvidar disso com provas recentes."
Disse, a abanar o dedo na mão fechada.
De qualquer modo, o cavaleiro passou para a etapa seguinte:
Galland: "É possível perceber essas semelhanças à anatomia humana, uma vez que, de facto, os Lobisomens usam o corpo humano como base."
O escudeiro coçou a cabeça, em cima do seu cabelo desgrenhado.
Vellend: "Perdão, mas confesso pelas fadas que não percebo."
O professor experiencidade explicou de volta:
Galland: "Em todas as noites de lua cheia um Lobisomem aparece. Contudo, eles não aparecem do vazio. Existe sempre algo que antecede um ser ou acontecimento. Com os Lobisomens, não é diferente. Um humano é requerido."
Vellend: "Com que extensão?"
Galland: "Semelhante a toda a informação relativa a este assunto, os detalhes permanecem uma grande incógnita. Não obstante, aquilo presenciado e aquilo a que temos acesso. descreve que, por alguma razão, e de forma aleatória, em todas as noites em que as condições astrais pré-determinadas para o aparecimento de um Lobisomem se alinham, um homem é avistado numa floresta. Esse homem, velho ou novo, é sempre encontrado na floresta nu. Por alguma razão, está sempre nu. Com o olhar cravado na gorda lua que pende no céu escuro da noite. Aparentemente hipnotizado. A pessoa fica assim, num estado de admiração pelo objeto astral fora do seu alcance por compridos instantes até finalmente se transformar num Lobisomem."
Vellend teve os pelos do braço arrepiados.
Galland: "A transformação em si continua por documentar propriamente. Em todo o caso, como testemunho de uma rara ocasião em que a transformação foi vista, posso dizer-te que é...grotesca. Macabra. Desumana. E todos os apelidos bizarros adequados. É que...os Lobisomens podem ser parecidos do homem em alguns aspetos, mas...ainda há uma longa transformação para um se tornar no outro."
O jovem tremia com o mero cogito de uma ínfima parte da transformação. Ele não aguentava esta conversa grotesca. Pelo rumo que estava a tomar, daqui a pouco ainda descarrilava o cavalo e os dois iam para o chão com algum ataque cardíaco, portanto Vellend decidiu transitar para falar de outra coisa que não a transformação em si.
Vellend: "As pessoas. Er, como é que as selecionam?"
Galland: "Eis o grande mistério. Capaz de ser até uma maior mistério do que a própria existência do Lobisomem. Nada se sabe sobre os critérios da seleção do homem a ter de deixar a sua vida para trás para temporariamente se tornar numa besta violenta. Tudo o que sabemos é que as pessoas são sempre homens e que, uma vez selecionados, despem-se, vão para a floresta e ficam a olhar para a lua à espera que a hora da transmutação chegue. O que é uma pena. Houve um curto intervalo de tempo em que tentámos prever quem seriam os próximos Lobisomens, mas sempre sem sucesso. Não ajuda quando os homens selecionados tendem a sair no meio da noite, quando todos estão a dormir e não há testemunhas à vista ou quando entidade seletora não se importa com a idade."
Vellend: "..."
Galland: "Isso é especialmente doloso assim que percebemos que o Lobisomem para abate n passa de uma criança."
O cavaleiro suspirou, a expulsar a aura de negativismo que o vinha a tomar.
Galland: "Reza aos teus antepassados para que esse não seja o caso."
Vellend respondeu...sem responder.
Apenas a interiorizar.
A entrar em contacto com o que realmente o pode aguardar nesta noite.

Que a Natureza consegue ser muito mais suja do que limpa.

Galland continuou, no tom imparcial em que vinha a dar a aula:
Galland: "Tal como mencionei previamente, os Lobisomens são uma espécie de criatura com uma amplitude de vida bastante reduzida. Essa é a principal razão pela qual sabemos muito pouco sobre eles além do que reside à superfície. Para exemplificar, não sabemos nada sobre o regime alimentar das bestas. O que faria sentido seria que eles se alimentassem de carne como os lobos também se alimentam. No entanto, esse é a estirpe de saltos lógicos a que os médicos preferem não recorrer na construção de perfis de criaturas. E se assim querem os especialistas, quem somos nós para negar."
Vellend: "Médicos já entraram em contacto com Lobisomens?"
Galland: "Não. Mas já foram levados para algumas patrulhas. A maioria da informação que temos é proveniente dos testemunhos e anotações que fizeram a partir dessas observações. Anotações baseadas tanto no comportamento dos Lobisomens contra os nossos cavaleiros, como no pouco tempo que têm para estudar um cadavér de um Lobisomem enquanto não amanhece e o restos mortais do monstro não derretem."
Vellend inclinou a cabeça para o lado.
Vellend: "Aguardai um instante. Acompanhe-me: Lobisomens só aparecem durante a noite de lua cheia, só vivem com a lua cheia no céu e têm quase que uma reação mortal perante o sol, por isso, porque é que ninguém teve a ideia de isolar os cadavéres do sol? A meu ver, parece-me é que são uma criatura noturna que, desde que não contacte com o sol, continuará a viver, é?"
Galland voltou a estender a sua mão livre por cima do ombro de Vellend com um dedo levantado e abanou-o bem em frente do olhos do moço.
Galland: "Vê-se que não prestaste atenção, jovem escudeiro. Os Lobisomens sobrevivem na noite, mas só e somente em noites de lua cheia. Não mais. Implicando que, mesmo se conseguíssemos isolar o cadavér do monstro numa barraca de rocha maciça onde nenhuma luz do sol penetrasse, pro exemplo, se expuséssemos os restos mortais dele à noite e essa noite não fosse uma noite de lua cheia, então a criatura também derreteria."
Vellend: "O quê? Como é que pode? É que nem estaria de dia."
Exclamou quase a saltar do cavalo para fora.
Galland reforçou o ponto a abanar o dedo com uma maior intensidade.
Galland: "Tudo retorna aos conceitos fundamentais."
Na mão estendida, ele subiu de um dedo erguido para três.
Galland: "Só surgem e sobrevivem à noite. As noites têm de ser de lua cheia e só de lua cheia. O sol é a sentença de morte deles."
O escudeiro concordou com um aceno de cabeça, maaaas insistiu:
Vellend: "Decerto, mas a minha hipótese continua coerente. Isolando o cadavér do sol, da lua, de tudo, é possível manter os restos intactos. Deste modo será possível estudar os Lobisomens e a sua anatomia com maior pormenor."
O cavaleiro retrocedeu com o braço e deu outras palmadinhas no ombro do escudeiro em roupas leves.
Galland: "Esqueces-te é que temos uma guerra em andamento. Um confronto que requere o máximo de pessoal médico a ajudar. Por isso, podemos dizer que não estamos na melhor era para começarmos a dedicar-nos a estes problemas com monstros. A verdade é que este é um trabalho menosprezado por essa razão: porque existem problemas muito maiores a lidar. Afinal, só temos três médicos que alguma vez estudaram ou demonstraram interesse em estudar Lobisomens. E nenhum cavaleiro, se fosse dada a escolha, participaria nestas tarefas de patrulha noturna de livre vontade. Mas o facto é que é um problema. Um problema menor e menosprezado, mas um problema."
Vellend: "Explica porque é que obrigam muitos cavaleiros de baixa patente a participar nesta tarefa. São a mão-de-obra menos valiosa e cuja perda será menos sentida, caso o pior dos casos se torne realidade."
Galland: "Também é por isso que pagam pouco."
Os dois caíram no silêncio por breves instantes. Bem vistas as coisas, foi Galland que caiu, o que compeliu o escudeiro a fechar a sua boca. Doía a Galland pensar naquilo que o mundo se tornou, naquilo que ele o fez ser, mas, fadas o levassem, ele tinha de continuar.
Galland: "Por sinal, chegámos a isolar alguns cadavéres de Lobisomem. Tínhamos toda uma equipa de empregados que iriam manter a barraca subterrânea em que se encontravam limpa e com um cheiro agradável para que os médicos pudessem examiná-los confortavelmente. Escusado será dizer que este esforço foi meramente temporário. Quando viram a falta de interesse dos médicos no programa e a falta de retorno deste investimento dispendioso, os cadavéres foram atirados para a rua em plena luz do dia, os restos mortais foram derretidos e as poças de sangue deixadas para serem varridas."
Vellend consumiu a informação e falou, querendo retomar a conversa desacorrentada em que estavam há pouco:
Vellend: "O sir cavaleiro sabe muito sobre Lobisomens."
Galland: "Como todos os cavaleiros, tive uma lição dedicada a aprender tudo sobre eles. É um dos ritos de passagem de escudeiro para cavaleiro. E eu não os culpo por privarem esta informação exclusivamente às pessoas mais capazes. Pode ser verdade que as patrulhas noturnas sejam um trabalho de lodo, todavia é um trabalho que apenas um cavaleiro poderia fazer. Mesmo até os cavaleiros mais fracos estão a dimensões de diferença em termos de superioridade quando comparados com os escudeiros mais fortes."
O jovem exclamou com aqueles típicos grunhidos de compreensão. Uns "aham, aham, aham" foram excomungados dos lábios do rapaz para que depois ele pudesse regressar à sua curiosidade característica:
Vellend: "E, perdoe-me a pergunta, o Sir Galland já alguma vez esteve numa patrulha?"
Galland: "É sir cavaleiro, rapaz. Contudo, sim, admito que já estive numa patrulha, por muito que tenha lá estado apenas como espectador."
Vellend: "Como eu."
Disse, maravilhado pela semelhança.
Em reação ao ânimo inocente do miúdo, Galland também não conseguia impedir de sorrir e de se sentir confortável a narrar o resto da história:
Galland: "Fui levado por um senhor cavaleiro. Um homem enigmático, podemos dizer."
Beltrem.
O nome dele era Beltrem.
O Foragido.
Mas ninguém podia descobrir, ninguém pode saber que conheceu o herege, então ele é...
Galland: "O nome dele não é de importância."
Vellend: "Ah, como o cavaleiro da outra história na sua casa. Espere, são a mesma pessoa?"
Sim.
Galland: "Não. Mas eles eram parecidos."
Vellend: "Certo."
Galland: "Ele foi o cavaleiro a quem fui atribuído, mal me tornei um escudeiro. E não disse a ninguém, mas fiquei muito grato pela minha sorte. Porque aquele homem foi uma das razões pelas quais me senti inspirado para entrar na Ordem. Eu vi-o pela primeira vez em criança. Quando ele me salvou de um Lobisomem."
Vellend: "Está a falar daquilo a que o Sir Lant se referia na estalagem? Então, esse seu mestre estava com o Lant naquela patrulha. Eles conheciam-se, não é?"
A inocência dele...
Com que então o Lant também nunca lhe falou sobre ter conhecido o Foragido antes dele se ter renegado...
Bom saber que, apesar das suas diferenças ideológicas, havia sempre pontos de contacto entre eles.
Galland: "É, é capaz. Mas não acho que ele se lembra dele. O Lant já trabalhou com muitas pessoas e ele nem se lembra de metade. Logo não apostava tudo na sua memória de velho."
Vellend: "Oh, tudo bem. De qualquer forma, insisto que continue, por favor."
O Lant tem as suas razões para ocultar informação. Galland também as tem. E elas devem ser as mesmas. Não seria por eles terem as suas discórdias que lhe estragaria a vida.
Galland agiu de acordo com o desejo de Vellend.
Galland: "Assim sendo, tinha acabado de me formar como cavaleiro. E como o meu mestre por todo o percurso de formação, ele quis dar-me uma grande prenda de despedida. Tenho de admitir que ele tinha um senso de húmor único, pois levar o seu aprendiz para testemunhar uma luta assustadora que ele já sabia que eu tinha testemunhado em criança é deveras uma despedida memorável."
Vellend riu-se com a estupidez da história e da unicidade do homem que ele desconhecia ser Beltrem. Sim, se ele não fosse o inimigo estatal número um, Galland crê que eles se dariam bem, como o jovem Galland se deu com ele.
Galland: "Ele ja sabia que eu tinha sido a criança que salvara numa noite. Tínhamo-nos conhecido naquela época tenra da minha vida. E como despedida da sua mentoria, ele levou-me a enfrentar com os meus olhos maturados o cenário em que tudo começou. Ao menos as coisas demoraram para começar. E tinha uma...expectativa do que esperar, uma vez que este seria o segundo Lobisomem que veria pessoalmente. Portanto, assim que o monstro apareceu, consegui aproveitar o espetáculo e não me amedrontar. Sei que muitos não têm esse previlégio."
Vellend: "Adianto que eu sou um desses."
Galland: "Mas ambos conseguimos experienciar o mesmo."
Vellend: "A chacina de uma criatura da noite."
Completou acompanhado de uma conotação de finalidade.
Galland anuiu, repetindo:
Galland: "Uma chacina de uma criatura da noite."
Ele olhou para a mão cerrada.
O seu tom anímico a esvair-se.
Galland: "Onde tudo começou..."
O cavaleiro abriu a mão e viu o dedo.
Transitando por completo para a melancolia a que sempre voltava, não importava quantas voltas dêsse:
Galland: "...e onde tudo acabou."
Vellend: "Ei, o Sir Galland sabe o que é que me fez tornar um menor da Ordem dos Cavaleiros?"
Interrompeu a melancolia deixada por Galland literalmente a seguir dele ter entrado no seu poço reflexivo inevitável. Um clima interior que tomava posse do homem encoberto pela armadura e que Vellend nem dava por ela.
A sua intervenção veio da pura vontade de entranhar-se no momento, de confiar no veterano e de querer também poder relacionar-se.
Galland levantou a cabeça do dedo e meteu os olhos nas costas do homem que mantinha o cavalo em movimento, a andar em linha reta.
O cavaleiro manteve a mão aberta, não por escolha, não por vontade, apenas por ter sido aliciado pela proposta de Vellend que...
...o fazia desejar que ele elaborasse mais...
...nem que fosse para perceber se era a mesma que a sua ou diferente.
Vellend: "Tudo começou porque eu presenciei um ataque de um Lobisomem, quando era mais novo."

Galland escancarou a boca além do capacete e da fresta nele.

Vellend: "Estava sozinho. Era uma criança. Tinha saído de casa sem os meus pais perceberem. Era de noite. Lua cheia."

Galland: "..."

Vellend: "Vivia numa aldeia. Uma pequena aldeia nas fronteiras com território saxão. Um conglomerado de casas e casinhas mesmo ao pé da floresta. E já não bastava ter conseguido esgueirar-me para fora da casa, na minha inocência infantil, achei boa ideia deixar-me seduzir pela fofura e cor verde viva dos arbustos que marcavam a entrada no território da Natureza, como se fossem os portões de entrada para o reino das fadas escondido no coração de nenhures, no grande Reino de Britannia."

Galland: "..."

Vellend: "Faço a mínima ideia de porque é que achei que aquilo foi uma boa ideia. Era uma criança estúpida que mergulhava o dedo no nariz para comer o ranho. Não sabia melhor. Não sabia nada exceto uma vontade de saber. Uma curiosidade de querer perguntar, de querer saber mais, de querer ir para onde nunca fui, de entender o que ninguém entende. Então, aproximei-me dos arbustos em passos bárbaros. Ninguém me viu. Era o único na rua. Achava que era o rei do mundo."

Galland: "..."

Vellend: "Achava que estar ali a olhar para um monte farfalhudo de folhas e ervas era o pico da existência. O ato mais ousado de sempre. Até que, subitamente, vi um monstro a aparecer do meio dos incontáveis arbustos da floresta."

Galland: "..."

Vellend: "Um Lobisomem."

Galland: "..."

Vellend: "Ainda guardo a cena que se desenrolou como um retrato."

Galland: "..."

Vellend: "O dedo esguio dele claro dele com cor da pele humana."

Galland: "..."

Vellend: "A estender-se na minha direção com a unha afiada, aterradora a apontar para a minha testa."

Galland: "..."

Vellend: "As narinas dele a inchar e a esvaziar em rápidas sucessões."

Galland: ".."

Vellend: "O peitoral definido dele a expandir e a contrair."

Galland: "."

Vellend: "Ansioso por poder saborear uma criança maravilhada com algo que ela não compreendia ou sequer imaginava ser perigoso, só que..."

Galland: " "

Vellend: "Ele acabou por não atacar."

Galland: ""

Vellend: "O Lobisomem virou-me as costas e foi embora."


Vellend: "Talvez porque reconheceu que eu não era ameaçador."

Vellend: "Porque a sua missão realmente não é se alimentar dos pobres humanos deste mundo."

Vellend: "É algo muito maior, além da nossa compreensão."

Vellend: "Que mesmo se soubéssemos, nem conseguiríamos compreender."

O cavaleiro de armadura reluzente finalmente recuperou o comando do seu corpo e envolveu o dedo peludo nos seus dedos envelopados na luva metálica. De regresso do seu transe, Galland nervosamente examinou a ausência de frestas. Estava há uns movimentos em arco do sol sem fazer isso.
A razão residia no que estava a ser dito, na mentir à vista desarmada.
Galland: "Tinhas me assegurado que nunca tinhas cruzado caminhos com um Lobisomem a não ser na patrulha em que o Lant te levou para presenciares."
Vellend: "Dói-me fazê-lo, no entanto, reconheço que, de tempos em tempos, é preciso ocultar certa informação. A informação mais pessoal."
Disse, a escapar do estado animado.
Vellend: "Acredito que o Sir Galland consegue relacionar-se com isso."
Galland: "E-Eu..."
Ele cessou e voltou no instante seguinte, de cabeça mais fria.
Galland: "Eu acho que o mundo não nos deixa escolha."
Vellend acenou em concordância.
Vellend: "Infelizmente, não temos escolha."
Os dois caíram em silêncio.
Percebendo que, apesar de um rio de perspetivas opostas, eles têm algo em comum.
Ambos têm uma vontade de sobreviver.
Um é que expressa isso mais visivelmente que o outro.
Vellend: "Há algo que precise de saber a mais sobre os Lobisomens?"
Galland: "Não. Por enquanto, não. Concedo-te uma interrupção. Uma longa interrupção. Já te disse o essencial. Caso adicione, seria apenas informação supérflua. Creio que já sabes o suficiente para não te envergonhares a ti ou a mim e àquilo que tenho em jogo."
Vellend franziu a sobrancelha.
Vellend: "Tem a certeza, Sir Galland?"
Galland: "Sim, sim. Posso ter exagerado com a quantidade da informação, mas creio que está tudo."
Vellend: "Não é isso. É que sinto-o...tenso...como há bocado...mas...ainda mais."
Galland engoliu em seco.
Ele rangeu os dentes.
Rangeu-os com fulgor.
Rangeu-os como a besta rangia os seus naquela noite.
Rangeu-os como Urh não conseguiu ranger.
Rangeu.
E conteve o que não rangeu.
Galland: "Acredita na palavra do teu superior, miúdo. Está tudo bem."
Vellend ainda abriu a boca.
Prestes a falar.
À beira de dizer o que bem queria.
O que percebera.
Aquilo que Galland sabia ser a verdade.

Todavia, ele conteve-se, apenas assentindo com o pedido do cavaleiro:

Vellend: "Entendido, Sir Galland."
Eles voltaram a calar-se.
Cada um no seu canto.
No seu lugar da cela.
Calados como após o incidente com a carroça.
Com a diferença que, desta vez, Galland foi quem subtilmente induziu o silêncio.
A aperceber-se que aquele rapaz sabia mais sobre ele do que pensava.

Beltrem segurava a espada nas duas mãos, parado, à espera que o Lobisomem o alcançasse.
O Lobisomem, o monstro, corria, corria com as quatro patas pequenas dele, como um lobo com corpo de humano, corria com o seu corpinho minúsculo, de peitoral menos definidos, abdominais invisíveis comparado com as outras versões que já tinham surgido em outras noites de lua cheia que não esta.
E o cavaleiro de armadura completa, limpa, reluzente ao ser iluminada pela luz da lua que trespassava pelos galhos elevados das árvores mais altas, permanecia imóvel com a espada separada da bainha à sua cintura, a encarar a criatura de tamanho humilde com uma árvore atrás de si e arbustos almofadados nas suas costas, à espera que o monstro acabasse de pisar na relva da floresta e de passar por entre os troncos rijos das árvores para que o atacasse de vez.
A aguardar, ele respirava normalmente, ele não ajeitava o capacete com o nervosismo, ele não segurava tremulamente na pega da espada, ele não fraquejava.
Isso, para o jovem Galland que observava a ação a uma distância de segurança, junto de uma árvore de tronco fino, era o mais impressionante, mais impressionante do que o momento em que o espadachim escolheu o segundo para gritar:
Beltrem: "Agora!"
O Lobisomem saltou com as suas unhas tão pequenas que pareciam cortadas assanhadas, a desejar sangue, sangue a arrancar do cavaleiro, o cavaleiro que saiu do caminho ao rebolar para o lado, a fazer as unhas pequenas mas afiadas a fincarem-se no tronco da árvore que repousava atrás do cavaleiro que, de joelhos na terra coberta por relva machucada, após se ter esquivado do ataque, ordenou num berro:
Beltrem: "Saí, cavaleiros!"
E de imediato três outros cavaleiros com um conjunto de armadura semelhante saltaram dos arbustos, estes amantes a competir pelo espaço da acompanhante que é a árvore, os cavaleiros saltaram, cada um deles com uma arma, dois com uma lança, um com uma maça, porém todos foram ao ataque do monstro, segundo comandado por Beltrem.
Cavaleiro da maça: "Avante!"
Beltrem: "Atacai!"
Gritou, o cavaleiro de joelhos, a levantar-se a si e à sua espada.
Beltrem e os quatro cavaleiros foram ao encontro do adversário, ainda com as unhas das mãos presas na árvore, uma árvore que um Lobisomem de tamanho normal teria derrubado, deitado abaixo, esmagado com até o menor impacto, enquanto que este nem as unhas conseguia tirar do pedaço de madeira em que as espetou.
A consequência foi uma investida limpa e sem problemas, na qual os dois cavaleiros de lanças trataram de fixar as pontas metálicas das armas nas patas traseiras da criatura, cada um em cada pata, uma lança afundada no osso esguio dos miúdos pés do monstro e perfurando até ao solo.
Agora a criatura era distraída, não pelas unhas, ma sim pela dor, a dor oriunda dos seus pés imobilizados por armas de fabrico humano, incapacitadas, envoltas numa poça de sangue vívido, leitoso.
Beltrem e o cavaleiro da maça mobilizaram-se, um de cada lado do Lobisomem da altura deles, e feriram-no, Beltrem com cortes da espada, o homem da maça com arremesssos da bola de metal espinhosa que se alojou fundo nos pelos e pele escura das costelas da besta, e depois não pararam por aí, pelo contrário, estenderam as suas energias ao resto do corpo.
O espadachim foi para as costas do monstro, o mestre da maça para a frente da criatura que uivava e uivava, chiava e chiava dolorosamente, debaixo da lua cheia que tudo iluminava, assoberbado pelos sentimentos dolorosos e sensações desagradáveis a tomá-lo, a ameaçar consumi-lo assim que os cortes seguintes rugiram.
Beltrem dilacerou as suas costas numa rajada de golpes laterais, horizontais e oblíquos, desenhando uma gravura através do pelo e da espinha do monstro, desenhado a vermelho, cor do fluído da vida que esvaía do corpo pequeno dele com os cortes, com a maça a espetar-se no peito subduzido da criatura, e de seguida nos abdominais invisíveis do ser que só chiava e chiava, uivava e uivava, numa overdose de emoções negativas.
Então, a perceber que a estratégia surtia efeito, os homens das lanças intensificaram a manobra, ao torcerem a lança espetada através do pé e extraíram-na das insignificantes patas traseiras para passarem a fazer o mesmo com as patas dianteiras, um sinal que Beltrem e o mestre da maça tomaram como uma recomendação para prosseguirem com o que já faziam.
E eles prosseguiram.
Beltrem: "Mudança de posições, Gilhart!"
Cavaleiro da maça: "Desnecessário dizê-lo, Beltrem, não somos crianças que vão contra as paredes e cortam-se nos espinhos das plantas a não ser que lhes peçam para o evitar! Estamos tão familiarizados com isto que tudo se torna automático!"
Assim o demonstraram.
Beltrem indo das costas para as costelas em que o cavaleiro da maça originalmente esteve, e o último a ir da frente para as costelas em que Beltrem originalmente esteve, os dois fizeram os seus ataques convencionais nas regiões, Beltrem uma mistura de golpes superficiais e profundos, o outro a espetar as espigas da maça quatro vezes e a retirar, e não ficaram por aí, rodaram as posições logo a seguir, ao mesmo tempo que o outro mudava, coordenadamente, assim que cada um parava de deixar a sua marca no local quer com lacerações ou com penetrações de espigões, eles rodavam de posição, semelhante aos ponteiros de um relógio analógico, uma invenção futura que nada lhes diz respeito, mas que descreve perfeitamente a dança de gato e rato fabricada entre Beltrem e o outro cavaleiro, que pareciam andar um a atrás do outro, contudo estando sempre a dois golpes de distância de cada um.
E o Lobisomem uivava e uivava sem parar, chiava e chiava com os golpes dos dois dançarinos a largar litros e litros no seu corpo, na terra outrora castanha que ficava carmesim, junto das suas costas esfoladas e dilaceradas até ao osso, nas suas costelas tão golpeadas que se tornavam visíveis por entre a pele e o pelo cortados, expondo o osso das mesmas, as sinuosas estrutoras ósseas pintadas de escarlate do seu corpo pequeno, e as suas patas, patas partidas, perfuradas, profanadas, ensanguentadas ao ponto de colapsarem.
O monstro caiu de barriga ensanguentada na poça pré-existente do seu próprio sangue. Beltrem e o homem da maça recuaram por uns instantes, os cavaleiros da lança extraíram as armas das patas caídas do Lobisomem, e os quatro cavaleiros presentes entreolharam-se, e sem palavras sabiam exatamente o que tinham a fazer.
Os cavaleiros das lanças espetaram as pontas escarlates das armas no curto pescoço do Lobisomem, que estremeceu com uns uivares agora imperceptíveis com a potência de uma vida em vias de eliminação, o homem da maça pisou em cima do corpo de tamanho razoável da criatura e cravou com os espinhos uma última vez mas costas da besta que reteve espasmos por todos os membros, em reação, e Beltrem, Beltrem correu para junto da cabeça lupina, ele, brandiu a espada, aproximou-a, aproximou-a da boca saliente, da, extensão, da boca, abaixo do focinho, e, com, um, rápido, erguer, da, espada, no, ar, para, ganhar, balanço, ele, baixou, a, lâmina, decepando, pele, maxilares, dentes, língua, tudo, num, eficiente, e, potente, corte, que, abriu, um, buraco, aonde, estava, a comprida, boca, que, agora, dava, lugar, a, uma, entrada, uma, vista, grotesca, de, um, buraco, encarnado, com, presas, e, dentes, que, sobreviveram, ao, golpe, colados, ao, céu, da, boca, com, um, fundo, que, dava, uma, vista, especial, diretamente, para, a, garganta, a, via, pela, qual, antes, pulsava, vida, e, agora, perto, do focinho, por, baixo, dos, olhos, paralisados, do, monstro, agora, agora, agora,,,,,,,,,,,,,
,,,,,,,,,espirra sangue.
Vermelho a esguichar de um local que não devia estar aberto, a esguichar para as armaduras outrora limpas de Beltrem, dos cavaleiros das lanças, até para o homem da maça em cima das costas, do cadavér da criatura que perde a vida nos olhos,,,,,,,,,,,,,,morre.
Morre, enquanto os vivos presenciam, a morte e, e, e, e, e, alguns celebram.
Um cavaleiro de lança: "Bem feito, camaradas."
O cavaleiro da maça desmanchava-se em risos por entre a fresta no seu capacete.
Cavaleiro da maça: "Foi fácil demais. Para a próxima ocasião mandem um mais complicado."
Todos soltavam comentários enquanto sujos e banhados em sangue de uma chuva que continuava a vir da região da incisão, por muito que com menor intensidade, e todos riam-se, partilhavam comentários entre si, como reais trabalhadores, porque este era o trabalho deles, um ingrato, um mal pago, mas que não significava que não pudesse ser digno de ocasionais momentos de celebração, espacialmente quando,,,,,,,,
Cavaleiro da maça: "Com uma facilidade destas, este dever péssimo até se torna...compensador, devo dizer."
Os dois homens da lança riram-se com os comentários do outro companheiro. Em parte ppr sentirem a ironia, sentiam-na por também odiarem este trabalho, o quão trabalhoso podia ser, o quão mal pago era, o quão terrível era e ingrato e tudo e mais não sei o quê, mas, apesar de tudo, riam, naquela noite riam, por um trabalho fácil, digno de uma celebração, se bem que mínima.
Galland apoio a sua mão jovem no tronco da árvore que sempre esteve ao seu lado, apoiou-se nela em busca de amparo perante a visão violenta e contrastante com o clima de piadas desconfortável para o, na altura escudeiro, que observava tudo ao longe, a uma distância de segurança, que agora era desnecessário, que agora, poderia aproximar-se deles, engajar-se nas conversas daqueles veteranos, cavaleiros, ao invés do que Beltrem faz.
Beltrem.
O único que não entrava na conversa, apesar de ser o autor do último golpe, o golpe que, ultimamente, originou toda esta felicidade, e ele nada dizia, ou melhor, precisou que os risos dos seus companheiros morressem para intervir numa voz,,,,,feliz,,,,,,,e claramente forçada:
Beltrem: "Boa execução, camaradas. Deixar-vos-ei com a carcaça. Podeis deixar derretê-la com o amanhecer ou esfolá-la ainda mais. Eu vou ver do meu aprendiz."
Cavaleiros da lança: "Entendido, Beltrem."
Cavaleiro da maça: "Força. Posteriormente, estais convidado para festejar connosco."
Beltrem acenou afirmativamente com o capacete posto, mas de uma forma tão nervosa, tão tensa, tão contrária à postura tranquila que demonstrara a enfrentar uma criatura aterradora que parecia,,, imprópria, incoerente, contraditória.
O cavaleiro virou-lhes as costas, tirou o sangue da espada ao raspar a lâmina banhada a sangue rubro na borda da bainha, uma, duas, três, quatro, cinco vezes, as necessárias para impedir que ela enferrujasse tão cedo, e começou a dirigir-se até Galland, ao mesmo tempo que, ao fundo, o cavaleiro da maça, em tom de brincadeira desagradável passou a deixar cair a bola de metal da maça no que sobrou da cabeça do Lobisomem.
Galland averteu o olhar da cena imediatamente, para sua sorte, coincidiu com o momento em que Beltrem chegou.
Beltrem: "Espero que não tenha sido demasiado violento para ti."
Disse, familiar, simpático, ao ver o comportamento humano do seu escudeiro.
Galland fez por encarar o seu mestre, sem mirar na violência que ele sabia estar a acontecer no horizonte, marcado pelo som molhado de algo a espirrar, de algo a ser destroçado:
Galland: "É...diferente, todavia, reconheço que é somente uma questão de me familiarizar."
Beltrem audivelmente soltou umas forçadas gargalhadas por debaixo do capacete, ele pousou a sua luva metálica coberta de sangue no ombro da camisa de linho de Galland, manhando-a no processo, e disse-lhe:
Beltrem: "É como dizes, Galland: é tudo uma questão de familiaridade. E o tempo construirá tudo. Eu confio em ti."
Pouco cerimoniosamente, o cavaleiro evacuou a cena e saiu de ao pé do seu escudeiro, avançando para,,,o nada,,,,,talvez um lugar que só ele saiba, mas, saiu, de cabeça baixa, postura torta, pés a caminharem desleixadamente, porque a sua cabeça não estava no presente, era óbvio, óbvio que algo o incomodava, algo fixava todos os seus pensamentos, todos os seus momentos, impedindo-o de ser ele mesmo, forçando-o a ser quem não é, a sentir o que ele não sente, a não poder mostrar o seu rosto, exceto naquele momento. agora que estava só, consigo e com o que pensa, ao longe, Galland viu-o a tirar o helmo, e viu também,,,,,,

,,,,,,o seu rosto de nojo pelo que fizera.

O escudeiro Galland reuniu coragem e olhou para o que ficou dos restos do Lobisomem, mal percebeu que os sons, todo o sentido de movimento tinha cessado, virou a cabeça e viu que os cavaleiros estavam a limpar as armas, a ignorarem por completo o que fizeram, a seguir em frente, ao contrário de Beltrem.
E foi ao ver o corpo do Lobisomem com mais atenção, a deixar de parte a sua falta de familiaridade com uma cena destas, com o sangue em todo o lado, com os miolos expostos e esmagados como os olhos, focinho e todo o resto da já estraçalhada cara, o que sobrou da cara do monstro pequeno, é que, com uma maior análise, percebeu, intocado, preservado, presente, destacado pela precisa ausência milagrosa de sangue,,,,,,,
,,,,,,,,,,,,,na perna da besta,,,,,,,,,,,,,

,,,,,,um corte superficial,,,,,,,,,,,,,,,,,,

,,,,,,,,,,,,um vinco na pele escura das pernas,,,,,,,,,,,,,,

,,,,,,,,,,,,das pernas cobertas de sangue e de pelos,,,,,

,,,,,,,,,exceto ali,,,,,,,,onde claramente houve estrago,

,,,,,,mas a pele não evidenciava,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,

,,,,,não evidenciava que aquele corte era de um espinho de uma planta,,,,,,,,

,,,,,,,,,,,,,e subitamente tudo fez sentido,,,,,,,,,,,,,,

,,,,a aparente fraqueza do Lobisomem,,,,,o seu tamanho,,,,,,,os seus uivares de dor excessivos, a sua falta de força, o facto de ser minúsculo e a inabilidade de retaliar, o descontentamento de Beltrem, o seu nojo, era porque, ao contrário de todos, ele foi o único com inteligência suficiente para perceber,,,,,,,,,

,,,,,,o único capaz de pôr vírgulas em cada ponto final,,,,,,,,,,,,,

,,,,,,,,,,,,,,o único que reparou,,,,,,,,

,,,que tinham matado um Lobisomem,,,,,,,,,,,,,,,

,,,,que tinham matado uma criança.

Vellend: "Creio que chegámos, Sir Galland."
O homem experiente piscou os seus olhos assim que a voz entrou nos seus ouvidos como uma agulha. Ele saiu da sua abstração, da cena que se relembrava, trazida à vida pela sua memória suscitada pelas recentes conversas com Vellend.
A melhor parte é que tinha acabado.
Galland sentiu o dedo decepado do Lobisomem. Essa desagradável peça de lembrança do Foragido, Beltrem. Maldita seja a Natureza por estar a trazê-la de volta ao sonho mesmo depois de ter saído dele com o desejo de nunca mais voltar.
Porque voltar significava confrontar-se com o que se sucedeu com o seu mestre, o que ele defendia.
Galland olhou acima das costas, do ombro do escudeiro.
Mirou no céu, antes de mais. Foi a peça que mais lhe saltou aos glóbulos. Pelo quão baixo o sol estava. Baixo. O seu brilho a desvanecer. Ainda presente, embora fraco. Os seus raios invisíveis e fortes, agora visíveis e fracos. Trazidos à visão na forma de luz laranja de um leito de morte de um astro.
O dia acabava.
A noite chegava.
Ela vinha rápido.


E o monstro vinha à noite.

O cavalo abrandara desde que Galland apagara por completo do presente. Ele não esteve a dormir de todo. Não, dormir para ele é impossível. No máximo, consegue apagar a mente por tempos, uma circunstância rara.
Como aconteceu hoje antes de ele...ter tido que matar.
A abstrair-se de pensar na manhã por outra vez que fosse, ele reparou no cavalo exausto. A traçar passos lentos. Cansados, com uma languidez merecida de um animal que andara e andara até não poder mais. Galland gostava que ele mamtivesse a velocidade. Ele não queria perder estas oportunidade porque chegou atrasado. Ainda assim, acha que não tem direito a reclamar muito quando, olhando adiante, vê o destino a que sempre quis chegar.
Vellend: "Perdoe-me se eu o importunei novamente. Tornei a senti-lo...tenso, como há bocado."
Desculpou-se, a falar baixo, subduzido.
Galland ripostou, isento de emoção.
Galland: "Não é nada com que te preocupes, escudeiro. Confia em mim. Vale muito mais preocupares-te com aquilo que encontrarás neste final do dia. Ganharás muito mais ao rever a informação que te disse relativamente à criatura."
Vellend: "Compreendido."
Disse, calando-se em seguida.
Ao que Galland internamente louvou-o. Mesmo assim, não pôde deixar de reconhecer a sua rudeza no modo como o abordou. Por isso, em tom de consolo, não se conseguiu impedir de afirmar:

Galland: "E é precisamente como dizes, Vellend. Chegámos à floresta."

Árvores estendiam-se pelo horizonte à sua frente. Árvores, árvores e mais árvores que demarcavam aquele território como um desconhecido ao homem. Como território sagrado. Território da Natureza.
Com a estrada pavimentada por entre as relvas a desaparecer. A desistir da sua luta contra a Mãe do Ciclo, contra as gramas e relvas verdes que pouco a pouco cobriam e tapavam a terra batida. O castanho a dar lugar ao verde. O homem a perder para a Natureza, como sempre deve ser. Tudo no seu lugar.
Como tal, a pavimentação da estrada parou ali.
Pois passar o limite significaria profanar e adentrar por terreno sagrado.
Galland, Vellend e o cavalo acabavam de passar pelo final da estrada.
Atreviam-se a entrar na personificação da Natureza.
A floresta.
Galland: "Após entrarmos e nos benzermos, vou pedir-te que vás prender o cavalo a um tronco a qualquer outra estrutura resistente."
Requisitou imponentemente, a reparar nas flores de cores diferentes perto da entrada da floresta. Um marco diferente das habituais flores púrpuras no resto do caminho. Flores azúis. Flores amarelas. Flores vermelhas, rosas. Essas em específico sendo belas, efémeras. E pontiagudas onde se menos esperam.
Vellend: "Conseguirei arranjar-me com a rédea. Dentro da floresta, o que não deve faltar serão espaços para manter o nosso equino seguro. Mas..."
Um pensamento visivelmente cruzou-lhe a cabeça.
Galland: "Alguma dúvida, escudeiro?"
Vellend reuniu coragem e ripostou numa moeda do mesmo cunho, de costas para o firme Galland:
Vellend: "Qual é que é o plano?"
Galland: "O plano será o de treinar até que o teu mestre chegue. Teremos algum tempo a matar enquanto a lua não chegar e o desmancha-prazeres do Lant não irromper na floresta. O mais astuto da nossa parte seria usá-lo bem. Usá-lo para não nos arrependermos depois."
Vellend tinha algo a dizer, queria dizer algo. No entanto, optou por ficar em silêncio.
Galland inquiriu-o com a sua autoridade sentida até na sua voz:
Galland: "Combinado, soldado?"
Vellend: "Combinado, sir cavaleiro."
E calou-se.
Galland aproveitou e copiou-o.
O cavaleiro sentiu o dedo de Lobisomem novamente. Asqueroso dedo. Um sentimento potenciado pelo que a memória lhe trouxe. Porém, estava disposto a enfrentar o seu nojo em prol de descobrir...
...os mistérios que o Foragido nele deixou.
A concentrar-se na sua curiosidade e não que já passou e que ameaça assaltá-lo, Galland abriu a mão. Ele manejou no objeto com os dedos da mão em que o mantinha preso. Poucos segundos perdeu até virá-lo ao contrário e se pôr a contemplar as costas do dedo. Os pelos, falanges e a unha. As costas da unha.
Com o misterioso filamento branco preso entre a raíz da garra e a pele de onde se esticava.
Galland revirou o dedo com a ajuda da outra mão. Ele posicionou o material decepado de modo a ficar com a garra afiada apontada na direção do seu colo. Para evitar o pior dos casos, ele meteu a palma da sua mão aberta a uns centímetros abaixo da ponta da unha. Apenas para garantir que, caso houvesse um solavanco no caminho, o dedo do Lobisomem não cairia.
Imitando os movimentos de uma aranha de incontáveis patas a descer, Galland segurou o dedo decepado com quatro dos seus dedos, todos menos o mindinho. Usando esse último como a pinça da operação. Aquele que aproximou da casca da garra, aproximou até à raiz, até que a sua luva contactasse com o filamento.
E mal a extremidade do seu próprio dedo mindinho se encostou no filamento, ele puxou-o para si. Deslizando-o do espaço intersticial em que se mantinha preso, rumo à liberdade.
Galland separou o dedo do Lobisomem do filamento. Fechou o dedo decepado numa mão e, na outra, analisou o filamento. Filamento esse que não passava de um pedaço de papel. Um pedaço de papel enfiado sorrateiramente. Interessante.
O cavaleiro olhou e revirou o pedaço de papel. Branco, exceto num quarto dele. Esse quarto estava sujo por um mórbido resíduo escuro. Se tivesse que adivinhar, diria que aquilo foi o que sobrou do sangue do Lobisomem entre a pele e a unha. Um fluído que secou e foi degradado, perdendo a sua identidade por completo, formando...o que quer que isto seja.
Eventualmente, Galland notou que o papel estava dobrado. Assim sendo, ele conseguiu agarrar numa das pontas e desuniu-a da outra.
Deste modo, um retrato foi revelado.
Um retrato familiar.


O retrato de um poço de pedra sem baldes nas proximidades.

Um retrato a carvão.
Pintado somente com contornos negros e sombras a preencherem os conteúdos misteriosos do buraco.
A relevar as silhuetas e sombras deixadas pelos bordos rochosos da pequena e profunda estrutura.
Familiar, deveras familiar.
Tão familiar que Galland nem precisou de olhar mais para ele.
Simplesmente amarrotou o papel e transferiu-o para a mão em que mantinha preso o dedo, como manteve o resto do dia.
Aquela sera a sua mão das provas. De todo o material inútil. Inútil até que volte a ser útil.

Até que Galland e o Foragido se voltem a encontrar.

Pelos vistos, não teria de esperar muito para isso.

Precisaria somente de aguardar para se encontrarem na floresta à sua frente.

Uma vez que aquele mar de árvores dizia-lhe algo.

Aquelas flores com uma palete que conhecia e documentava pela palma da mão.

As ervas que sente, mesmo à distância.

A chamá-lo.

A sussurram-lhe.

A dizerem-lhe as suas origens.

Como o poço dizia.

Afinal, o poço estava dentro da floresta.

E Galland também tem parte de si lá dentro.

Quer dizer, é de se esperarar: foi lá que cresceu.

Galland desceu do cavalo e pisou em casa.
Toda a sua armadura abanou e tilintou assim que aterrou na terra batida e revestida por relva. A mão a cerrada com os objetos que decidira ocultar a dificultar a execução de uma descida suave. Felizmente, com uma rápida vistoria do equipamento debaixo da pouca luz alaranjada do fim do dia que penetrava por entre a redoma de ramos das árvores, verificou que nenhuma fresta surgiu desta sua aterragem rude.
Galland: "Concedo-te permissão para ires procurar um espaço para arrumares um cavalo. Um espaço preferencialmente perto do campo de treino que escolheres."
Pediu, a finalizar a sua revista.
O escudeiro em cima do cavalo abriu a boca hesitantemente. Havia tanto que ele queria dizer. Tanto que quereria apontar. Tanto que ele não podia por reconhecer, na postura quieta de Galland, no seu silêncio, uma intromissão que o impedia de poder dar atenção completa a tudo o que Vellend dissesse.
Sendo assim, somente disse:
Vellend: "Er, entendido."
Galland olhou em redor. Deixou que o ar familiar lhe entrasse pela fresta do capacete para dentro do seu nariz. Inspirou aquele ar familiar. Sentiu as almas da terra a pulsar. As almas dos cervos, da água dos poços e no solo, das ervas, ervas daninhas inclusive, flores aos seus pés, das milhares de árvores, da madeira, dos seus pais, dos seus avós antes deles, da sua casa.
Tudo. Tudo na sua essência ou que já fez parte confluía ali. Naquele local. Na floresta.

Na Natureza.

Rodeado pelas árvores que recheavam a floresta, que a delimitavam e constringiam um movimento. Rodeado pelos troncos que formavam um labirinto e tornavam o espaço numa poça de madeira claustrofóbica.
Rodeado pelas flores desabrochadas no chão. Rodeado pelas pétalas coloridos, peito da Natureza aberto e exposto. Rodeado pela sua beleza na forma das orquídeas, túlipas e até das belas rosas e dos seus espinhos malévolos.
Rodeado por galhos caídos das árvores.
Rodeado pela terra coberta por relva e por gramíneas.
Rodeado pela atmosfera da Natureza com a sua orgia de cheiros a madeira, com a gordurosa resina, com o odor de excrementos dos pássaros misturados e enterrados bem fundo no solo com o tempo, Galland voltou a respirar.

A respirar e a interiorizar aquele espaço que, afinal, apenas estava a reavivar.

A tornar a colorir.

De laranja vívido daquele fim do dia que o iluminava por pedaços, através dos pedaços dos troncos e dos galhos.

A desaguar nele.

Galland: "Que o Ciclo da Natureza conceda a entrada no território da Mãe."
O cavaleiro ajoelhou-se na terra e nos troncos que estalaram sob pressão do metal da armadura. Ele tocou suavemente com os dedos da mão livre na terra, levantou a cabeça na direção dos ramos ao alto e concluiu a sua reza enquanto abençoado pelas fagulhas de luz laranja:
Galland: "Que nos aceitais no seu piso sagrado, assim como será sempre bem-vindo no nosso solo sujo. Continuai assim na terra e no Ciclo."
Galland ergeu-se a esfarelar a terra castanha dos dedos da luva, enquanto rematou:
Galland: "Agradecido."
Vellend permanecera o momento inteiro sentado na cela do cavalo. A segurar apreensivamente nas rédeas do cavalo. A saber o que tinha de fazer. A reconhecer a ordem que lhe tinha sido atribuída. A notar que a sua vontade era maior.
Vellend: "Sir cavaleiro, onde é que vai?"
Galland começou a afastar-se do cavalo a carregar o escudeiro. Sem um rumo aparente. E, ainda assim, as suas pernas, a forma como se deslocava por entre os troncos com a astúcia de um especialista, diziam tudo. Diziam que estava tudo seguro. Diziam o que Galland confirmara a Vellend, sem nem lhe bater o olho para o ver:
Galland: "Nada de especial. Irei apenas reavivar alguns cenários. Reconhecer o local. Fazer o meu trabalho enquanto tu fazes aquele que te dei."
O cavaleiro permitiu-se levar pela corrente.
Antes que saísse do alcance auditivo do jovem, ele deixou-o apenas com uma última recomendação:
Galland: "Certificai-te somente que não te esqueçais de te benzer assim que contactares com o solo sagrado. Se vamos lutar rodeados pela Natureza, precisaremos da sua bênção para vencer."
Galland emaranhou-se na rede de troncos e folhas caídas e perdeu o animal e o seu companheiro de vista, porque também se esqueceu deles.
Havia algo que ele queria ver.
Algo mais pessoal que lhe dizia muito mais.

E não, não era o poço.
Antes de ir ver o poço, precisava de ir ver outra coisa.
Uma coisa que lhe dizia muito menos na situação em que se encontrava.
Contudo, algo humano.

Algo que já não via há muito.

Galland realizava a sua cruzada por entre os ramos egoístas que retinham para si as últimas luzes do dia. Os seus dedos de uma mão a aprisionar um dedo decepado e um papel amarrotado.
A luz era conservada nas folhas das árvores. Roubado do astro a quem deviam o seu crescimento. A quem roubavam a sua luz das pessoas abaixo deles, a quem roubavam a vida. Os últimos resquícios de vida que pulsavam do sol do dia a desvanecer. A luz que iluminava as pequenas rochas esquecidas do chão.
O cavaleiro conhecia o suficiente sobre o terreno para saber aquilo com que devia ter cuidado. Que era...nada. De dia, nada. Desde que estivesse com as suas botas metálicas, que clicavam e clicavam, tilintavam e tilintavam juntamente com o resto do seu conjunto com cada passo, não teria de se preocupar com nada. Quer com as arestas cortantes das pedras, com os galhos oblíquos ou com as ocasionais aranhas a trepar as árvores, decorando-as com as suas teias cuidadosamente tecidas.
Corvos negros como a noite que se aproximava cacarejavam ao passar de árvore para árvore. Acompanhados pelo som do bater das suas asas, semelhante ao som de duas folhas de papiro a chocarem na brisa gelada do inverno. A diferença é que a brisa destes dias quentes era inexistente e só vinha à noite. Só agora que ela chegava e o dia partia é que o vento se fazia sentir em carícias pequenas. Carícias que irão evoluir para estalos potentes assim que a lua surgir ao alto.
Apesar de tudo, a vida era sentida. Os corvos eram ouvidos. As aranhas detetadas. Centopeias e formigas passadas despercebidas, mas sentidas.
E onde havia vida animal, houve vida humana e haverá vida humana.
O que marcava a sua chegada a casa.

Ou ao que restou dela.

Galland circunavegou por uma árvores e verificou que era pouco ao parar para contemplar o amplo círculo de terreno plano em que as sobras eram visíveis.

O grande quadrado de terra castanha clara onde outrora esteve a sua casa.
Onde estiveram as paredes de madeira.
Onde esteve o chão de madeira repleto de pregos a manter a sua estrutura.
Onde esteve o teto também de madeira.
As portas.
Os troncos cortados de árvores alinhados na forma de paredes.
As tábuas de madeira cuidadosamente cortadas para formar o chão.
Os pregos frios encomendados do ferreiro que, de lá para cá, faliu.
O teto que combinava o melhor da Natureza com o melhor do Homem para sustentar e aguentar a estrutura toda, como uma faca que estanca o sangramente e impede que o indivíduo morra ao esvair-se no próprio sangue.
A casa fora construída pelo seu tetravô. O nome era desconhecido, contudo não era necessário. Pois o homem falava por si só. Um homem sobre o qual sabia pouco. Exceto o facto de ter sido um guerreiro valente. Com um amor pela espada tão grande quanto o seu coração e amor pela sua família. E a casa foi o derradeiro presente dele para a sua mulher e filhos.
Um belo presente que ficou para as próximas geração.
Do seu tetravô passou para o seu trisavô, Sep, o seu antepassado mais antigo cujo nome se sabia.
Do seu trisavô para o seu bisavô, Ingar.
De Ingar para o seu avô, Merrid.
De Merrid para Cersna, o seu pai.
E de Cersna Arageryan para...Galland Arageryan.

O homem que acabou com a tradição.

O que valeu foi que nenhum dos seus pais estava vivo para lhe berrar aos ouvidos para lhe dizer o quanto foi errado ter destruído a herança de família.

Já lhe bastava a sua voz interior que o incomodava todas as noites.

Impressionava-o como, apesar da ausência de qualquer marcação no solo a identificar onde ficavam cada umas das divisões, Galland se conseguia lembrar da localização do seu quarto. De como este encontrava-se num retângulo da ponta da esquerda, a partir do ponto em que encarava o terreno visivelmente com algo em falta, como evidenciado pela ausência de flores, gramas, gramíneas, relva e pela cor mais esbranquiçada na terra.
Recordava-se igualmente da posição do quarto dos seus pais. Do outro lado da casa. Completamente oposto ao seu. Não é como se também lá tivesse entrado. O seu pai tratava-o como um lugar sagrado que, olhando para trás, deveria mesmo ter sido. Quer dizer, foi ali que o conceberam e tiveram: no quarto dos seus pais.
Surpreendentemente, também se recordava da posição da sala de estar. A mesma sala em que jantavam e diziam as suas rezas antes de se deliciarem com a ceia. A deliciosa ceia que a mãe de Galland conseguia sempre cozinhar. Quer seja através das malgas, das sopas com o milho que eles mesmos cultivavam, do borrego e cervo caçados e confencionados em cima da lenha, ou das papas de milho que, só de pensar, lhe reavivavam o ruído do lume a crepitar e o cheiro hipnotizante do creme do milho a consolidar-se.
O toque especial que a mãe tinha para a cozinha, tinha também o seu pai para o cultivo das plantações. Ele ensinara-lhe tudo o que sabia. E Galland considera que fez bom uso das aptidões adquiridas e passadas de geração em geração. Pelo menos, enquanto pôde.
Enquanto não se entregou de alma e corpo ao treino de cavaleiro.
Mas até essa mudança de carreira, fez uns bons dobrões de lucro. A vender a grande parte do que cultivava e a ficar com a pequena porção que serviria de comida para as refeições. Isto, claro, após selecionar as piores colheitas para ficar, segundo um estudo criterioso que o seu pai lhe ensinara e que se tornara rotina.
Rotina.
Uma rotina que deixou para trás há um tempo considerável.

Considerável o suficiente para afirmar que errou na sua escolha.

Que a carreira agrícola seria mais estável.

Que a vida na Ordem era mais trabalhosa e menos recompensadora.

Galland recebia menos e...

...achava-se mais descontente.

Se não se tivesse juntado nada disto teria acontecido.

Não teria tantas dificuldades a adormecer.

Não sentiria uma facada sempre que realizava algum trabalho sujo.

Não teria de ter matado Urh.

Não teria de ter se tornado quem se tornou.

Não teria decepcionado as almas da sua família.

Não teria vendido a casa, peça a peça, pedaço a pedaço, estrutura a estrutura, divisão a divisão por uns trocos adicionais que, em retrospetiva, somente o permitiram aguentar mais uns dias na estalagem de Cobble e comprar mais umas refeições.


Tudo o que via apenas o relembrava da urgência da sua situação.

De como não conseguia continuar a civer assim, nesta pobreza.

De como precisava de tirar a Espada.

Custe o que custar.

Galland deixou que a crença se consolidasse ainda mais do que já estava, pressionando firmemente no dedo de Lobisomem e no papel contidos numa só mão.
A seguir, o cavaleiro meteu-se a andar dali. Lembrou-se que veio ver algo. E que faltava pouco tempo para o fazer.
Ele circundou a casa. Traçando o solo castanho-vivo que circundava o quadrado gigante de terra clara onde o seu lar estivera. Passara pelos rebordos claros onde estiveram as paredes do seu quarto, a parede com um buraco de onde assistiu todo o confronto dos cavaleiros contra o Lobisomem.
Passou também por um círculo pequeno, do tamanho de uma poça num dia de chuva fraca, em que seis espécies de flores proliferavam protegidas pela relva mais alta do que em qualquer outro local. Era mórbido recordar-se desse facto, porém ainda se recorda de uma cabeça meia mastigada de um cavaleiro de lança ter pousado ali. Obra da raiva do Lobisomem. O pai de Galland fez questão de se livrar da esfera sangrenta e decomposta pela saliva e caninos do monstro lúpico. Queimou-a. Mesmo assim, demorou o suficiente para o sangue se ter infiltrado na terra. A ter fecundado e criado um minúsculo oásis de vida. E quem diria que algo tão grotesco conseguiria criar algo tão bonito?
Ele continuou. Afastou-se do claro espaço que outrora pertencera à amálgama de materiais que chamara de casa e recolheu-se volta no abraço da sombra das árvores. As sombras a surgir em resultado do embate com os restos de luz que o dia ainda tinha.
Galland prosseguiu por alguns momentos até que ficou imóvel diante de outra longa extensão de terreno plana. Plana como o lugar onde residira a sua casa.
Acontece é que o local anterior fora selecionado com o preciso objetivo de criar um lar, este fora selecionado com o pretexto de cultivar.

De lucrar.

Dentro daquele outro círculo plano isento das árvores, flores e relvas que delineavam o ambiente circundante, o espaço tornara-se irreconhecível. Sendo que, na verdade, aquele era o espaço em que Galland e o seu pai cultivavam os cereais para a venda.
A terra fora cavada e agredida. Deprimida e envolta em si mesma para criar o ambiente favorável ao cultivo. Claro que nada proliferava ali. Com a venda gradual da casa, também desaparecera a utilidade daquela região. Nada fora cultivado. Não era suposto que nenhum espólio estivesse em exibição. E não estava.
Era estranho ver um espaço outrora abastado de vida agora...vazio.
No meio de tanto, foi essa ausência que rasgou a identidade do local.
Galland atravessou o terreno. Pisando na terra remexida para ser a ideal para cultivo. A terra que parecia afundar mais perante o peso do seu pé armadurado, ainda a preservar as suas características da moleza ao toque. Galland ainda se lembra de como esse atributo ajudava-o a si e ao pai a ficar sem sangrar dos dedos depois de tanto plantarem as sementes, uma a uma.
O cavaleiro traçou o terreno vazio das plantações e quase saiu do espaço para se adentrar novamente no labirinto de árvores. Contudo, parou. Ele paralisou mesmo à frente de uma árvore do lado oposto ao que entrou na zona plana.
Uma árvore com uma enxada de ponta metálica enferrujada apoiada nela.

Galland deu dois passos na direção da enxada e parou de novo. Calcou o solo castanho como em toda a floresta com as botas três vezes, três vezes calcou. Era oco. O buraco permanecia.
Se tudo estivesse no seu lugar, então o corpo ainda estaria ali enterrado.
Ele verificou as frestas na sua armadura. Depois de aproximadamente um minuto no processo, chegou à conclusão de que tinha tudo no sítio. Tudo tapado. Nenhuma brecha.
Galland aproximou-se da ferramenta. Ele tirou a enxada de junto do tronco, segurando-a com uma mão, a mão livre. Mais do que suficiente para realizar a tarefa. O cavaleiro recuou uns passos. Tornou a calcar o chão e verificou que era opaco.
Então, ele ergueu a mão com a enxada ferrugenta e cavou.
Galland tirava a terra de cima com movimentos enérgicos. Familiares. Mecânicos. A funcionar na pura magia da memória muscular. Ela que, apesar de ter sido inutilizada desde que ele trocou a terra pela espada, dormia em segundo plano. À espera do momento do renascimento qur finalmente chegou.
O cavaleiro de armadura limpa retirava a terra e juntava-a à pilha de massa orgânica castanha já extraída do seu lado. Ele cavava e cavava sem se cansar. Tudo com uma só mão. De tanta experiência nem precisava da outra mão para o apoiar, de tanta força que tinha. A sua resistência de horas e horas em mais novo a lavrar a mostrarem os seus frutos.
Galland continuou o trabalho árduo por uma longa extensão de tempo. Durante o qual cavou e cavou sem qualquer sinal de cansaço. Ele prosseguiu com a mesma técnica. A aumentar a pilha. A profundidade do buraco a aumentar.
Até que a enxada bateu em algo duro na investida seguinte.
Galland ergeu e levantou as sobrancelhas, já a adivinhar o que seria.
Ele cavou e cavou mais um pouco e...


...descobriu que estava enganado.

O cavaleiro limpou os farelos de terra que o impossibilitavam de ver o objeto, o corpo ali enterrado, contudo...


...encontrou uma tábua de madeira ao invés disso.

A questionar tudo, Galland fez por livrar a estrutura dura de qualquer grão castanho que o cobrisse e viu que...era mesmo...era mesmo uma tábua.

Uma tábua de madeira com algo gravado.

Galland pousou a ferramenta no chão, de modo a ter a sua única mão que não segurava num papel e num dedo decepado livre. Com essa mesma mão, ele estendeu-a para o fundo do buraco e retirou de lá o pedaço de madeira.
Uma tábua quadrada pequena. Uma tábua cortada a machado. De bordas rudes. Separadas em balançares de machado rudimentares. Se bem que Galland sabia que esses eram a norma.
Antes de visualizar o que estava gravado na frente, o cavaleiro virou o quadrado de finos centímetros de largura ao contrário. Estava vazio. Era um plano simples. Pouco liso, diga-se de passagem. Mas nada de especial.
O outro lado...esse sim era outra história.

Retratava...um retrato?

Uma bacia de pedras.

A formar um círculo que faziam a fronteira para...

Um buraco.

Um poço.

Fadas o levem, este retrato era o mesmo que vira no pedaço de papel enfiado no dedo de Lobisomem.

E nem precisou de abrir a outra mão para se certificar disso.


Galland contemplou o pedaço de madeira, a franzir uma sobrancelha confusa e intrigada debaixo do capacete.

Era óbvio que aquilo tinha sido trabalho de um carpinteiro.

Um carpinteiro pago para cortar uma tábua de madeira e desenhar nela, a faca, um poço.

O poço a que Galland ia buscar água em mais novo.

O poço que pode ser encontrado nos intestinos desta floresta.

O poço cravado na madeira, com cortes profundos a marcar as sombras do fundo do buraco e dos arredores lançados pelos contornos igualmente sentidos da silhueta das bordas de pedra.

Tal como o retrato no papel fez com o carvão.

O Foragido tinha passado por ali.

Previa que, mal Galland chegasse a casa, não se conseguiria impedir de voltar a passar por casa, pelos terrenos que lhe eram familiares.

Ele cavou e meteu ali a sua obra.

Mais do que tudo, uma mensagem.

Uma mensagem igual àquela deixada pelo papel no dedo de Lobisomem.

Uma mensagem de um encontro.

Um encontro para ocorrer nas proximidades de um poço que ele sabe que Galland conhece.

Porque ele também o conhece.

Não da sua vida como Foragido, mas da sua vida como Beltrem.


Ele queria mesmo deixar bem claro as suas intenções.

E, bem, elas foram deixadas.

Galland percebeu que não o poderia evitar.

Iria ter de se encontrar com ele, mais cedo ou mais tarde.

E ele preferia que isso fosse o mais cedo possível, antes que fosse incomodá-lo na patrulha.

Se não tivesse deixado o escudeiro à sua espera, seria isso o que faria a seguir.

Por isso, Galland largou a tábua para dentro do buraco e deixou a enxada e todo o terreno de cultivo para trás.

Traçou o caminho invertido.

De regresso ao local em que se separara de Vellend.

Dali, a memória visual da geografia da região e a perseguição das pegadas deixadas na terra, levá-lo-iam até o escudeiro e o cavalo.

Agora, com uma nota mental do que fazer a seguir à sessão de treino.

De que a insistência do Foragido tornava-o um genuíno problema.

Um problema a tratar antes do anoitecer.

Não só por andar a importuná-lo.

Como também pelo que fez nos terrenos outrora seu.

Do que roubou daquele buraco.

O buraco em que os cavaleiros inicialmente enterraram os restos mortais do Lobisomem que chacinaram.

Onde o deixaram por insistência do pai em enterrar o mal debaixo de terra, de modo a servir como aviso a todos o malefícios.

Um exemplo do que a nossa família faria com eles, caso se atrevessem a tentar atacar-nos.

O cadavér do Lobisomem.

Fora roubado.

O Foragido desenterrara-o.

Retirara-o.

Levara-o para onde quer que ele esteja.

Para fazer o que quer que ele queira.

E, em troca, deixou aquela tábua.

Galland não sabia o que ele queria.

O que quereria com o cadavér do Lobisomem.

Ou porque é que insistia tanto em falar com ele.

Mas uma coisa sabia:

Se ele queria um encontro com Galland, primeiro precisaria de convencê-lo a não brandir a lâmina no seu pescoço.

Foragido: "Galland."

Galland: "!"

Impossível.

Em questão de um milisegundo, Galland virou-se para trás, rodeado das árvores que percorrera há minutos atrás para chegar ao terreno cultivado que agora deixava.
O cavaleiro, com os olhos arregalados, boquiaberto, de expressão facial a relatar incredulidade máxima, escaneou os seus arredores.
Os troncos das árvores.
Os ninhos de pássaros em cima dos ramos.
Os galhos.

Galhos quebrados.

Dezenas de galhos quebrados ao fundo que trilhavam um caminho até si, até...

À sua direita.

Foragido: "Pelos vistos, acertei ao crer que não irias dispensar uma visita ao lugar que fora a tua casa."
Disse...debaixo de um capacete enferrujado, num tom tão neutro que era indecifrável.
O renegado estava com uma armadura enferrujada.

Mas totalmente nova.

Sem uma secção partida no seu ombro.

Sem secções estilhaçadas.

Sem qualquer vestígio de um combate prévio.

Com uma espada aparentemente inteira trazida à bainha.

Era...uma armadura exatamente igual àquela com que lutou com ele em Tintagel, no beco.

A única diferença visível eram...as manchas de ferrugem avermelhadas espalhadas em pontos distintos, marcando aquele conjunto como um novo.

O Foragido trocara de equipamento após o seu anterior ter sido danificado.

Nesse caso, ele tinha acesso a um arsenal de vestes utilizadas e degradadas da Ordem.

Galland apenas conseguiu danificar um deles.


O Foragido prosseguiu, aproveitando que o seu antigo aprendiz ainda estava demasiado surpreendido para o atacar:
Foragido: "Quero ser sucinto. Vim apenas terminar a conversa que não conseguimos ter em Tintagel, no beco, uma vez que-"
Galland subitamente brandiu a sua espada com a mão livre e correu na direção do Foragido.
O renegado conseguiu reagir a tempo de brandir também a sua espada. Espada diferente daquela que Galland partiu no beco da vila. Espada enferrujada e completamente inteira.
O cavaleiro chegou às proximidades do herege. Este viu-se obrigado a atacar antes que Galland o fizesse e balançou a lâmina velha horizontalmente. Ao que Galland se agachou e retomou a corrida, embatendo diretamente no adversário.
Os dois caíram no chão, cavaleiro de armadura reluzente em cima e cavaleiro de armadura enferrujada em baixo. O enferrujado de arma caída e o reluzente de arma brandida. Galland endireitou-se sobre o corpo armadurado e deitado do Foragido. Ele aumentou a pega firme na arma. Com o punho esquerdo cerrado a conter os materiais deixados pelo homem que subduzia, forçou o capacete do homem e todo o seu rosto a virarem-se para o lado com um empurrão pressionado contra o helmo, acompanhado de alguns grunhidos.
Galland encostou a lâmina da espada ao pescoço do renegado, junto a uma fina brecha intersticial entre o capacete e a armadura a cobrir todo o seu torso.
O cavaleiro cuspiu, a conter a sua raiva, numa entoação gelada:
Galland: "Pensava que não terias coragem para voltar após os danos que te causei."
O Foragido respondeu, com grandes dificuldades em fazer sair as palavras sob uma pressão constante no seu pescoço e rosto:
Foragido: "E-Esse n-não é o problema. T-Tenho várias de reserva."
Galland mergulhou ainda mais a lâmina na pele do pecoço do Foragido, que susteve a respiração aguda.
Galland: "Pouco me importa o que tens. Deixai-te de andanças. Diz-me: o que é que queres de mim?"
Foragido: "Era excelente s-se me deixasses falar, em p-primeiro lugar."
Disse, por entre os dentes.
Foragido: "Acredito q-que tenhas muitas perguntas, mas n-nem me permites saciar essa curiosidade que começas logo a partir para a violência, com sede de me decapitares. Não sei s-se reparaste nisso, Galland."
Galland: "É porque não me posso dar ao luxo de começar as interrogações sem primeiro neutralizar a ameaça."
Foragido: "O-Ou podes só confessar que me querias matar até teres visto as pistas que te deixei."
Galland pressionou ainda mais o seu helmo contra a terra, afundando-o.
Galland: "Essas andanças são escusadas, herege."
Ele bateu com o punho cerrado com os objetos em cima do capacete, como se batesse numa porta.
Galland: "Esta minha mão esquerda com que te subjugo a cabeça contém o teu presentinho grotesco."
O cavaleiro derramou os conteúdos em cima do tronco do seu ex-mestre, enunciando-os:
Galland: "Está aqui um dedo de Lobisomem com pelos e pele escura e o teu retrato. O que é que significam?"
Foragido: "P-Precisamente o q-que pensas."
Respondeu, com metade do capacete enterrado no solo e grãos minúsculos de terra a entrarem-lhe pela fresta.
Galland retorquiu perante o seu antigo mestre, numa suspeita que manteve sempre no fundo da sua mente:
Galland: "Nesse caso, marcavas um encontro comigo no poço, certo?"
Perguntou, inquisitorial.
Foragido: "Apesar de tanto tempo longe de ti, continuas a compreender-me, Galland."
Galland: "Não te refiras a mim nesse tom tão sério!"
Tornou para ele num brado que se reduziu a uma advertência mais contida:
Galland: "Não depois do que fizeste."
O homem outrora conhecido como Beltrem pausou.

Inundado por uma enchente de memórias, escolhas que ele mantinha perto e longe de si.

Como todos o deviam fazer, aliás.

Foragido: "Eu estava a seguir-te."
Disse, a tentar manter a sua tonalidade neutra, mas sem conseguir reprimir uma laive de melancolia. Ainda assim, a confissão permitiu-o averter a atenção do seu passado.
Foragido: "Estava junto ao poço, quando me fartei e decidi deambular pela floresta. Sabia que estavas por chegar. Apenas não sabia que ias demorar tanto. Então, fui dar uma volta. Sem esperar que me acabaria por deparar contigo."
Galland: "E por isso viéste abordar-me, é?"
O cavaleiro resfolgou debaixo do capacete.
Galland: "Insistente como sempre."
Falou, a abanar a cabeça enquanto o pedaço amarrotado de papel em cima do peito do renegado, juntamente com o dedo de Lobisomem, abanavam de um lado para o outro com a brisa emergente.
Galland: "Tens noção de que ao incomodares para vir reforçar o teu convite apenas me fará menos compelido a fazê-lo."
Foragido: "T-Tenho de admitir que queria discutir contigo no poço o que não consegui discutir contigo em Tintagel e tudo mais o que já tinha planeado."
Confessou a puxar a sua cabeça quase enterrada do chão.
Galland: "Agora é que não tenho mesmo vontade de ouvir, Beltrem."
Foragido: "Espera, não estás a perceber."
Galland: "Não, acho que estou a perceber sim. Tu abandonaste-nos, nós, tudo o que conhecias, sem dizeres uma palavra. Simplesmente deixando para trás tudo o que conhecias, tudo o que te amava para seguir o que dizes ser 'realmente certo'. E, de seguida, numa época de crise, após inúmeros avistamentos teus a agir em nome das tuas motivações estranhas, vens até mim no dia em que fui destacado para uma patrulha e dizes-me que queres falar."
Foragido: "Porque realmente o desejo, Galland."
Galland: "Oh, que a Natureza me perdoe, mas não é de se estranhar que te tente matar mal te vejo. Para mim, já não és o Beltrem. O Beltrem que conhecia nunca deixaria os seus amigos para trás sem mais nem menos. E tenho a certeza que não era disso que me querias falar."
Foragido: "Galland, eu tenho muito a dizer."
Galland: "E para me teres dado um dedo pérfido com um retratozinho também encontrado na cova que o meu pai lavrou para enterrar o cadavér do Lobisomem que tu mesmo mataste, leva-me a crer que tenhas planeado o encontrar-te comigo há algum tempo."
Foragido: "Aguardava meramente o momento certo."
Galland: "Para quê, renegado? Para quê?"
Questionou, aos gritos.
O Foragido apoiou-se nos seus ombros. Ele ergueu o seu tronco levemente. A lâmina do cavaleiro a deslizar no seu pescoço com languidez. Deixando marcas, vincos no caminho, mas nenhum corte.
O cavaleiro enferrujado falou, lenta e cruamente:Foragido: "Para te explicar tudo."

Galland foi apanhado desprevenido. Sem se aperceber, as suas costas arquearam. O seu olhar esboçado mais vívido. Língua dormente a pesar na boca, imóvel. A impossibilitá-lo de responder...

...pelo menos nos segundos que se seguiram.

Galland: "Sinceramente, Beltrem. Que o Ciclo te puna."
Murmurou de indignação recuperada antes de afundar a lâmina com força no pescoço do Foragido.

Antes de um fio de sangue oriundo de uma laceração superficial começar a fluir.

Antes do papel e do dedo de Lobisomem rebolarem em cima do peito do renegado com a comoção.

Antes de o Foragido gemer de dor, debaixo do helmo enferrujado, da cor do sangue que caía no chão.

Antes dele se passar e proclamar aos brados:

Foragido: "Ah! Mas não foi por isso que eu vim ter contigo! Eu queria te contar outra coisa!"

Galland ignorou e prosseguiu a enterrar a lâmina ainda mais fundo até o renegado proferir...

Foragido: "Para! Para! Eu vim é informar-te sobre o sucessor de Urther!"

Galland afastou a espada do pescoço do Foragido, e os objetos em cima do seu peito pararam se rolar.Os seus músculos paralisaram de seguida.

Marcando o instante em que a sua mente prpcessou por completo o que fora dito.

O corpo a reagir àquela proclamação...corajosa.
Mas proferida sem hesitação, sem gaguejar, com toda a certeza do mundo.

Ao ponto que o fez parar para...acreditar por um breve segundo antes de ter retornado a raciocinar logicamente.

Nessa fase mental, ele disse...

Galland: "Como?"

Interrogou o Foragido com incredulidade a transparecer na voz.
O cavaleiro enferrujado, a sangrar pela fresta no pescoço num vermelho quase tão rubro como as manchas do tempo na armadura, cuspiu a resposta de imediato em gritos desenfreados:
Foragido: "É o sucessor de Urther! Descobriram-no! Há poucos instantes! Numa pequena vila!"
O renegado levou uma das mãos até à brecha, tapando o local onde a incisão ardia e continuava a fazer o sangue fluir, mesmo por entre os dedos da luva metálica enferrujada.
Galland levantou-se, levando a espada consigo.
Os dois ficaram a entreolharem-se.
Por uns longos instantes.
Rodeados pelas árvores plantadas de metro em metro. A encherem o que, em outras circunstâncias, seria um espaço completamente plano. Com a única constância a ser os pássaros que continuavam a cantarolar. A brisa a passar. Os raros sons de ramos a moverem-se com o vento ou com o movimento de pássaros seguido do barulho do bater de asas. A fazerem companhia a Galland e ao Foragido no que seria um silêncio ensurdecedor.
A...
A olharem-se.
O homem de pé.
E o homem deitado.
A discutirem sem palavras.
Através do olhar.
Enquanto o clima do confronto dissipava para dar azo a um clima de debate.
De menor calor.
De maior brisa noturna.
E nenhum dos dois fraquejava no confronto ocular.

Nem o cavaleiro de arma na mão, a observar profundamente o glóbulo ocular da pessoa no chão, a tentar detetar algum vestígio de mentira, um resquício de fabrico, uma pista que o possa levar a descreditá-lo e a voltar acreditar que...

...que ainda tinha uma hipótese.

No fundo, estudava o olhar dele. Estudava. Mas também se estudava a si.

O que seria de si.

E como ansiava que tudo fosse mentira que...pudesse acreditar ainda que existe sucesso.

Que ainda pode vencer.

Mas esses pensamentos ficavam para as trincheiras do seu eu.

Claro que superficialmente, ele fazia por não fraquejar.

Nenhum dos dois fraquejava.

Nem o homem ferido com objetos no peito que começava a conseguir controlar a sua respiração, os seus nervos e o seu comportamento que saiu da linha por breves momentos, mas que logo voltou.Esse mesmo homem, depois da batalha visual debatida entre eles, quebrou o silêncio, intervindo calma, serenamente, sem deixar de ser sério, como nunca deixou de ser:
Foragido: "Eu não estou a mentir, Galland."
Galland não falava.
Foragido: "Soube da mesma forma que soube do teu acordo relativamente à patrulha desta noite."
Galland não disse nada.
Foragido: "E, ao te ter encontrado no meu preâmbulo, achei prudente contar-te de imediato."
Galland ficou em silêncio.
Foragido: "Ao passo que acredito que será uma peça de informação que te dirá algo."
Galland permaneceu calado.
Foragido: "Na verdade, nesta época de crise, creio que dirá algo a todos nós."
Galland...perguntou só uma coisa...
Galland: "Estamos a falar de quem?"
O Foragido levou outra mão ao peito e colecionou o papel e o dedo peludo.
Depois respondeu, a grunhir com a dor que o movimento lhe provocava:
Foragido: "Um gaiato. Rapaz ainda. Chamado Arthur."
Ele pausou para retomar o ritmo das suas palavras.
Foragido: "Merlin revelou-o ao povo num comunicado enviado por dezenas de mensageiros enviados a todos os cantos de Britannia."
Galland cerrou a sua boca como um túmulo.
Foragido: "Eu soube pelo meu informante. Um cavaleiro. Deves conhecê-lo, pois foi ele com quem forjaste o acordo. Estou a falar de Sir Ector da Ordem."
Galland cessou qualquer barulho.
Foragido: "E pelo que sei, ele sabia mais do que dava a entender. Ele relatava-me tudo o que ele sabia que se passava na Ordem entre paredes fechadas, mas nunca me disse o que ele realmente sabia entre as portas da sua cabeça. Isso é algo que terei de averiguar quando esta ocasião chegar ao fim."
E Galland continuou sem falar.
Foragido: "O rapaz irá amanhã, ao alvorecere, até ao descampado tentar tirar a Caliburn da Espada."
Sem dizer uma única coisa.
Foragido: "Como marcado pelo próprio Merlin. Com grande segurança na sua abordagem. Tanta que me leva a crer que ele diz a verdade. Afinal, ele é que é o todo-poderoso. Ele, acima de qualquer um, é que tem a capacidade de determinar o que é e o que não é."
Nada.
Foragido: "E neste curto espaço de crise que parece uma eternidade, tivemos muitos mentirosos a proclamarem ser o sucessor de Urther, a dizerem que, por essa razão, são capazes de levantar a Espada e, quando chegou a altura de o demonstrarem, nunca compareciam ou falhavam à frente de todos."
Ficou-se pelo silêncio.
Foragido: "Mas todos eles proclamavam em palavras suas essa sua suposta linhagem avantajada, todos esbanjavam e gritavam dos telhados mais altos o quão aptos eram para serem os próximos reis. Nunca nenhum deles foi escolhido por Merlin. Nunca nenhum deles foi identificado pelo nosso governador provisório. Nunca nenhum deles foi discreto o suficiente para realmente parecer que tinha uma hipótese."
Pois sabia que o silêncio permitia-o ser contemplativo.
Foragido: "É isso o que penso. É isso o que todos pensam."
Permitia-o pensar no que seria de si.
Foragido: "Por isso, estamos todos seguros desta escolha, deste rapaz."
Em como era improvável que aquilo fosse uma mentir.
Foragido: "Por isso é que acreditamos que ele será a nossa luz que romperá o véu de incerteza em todo o Reino."


Em como, se aquilo fosse verdadeiro, a sua vida nunca poderia mais ser recomposta.

Foragido: "Por isso é que acreditamos que esse tal de Arthur é o herdeiro digno de Urther Pendragon."

Galland: "É o que descobriremos."

Disse, a guardar a espada com fios de sangue a escorrerem na bainha.
Sem a limpar.
Sem se incomodar com os detalhes.
Sem se incomodar com mais nada senão...

...a patrulha.

Galland virou as costas ao homem deitado com o dedo de Lobisomem e o pedaço de papel encaixado no peito da armadura.
Ouvia-o a tentar chamá-lo, de trás:
Foragido: "Ei, aguardai! Onde vais sequer?"
O cavaleiro reluzente continuou em passos pesados, determinados, de olhar posto no caminho que seguia antes de ser interrompido. Dando a entender que nunca foi interrompido, para começar.
Galland: "Eu? Eu vou até onde ia."
O Foragido cessou as suas réplicas e escutou a voz monocórdica do seu ex-aprendiz:
Galland: "Preciso de me preparar para a noite."
Acelerando o passo, ele deixou as árvores envolveram-no. Adentrando-se de alma, corpo e mente na Natureza em si. A deixar o local para trás, aqueles eventos para trás, O Foragido para trás.


Mas sem esquecer o que eles lhe trouxeram:


Galland: "Estou a começar a ver que teremos de subir de patamar, se queremos causar uma impressão, se queremos realmente subir na vida."

De seguida, Galland sussurrou para si:

Galland: "Então, será isso o que faremos."

E continuou por entre a floresta a trilhar os rastros deixados anteriormente por Vellend e o cavalo.

Galland seguiu as pegadas com eficácia, por muito que não fosse realmente necessário. A zona escolhida não ficava muito distante. E, de acordo com as lembranças das suas alturas de exploração sem constrições durante a infância, havia um punhado de sítios ideais ao pretexto que pretendiam preencher.

Por fim, conseguiu percorrer o labirinto de árvores para alcançar outro espaço plano e livre de qualquer ornamento desnecessário da Natureza a bloquear as últimas luzes alaranjadas do dia ou a distrairem-no com as suas cores lindas e nostálgicas.
Apenas terra castanha e relva eram os essenciais para qualquer vida prosperar.
Como comprovado pelo cavalo à sua direita, de rédeas atadas a uma árvore nos limites daquele círculo pequeno, de cabeça baixa a mastigar na erva que crescia perto dos troncos. Pouco nutritivo para um cavalo, mas entretê-lo-ia por um bom bocado.

Enquanto os humanos iam alimar as suas arestas em prol...

...de anular as falhas que o prevenissem de tocar na Espada.

Que os prevenissem de fazer algo capaz de admirar até o supremo Merlin.

Vellend: "O que acha, sir cavaleiro?"
Disse o jovem no centro do círculo, de mão no pomo da espada encaixada na bainha presa à cintura.
Galland virou na sua direção. De lábios unidos numa linha estreita a refletir o seu conflito interior meio mastigado das informações...inesperadas dadas por um homem que não tinha razão para mentir.

Por muito que lhe custasse, isso só podia significar uma coisa...

O escudeiro continuou, apreensivo:
Vellend: "Selecionei o local especificamente pelo grande espaço livre. Considerei-o ideal para um treino. Não sei se concorda."
Galland observou os arredores uma última vez. A acordar-se para o presente. Retomando os seus antigos costumes, a verificar as brechas na armadura. Ele finalmente retorquiu, a pintar um tom simpático na voz e uma boa disposição:
Galland: "Sim. Concordo plenamente. Da mesma forma que estou a favor dessa tua disposição para duelar."
Findada a revisão, o cavaleiro brandiu a sua espada rapidamente.
Ele chegou até ao núcleo do círculo, perto do escudeiro. De arma brandida. Empunhada por uma só mão. A outra mantinha fechada meramente por cortesia. Também não é como se quisesse guardar lá algo.

Não, os objetos ficaram com o mensageiro das notícias que...

...maldição, mentiria ao dizer que não piscam na sua mente de segundo em segundo.

Vellend fitou Galland por alguns instantes. Instantes. Instantes curtos, é certo. No entanto, eram minúcias, detalhes que indicavam a sua perturbação interna. Resquícios da tempestade a nível psicológico que escapava para o mundo físico.
Mal Vellend quebrou contacto visual com o cavaleiro, ele deu alguns passos de distância entre os dois. Coincidindo com o momento em que Galland poderia estar concentrado nos seus pensamentos remetentes para a sua posição num Reino em rápida mudança, mas até ele notou nessas nuances e regressou à cena, perguntando:
Galland: "Tem alguma outra questão, Vellend?"
Vellend: "Bem, acertou quanto à minha disponibilidade para treinar. É só que..."
Galland: "O quê?"
O cavaleiro baixou a postura da bacia e inclinou ligeiramente a espada para a frente, o gume da lâmina a apontar para a cabeça do escudeiro. A fazer por retornar de membros e mente ao presente.
Vellend mastigou no lábio e ripostou, passado um pouco.
Vellend: "É que não sabia que íamos fazer tudo com..."
Galland: "Com as nossas lâminas brandidas?"
Vellend confirmou a impar.
Galland: "Estamos a fazê-lo para diminuir as taxas de erro quando a patrulha chegar. Agora sabemos que o Foragido estará envolvido. Ele fez questão de nos atacar em Tintagel para nos avisar de tal. E acrescentando esse problema à besta que terás à solta assim que a lua subir no alto, precisarás de estar o mais aguçado possível para a altura do combate."
Vellend: "Eu...compreendo, contudo...não sei, considero que estaríamos melhor a recuperar as forças. Como mencionou, tivemos um encontro inesperado com o inimigo mais cedo do que o aguardado. Ganharíamos mais em não nos cansarmos antes do momento da verdade. Digo eu..."
Os pés de Galland relaxaram em reação à opinião de Vellend. O seu corpo, o seu corpo reconhecia a verdade no que ele dizia. Em como a obsessão de Galland poderia estar a prejudicá-los. E ele sabia disso. Lembrava-se disso.
A sua mão direita com que segurava na espada parecia pronto a voltar a guardar a arma.
A sua mão esquerda onde residiam as memórias de carregar um dedo de Lobisomem e um papel amarrotado remetente a uma pessoa e a uma mensagem recente específica é que não...

Não, após saber o que aí vinha, não podia vacilar.

Galland: "Rezo às fadas para que não seja assim que tratas as ordens do Lant. Posso não ser teu mestre direto, mas ainda sou um cavaleiro e tu continuas a ser um escudeiro. Por isso, faz o que te peço e mete-te em esentido."
Ao que o escudeiro teve de responder com um entrave nos lábios, engolindo o seu orgulho e tendo de seguir a hierarquia apesar do tanto que queria dizer.
Vellend: "Entendido, sir cavaleiro."
Disse, emotivo como um autómato.
O jovem retirou a espada da bainha, lentamente. Com uma visível tentação de, a qualquer segundo que passava, voltar lá a enfiar a lâmina. Respondeu numa voz trémula:
Vellend: "Assim sendo, qual será o cerne desta lição?"
Galland: "Defesa."
O jovem repetiu numa voz confusa:
Vellend: "Defesa?"
Galland acenou afirmativamente com insistência.
Galland: "Não pude deixar de reparar na tua intervenção no combate no beco, o que agradeço. No entanto, tão visível quanto essa tua virtude comportamental, ficaram as tuas lacunas no que toca às técnicas de luta. O que também não posso criticar excessivamente. Afinal, ainda és um escudeiro. Mas, ainda assim, a maneira como o Foragido renderizou os teus esforços inúteis com um simples pontapé no teu pé, ficou-ne encalhado na garganta."
O tom da voz do cavaleiro caiu.
Galland: "Se este fosse um dever comum sem nada em risco, estaria despreocupado com estas falhas que serão naturalmente preenchidas com o tempo. Agora, para alguém que irá enfrentar um renegado veterano na arte do combate e um Lobsiomem...fica muito aquém do esperado."
Vellend ficou de olhos bassos a ouvir as críticas. O quão afiadas elas eram, ao ponto de um sabor amargo começar a fluir na sua língua.
Galland: "Estamos em época de...claro, crise sucessória. Ninguém está no seu auge. Mas isso não significa que teremos de nos contentar com o mínimo."
Galland meteu os pés numa posição dianteira e proclamou, a conter a mentira contada de volta para dentro antes de proclamar:
Galland: "Quero que me ataques, Vellend."
O escudeiro deu um passo atrás que passou despercebido para Galland, que prosseguiu:
Galland: "Dá tudo de ti. De lâmina brandida, como numa luta normal. E sem piedade. Pois, quando a altura chegar, quero que também não mostres nem um pingo dela."
Vellend semicerrou os olhos.
Vellend: "Não compreendo. Ao fazermos isso estaríamos a treinar o ataque, certo?"
Galland: "Correto. Até chegar a minha vez de contra-atacar."
Falou, de voz fria como a brisa arrefecida da noite que se aproximava.
Galland: "O objetivo principal desta sessão é a defesa. Porém, não significa que ficarás sem a oportunidade de praticar as investidas. Sem misericórdia. De força total. Como se eu fosse um inimigo."
Galland pôs a mão esquerda ainda com a alma das atividades do seu ex-mestre atrás das costas.

Das suas atividades e...benditas notícias.

Ele calcou o solo, estalou o pescoço e disse o seu último pedido, mais introspetivo do que dava a entender:
Galland: "Estou ciente que este será um confronto injusto. Estás sem armadura e eu estou mais do que protegido. É uma pena, mas é assim que será sob as reais circunstâncias. Apenas não te acanhes. Pois eu não me acanharei. E estou certo que os inimigos também não."
Vellend olhou Galland diretamente no capacete. A tentar fazer os seus olhos discernirem o que se escondia por detrás do capacete. Quem seria o homem ocultado por aquela pesada armadura. E o que é que o levaria a fazer estas...idiotices perigosas.
Ponderou.
Visivelmente maginou que esta era uma anomalia no seu comportamento. Que esta vez, e só esta vez, encontrava-se capaz de arriscar tanto, de arriscar tudo por uma missão.
Inclusive a sua honra e integridade.

Certo?

Mas o jovem deve se ter recordado do dia que passara com ele, dos atos impulsivos que o viu fazer, das frases e filosofias egoístas que o ouviu dizer, do que tinha retido para dizer, e conssentiu com a maluquice imposta.

Vellend colocou o pé direito à frente. Inclinou a sua espada como Galland fazia. Ele permitiu o vento ir de encontro à sua fina camisa, arrefecendo todo a zona frontal e disse baixo, para si mesmo, relutante:

Vellend: "Certo. Aqui vou eu."

Então, o escudeiro encurtou a distância entre ele e o cavaleiro. Em passos lentos. Arrastados. Metódicos. E, quando o alcançou, ele pegou firme na espada com as duas mãos e fê-la cair em cima do seu companheiro.
Ao que Galland bloqueou também a erguer a sua espada ao alto. Num curto espaço de tempo, ele segurou a lâmina num ímpasse que ele mesmo findou assim que desiquilibrou Vellend com um empurrão da sua lâmina na do jovem. O escudeiro perdeu o assento firme no chão e deu por si a dar passos para trás às cegas.
Tudo enquanto o homem de patente superior tornou a balançar a sua espada, a estender o gume na direção do seu rosto.
Alarmado, Vellend desistiu de voltar a encontrar apoio no solo e deliberadamente permitiu que ele o abraçasse, caindo de costas na terra acastanhada. O rapaz deixou que a parte de trás da sua roupa se sujasse. Em comparação com a sua vida, uma roupa era nada.
Sim, uma vida. Vellend viu-o nos olhos de Galland, em como não hesitou, que ele não brincar. A prova estava em si mesmo. Sob a forma de um corte superficial na sua bochecha de que Vellend apenas se apercebeu no momento em que passou os dedos pela região sentida com grande ardor e eles voltarem com sangue.
Assim como Galland voltou no segundo seguinte com outra investida, farto de lhe dar tempo para respirar.
Galland: "Olhos no oponente, agora sabes que tens a vida em risco."
Balbuciou, permeado por uma pitada de indignação do que ouvira longe dali, a levantar a sua espada com a ponta afiada mirada em si.
Erguida e baixada logo a seguir.
Vellend arregalou os olhos e rebolou para o lado, a manter os dedo cerrados em torno do cabo da espada. Ele nem quis saber das medalhas de sujidade que ganhava em todo o corpo. O jovem simplesmente engoliu esse seu orgulho pérfido, mal evitou que a ponta da espada tocasse na sua cabeça e sim se afundasse de espeto na terra.
A aproveitar que Galland tinha falhado o golpe, Vellend recuperou-se da sua esquiva o mais rápido que pôde, apoiou-se em cima dos seus dois joelhos dobrados e ele próprio estendeu a sua espada na direção da cara do cavaleiro agachado, do capacete a albergar a sua cara.
Galland virou o helmo para encarar o escudeiro, deparando-se com um ataque eminente, que defendeu ao puxar a espada da terra e a bloquear o gume com a barriga da sua lâmina, empunhando a espada numa pega reversa.
De trás das duas espadas em choque num ímpasse, Galland proferiu em palavras calmas:
Galland: "Estás relutante, Vellend. Noto força, mas noto que te estás a conter."
Vellend cerrou os dentes, a tentar manter as duas lâminas encravadas uma na outra.
Galland: "Creio ter repetidos as vezes necessárias. Isto é uma simulação do que irás encontrar nesta noite. Encara-o como tal."
Num segundo, Galland negligenciou a lâmina de Vellend, varrendo-a. Ele pôs-se de pé. O miúdo da bochecha cortada conseguiu também tornar a assentar os pés no solo, não a tempo é de se preparar para receber o ataque seguinte do cavaleiro.
Mal se meteu em pé para combater à mesma altura de Galland, este manobrou a espada numa sucessão de cortes horizontais e verticais. Desleixadamente, Vellend segurou a espada e bloqueou os golpes, ainda assim recuando terreno com cada pancada.
Galland: "Defende. Defende como se a tua vida dependesse mesmo disto. Anda. De novo."
Ordenou, a chocar a lâmina da sua espada com a de Vellend.
Os braços de Vellend tremiam como cordas bambas a cada choque. Cada porrada. Cada golpe que o fazia recuar cada vez mais.
Vellend: "Isto...não é...um treino."
Disse, por entre a sua respiração sob esforço, em meado ao som metálico de metal a bater em metal.
Galland: "É um treino, escudeiro. Um treino verosímil."
Vellend: "Não...é a sua desculpa...sei que isto não é sobre treinar."

Disse, em palavras forçadas que ressoavam como demasiado familiares aos ouvidos de Galland.

Os mesmos ouvidos que escutaram...

...a suposta boa-nova.

Na pancada seguinte, Vellend recuou mais uma vez, retrocedendo mais dois passos. Desta vez, para não retroceder mais, uma vez que as costas do escudeiro embateram com o tronco de uma árvore que delimitava o círculo plano do terreno de treino.
Para a inconveniência do jovem, Galland não cessara a sua barragem de ataques.
Não, seguiu com outro corte horizontal focado em abranger a sua garganta.
Com sentido de urgência, Vellend agachou-se.
Sem notar que Galland fora astuto o suficiente para parar o movimento, mesmo quando tinha a ponta da espada encostada ao tronco.

Pode não ter parecido, mas a sua consciência conseguiu agir ao último momento, fazendo-o perceber que, pelo menos ali, estava a ir muito além.

Dali em diante, nunca mais voltou.

Vellend tomou pega firme na espada e mirou nas pernas de Galland, às quais agora tinha fácil acesso, de joelhos dobrados.
Como tal, ele varreu a lâmina num rápido saque.
Não rapidamente o suficiente para ter excedido a velocidade com que Galland, a sair da batalha psicológica com a sua consciência, cravou a espada no chão, amparando o corte do rapaz.
De seguida, o cavaleiro ergueu o pé do chão e fê-lo ir na direção do jovem, sob a forma de um pontapé de bica metálica a vir lateralmente. Ao último segundo, Vellend trouxe a espada para o lado e levou-a a intercetar o chute que, apesar de tudo, o projetou para o lado com o impacto.
O escudeiro rebolou no chão. A sua roupa a sujar-se ainda mais com a cor acastanhada da terra. A misturar-se com o súor, nítido em manchas escurecidas debaixo dos seus sovacos e em vestígios difusos nos seus abdominais. Vellend perdeu o impulso do ataque francamente desumano e apressou-se para se reerguer. Quando o fez, estava Galland em cima de si a plantar-lhe um soco na barriga.
Vellend cuspiu uma bomba de saliva para o solo. Galland aliviou-lhe a tensão e desenterrou o punho do fundo do seu estômago para o permitir largar a espada, envolver os seus braços em torno da barriga e cair de cabeça na terra. O cavaleiro manteve-se em pé, de arma na mão, a observar a forma como se punha em posição fetal.
Como...como a criança que é.
Como o inexperienciado que não deixa de ser.

Como...

Como Galland ficou nas suas primeiras sessões de treino.

Raios de Merlin o acertem...excedeu-se novamente.

Galland: "Levanta-te. Não acabámos."
Disse, a conter a empatia interior para longe da voz.
Vellend grunhia e grunhia de dor, de testa contra a terra.
Galland: "Ergue-te, rapaz."
O jovem de roupa manchada passou a vomitar. A sua boca a expelir secreções de cor esverdeadas para cima do chão e das suas calças.
Galland suspirou e levantou a voz levemente. Confiante, mas relutante em manter a farsa...
Galland: "Eu não me vou desculpar pelo que fiz. O inimigo também não irá. Por isso, descarta essa tua fragilidade e-"
Vellend: "Podes também parar de fingir que não te preocupas!"
Cuspiu num instante em que aparentava que ia inspirar.
Galland deu-se surpreso com a sua intervenção, mas não se deixou ficar:
Galland: "Ora, bendita seja a Natureza que nos rodeia, não me digas que agora perdeste as malhas na língua."
Confrontou-o, com laives de inquietação, a aproximar-se do corpo contorcido de Vellend na relva.
Vellend respirou fundo e retorquiu num tom exausto:
Vellend: "Dizes que vais tratar-me como tratarias um inimigo."
Ele engoliu algum do líquido ardente que lhe ficou na garganta.
Vellend: "Ficas a dizer-me para não hesitar. Mas porquê...porquê se nem tu estás disposto a levar isto a sério? Se tu nem estás disposto a matar-me, quando claramente tens a oportunidade...como agora..."
Galland aumentou a pega na mão atrás das costas, a que continha resquícios espirituais do que foram os presentes do seu antigo mestre.
Vellend: "Porque é que sequer fazes isto?"
Perguntou, a recuperar uma tonalidade banal.
Vellend: "Porquê se estás com tanto medo de te vires a arrepender no futuro?"
Debaixo do capacete, Galland uniu os lábios numa linha horizontal.
Vellend: "Porquê? É-É por causa da sua teimosia que parece incomodá-lo até a si?"
Galland piscou várias vezes os plhos num curto intervalo de tempo.
Vellend: "É porque percebe que magoa as pessoas no meio das suas obsessões com o material?"
O cavaleiro apercebeu-se que a mão com que segurava a espada tremia.Vellend: "Ou é porque percebe que ficará com mais uma razão para não adormecer à noite-"

Galland: "Basta!"


Silvou, a bater o pé com força na terra, esvoaçando gránulos em todos sentidos.

Vellend cessou as suas críticas e tossiu me reação, como se de uma maldição provocada pelo trovejar das botas do cavaleiro em cima do chão.
Galland permitiu a sua fúria acalmar-se antes de voltar a mandar outra ordem sob a forma de grito:
Galland: "Pegai na espada novamente!"
Ainda a combater a tosse, Vellend empurrou a espada para si em movimentos trémulos e leigos.
Galland: "Não tardai, levantai-te!"
O escudeiro tossia secamente. Ele apoiou-se na espada que manteve de extremidade pontiaguda virada para o solo e, pouco a pouco, recuperou do seu ataque de fraqueza. Tudo enquanto Galland observava de ânimos a arrefecerem.
O cavaleiro aguardou que o escudeiro se recompusesse. Que ele se metesse em pé e segurasse na espada, mesmo que em mãos trémulas. Reunidas as condições de estabilidade de Vellend, Galland respirou fundo, a voltar a pôr a máscara, a voltar a empunhar a espada normalmente.
Galland: "Vamos. De novo."
Falou, ríspido.
Ele permaneceu em postura estatuesca, de arma brandida com uma mão, a outra ainda atrás das costas.
Desnorteado, Vellend limpou o súor escorrido e restos de vómito com a manga. O seu peito erguia e baixava rapidamente. Cansado, pouco apto para retornar ao combate. No entanto, não é como se tivesse escolha.

Não é como se fosse fugir até que Galland tivesse o que queria: uma sessão de luta perfeita.

Vellend: "Haaaaaaa!"
O escudeiro foi até Galland de espada ao alto. Arma carregada, cheia de vigor, prestes a cair como um martelo em cima do adversário-
Galland acertou-lhe com as costas da mão encoberta pela luva numa chapada seca. Vellend deixou cair a espada e ficou de novo de joelhos como resultado.
O rapaz estava de bochecha vermelha de um dos lados. Estava visivelmente...em choque. A recuperar da explosão do estalo. Ele movia o seu maxilar várias vezes. O seu ouvido pareceu ter sido incluído no ataque, por muito que Galland não tivesse desejado tal. Vellend levou a mão ao ponto do impacto enquanto prosseguia com os movimentos ascendentes e descendentes do maxilar que...

...fadas o levassem, Galland nem conseguia ver.

Galland: "De novo."
Proferiu a averter o olhar da cena a seus pés.
Não ouviu nada da parte de Vellend.
Também não teria sido capaz de reparar em tal, já que tinha os olhos postos no cavalo de cabeça elegante a observá-los com grande curiosidade.
Vellend: "Eu...não o conheço, Galland. E é...normal, apenas conheci-o hoje, nesta manhã."
Disse, numa voz ofegante que Galland escutava com grande vergonha dos seus atos.
Vellend: "Mas deixe-me dizer que nunca em todo o dia foi tão estúpido comigo-"
Galland: "De novo!"
Comandou, de modo a impedir que o rapaz o confrontasse com o que não queria...mas que reconhecia necessitar...
...especialmente depois do que soubera...
Galland repetiu a ordem, quando tornou para o escudeiro, assim que se sentiu confortável para tal.
Vellend seguiu o pedido. Já nem reclamava. Talvez por reconhecer que mais brados viriam da retaliação. Talvez por nem se considerar com condições de protestar com uma metade da cara danificada.
O jovem limitou-se a manter-se erguido, em pernas trémulas. A segurar numa espada, em mãos trémulas. Nessas condições, ele seguiu a atacar o cavaleiro, numa vontade que não tremia, que não oscilava de todo.
Aproximando-se de Galland em passos de chumbo, Vellend iniciou outra investida.
Ele estendeu a espada, preservadas pelas duas mãos que a empunhava. A alongar o gume. A estendê-lo na direção da fresta horizontal no helmo. A agir como o assassino que Galland queria. A fazer por encaixar a lâmina na única brecha que o cavaleiro não conseguiria fechar independentemente do que fize-
Galland desviou a cabeça da ponta da lâmina dirigida a si.
Ele deu um passo em frente, um passo mais próximo do escudeiro que arregalava os com a velocidade de reação do cavaleiro. Este que, ao invés de dar outro passo, balançou-o para a frente, além das pernas plantadas de Vellend, e balançou-o de volta, a bater com o calcanhar nas costas dos joelhos do jovem.
Vellend foi forçado a curvar-se perante a superioridade de Galland a cair com a cara e membros no chão.
Galland: "De novo."
Ordenou, de costas para o corpo estiraçado na terra. Agora desde os seus sapatos de couro barato até à ponta do seu fio de cabelo mais arrepiado. Coberto de súor que enegrecia a sua roupa, somado a um castanho mais leve tanto nas costas do mesmo, como na sua região frontal que, olhando por cima do ombro, era possível ver o quão marcada estava. A sua pele manchada por pinceladas acastanhadas na bochecha, testa e a beijar o seu lábio inferior. A terra, por muito que não estivesse húmida, desfazia-se na sua pele e vestimentas como lama. Lama a derreter sobre uma fornalha cansada de trabalhar.
O castanho da terra a pintar um retrato pobre, deveras infeliz.
Infeliz.
Engraçado que Galland pense nisso quando era o responsável por o estar a levar ao limite.
A afastar o pensamento intrusivo, o cavaleiro tornou para o rapaz a reerguer-se, notando a sua demora.
Galland: "Vós escutais-me, estou certo disso. De novo!"
Vellend levantou-se com o apoio da espada. Ele encarou o cavaleiro diretamente. Frente a frente. Cara a cara.
A cara maculada de terra e grãos acastanhados contra o capacete a cobrir o rosto oculto.
O cavaleiro contra o escudeiro.

A experiência contra a iniciação.
O guerreiro mais forte estava mais do que determinado.

E, apesar de Vellend saber quem era, ele avançou, compelido por um misto incompreensível de frustração pelo seu superior e de vontade de se superar.
O escudeiro desatou a correr novamente. Ofegante. Aos saltos, já que as suas pernas nem eram mais capazes de suportar o peso do seu corpo numa rápida sucessão de passos. Com a mente e consciência a deslizarem-lhe por entre os dedos, ele optou por alternar a pega. Tal como Galland tinha feito, também Vellend passou a segurar no cabo numa pega invertida.
Assim, alcançado o cavaleiro, Vellend balançou a lâmina da sua direita para a esquerda, pretendendo que ela cruzasse caminho com-
Galland travou o golpe, bloqueando a pôr o seu braço envolto numa camada metálica no meio do trajeto.
A investida era tão fraca que o seu braço nem se abalou com o ataque, nem tremeu ao empurrar a lâmina para o lado e a esmurrar o ombro do escudeiro.
Ao mesmo tempo que Vellend recuou com o abalo do ataque, Galland proclamou:
Galland: "De novo."
O que se seguiu foi uma resposta agressiva quase mecânica do escudeiro.
Ele que veio a balançar a espada loucamente mesmo antes de ficar nas proximidades de Galland. E, mal chegou com o gume da lâmina dentro do alcance do alvo, o cavaleiro começou a mover-se.
Galland: "De novo."
Disse maquinalmente a desviar-se de um corte. E depois de outro e de outro e de outro, golpe atrás de golpe, fracasso atrás de fracasso, vez atrás de vez em que Galland se esquivava sempre a repetir...
Galland: "De novo."
Sempre.
Galland: "De novo."
A.
Galland: "De novo."
Dizer.
Galland: "De novo."
O.
Galland: "De novo."
Mesmo.
Galland: "De novo."
Com.
Galland: "De novo."
Cada.
Galland: "De novo."
Evasão.
Galland: "De novo."
Efetuada.
Galland: "De novo."
Com.
Galland: "De novo."
Sucesso.
Galland: "De novo."
Galland: "De novo."
Galland: "De novo."
Galland: "De novo."
Galland: "De novo."
Galland: "De novo."
Enquanto Vellend atacava e atacava.
Galland: "De novo."
Galland: "De novo."
Galland: "De novo."
Galland: "De novo."
Galland: "De novo."
Galland: "De novo."

A ignorar as dores no ombro.

Galland: "De novo."
Galland: "De novo."
Galland: "De novo."
Galland: "De novo."
Galland: "De novo."
Galland: "De novo."
Em ataques fracos, desleixados, lentos.
Galland: "De novo."
Galland: "De novo."
Galland: "De novo."
Galland: "De novo."
Galland: "De novo."
Galland: "De novo."
Galland: "De novo."
Galland: "De novo."
Galland: "De novo."
Galland: "De novo."
Galland: "De novo."
Galland: "De novo."
E francamente entediantes.

Galland: "De novo!"
Trovejou a pegar no braço ofensivo do rapaz com a sua mão livre e a acertar com o pomo da espada em cheio no nariz.
Vellend: "Gah!"
O escudeiro imediatamente deixou cair a arma e o seu equilíbrio, aterrando de joelhos no chão mais uma vez.
Ele levou as suas duas mãos ao local do impacto com uma urgência infindável, cobrindo o seu nariz a esvair-se em sangue numa cúpula de dedos que não permitiam que Galland conseguisse ver com exatidão o estado em que o golpe deixara o seu rosto.
Mas os laives de sangue a escapar por entre os nós dos dedos do miúdo deixavam-no a adivinhar.
A imaginar.

O nariz partido do moço.

Galland: "De novo."
Cuspiu o cavaleiro, de modo leve.
Sem que o rapaz percebesse, o homem de armadura fechava os seus olhos, debaixo do capacete.

A fazer por desviar a imagem dos seus pensamentos para se concentrar no verdadeiro propósito da sessão...propósito que, apesar de todos os ataques...

...ainda não foi cumprido...

...ainda não é suficiente.

Por isso, ele quis reiterar perante a falta de resposta:
Galland: "De nov-"
Vellend: "Podes ao menos ser sincero nesta inédita vez!"
Galland abriu os olhos e observou o corpo ajoelhado do miúdo que lhe gritava em voz notavelmente alterada pela perda das narinas. Ainda assim, o facto de estar a falar numa voz hiponasal e opaca, não o impediu de dissertar:
Vellend: "Tens estado a demonstrar atitudes egoístas nestes últimos movimentos do sol! Nota-se como tem me estado praticamente a ignorar ultimamente! Desde que mencionei o meu encontro com o Lobisomem! Desde que remeti ao meu passado e ao motivo sobre o qual me juntei à Ordem!"
Vellend recuperou a sua tonalidade de voz comum. A passar de uma entoação abafada a uma entoação isenta de escrúpulos, livre. Revelando o seu nariz partido. Torto no seu tronco adunco. Marcado com canais de sangue desde as nascentes no fundo das narinas até ao lábio rasgado também pintado pela cor carmesim da vida.
O rapaz perfurou além da fresta no helmo com um olhar afiado, proferindo, quase num sussurro comprometedor...Vellend: "Eu...relembrei-te de algo...e acho que não foi só da razão pela qual te juntaste. Foi também da pessoa tão distoante em que te tornaste."

Galland arqueou e libertou os ombros vezes e vezes sem conta a sentir uma comichão impossível de se livrar a afundar as unhas na sua pele.

Vellend: "Do quão longe te desviaste do caminho da Ordem."

O cavaleiro revirou o pé direito de um lado para o outro.
Interminavelmente.

Vellend: "De como o Sir Galland sabe disso, mas não quer fazer, porque..."

Galland erguia e baixava os dedos do cabo, um a um, pouco a pouco...
Até que...

Vellend: "Porque acha que não será recompensador o suficiente, tal como o mundo já lhe mostrou por mais instâncias do que as que consegue manter conta."

Galland vai na direção de Vellend numa tamanha velocidade que ele nem próprio quis atingir.
Ele ergueu o joelho e fez por acertá-lo na cara do jovem.
Teria acertado...
Se Vellend não tivesse usufruído da agilidade de sobra para baixar o seu tronco e cabeça no chão, como numa vénia.
Com isto, a perna armadurada passa por cima do rapaz, sem antes deixar uma golfada de ar que arrebitou o cabelo já despenteado do escudeiro devido ao seu esforço contínuo.
Assim sendo, Vellend pegou na arma caída a arfar. E prosseguiu com a realização de outro ataque. Um direcionado ao alto. Ao capacete do cavaleiro.
Outro ataque, outro ataque falhado.

Já que Galland sacudiu-lhe a espada das mãos com um saque rápido como a própria brisa que arrefecia o súor escorrido na testa do moço.
Galland: "De novo!"